Travessia

Travessia

No cinema, assistindo ao filme “A Travessia”, meu menino tinha as mãos suadas. O filme, uma história real sobre o francês Philippe Petit, que na década de 70 atravessou de forma ilegal o vão entre as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, usando apenas um cabo e se equilibrando sobre ele, desacomoda e leva à transpiração as almas mais sensíveis. Assistindo ao longa, a sensação que fica é a do medo. Medo pelo que pode acontecer ao protagonista (mesmo sabendo que ele sobrevive), medo pelo que sentiríamos estando na pele dele, medo de altura, medo da morte.

Isso me fez recordar uma frase do escritor Mia Couto que diz: “Eu tive as minhas mortes. Felizmente, todas elas passageiras”. E assim lembramos que a vida é composta de muitos lutos, a maioria deles reversíveis, e só isso deveria bastar para justificar nossa coragem, ou a capacidade de viver sem medo.
 Apesar de nos resguardar do perigo, o medo nos afasta da vida. Da vida e de suas inúmeras mortes. Da vida e de seus vários renascimentos. O equilibrista desafia o perigo com a certeza de que a morte está perto, mas não irá derrubá-lo. Já os que vacilam perante os desafios da própria existência constroem muros onde podem se refugiar, isolando-se de uma vida nova, muitas vezes melhor.
 Apesar de adorar montanha russa e de ter pulado de paraquedas há alguns anos, não me considero uma pessoa muito corajosa. Fui criada para desejar uma vida segura, longe do burburinho da corda bamba, recatada em meu mundinho particular. O hábito me fez almejar segurança. Na minha redoma, cultivo minhas leis. Não ouso virar a mesa nem levantar a voz. Não troco o certo pelo duvidoso, prefiro “um pássaro na mão do que dois voando”, perdi um pouco da espontaneidade com a idade. Não é motivo para me gabar não. Queria ter uma dose a mais de coragem para me livrar das culpas que me atam as asas e seguir pela corda bamba que me chama. A corda bamba que todos nós possuímos e, quer queira, quer não, temos que atravessar.
Todos nós possuímos um cabo de aço por onde devemos nos equilibrar e fazer a travessia. Alguns veem lá de cima precipícios enormes, como o vão entre as torres gêmeas. Outros percebem que tiveram medo de cair de uma altura irrisória, que não passava de ilusão causada pelo medo de seguir adiante. Porém, a vida é para quem ousa colocar pé ante pé, devagar ou com pressa, acreditando firmemente que cair não é o fim, pois muitas vezes o chão está a um palmo de distância.
Chegar ao fim, mesmo sentindo as pernas fraquejarem, nos dá a certeza de que a fé nos impulsiona a viver melhor. Ter a coragem de romper antigos nós, quebrar velhos tabus, experimentar novos ares e ousar fazer a travessia nos confronta com o amadurecimento, a única forma de crescer _ independente da idade que tivermos.
 Fazer a travessia é ter coragem de crescer. É experimentar o prazer que vem da descoberta de que vivemos constantes mortes, e que, com sorte, renascemos melhores e mais sábios. Que haja esperança, fé, inspiração divina. Que saibamos o momento de avançar e o de recuar. Que experimentemos cruzar a linha de chegada mais livres e com a consciência de que dando o primeiro passo já somos vencedores.

Ser querido não é ser útil!

Ser querido não é ser útil!

Ser querido é café quente com bolo. Ser útil é pílula de suplemento.

Ser querido é dia de sol com ventinho leve. Ser útil é protetor solar e repelente.

Ser querido é abraço apertado. Ser útil é capa de chuva.

Ser querido é ser aguardado, ter a presença desejada, ser incluído nos sonhos, nos planos, na vida.

Ser útil é ser indispensável pelas qualidades e especialidades.

Ser querido é ser amado apesar dos odiosos e repugnantes defeitos, ser compreendido, reconfortado, protegido, repreendido, o que for preciso.

