Dia 25 de Outubro de 2015. Redação do Enem. O tema? Poderia ser a crise econômica, o empobrecimento da população através da baixa do crescimento do PIB. Outra possibilidade era discutir a situação dos refugiados e os tópicos políticos envolvidos no assunto. Porém, o MEC decidiu que seria A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira.
Todos os temas que acabei de citar são importantes. Nenhum deles é banal. Em qualquer um o aluno poderia seguir diversos caminhos para elaborar o texto. O meu assombro veio quando percebi que algumas pessoas não querem falar sobre violência contra a mulher. Por quê?
Não vou me limitar. Pode ser que não dominem o assunto (realmente as nossas escolas não nos preparam pra falar disso), porém a medida que manifestam raiva do assunto, fico assustado. Já que, na minha cabeça, só é possível odiar coisas que possuo o mínimo de conhecimento. Eu não odeio ETs de Plutão, nem o Iphone 15, ou o Android 96.5 , são objetos distantes da minha realidade.
Uma das críticas ao tema é um suposto teor de esquerda. É cômico imaginar que só pessoas de esquerda querem tratar deste tema. Minha Mãe não era de esquerda, nem de direita, nem nada. E enquanto ela apanhava do meu padrasto, quando eu tinha 7 anos, eu corri na casa dos vizinhos sem me preocupar com qual partido político eles defendiam. Eu só queria a minha mãe em segurança.
Assisti homens baterem na mulher que mais amo nessa vida e ninguém queria falar sobre o assunto. Era tabu. Eu me deprimi. As cenas eram insuportáveis. A minha escola não falou disso. Estudei a vida toda e nunca entraram nesse assunto. Minha única saída era correr e pedir ajuda.
Eu não sou de esquerda, eu não sou de direita. Eu sou gente. Façam o favor de enxergarem além de suas disputas eleitorais. As mulheres, mães ou não, já enfrentam muita agressão pra terem que esperar vocês abandonarem as brigas partidárias.
Que não seja só tema de uma redação, que seja tema de músicas, filmes, documentários, propagandas, capinha de celular.
Os seus partidos, suas ideologias, seus teóricos políticos, juntem todos eles e não valem uma mulher em segurança e livre do perigo dos socos de alguém.
O filme Frances Ha, de 2012, fala sobre crescimento profissional e, especialmente, sobre crescer ao lado de alguém. As protagonistas Frances e Sophie são melhores amigas e precisam aprender a lidar com o fato de que a vida não para por ninguém. Em certo ponto da narrativa, Frances diz algo que eu já tinha ouvido falar em outras produções audiovisuais, mas que nunca realmente tinha parado para refletir sobre: “Aquela é a sua pessoa nessa vida”. A personagem faz alusão ao fato de duas pessoas gostarem tanto uma da outra que, mesmo em um ambiente público, sabem reconhecer o quanto são importantes nas vidas de ambas.
Fico imaginando quantas pessoas passam por nós todos os dias, que sequer observamos. Ou quantas pessoas olham para nós com carinho e não nos damos conta. Ou quantas pessoas escondem o amor para se preservar, ou para preservar a quem se ama. A verdade é que, ao nunca pensarmos nessas questões, estamos também ignorando o fato de que temos importância na vida de alguém. E esse alguém pode ser um desconhecido completo, a nossa melhor amiga, ou aquele vizinho que só sabemos o nome.
No final do monólogo, Frances diz que a situação é “divertida e triste, mas só porque essa vida irá acabar”. Temos mania de afirmar o quanto precisamos fazer tudo aquilo que gostaríamos de fazer sem pensar nas conseqüências, já que a vida é curta e precisamos aproveitá-la. Devíamos fazer aquela pergunta que achamos idiota no meio da aula, aprender a tocar piano só porque gostamos da sonoridade (não precisamos ser realmente bons), esquecer de acordar cedo num sábado mesmo que tenhamos combinado de ir ao parque com alguém, adotar cachorros, ou dizer que amamos nossos amigos (por que nunca dizemos?). Mas, quando tentamos colocar tudo isso na prática, sempre parece loucura, esquisitice, ou simplesmente inútil. De certo modo, pensamos que tudo o que fazemos ou dizemos não faz diferença nas vidas alheias, quando é exatamente o contrário. Talvez, a pessoa que você menos espera está lá te ouvindo falar com as paredes, enquanto seus amigos estão no celular. Talvez, tudo o que você sempre quis dizer para alguém, esse alguém também esteja querendo dizer.
E é por isso que Frances – e muita gente por aí – deseja que exista aquela única pessoa em sua vida: porque, quando se a tem, a vida pode terminar a hora que for que, ainda assim, haverá felicidade, companheirismo e aceitação. É pertencer a algo exclusivo, algo que não dá pra dividir com mais ninguém. E não precisa ser parte de algo romântico, como no caso das protagonistas, apenas precisa ser parte de uma história.
Nina Spim
É uma escritora sonhadora dotada de blue feelings. Cursa Jornalismo na PUCRS, adora as palavras, mora nos livros, gosta de cinema como um esporte, é seriadora aos fins de semana e escritora compulsiva. Autora dos contos “Heart and Love” e “Coisas, definitivamente, de Amélia” das Antologias Amor nas Entrelinhas e Aquarela, respectivamente, pela Adross Editora.
Andamos tão carentes de relações reais que, do nada, esbarramos em pessoas de forma acidental e descobrimos em minutos de convivência que existe por aí gente semelhante a nós; gente que acredita, almeja, sonha e persegue os mesmos ideais que nos movem. O que nos falta é tirar a cabeça do modo automático e dirigir nossas vidas utilizando nossas próprias mãos. O resultado pode ser surpreendente!
A ansiedade é o combustível universal da atualidade. Vivemos ansiosos, por resultados, por conquistas, por reconhecimento. E, que coisa mais maluca: vivemos ansiosos para nos livrar da ansiedade. Haverá solução para nós? Ouso acreditar que sim. Ora, a ansiedade é fruto da nossa confusão mental. Diferente do medo, que tem causas reais e palpáveis, a ansiedade nasce de uma excitação mental. Ela é alimentada por pensamentos acelerados que buscam encontrar, de forma imediata, conforto para sensações de perigo.
Quando ainda vivíamos nas cavernas, a ansiedade tinha um aspecto mais visceral, e era um elemento indispensável para que conseguíssemos prever o perigo. Depois de alguns (nem tantos, né?), anos de evolução, está claro que não temos mais que sair por aí escalando árvores ou caçando o que comer. Tampouco, precisamos escapar de quem esteja nos caçando como prato principal do almoço ou jantar. No entanto, fizemos trocas. A nossa “sobrevivência”, hoje, está ligada ao medo de perder status, conforto, relacionamentos amorosos, amizades, e tantas outras milhares de coisas que sustentam a nossa vida e a nossa vaidade. Trocamos alguns poucos itens de sobrevivência por infinitos objetos de desejo, cuja lista não para de crescer.