Ser útil é ser dispensável quando a utilidade findar…

Todo mundo é querido de alguém, todo mundo é útil para alguém, os ambos, ou nenhum. Perceber a diferença é essencial para saber que papel figuramos nas vidas que tocamos ou que nos tocam.

Para alguns, preciso ser apenas útil. E quero o pagamento e a recompensa por isso.

Para outros, quero ser querida, como os quero bem também.

O que não quero, é ser útil para me sentir querida. Não quero me tornar indispensável para ter a ilusão de que sou muito querida. Ser querido é bem diferente de ser útil.

Jamais me conformarei em ser uma panela  aderente com excelentes qualidades e diferenciais! A panela é útil!

Eu? Eu quero ser motivo de doces lembranças, afeto, saudades e grandes planos para a vida!

Um texto sobre a gentileza

Um texto sobre a gentileza

 Por Martina Sarzi Neubüser

Gentileza. Palavrinha leve, soa fresca como brisa de verão. Alimenta a boca de quem fala e aquece os ouvidos de quem escuta. Quatro sílabas de humanidade genuína, na sua mais pura forma. Gentileza, ao contrário do que pode nos parecer hoje em dia, não é ato de outro mundo: é aquilo que nos faz mais irmãos, mais iguais, mais humanos. Gentileza não é puxar o saco. Não é dar mais importância ao outro do que a si mesmo. Não confunda. Gentileza é se doar para se sentir completo. É amar para se sentir, simplesmente, capaz de doar seu amor sem esperar coisa em troca. É estender a mão e, quando nos for estendida, é não pedir o braço. É olhar o mundo com bons olhos e incentivar que outros também façam isso.

É levar flores em um momento difícil ou, simplesmente, levar companhia. É servir uma xícara de café de bom grado. Gentileza de verdade não é obrigação, é virtude, é colher de chá. Na gentileza não pode haver cobrança, isso desvirtua seu sentido. Gentileza é dar e não esperar o troco, muito menos devolução. Vai além de ajudar; gentileza é cativar. Faz válida a nossa existência ao produzir frutos que não apodrecem, mas se multiplicam. É falar, mas é também calar.  E, muitas vezes, o silêncio é mais gentil que qualquer palavra amiga. Quem é gentil cultiva um jardim dentro de si, não edifica castelos. Castelos são feitos de tijolos, tijolos trazem peso. Flores purificam, embelezam, trazem felicidade. E o jardim permanece ali: gentil. Com uma nova muda a cada gentileza. Depois de um tempo, ele cresce sem que percebamos. Os atos gentis tornam-se involuntários e, nesse momento, estamos floridos da cabeça aos pés.

Seja gentil, o mundo precisa da sua gentileza. Doe-se e verá que, mesmo parecendo contraditório, se sentirá mais completo. 

Para contato com a autora: [email protected]

Quem te atenderia depois da Zero Hora?

Quem te atenderia depois da Zero Hora?

Quantas vezes não acordamos no meio da noite com o sono a nos escapar apressado, batendo em retirada para outras paragens? Então ficamos nós, espremidos em nossa cama, desconfortáveis e muitas vezes sozinhos.

Como ansiamos nessas horas poder nos partilhar com outro! Procuramos então entre um tic e um tac não o telefone, mas a memória para recordar aquele capaz de uma acolhida inesperada em uma noite de tormentas interiores nas quais tudo o que mais desejamos é nos abrigar longe de nós mesmos.

Temos tantos amigos nas redes sociais, tantos colegas de trabalho, tantas companhias para o chope de sexta, mas e para as madrugadas insones, o que temos? Quem em sua essência nos atenderia de bom grado depois do relógio tocar doze vezes e de nos vermos desprovidos de nossos encantos?

A gente se vê, a gente se fala, a gente marca alguma coisa mais tarde, a gente combina qualquer coisa dia desses… qualquer coisa eu te ligo, passa lá depois, vou ver aqui e te falo, me dá cinco minutos que eu já retorno, são frases cotidianas e cabem em muitas bocas.