Do ponto de vista dos relacionamentos, sejam eles amorosos ou não, vivemos perdidos por não ter a real ideia do que de fato estamos procurando. Muitas vezes, procuramos por afeto ou companhia, seguindo uma espécie de “manual de instrução do viajante perdido do século XXI”. Nosso comportamento de busca é tão desorganizado que, qualquer novo critério nos atinge. Vivemos com a cabeça tão entupida de verdades, que nos esquecemos de lembrar que somos mentirosos por natureza. Mentimos sobre tudo! Principalmente, mentimos sobre o que sentimos. Mentiras sinceras nos interessam, essa é que é a verdade.
Nessa altura, estimado leitor, pode ser que você esteja balançando sua linda cabecinha (cheia de verdades), para lá e para cá. Instalou-se em seu rosto uma expressão indignada e você está pensando “Eu não me enquadro nisso! De jeito nenhum! Detesto mentira!”. Ahhhhh… tá! Só de ser atacado por essa suposta onda de revolta, você já é um mentiroso. Por favor, não se ofenda. Ou, se ofenda… Caso isso seja necessário para tirar você dessa postura empedernida da defesa hipócrita! Aleluia! Veja bem, não estou aqui fazendo nenhuma apologia da mentira. Apenas estou fazendo a minha confissão sobre algo que é incontestável: para podermos sobreviver, mentimos muito.
Muitas vezes, faltamos com a verdade com a nossa própria consciência, de forma pouco consciente. Por exemplo: você está em vias de conseguir uma colocação naquela empresa altamente qualificada e avaliada como “a empresa dos sonhos”. Neste momento, você convenientemente, ignora algumas de suas características pessoais e veste uma capa de funcionário ideal para o emprego dos sonhos. Numa situação dessas, você só vê o lado bom das coisas. Pronto! Você está mentindo. A dura verdade é que não há nada (nada mesmo!) nesse mundo que só tenha lado bom ou seja completamente virtuoso!
E, tudo bem você mentir. Até porque as verdades são coisinhas extremamente volúveis. O que hoje é verdade, amanhã não é mais. É meu amigo… Está ficando cada vez mais complicada a nossa sobrevivência longe das queridas caverninhas.
E, é nessa conjectura de afogamento dos sonhos para encontrar a paz, que saímos da nossa casquinha de perfeição e resolvemos olhar para nossa necessidade de afeto com olhos mais benevolentes. É abrindo mão do nó das idealizações que acabamos encontrando nossos pares, sejam eles para escrever conosco uma história de parceria ou nos completar com promessas de amizade ou amor. É sem armaduras douradas e perfeitas que vamos ao encontro do estranho, que de perto, nem é tão estranho assim. É sem a expectativa do maldito “manual de instrução” que nos damos ao luxo de encontrar a deliciosa sensação de intimidade que, acredite, é o que mais nos falta neste mundo maluco, para nos sentirmos mais humanos.
Imagem de capa meramente ilustrativa- cena do filme argentino Medianeiras
A sociedade encontra formas estranhas de revelar seus esqueletos no armário. Essa semana, foi através de um programa de culinária voltada para crianças e pré-adolescentes, onde uma participante de 12 anos mereceu comentários do nível “se tiver consentimento é pedofilia?” ou “a culpa da pedofilia é dessa molecada gostosa”.
Isso motivou uma reação enorme, levando várias pessoas – não só mulheres – a postar seus relatos com a hashtag #meuprimeiroassédio. Uma amiga fez um post contando um assédio que havia sofrido ainda muito pequena e ficou surpresa com as mensagens que recebeu inbox, de outras mulheres que se sentiram incentivadas a contar a ela o que haviam passado. Algumas diziam que era a primeira vez que falavam sobre o assunto com alguém. Só não se sentiam a seguir o exemplo dela e tornar público. E dá pra entender a razão.
Muitas pessoas ficaram surpresas com a quantidade de relatos que surgiram de pessoas próximas, o que mostra que não são fatos isolados, mas parte de uma cultura que atinge todas as camadas, grupos ou qualquer divisão que se queira fazer.
Essa mesma cultura que permite (e é essa a palavra) que crianças sejam abordadas sexualmente, é a cultura que evita que o assunto seja discutido. Mas não discutir, é exatamente o que dá a permissão para que esses casos aconteçam. É preciso falar, para que se dimensione essa questão, que não é pequena. Mas ainda mais importante, é preciso que se ouça.
E nós não ouvimos. Ou não acreditamos. Ou culpamos a vítima.
A apresentadora Xuxa Meneghel revelou que foi vítima de abusos quando criança. Nos dias depois da entrevista em que deu essa declaração, muitas mulheres também aproveitaram para contar seus casos pessoais. Mas muitas pessoas – homens e mulheres – preferiram fazer piada com o caso. Choveram comentários como esse abaixo:
“Xuxa fazer fime porno com menor pode ne,sera que nao foi voce que atacou quem voce esta acusando,seu passado te condena fecha o bico que e melhor.“
Como dá pra ver, a pobreza revelada aí não está só no uso do português, em um comentário que dá pra ser analisado em várias camadas. E todas, são reflexo da forma como identidades são criadas.
Eu sou homem. Só posso olhar para a questão do assédio fato a partir dessa perspectiva. Quando ouço falar em cultura do estupro, eu reconheço nisso a descrição da cultura em que eu fui criado. Em maior ou menor grau, todos os homens recebem essa educação pela sociedade, em casa, na rua, através dos programas de humor, da publicidade (de cerveja ou não) e de qualquer lugar onde a figura da mulher é explorada. Isso leva os homens a replicar um comportamento que é visto como normal, onde a cantada de rua, por exemplo, é vista apenas como uma brincadeira inofensiva e que as mulheres deveriam se sentir felizes em receber um assobio ou “elogio”. E muitas vezes, o ato de virar o pescoço na rua, é tanto para ver a bunda, como para ter o próprio ato registrado pelos amigos, como prova de masculinidade.
Tenho uma amiga que sempre faz questão de abordar o homem que lhe dirige uma cantada, nem sempre de um jeito “light”. Mas ela diz que mesmo quando humilha o sujeito, ela está sendo didática. Quer que ele aprenda que o que ele está fazendo não é uma coisa normal e que é uma forma de abuso sexual.
Esse exemplo aí de cima pode não ser o melhor, mas é importante falar sobre isso. Muito. Comportamentos que são vistos como normais, precisam ser discutidos. Casos em que a vítima é culpabilizada, têm que ser revistos. E talvez o mais importante: nós, homens, precisamos ser reeducados.
Tem gente que diz que o mundo está ficando chato, que as pessoas não sabem mais brincar e que estão criminalizando até a “cantada de rua”, essa instituição nacional. O que elas não percebem, é que para algumas pessoas o mundo sempre foi chato. E mais que isso, perigoso.
Quando a mãe de Arjuna Sundara Kirtana Claro da Silva, 33 anos, engravidou dele, ela pediu a Deus que o tivesse num lugar especial, onde as pessoas buscassem um sentido a mais para a vida, distante da realidade mesquinha do mundo materialista, na descrição do próprio Arjuna. E não é que ela encontrou? O filho nasceu e foi criado em uma comunidade Hare Krishna que fica em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.
Foi lá, na Fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba (SP), que essa mãe encontrou sentido para ter seu jovem guerreiro – é que, no texto Bhagavad-gita, um dos mais populares do hinduísmo, Arjuna é um guerreiro que se vê no campo de batalha tendo que enfrentar a própria família.
A fazenda é um lugar lindo, fica na Serra da Mantiqueira, numa área de proteção ambiental repleta de rios e cachoeiras com águas cristalinas. E lá vive a maior comunidade Hare Krishna da América Latina, composta por aproximadamente 100 pessoas. Todas trabalham para o desenvolvimento local e seguem uma proposta de vida simples.
Eu conheci Arjuna – ou Sundara, como ele se apresentou – em visita à comunidade durante um passeio com um grupo de amigos praticantes de yoga.
Sundara (que eu pesquisei e descobri que significa ‘belo’ e sânscrito) foi o guia do grupo durante um passeio de observação de pássaros na fazenda. Era maravilhado que ele fazia todos tentarem prestar atenção nos assovios para descobrir onde o passarinho estava escondido. Com uma câmera fotográfica na mão, capturava as mais diferentes aves encontradas e depois mostrava a foto aos que não tinham conseguido enxergá-las – ou seja, a maioria dos ali presentes.
Quando a observação terminou, eu pedi para ele contar um pouco como é ter crescido num lugar como aquele. Foi quando Sundara me explicou o motivo que levou a mãe dele, então solteira, a escolher aquele local para o nascimento, o que ocorreu após o pedido que ela fez a Deus, descrito no início do texto. “Ela teve contato com o movimento Hare Krishna, que leu no livro de Swami Prabhupada, que é nosso fundador, e ela se encantou com o que ela leu e veio para cá.”
Fazenda fica em área de preservação ambiental
‘Sou um filho desta terra’
Sundara nasceu, cresceu e viveu até os 16 anos na comunidade. “A minha infância inteira eu passei aqui. Eu conclui o ensino fundamental aqui. A gente tinha uma escola bem bacana, com bastante crianças. Digamos que eu sou um filho desta terra.”
Quando terminou a 8ª série, o jovem guerreiro foi em busca de encontrar novos desafios fora da fazenda. Concluiu os estudos na cidade, apaixonou-se, casou-se e teve três filhos. Além da técnica de observação de pássaros, é amante de escalada em montanhas. Aprendeu as técnicas e montou uma pequena empresa que presta serviços de pinturas e lavagens de fachadas com os aparelhos e conhecimentos usados na escalada.
Viveu tudo o que tinha que viver e agora, no começo deste ano, voltou a morar na comunidade para criar os filhos. “Como isso para mim é tão importante, eu queria que meus filhos também tivessem essa experiência. Será numa dimensão menor de tempo, porque hoje não tem escola e a gente não vai poder matriculá-los aqui. Mas esse tempinho, um ano, dois, vai deixar uma base do que foi para mim, vai conectar eles com o lado espiritual, com essas duas questões da vida, que é a material e a espiritual. Então, essa introduçãozinha eles vão levar para o resto da vida.”
E assim Krishna, de 7 anos, Anakin, 5, e a Serena, de 3, estão vivendo em meio às cachoeiras, árvores e pássaros da comunidade. “As crianças ficam encantadas. Meu filho Krishna falou, ‘pô, pai, eu não quero sair daqui nunca mais’. Então não há nada mais bacana para os pais do que seus filhos felizes, de bem, protegidos. É um lugar bacana para eles.”
Sundara na Nova Gokula: ‘Digamos que eu sou um filho desta terra’
Sentido da vida
Bastante espiritualizado, Sundara explicou que, para ele, ter nascido na comunidade o proporcionou esclarecimentos sobre o sentido da vida. “Qual é o diferencial de eu ter nascido nessa egrégora de paz, de harmonia, de espiritualidade, de ter essa comunhão com Deus? Por eu ter vivido e nascido aqui, ter experienciado isso aqui, isso me esclareceu questões de que a gente não é simplesmente uma matéria, esse corpo perecível que tem um prazo de validade, que chegando no prazo ele vai virar pó, virar terra, e se encerrou. Eu acho que a criação de Deus é infinita, é muito maior do que a gente pensa. (….) Essas respostas me vieram, me foram esclarecidas, que somos centelhas de vida, infinitas, energia espiritual, e que a gente está aqui por um processo para evolução mesmo e para retornar para nossa morada eterna.”
E enquanto isso não ocorre, Sundara? Para ele, a resposta é simples: “A ideia é a gente se tornar melhor para poder passar adiante essa ideia e também melhorar a vida daqueles que estão ao nosso redor, dos nossos irmãos. A humanidade é uma irmandade só, então é interessante que todos nós ascensionemos, que todos nos alcancemos plenitude, paz, felicidade, saúde plena, harmonia. Então é isso que eu vim buscar e eu encontrei.”
Para ele, o sentido de nossa existência está em “viver em plenitude, ter uma vida plena, equilibrada e feliz: É se realizar aqui, porque eu penso assim, a terra é um exemplo do que a gente pode ter no mundo espiritual, é um reflexo de lá. Então, quanto melhor passarmos aqui, quanto melhor sermos aqui, mais próximos do nosso objetivo a gente estará, que é viver em plenitude, encerrar esse ciclo de nascimento e morte (…). Existe muito mais do que isso aqui.”
E foi assim que, depois de conversar com Sundara, eu nunca mais fui a mesma ao ouvir, com atenção, o canto de um pássaro.
”O jeito é curtir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajetória, alegrar-se e sofrer, acreditar e descrer, que lá adiante tudo se justificará, tudo dará certo. ” (Martha Medeiros)
Como sempre digo, ao longo da caminhada, vamos vivendo e nos relacionando. Primeiro com a família, depois com os amigos da escola e assim vamos abrindo um leque de relações sociais, muitas vezes afetivas. Quando falo em afeto, não me refiro apenas aos apaixonados, a amizade talvez seja o maior de todos eles.
Escolhemos, a cada dia, com quem vamos conviver e é exatamente o afeto o principal estímulo para isso. Nós nos identificamos com o outro e por isso nos aproximamos, todavia, continuar as relações é sempre uma escolha – escolha nossa, escolha do outro e daí vem o famoso chavão: afeto tem que ser regado, cultivado. Escolhemos cuidar – e isso leva tempo e requer gasto de energia, requer um pouco de nós.