Coloca uma roupa que eu estou indo te buscar. Abre a porta que eu vou te fazer companhia. Joga um colchão no chão que eu vou dormir ao teu lado. Chora no meu ombro que eu te entendo. Deita aqui no meu colo que eu vou te abraçar. Vem pra cá agora, são frases para poucos, essas só podem ser ditas por aqueles com os quais temos a tão preciosa intimidade.

E intimidade é uma coisa rara, quase encantada. Muitas vezes uma vida ao lado de uma pessoa não garante que a intimidade exista, contudo, uma hora ao lado de outra pode ser como um marco no calendário de nossa vivência, um raro encontro de almas. Então escancaramos sem ressalvas a porta do nosso íntimo, fazemos confissões na certeza da aceitação, dividimos vontades descabidas, muitas vezes isentas de justificativas, sem parecermos bobos ou levianos. Contamos segredos sussurrados, nos deixamos tocar sem medos e ressalvas por um outro que parece feito de nós.

Ao lado daquele com o qual temos intimidade, um olhar se transforma em aconchego, um sorriso vira um convite para o ânimo. Para ele podemos ligar de madrugada para desabafar sem medos. Para ele não precisamos ser perfeitos, não precisamos ser encantados. A intimidade é como ouro em pó. É um partilhar sublime de corações que se entendem no silêncio introspectivo, na beleza de uma lágrima mansa, na doçura de uma canção compartilhada.

Quantos afirmam apertando nossas mãos que são amigos de verdade, que são para todas as horas, contudo amigos para depois da zero hora são bem poucos. Amigos para dividir não só o lado bom da vida, mas as ansiedades gritantes e os medos infundados são raros.

A intimidade no outro é a morada do amor, é nela que vive a aceitação, o apreço, os ensinamentos brandos, as palavras que consolam e que curam. A intimidade na amizade é maravilhosa, no amor é um bálsamo, no sexo é sublime.

Se nossa memória se retesar em alguém nas silenciosas horas de uma madrugada insone. Se ao pensarmos nesse alguém soubermos que podemos com ele partilhar o nosso tudo a qualquer momento. Se ele entrou silencioso e respeitoso em nossa mente e sentou-se confortável em nosso coração, talvez seja hora de trazê-lo para mais perto de nossa vida.

Por outro lado, se nossa mente foi incapaz de encontrar nas horas notívagas um alguém íntimo o bastante para nos resgatar de nós, talvez tenha chegado o momento de repensarmos nossos relacionamentos. Talvez seja a hora reavaliarmos nossas prioridades e de termos claro em nossa mente que apesar de vivermos cercados diariamente por inúmeras pessoas, virtuais e não virtuais, são preciosos e raros aqueles com os quais podemos partilhar a tão bonita intimidade em um dia de sol ou em uma noite vazia.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

10 conselhos que deveríamos receber em várias etapas da vida

10 conselhos que deveríamos receber em várias etapas da vida

1) Você receberá um corpo. Poderá amá-lo ou odiá-lo, mas ele será seu todo o tempo.

2) Você aprenderá lições. Você está matriculado numa escola informal de tempo integral chamada Vida. A cada dia, terá oportunidade de aprender lições. Você poderá amá-las ou considerá-las idiotas e irrelevantes. A escolha é sua.

3) Não há erros, apenas lições. O crescimento é um processo de ensaio e erro, de experimentação. Os experimentos ‘mal sucedidos’ são parte do processo, assim como experimentos que, em última análise, funcionam.

4) Cada lição é repetida até ser aprendida. Ela será apresentada à você sob várias formas. Quando você a tiver aprendido, passará para a próxima.

5) Aprender lições é uma tarefa sem fim. Não há nenhuma parte da vida que não contenha lições. Se você está vivo, há lições a serem aprendidas e ensinadas.

6) ‘Lá’ só será melhor que ‘aqui’. Quando o seu ‘lá’ se tornar um ‘aqui’, você simplesmente terá um outro ‘lá’ que novamente parecerá melhor que ‘aqui’.