Sem dedicação estamos escolhendo, sem perceber, compactuar com a morte da tal relação. Para entender como o afeto está ligado a essa entrega é só observar o amor materno. Quanto tempo nós dedicamos aos nossos filhos? Será que um dia deixamos de nos dedicar? Mães são muitas vezes, as únicas a encarar a constrangedora fila dos presídios para levar comida, cigarro e afeto aos filhos abandonados por todo o resto de relações que um dia existiram. Não vou ser unânime em dizer que todas as mães são assim, infelizmente sabemos que não é verdade, mas a capacidade de amar que um filho pode provocar numa mulher é indescritível. E fazendo um paralelo eu lhes pergunto:
Por que escolhemos abandonar nossas relações? Por que somos abandonados por elas? Que escolhas nós fazemos a cada dia? Quais as consequências delas?
Como muito bem disse Freud, escolhemos e nos comportamos sempre em busca de prazer e também para evitar a dor. A decisão de escolher abandonar uma relação nem sempre é o melhor, mas sim o menos pior. Talvez estejamos abandonando porque já fomos abandonados. Talvez a escolha já tenha sido feita pelo outro. Sem dedicação, sem alimento, aquela plantinha chamada afeto, morre de inanição. Ao ir ao presídio todos os domingos, por mais sacrificante que isso seja, as mães estão alimentando o afeto por seus filhos, afeto maior do que qualquer erro que eles tenham cometido. Afeto capaz de perdoar erros imperdoáveis. Amor é assim, feito de perdão e de imortalidade. Amor não morre. Mesmo depois de morto, ele volta a nascer em outros vasos, para outros donos, quando se tem a capacidade de amar.
Ao escolher não cultivar uma amizade, um afeto, por qualquer razão que seja você escolhe morrer junto, aos poucos, pois a solidão é a única morte que existe. Ao encontrar desculpas para não se dedicar, estamos enganando a nós mesmos, a vida é feita de escolhas e todos os dias escolhemos e priorizamos o que nos é importante.
“Um dia eu estava sentado em um hotel no meio dos Estados Unidos e era um daqueles tipos de lugar realmente plásticos, tipo Holiday Inn, e eu cheguei, fui pro meu quarto e sentei, coloquei minha mesa de rituais e você sabe, aquela coisa toda. Eu estava tirando o cardápio e as coisas do lugar e era meio deprimente, e pensei, “bem, mais algumas semanas e estarei com a viagem encerrada e posso ir pra casa”. E então vi a dor que aquele pensamento estava criando em mim.
Então me levantei e saí do quarto, fechei a porta, dei uma volta no hall, retornei, abri a porta e gritei, “Estou em casa!”. Então entrei e me sentei, olhei e, bom, eu não decoraria aquilo particularmente daquela maneira, mas que diabos? Pensei: se não estou em casa no universo, ah garoto, então tenho um problema. Se eu disser “só posso estar em casa aqui, não lá”.
O que é casa? Casa é onde o coração está. Casa é a qualidade da presença. É a qualidade de ser onde quer que você esteja.”
Na manhã da quinta-feira (27/8), o jornalista Ricardo Boechat escreveu, em sua página do Facebook, sobre ter sofrido um surto depressivo recentemente. O relato é corajoso e sensível e mostra que ainda há muito o que ser discutido sobre a depressão.
A doença muitas vezes é vista como uma frescura e é tratada como se fosse tabu. Ainda assim, Boechat não está sozinho. Um estudo realizado pela Federação Mundial de Saúde Mental mostra que uma em cada 20 pessoas tem depressão. A instituição estima que a doença afeta cerca de 350 milhões de pessoas ao redor do mundo.
“Os quadros de depressão podem ser leves e às vezes são confundidos com questões de personalidade, como se fosse um tipo de frescura”, diz André Brunoni, coordenador do Serviço de Neuromodulação do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP) a GALILEU. “Esse tipo de comportamento faz com que o próprio paciente não se sinta estimulado a procurar tratamento no começo ou perceba os sinais de depressão que está apresentando. Ele só vai se tratar quando o quadro fica grave.”
Causas e Efeitos
A depressão é causada por dois fatores: a genética e o ambiente. Isso significa que aqueles que têm um histórico familiar de depressão correm um risco maior de serem afetados pela doença. E algumas características do ambiente de convivência do indivíduo, como estresse e pouca valorização, podem ser decisivas para a saúde dele. Fora isso, há uma série de eventos que ocorrem ao longo da vida que podem levar alguém a ter depressão. O luto e o período pós-parto, por exemplo, são alguns deles.
Quem tem a doença sofre alterações no córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pela tomada de decisões e julgamentos do que é certo e errado. Muda também a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade dos neurônios de se comunicarem entre si. A sensação que um indivíduo tem durante um surto depressivo, segundo o psiquiatra, é de dificuldade em processar informações e agir, como se o cérebro não estivesse funcionando muito bem.
Ao longo do surto o corpo também sofre outros tipos de alterações, como o aumento na produção de cortisol. O excesso do hormônio aumenta a adrenalina no sangue e faz com que a variabilidade da frequência cardíaca do paciente diminua.
O tratamento para a doença varia de acordo com a gravidade. De acordo com André Brunoni, quadros leves e moderados podem ser tratados a partir de mudanças no estilo de vida, como exercícios e alimentação. Em casos mais sérios, é necessário contar com a ajuda de antidepressivos.
Como nem todos os pacientes podem adotar a medicação, seja por conta de outros remédios ou condições pessoais, novas técnicas de tratamento estão sendo desenvolvidas. Uma delas é a estimulação magnética transcraniana, na qual um pulso eletromagnético é gerado no córtex pré-frontal de forma a estimular a neuroplasticidade. “Essa técnica não tem efeitos colaterais, o que é muito importante pois é comum que pacientes melhorem por conta dos remédios, mas sofram com ganho de peso, perda de libido, problemas gastrointestinais. Se elas param de tomar a medicação, a depressão volta e cria-se um ciclo vicioso”, afirma Brunoni.
No momento, o psiquiatra e outros profissionais da área estão pesquisando a possibilidade de o tratamento ser mais eficaz que o uso de medicamentos. Por isso, farão o estudo a partir de 240 voluntários – ainda há 40 vagas, os interessados podem entrar em contato com os pesquisadores através do e-mail [email protected].
Dados do Instituto de Psiquiatria da USP mostram que 15% das pessoas terão algum tipo de depressão ao longo da vida. Com tanta gente propensa a ser afetada por essa doença, relatos como o de Boechat e outros profissionais que atingem um maior número de pessoas, como Dan Harris, apresentador do programa americano Good Morning America, e da jornalista e roteirista Mariliz Pereira Jorge, são importantes e necessários.
Como quase todo sentimento, o medo não é algo simples de se compreender.
Talvez seja por isso que vemos tanto conteúdo sobre o assunto, mas que geralmente direciona os pensamentos para um ponto: supere seus medos.
Porém, essa belíssima animação chamada “Fears” em apenas 2 minutos nos joga para um outro ponto de vista sobre os medos. E se o seu medo salvar sua vida?
Como tudo da vida, o medo mostra-se necessário quando equilibrado. Vejam!!!
Normalmente, a maturidade é associada à idade e aos anos de experiência de vida cronológica. No entanto, quando se trata de maturidade emocional, a idade pode ter pouco a ver com isso. Muitas vezes a maturidade física chega antes da maturidade emocional.
Amadurecer significa entender que não existe amor maior do que o amor próprio, aprender e aceitar o que a vida nos apresenta e seguir adiante.
A maturidade emocional não surge do nada; exige trabalho, esforço, boa vontade e o desejo de olhar para dentro e se conhecer melhor, com a cabeça e o coração em perfeita sintonia. Amadurecer significa encarar a realidade como ela é, muitas vezes bem mais dolorosa do que gostaríamos.
Aqui estão sete características das pessoas emocionalmente maduras.
1- Sabem dizer adeus
A maioria de nós sente muito medo, principalmente quando se trata de soltar as amarras e deixar a vida fluir.
Pensar que o passado foi melhor é muito doloroso; nos impede de soltar e deixar ir.
As pessoas emocionalmente maduras sabem que a vida fica muito melhor quando é vivida em liberdade. Então, deixam ir o que não lhes pertence, porque entendem que ficar preso ao passado nos impede de fechar ciclos e curar nossas feridas emocionais.
2- Conseguem olhar para o seu passado emocional sem dor
Limpar a dor do nosso passado é absolutamente necessário para avançarmos em nosso caminho emocional. As ervas daninhas crescem rapidamente; se não limparmos nosso caminho, não veremos o que está próximo.
As pessoas emocionalmente maduras sabem da importância de viver no presente, superando e aceitando o que passou. O que aconteceu, já aconteceu; não podemos mudar. Aprenda com os erros e siga em frente.
Se perdermos o contato com o nosso interior, não nos afastamos dele, mas permitimos que o negativo do nosso passado interfira na nossa vida presente. Isso é muito doloroso.
“É por esse motivo que, quando tivermos aprendido o suficiente sobre a nossa dor, perderemos o medo de olhar para dentro e curaremos nosso passado emocional para avançar mais um passo na vida”.
3- Têm consciência do que pensam e sabem
A maturidade emocional nos ajuda a entender melhor nossos próprios sentimentos e os dos demais. As pessoas emocionalmente maduras se esforçam para escrever e pensar sobre as suas opiniões ou sobre como se sentem.
“Amadurecer é ter cuidado com o que diz, respeitar o que ouve e meditar sobre o que pensa”.
A clareza mental das pessoas maduras contrasta com a preguiça e o caos mental das pessoas imaturas. Portanto, a maturidade emocional ajuda a resolver problemas cotidianos de forma eficaz.
4- Quase não reclamam
Parar de reclamar é a melhor maneira de promover mudanças.
As queixas podem nos aprisionar em labirintos sem saída. As pessoas emocionalmente maduras já aprenderam que somos o que pensamos. Se você agir mais e reclamar menos, significa que está crescendo emocionalmente.
Quer viver infeliz? Reclame de tudo e de todos.
5- Conseguem ser empáticas, sem se deixar influenciar pelas emoções alheias
As pessoas emocionalmente maduras têm respeito por si mesmas e pelos outros. Têm habilidade para se relacionar da melhor forma possível com os demais; sabem ouvir, falar e trocar informações. Aprenderam a olhar de forma generosa para o outro; todos nós temos valores diferentes, mas queremos ser aceitos e felizes.
6- Não se castigam pelos seus erros
Aprendemos com os nossos erros; falhar nos permite enxergar os caminhos que não devemos seguir.
As pessoas maduras não se punem por possuírem limitações, simplesmente as aceitam e tentam melhorar. Sabem que nem sempre tudo acontece como queremos, mas cada erro é uma boa oportunidade para o crescimento pessoal.
7- Aprenderam a se abrir emocionalmente
As couraças emocionais pertencem ao passado. É muito importante ter comprometimento, amor, autoconfiança e acreditar nas pessoas. Não seja perfeccionista e nem espere a perfeição dos outros. Esqueça as desavenças e perdoe, inclusive a você mesmo.
“Desfrute do tempo compartilhado da mesma forma que desfruta do tempo sozinho”.
Maturidade emocional é assumir o controle da sua vida, ter sua própria visão de mundo e ambição para a sucesso. Ao desenvolver a maturidade emocional a vida torna-se um prazer, e não uma obrigação.
Há várias décadas, tem crescido o interesse pela relação entre as emoções, os pensamentos e o corpo físico. A comunidade científica já aceitou a inegável influência que esses fatores “invisíveis” têm sobre nosso corpo.
Como por exemplo, ao sofrer uma grande dor emocional, como a perda de um ente querido, alguém pode sofrer um ataque cardíaco ou um derrame, o que pode até levar à morte.
Mas, quando as emoções não são tão intensas, é um pouco mais difícil notar a relação entre elas e o estado da nossa saúde. Além disso, os pensamentos que alimentamos também podem influenciar nosso bem-estar, para bem e para mal.
Sintomas físicos da relação corpo-mente
A relação entre as emoções e o nosso corpo é bem conhecida pela sabedoria popular. Algo que percebemos graças à experiência e ao instinto. Por exemplo, é comum sentirmos dor de barriga antes de uma prova, entrevista de emprego ou outra situação em que seremos avaliados.
A dor de estômago também pode ser sintoma de estresse, como quando temos dificuldades no trabalho, nos relacionamentos ou problemas financeiros.
Dificuldades para dormir, perda do apetite e tremores também são sintomas de uma mente estressada.
A ansiedade pode levar algumas pessoas a procurar conforto na comida, sobretudo em alimentos ricos em açúcar e carboidratos, como chocolate, bolos, biscoitos, coxinhas, pizzas etc. Isso pode levar ao aumento de peso e a todos os problemas associados a ele.
A vergonha faz nosso rosto ficar vermelho e o medo faz com que o nosso rosto fique pálido. Quando a emoção é muito forte, o coração bate mais rápido, aumentando a pressão arterial.
Enfim, há muitas “provas” de que as emoções têm influência direta sobre o nosso corpo, o que pode causar doenças. Mas será que podemos ter algum domínio sobre o que sentimos e pensamos?
Afirmações positivas para curar
A autora Louise Hay é uma das mais respeitadas quando se trata de afirmações para a saúde, prosperidade, bem-estar e cura. Nos seus livros “Você pode curar sua vida”, “Cure seu corpo” e “O poder das afirmações positivas”, ela compartilha muitas informações valiosas sobre como você pode assumir a responsabilidade pelas suas emoções e pensamentos, curando, assim, não apenas o corpo, mas também todas as áreas da sua vida.