7) Os outros são apenas espelhos de você. Você não pode amar ou odiar alguma coisa em outra pessoa, a menos que ela reflita algo que você ame ou deteste em você mesmo.

8) O que você faz da sua vida é problema seu. Você tem todas as ferramentas e recursos que precisa. O que você faz com eles não é da conta de ninguém. A escolha é sempre sua.

9) As respostas para as questões da vida estão dentro de você. Você só precisa olhar, ouvir e confiar.

10) Você se esquecerá de tudo isso… e ainda assim, você se lembrará.

Fonte indicada: Lar

Assista a uma autópsia

Assista a uma autópsia

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
(Fernando Pessoa)

Assim como existem bloqueadores da dor física, existem relatos de bloqueadores da dor emocional. Muitos já devem ter ouvido falar sobre ir ao hospital do fogo selvagem para perceber que seus problemas não devem ser tão graves assim. Há também uma foto de uma criança africana que circula na internet, ela parece beber urina de uma vaca. Cenas chocantes que mostram a realidade na qual estão inseridas outras pessoas podem ter um efeito avassalador quando conseguimos nos colocar no lugar do outro e, ao voltar “ao nosso mundo” percebermos que talvez estejamos voltados demais para nós mesmos – o que nunca é bom.

A dor de cada um de nós é sempre a maior de todas, porque é a única dor que sentimos; entretanto acredito que olhar para fora possa nos dar força para enfrentar obstáculos ao longo do caminho. Enxergar o outro e tentar imaginar a dor daquele que não sou eu pode ser uma grande motivação – não para bloquear a sua dor – mas para enfrentá-la. Toda dor passa. Não há nada que dure para sempre.

Aos vinte e dois anos eu já estava no quinto ano de faculdade e estagiava dentro do Hospital Celso Pierro, em Campinas. Naquela época eu era uma jovem típica de vinte e dois anos, achava que sabia tudo, achava que já tinha nas mãos o script da minha vida pessoal e profissional. Tenho saudade daquela certeza que eu tinha sobre tudo, todavia, tenho uma vontade imensa de voltar no tempo, dizer umas verdades àquela presunçosa e rir da cara dela ao dizer: “você nem imagina o que te espera”. Voltando ao meu estágio, depois de muita luta acadêmica, consegui uma das duas vagas para estagiar na enfermaria de moléstias infectocontagiosas e lá eu cruzei com um dos seres humanos mais espetaculares que Limeira “pariu”. Ela era na época residente na ala e um dia fez uma das tantas boas ações que carrega no currículo quando me convidou para ir com ela levar um papel qualquer no setor onde eram realizadas as autópsias no hospital.

Eu era muito ligada a ela porque éramos da mesma cidade e estávamos no imenso hospital da PUCCampinas, então era como se eu tivesse uma irmã mais velha lá dentro. Aprendi muita coisa naquele ano, porém nada que se compare àquele dia quando entrei naquele quarto e vi o paciente que eu havia atendido um dia antes todo aberto e com seus órgãos sendo retirados; ali eu mudei para sempre. Havíamos apelidado-o carinhosamente de Tião Gavião. Ele costumava morar ou na enfermaria, ou na cadeia do São Bernando onde eu também estagiava. Eu conhecia o Tião e o via feliz quando era internado “porque tinha uma cama só para ele e comia super bem”. Na cadeia era diferente! Tudo é uma questão de referência. Tião morreu por complicações pulmonares, era soropositivo e não tinha a menor motivação para se cuidar. O pulmão dele estava tão comprometido que a médica ao realizar a autópsia usava um tipo de concha para retirar “aquilo”. Enquanto a Dra. Cau e a amiga médica que manuseava a concha conversavam eu pensei: “Eu sou nada”. E desde aquele dia eu comecei a sonhar. Perdi as certezas, todas elas.

Aquele dia me deu a exata noção de que o nosso corpo físico não é nada, e que há que se ter sempre a busca, a motivação para ser feliz, porque tudo passa, e passa mesmo. Não é preciso assistir a uma autópsia, é preciso viver sabendo que elas existem.