Louise acredita que o amor próprio é a chave da saúde e da felicidade verdadeiras. Um exercício simples que qualquer pessoa pode fazer e que a autora recomenda em seus livros, é este:
“Cerca de três vezes por dia, durante pelo menos um mês, diga, na frente do espelho, olhando para seus olhos: “Eu amo você. Tenho orgulho de você”. Essas afirmações simples, mas poderosas, devem ser ditas com sinceridade, sem nenhum criticismo. É normal sentir alguma resistência no início, mas persista até que se torne um hábito natural se elogiar.”
Pensamentos de autocrítica
Constantemente, temos um “diálogo interno” com nós mesmos, sem que nos demos conta.
São as histórias que repetimos por dias, meses, anos, décadas e por toda a vida, sobre quem somos, o que podemos ou não fazer, o que outras pessoas nos fizeram, etc.
Quando esse diálogo é muito negativo, ele traz consequências danosas para a saúde física e mental. Exemplos de diálogos internos negativos:
– “Sou muito burra”.
– “Sou muito gorda”.
– “Não consigo emagrecer”.
– “As pessoas vivem me passando para trás”.
– “Ninguém gosta de mim”.
– “Não sou (bonita/inteligente/rica/boa…) o bastante”.
E por aí vai.
Uma boa maneira de combater esses pensamentos negativos é fazendo terapia. Anotá-los em um diário e questioná-los também é bastante eficaz, pois você se tornará consciente de seu próprio diálogo interno.
Outro efeito nocivo desses “diálogos internos” inconscientes é que eles vão atrair pessoas que pensam como você a seu respeito. Assim, se você acreditar que é “burra”, por exemplo, atrairá pessoas em sua vida que vão confirmar esse pensamento.
Boas maneiras de melhorar sua saúde através das emoções e pensamentos
Não podemos “controlar” nossos pensamentos e emoções, mas podemos adotar práticas saudáveis que nos ajudarão a lidar melhor com eles.
Uma dessas práticas é a meditação. Meditar pode ser a melhor coisa a fazer assim que você acorda, pela manhã. Dedique cerca de 15 minutos por dia a uma prática meditativa, sozinho ou em grupo.
Outra prática muito benéfica é a de atividades físicas. Corrida, hidroginástica, caminhadas na natureza, aeróbica, pilates, ioga e os vários tipos de esportes podem fazer maravilhas para o corpo, aumentando o nível de endorfina e a sensação de bem-estar, ajudando a equilibrar as emoções.
Cantar, dançar, pintar e realizar alguma atividade criativa e artística são bálsamos para as emoções. Você pode se dedicar a algum tipo de atividade assim, como a escrita, a pintura em tecidos, o bordado e a dança, apenas para citar algumas. É também uma excelente oportunidade de conhecer novas pessoas.
Exercícios de relaxamento profundo podem ser muito curativos. Você pode comprar CDs ou baixar meditações pela internet, como a ioga nidra, uma técnica de relaxamento simples, mas muito eficaz.
Cuidar bem da sua saúde mental e emocional terá um impacto positivo na saúde do seu corpo. Além disso, você estará cultivando uma postura mais positiva diante da vida, o que atrai felicidade.
Dias desses mandei um inbox parabenizando uma amiga querida pelo seu aniversário. Na verdade, eram votos atrasados, já que ela tinha aniversariado no dia anterior. Ao agradecer meu pequeno textinho, ela escreveu: “gratidão pelo carinho e energia positiva, também por aceitar minha frequência afetiva”. Eu nunca tinha lido essa expressão “frequência afetiva” e ela ficou na minha cabeça por alguns dias. Propositalmente, não perguntei a ela o que aquilo significava porque eu simplesmente quis atribuir o meu sentido para aquela expressão tão especial, usada em um contexto tão carinhoso, por uma pessoa tão profunda.
Comecei a pensar que todos nós tínhamos a tal frequência afetiva. Essa ideia talvez estivesse diretamente ligada ao nível de presença que exercemos na vida das pessoas importantes para nós e também a forma como demonstramos isso. Pensei então em alguns exemplos de amigos que possuíam frequências afetivas muito especificas:
– A Natalia é uma amiga dos tempos de faculdade muito querida. Era daquele tipo do fundão que se infiltra no seu grupo sem você convidar, mas que no fim fazia tudo certinho. Sua característica marcante era o fato dela apreciar novelas do canal Viva – isso era um segredo dela. Depois que deixamos de conviver, comecei a perceber que eu só conseguia marcar algo com ela de seis em seis meses, em média. Que se eu tentava marcar coisas com intervalos menores, por algum motivo, o role não saia. Passei a aceitar que esse era o tempo dela e que isso não diminuía a minha importância em sua vida. Até hoje mantemos essa amizade tão especial quanto semestral.
– Tem a Carol que foi minha amiga da época de acampamento. A Carol é muito intensa e já viveu as fases mais exóticas que você pode imaginar. Ela já quis ser cigana e atriz, já foi para Brasília para defender ideias de esquerda, já morou nos Estados Unidos e em Londres e hoje trabalha como professora. O fato é que nessas fases de turbilhão a Carol sumia por muito tempo, tipo quatro anos, e depois reaparecia do nada. Depois, sumia novamente por tempo indeterminado e eu nunca sabia em que momento da vida eu encontraria ela novamente. Nossa amizade sempre teve esses intervalos bruscos, sem data para a próxima vez. Há dois meses a Carol me chamou para ser padrinho do seu casamento. E eu me dei conta de que essa falta de obrigatoriedade temporal na nossa amizade pouco influía na consideração que um tinha pelo outro.
– Tem o exemplo da Divimary. Nós temos uma amizade cinéfila. Nossos encontros são assíduos até hoje. Ao menos uma vez por mês damos um jeito de marcar nosso café com cinema. Desde os tempos de faculdade, nos acostumamos a passar tardes na Rua Augusta, regadas a filmes de todos os tipos e passeios sem destino. Ela é daquele tipo de amiga que para te ajudar, manda o seu currículo sem você saber e chega a ir à entrevista de emprego junto pra te dar apoio moral. É daquelas que te dão apoio quando você esta começando algo incerto e faz propaganda positiva sobre você para todos os outros amigos dela. É engraçado que mesmo não fazendo por ela exatamente na mesma medida o que ela faz por mim, tenho a certeza que ela aceita a minha frequência afetiva.
A ideia de “frequência afetiva” a meu ver envolve muito de aceitar o que o outro tem pra te oferecer, mas principalmente o que ele não tem. Nos últimos meses passei por diversas situações em que eu tive que dizer não para alguns amigos e pessoas queridas. A verdade é que quanto mais relações afetivas você tenta manter, mais você tem que disponibilizar o seu tempo e fazer escolhas em prol delas. Muitas vezes, essas escolhas não vão favorecer um amigo seu e a maneira como ele reage a isso é um momento importante para que você se descubra seletivo em suas relações. Às vezes você não diz não por egoísmo, às vezes você diz não porque tinha outra prioridade. Você conhece verdadeiramente as pessoas – que supostamente gostam de você – quando observa como elas se comportam diante desse não. Existe a situação oposta: aquelas amigos que nunca podem fazer nada, que de 100 convites, topam apenas um. Eu não deixo de ser amigo dessas pessoas por isso, mas elas deixam de ser prioridade na hora de pensar em quem vou chamar pra ir pra balada ou pro teatro. Na minha escala de amizades assíduas, os amigos que costumam topar coisas em cima da hora costumam naturalmente estar no topo das minhas prioridades.
Essa aceitação vale para todo tipo de relação, inclusive para as familiares ou para os namoros. Existem relações familiares que se estabelecem apenas pela convenção das datas comemorativas. Primos que você vê somente no Natal e que talvez você não procure durante o ano exatamente por isso. Porque esse tipo de frequência estabeleceu-se na relação com eles e não porque no fundo você só os vê pela obrigação da data. A frequência também envolve o jeito de demonstrar afeto. No mundo também existe gente que “não gosta” de receber ou demonstrar afeto ou que não é de abraço, pior ainda se for demorado. Tem até gente que não lida bem com elogios. E essa negociação de espaços é muito importante. Saber colocar em prática a arte da empatia tentando entender e tolerar o outro da maneira como ele é, caso você faça questão da relação.
Não tem como finalizar esse texto sem tocar em um tipo de frequência afetiva extremamente importante na vida virtual. A frequência de likes. Existem aqueles amigos que não são de entrar na internet ou de interagirem em redes sociais. Tem os que leem você em silêncio ou aqueles que simplesmente têm preguiça do que você escreve – não necessariamente preguiça de você. Existem os que usam o like como uma forma de vínculo/interação/ manutenção de relação. Existe até aquela pessoa que estranhamente só da like quando você conta alguma zica que te aconteceu. Existe também o ciúme. – Por que ela vive dando like no amiguinho e não em mim?
Na vida conjugal as coisas ficam um pouco mais delicadas. Quanto menos expectativas sobre o seu par melhor. Mas e pra baixá-las? É difícil entender que existem parceiros que se esquecem de datas importantes ou namoradas que não sentem ciúme de você e pronto. Aceitar uma vida a dois tem muito de estarmos preparados para tudo o que não iremos receber. Você está preparado para não receber? Você está preparado para receber, só que não exatamente da forma que esperava? Você respeita a frequência afetiva dos outros?
Escritor, mochileiro-cinéfilo, paulistano praticante, hipster inconfidente, ator-pedagogo, cansou de ser sexy mas ainda é quentinho. Tem o péssimo hábito de somar em pensamento o provável peso das pessoas no elevador, pra ver se passa do limite. Dá abraço demorado, se acha mais legal que o Bruno de Luca e um dia quer fugir com circo. Enquanto isso, transforma viagens em devaneios junto com a sua trupe no www.demalaemochila.com.br.
Qual é a criança que não quer brincar? Que não quer correr atrás da bola para fazer um gol, levantar os braços em sinal de comemoração? Uma criança que não brinca é uma criança doente. Não somos nós que o dizemos, antes Paulo Sargento, psicólogo e diretor da Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches. É que o ato vai muito além de entretenimento garantido ou de gargalhadas voluntárias, uma vez que brincar é crescer e perceber como funciona o mundo em que vivemos. E se tal não é necessariamente sinônimo de brinquedos, o que acontece quando uma criança tem muito, até demais, por onde escolher?
Vamos por partes. Divertir, entreter, gracejar, galhofar ou brincar é meio caminho andando para garantir o desenvolvimento dos mais pequenos, seja a nível socio emocional, psicomotor ou cognitivo. A isso, acrescenta-se que as brincadeiras devem seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebê atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida rege-se por um conjunto de normas).
Não sobram dúvidas — se é que elas existiam — de que brincar faz bem à saúde e recomenda-se tanto a crianças quanto para adultos. Mas nem tudo é um mar de rosas. Considerando as sociedades atuais e ocidentais, talvez não seja muito difícil encontrar lares cujos quartos estejam cheios de brinquedos — desde o antigo cavalo de madeira às novas naves de Lego dos filmes Star Wars. Tanto um como outro representam momentos de lazer favoráveis, mas o mesmo não se pode dizer quando estes são apenas dois em dezenas (ou centenas) de brinquedos.
A infância não se mede pelos brinquedos acumulados, ou pelo menos não deveria. Por vezes menos é mais, sobretudo porque brincar ajuda a moldar o temperamento e a criatividade de uma criança. Por favor, menos brinquedos e mais brincadeiras!
“Um, dois, três… vá, você consegue. Você não apenas consegue, você também precisa. Um, dois, três… por favor, vamos, você não tem o dia inteiro.”
A frase acima assemelha-se ao discurso de alguém que tenta escalar uma montanha ou atingir alguma meta que requer esforço anormal, mas é só o tipo de coisa que um indivíduo deprimido fala para si mesmo ao tentar levantar da cama num dia comum. A depressão não é algo poético, ao contrário do que muitos pensam, e não é assunto para ser romantizado. Há um mito que cerca a condição, e ele precisa ser extinto. A depressão não ajuda pessoas criativas. O sofrimento pode inspirar, mas a depressão paralisa. É uma doença cruel, dolorosa e insidiosa, que leva o hospedeiro a ter vontade de pedir ajuda para tomar banho, pentear cabelos e escovar os dentes: ela leva embora a energia vital presente em cada um de nós, transformando tarefas simples como se alimentar em tarefas complicadas como erguer um monumento. É uma máxima: não há beleza na depressão.
Cena do filme “Garota interrompida”, 1999.
Muitas vezes os incentivos não geram resultados, todo e qualquer esforço falha ou parece falhar, e a desistência se apresenta como a única saída viável. Após a ideia da desistência criar raízes firmes, a idealização do grand finale, o suicídio, parece se formar na mente do doente, límpida e nítida como uma pintura ou até mesmo como um filme.
Os mais diversos cenários são imaginados: do envenenamento (costuma ser descartado, pode ser extremamente doloroso e falho) até o tiro fatal da misericórdia, da auto-defenestração até a overdose, tudo é levado em consideração. Os prós e contras são ponderados. É possível que o deprimido considere que é melhor deixar o tiro pra lá, afinal, ninguém gosta de limpar sujeira, e morrer de forma serena não parece uma má ideia. Para completar, conseguir uma arma não é muito fácil em grande parte dos casos. Infelizmente, muitos doentes abraçam algum dos métodos, o método escolhido decide abraçar de volta, e é assim que o monstro consegue mais um soldado para seu exército em constante expansão.