Dedico esse texto e a minha eterna gratidão, amizade e afeto á Doutora Claudia Barros Bernardi, médica infectologista que protagonizou essa história junto com o Tião. Ela atualmente está em Luanda trabalhando, distribuindo amor e acordando menininhas dormentes como eu fui um dia.

Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Por  contioutra.com - Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

O armênio George Ivanovich Gurdieff faz parte daquele grupo de loucos geniais do século XX, que misturavam insights reveladores com pirações às vezes perigosas, grupo ao qual pertenciam figuras como Colin Wilson, William Reich, Aleister Crowley, Jodoroswki e tantos outros doidos de variado grau de periculosidade social. Sabendo separar o joio do trigo, a teoria maluca das ideias proveitosas, podemos aprender um bocado com Gurdjieff.
Para ele, estamos sempre adormecidos, seja durante o sono noturno, seja com os olhos abertos ao longo do dia, ocasião em que nos iludimos de que estamos totalmente despertos.

Para entendermos o que ele quer dizer, precisamos compreender alguns aspectos elementares dos sonhos. Quando dormimos à noite, ficamos apenas parcialmente e não completamente isolados do mundo externo, sem perceber o que ocorre lá fora. Afinal, fechamos nossos olhos para dormir, mas não nossos ouvidos e os demais sentidos de nosso corpo.

Então, às vezes, percepções do mundo real vazam para dentro de nossos sonhos, e nós incorporamos esses estímulos ao que sonhamos no momento. Todos nós já passamos por esse tipo de experiência. Às vezes, sentimos sede e sonhamos que estamos bebendo água. Dentro de nosso sonho um carro buzina, um telefone toca ou alguém nos chama pelo nome, e logo em seguida despertamos para descobrir que no mundo real um carro estava mesmo buzinando, nosso celular realmente tocava ou alguém de fato tentava nos despertar.

Isso ainda acontece quando estamos supostamente acordados, pois em certo sentido ainda continuamos a sonhar, e quem sonha de olhos abertos é alguém chamado “Ego”.

E o ego sonha porque tende a organizar todas experiências do mundo em torno de si, como se tudo o que ocorresse tivesse ele, direta ou indiretamente, como protagonista, como personagem central para o qual todas as coisas, todos os eventos, convergem.
Assim, a única diferença entre estar dormindo e estar acordado seria apenas do grau de profundidade do ato de sonhar realizado pelo Ego. Isso porque os sonhos são formados por fragmentos de estímulos do mundo lá fora e por elementos que estão em nosso inconsciente. Há, por assim dizer, uma mistura de realidade e de subjetividade.

Durante o dia, a quantidade de percepções do mundo lá fora que vazam para esse nosso “sonho” é muito maior, e o Ego se encarrega de ajustar todos esses estímulos exteriores para formar uma narrativa coerente que confundimos com a realidade, mas que não passa de algo imaginado — pois, no centro da narrativa, nós somos os protagonistas e a verdade é que o mundo existe, as pessoas vivem e as coisas acontecem independentemente de nossa existência.

Vamos lembrar do exemplo da buzina e do celular. Quando estamos acordados, percebemos a realidade ao nosso redor, e estamos conscientes quando um carro buzina ou toca nosso celular. Podemos, assim, interagir com o mundo lá fora.

Porém, para Gurdjieff, não percebemos os estímulos externos tais como são, mas os selecionamos e os interpretamos conforme nossa perspectiva de Ego que está em parte acordado e em parte sonhando.

Da mesma forma como, enquanto dormimos à noite, a matéria de nosso sonhar é o conjunto de elementos pertencentes ao inconsciente somado a algumas percepções da realidade, enquanto estamos acordados durante o dia essas percepções, mais numerosas, são misturados pelo Ego condicionamentos da infância, traumas, preconceitos, desejos frustrados, temores, expectativas e pressuposições sobre como gostaríamos que as coisas fossem.