Noite estrelada- Van Gogh
Mas é difícil que pessoas vivas cometam suicídio: a maior parcela dos suicidas é constituída de mortos que caminham entre os vivos, até que se cansam do ciclo vicioso e estabelecem o que acreditam ser um fim definitivo para a dor.
Ainda bastante incompreendida, a condição leva os portadores a serem vítimas de preconceitos e julgamentos, estes que são alguns dos principais aspectos sociais da doença. Além de suportarem diversos martírios dentro de si mesmos, depressivos são julgados “preguiçosos”, “inúteis”, muitas vezes escutam insultos de pessoas próximas, aquelas que deveriam ajudar e cuidar: “Levante daí, você não cansa de ficar nessa cama o dia inteiro?”, “E então, quando você vai decidir fazer algo da sua vida?”, “Você parece bem, não parece doente, está rindo, será que não poderia fazer algo que preste?”, “Me poupe, isso não passa de frescura”.
Além disso, é comum que pessoas deprimidas não suportem ouvir o termo “reagir”. “Reaja!”, o mundo parece gritar em uníssono. Por favor, parem. É uma situação extremamente delicada. Não é assim que funciona, não foi e nunca será. Depressão não é tristeza. Estamos reagindo, mas estamos acorrentados, e do que adianta tentar fugir quando seu carcereiro decidiu te acorrentar? O único resultado que será possível obter é o cansaço, e nossos corpos já não comportam mais qualquer adição de cansaço. Estamos fazendo o possível.
Não há depressão que seja igual. Diferentemente da gripe ou de qualquer outro vírus terrível que possa torturar nossos corpos, a depressão é única para cada portador, o que faz dela um martírio solitário. É a doença da solidão, do isolamento, e, por fim, da ausência de amparo. Muitas pessoas deprimidas são abandonadas ou ignoradas por seus familiares, cônjuges e amigos quando mais precisam de conforto e ajuda. As pessoas cansam e vão embora. Não queremos dar trabalho, não queremos causar desconforto, mas precisamos de amor. Não pedimos para ter uma doença. Da mesma forma que alguém não escolhe um câncer, não escolhemos desenvolver a depressão.
O amor é um aliado porque nos fortalece, e nos torna mais esperançosos no que tange a luta diária por coisas que não deveriam envolver lutas: é como se, ao sentirmos que somos amados, estivéssemos lutando com um propósito que não é apenas o de permanecermos vivos. Se você conhece alguém que sofre de depressão, demonstre compaixão. Desenvolva sua empatia, ela pode salvar uma vida. Se você sofre de depressão, tente buscar o amor. Se não o encontrar no outro, busque-o dentro de si.
Como se não fosse doloroso o suficiente o fato de estarmos sendo julgados com frequência, também ocorre de sermos interpretados das piores formas possíveis. O inferno parece não ter fim: se elaboramos alguma desculpa para não sairmos de casa em determinado dia, somos péssimos amigos. Mas não somos, na verdade. Acreditem que zelamos por nossas amizades, acontece que não queremos preocupar ninguém ao sermos obrigados a dizer coisas como “desculpe, hoje não, talvez na semana que vem, sabe, faz três dias que tento sair da cama e não consigo, mas hoje consegui ir até a cozinha e fazer um lanche, de tanta felicidade por ter feito isso eu poderia dançar frevo se tivesse alguma energia restante”. Ou então: “não acho que é uma boa ideia ir naquele encontro de hoje, eu acabo de ter uma crise de choro no chão do meu quarto e agora estou deitada em posição fetal”. A maioria das vítimas da depressão crê que é bom evitar contribuir para que sejam vistas como “loucas”, e omitem detalhes de suas lutas diárias contra a doença na tentativa de sentirem-se mais “normais”.
Van Gogh
Mas, afinal, o que é a normalidade? O que é normal para um peixe é completamente insano para uma zebra. Os conceitos de “loucura” e “normalidade” foram bastante distorcidos ao longo da história da humanidade, e, em todo caso, são tão relativos e complexos quanto o conceito de “perfeição”: se o que é perfeito para um não é perfeito para outro, a perfeição absoluta não existe. E a tentativa de se enquadrar no padrão do supostamente “perfeito” ou até mesmo da “normalidade” é uma grande armadilha. Não é possível se enquadrar no que não existe. De perto, somos todos uns loucos, e nem toda loucura é algo negativo.
A depressão é traiçoeira, e costumo compará-la com uma árvore repleta de galhos. Dificilmente um deprimido será apenas um deprimido. Muitas vezes ele também é ansioso, é bipolar, é borderline, é obsessivo-compulsivo, é anoréxico, é bulímico, é vítima de transtorno do estresse pós-traumático, é esquizofrênico. Há uma miríade de condições que podem acompanhar a depressão, e elas caminham lado a lado, em algo que pode ser visto como uma espécie de complô para drenar a vida da vítima.
Muitas vítimas da depressão insistem no fato de que, na verdade, não estão doentes, não estão deprimidas, não precisam de ajuda, mas estas pessoas não apenas estão deprimidas como também possuem outras condições eclodindo no fundo de suas mentes: condições tão complicadas e dolorosas quanto a depressão em si.
Por experiência própria, é válido ressaltar que a meditação pode ser como o oásis no deserto da tormenta para algumas pessoas. Foi o meu caso. Através dela, é possível reestabelecer um tipo de conexão com seu verdadeiro eu, conexão esta que é muitas vezes destruída pela depressão, fazendo com que o deprimido sinta-se “completamente perdido” e não saiba para onde ir, quem procurar ou o que fazer. A meditação leva clareza para onde há escuridão: é como a amiga solícita que bate na sua porta e te entrega uma lanterna ao ver que faltou luz em sua casa. Há os que preferem antidepressivos, mas a eficiência de tais medicamentos é propensa a questionamentos e é tema de debates acirrados entre psiquiatras: apesar de algumas obterem verdadeiro êxito, nem todas as pessoas respondem bem ao tratamento com intervenção medicamentosa. Sempre nutri certa recusa ao tratamento com auxílio de fármacos por medo de virar uma escrava das companhias farmacêuticas, que, segundo algumas pessoas, tratam clientes, e não doentes. A última coisa que preciso, eu costumava dizer para mim mesma no auge da dor, é virar dependente química agora: já estou no meio de uma luta e não creio ser necessário participar de outra.
Por ser natural, procurei refúgio na meditação, e descobri que é possível estabelecer paz no caos. É possível decorar o abismo de forma a torná-lo habitável, e o resgate não é imediato, mas ele acontece. E, quando você menos espera, pode se ver fora do abismo pela primeira vez em muito tempo. É uma sensação única, talvez inigualável, e pode ser comparada com o ato de receber um novo par de olhos: é como enxergar o mundo pela primeira vez novamente.
Talvez um dia os grandes cientistas desenvolvam a arma definitiva para aniquilar o monstro para sempre.