Para explicar esse processo, há um conceito muito útil formulado pela psicologia. Trata-se do fenômeno da projeção. Assim como um antigo projetor de cinema projeta na tela branca cenas de um filme, da mesma forma nosso Ego projeta nos acontecimentos suposições e circunstâncias que não são reais, mas que correspondem, de forma por vezes simbólica, ao que está dentro de nós e que somos incapazes de reconhecer conscientemente.

Estamos parcialmente dormindo nesse exato momento justamente porque nosso estado de semidespertar é repleto dessas projeções.

Esse é o motivo pelo qual, muitas vezes, um pequeno incidente no trânsito acaba em violência desproporcional. Também é a razão pela qual uma rivalidade entre torcidas de futebol pode ser a dar lugar a um homicídio, ou um pequeno desentendimento entre familiares ou amigos pode resultar num grande desentendimento, com todos magoados de forma incompreensível.

Matar por um time, agredir por causa de um pedaço de metal motorizado ou magoar-se por um incidente minúsculo: fatos insignificantes que resultam em grandes tragédias. É que, envolvendo os fugazes e pouco relevantes eventos da vida real, há camadas e camadas de projeções resultantes de nosso estado semidesperto.
Nesses casos e em muitos outros, quem discute, agride ou se magoa não está realmente enxergando o outro ser humano na sua frente, mas uma mistura da outra pessoa com uma projeção de algo que existe apenas na sua cabeça. Porém, como sonhamos acordados, julgamos ter existência concreta coisas que estão apenas em nossa mente. É assim que nosso Ego mantém uma narrativa coerente, mas falseada, sobre sua importância no mundo.

Mas se a diferença entre nosso sonho noturno e nosso sonho diurno está apenas no grau em que os estímulos internos vazam para nosso sono, há algum modo de realmente despertar?

E como despertar?

Para Gurdjieff haveria, ao lado do adormecer noturno e do “sonambulismo” diurno, um terceiro estágio de consciência. Esse seria o estado de pleno despertar.

É dessa forma que o bigodudo armênio definia o conceito oriental de “iluminação” e seus equivalentes ocidentais, como a “beatitude”: não haveria nada de místico nesses estados, o iluminado não seria alguém que atingiu um nível de espiritualidade superior. Quem se ilumina simplesmente acordou no sentido de não misturar e confundir as coisas do mundo real com elementos do seu mundo subjetivo — a vida lá fora não é mais uma tela branca na qual seu ego projeta, sem perceber, conteúdos que estão aqui dentro. Ele reconhece as coisas tal como são.

(…)

Um mundo com pessoas mais despertas é um mundo de pessoas mais amorosas em suas relações e mais responsáveis em seus atos. Quem acordou um pouco mais do sonambulismo diário é capaz de ter a abertura necessária para construir uma sociedade realmente evoluída, em que o centro de nossas decisões não é o ego, mas o bem estar coletivo.

Fazemos, por fim, amizade com o desconhecido que há em nós e que comanda nossas vidas. Trazemos ele à luz, reconhecemos os seus objetivos confusos, medos ocultos e desejos inconfessos. E ele se torna menos manipulável, menos cego em seus passos. Na verdade, ocorre a fusão entre nós e uma parte de nosso ser que ignoramos. Por fim, abrimos nossos olhos um pouco mais, pois eles estão fechados neste exato momento, e sonhamos sem perceber.

Portanto, despertemos.

contioutra.com - Acorde, tem um desconhecido mandando na sua vida

Victor Lisboa é editor de Ano Zero, colunista do Papo de Homem e autor do blog Minha Distopia. Escreve não por achar que tem vocação ou talento, e muito menos com a pretensão de dizer algo importante. O problema é de outra ordem. É descaramento, é o prazer de se deixar levar por uma compulsão. Isso porque, de todas as perversões toleradas em sociedade, a mais inofensiva é escrever. Deixem que abuse, portanto.

Livros falam cada vez menos de emoções

Livros falam cada vez menos de emoções

Com exceção do medo, as emoções foram sendo continuamente varridas dos livros ao longo do último século.

Pesquisadores britânicos fizeram uma varredura em mais de 5 milhões de livros digitalizados em busca das palavras que nomeiam as emoções.

A lista de palavras procuradas foi dividida em seis categorias, incluindo raiva, nojo, medo, alegria, tristeza e surpresa, normalmente catalogadas como “emoções básicas”, ou instintivas, do ser humano.

“Ficamos surpresos ao ver como períodos de humores positivos e negativos são bem correlacionados com eventos históricos. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, é marcada por um aumento marcante de palavras relacionadas à tristeza, e uma diminuição correspondente de palavras relacionadas com alegria,” conta Alberto Acerbi, da Universidade de Sheffield.

Mas o estudo publicado na revista científica PLOS One mostra outras surpresas.

A mais marcante é uma queda contínua do conteúdo emocional nos livros publicados nos últimos 100 anos, com exceção da palavra medo, uma emoção que ressurgiu com força na literatura nas últimas décadas.

Contudo, os cientistas alertam que não é possível concluir que as emoçõestenham estado menos presentes na população.

“Uma questão que ainda precisa ser respondida”, escrevem os autores, “é saber se o uso das palavras representa um comportamento real de uma população, ou possivelmente uma ausência desse comportamento, que é cada vez mais descartado da ficção literária. Os livros podem não refletir a população real assim como as modelos da passarela não refletem o corpo médio. “

Fonte: Diário da Saúde

O ciclo do amor moderno

O ciclo do amor moderno

Por  Priscila Nicolielo

Oi tudo bem, você vem sempre aqui, que perfume bom o seu, aceita uma bebida, qual o seu nome, o que você está estudando, eu também gosto de Los Hermanos, deixa que eu te adiciono no Facebook, deixa que eu pago a conta, quer uma carona, quer subir, bom dia, quero te ver de novo, pode na terça, e na sexta, e no sábado, te pego às oito, você tá linda, tem um restaurante que vai gostar, separei um texto que li na internet pra você, te mandei pelo Whatsapp, você tem tatuagem, você já foi pra Roma, você curte fotografia, você quer pedir a conta, tem um lugar aqui perto que toca uma música boa, quer ir comigo, tudo bem também estou cansado, quer subir, acabou minha camisinha, bom dia, quero te ver de novo, cinema, teatro, tem uma festa também, você tá linda, vamos fazer uma selfie, a peça é boa, quem é Zé Celso, por que você não me falou que os atores interagiam, vamos tomar cerveja, você é mais bonita ainda bêbada, marquei você na nossa foto do Instagram, vou pedir a conta, quer subir, dorme aqui hoje, bom dia, fiz o café da manhã, quer viajar este final de semana, pessoal essa é a Bruna, todo mundo gostou de você, claro que é namoro, a gente se fala durante a semana, ah é bom dia, hoje num dá porque vou ficar preso no trabalho, amanhã num dá tem futebol, depois tem ensaio da banda, é tenho uma banda, pode ser segunda, como você dorme cedo, eu tento passar aí pelo menos pra te dar boa noite, num deu, me enrolei, tô com dor nas costas, minha vó morreu, meu carro tá sem freio, tenho um jantar de trabalho, tá bom eu vou, nossa que lugar chato, que cara trouxa, que garçom trouxa, que mulher bonita, que cerveja quente, que som alto, que merda de ator que quer interagir no bar, reparei sim, você cortou, ah mudou a cor, vamos embora, te deixo em casa, hoje num dá, tô com enxaqueca, tenho que fechar a planilha, a namorada do Caio terminou com ele, minha mãe vem pra são Paulo, é final do campeonato, aniversário da chefe, não estou muito animado, por que você quer terminar, me dá mais uma chance, vou mudar, vamos sair, quando você quiser, onde você quiser, eu te pego, você tá linda, linda, linda, do que fala essa exposição, o artista interage, que interessante, esse bar é de jazz, eu pago a conta, vamos subir, dorme aqui em casa, fiz café da manhã, o seu perfume é bom, imprimi um texto que li na internet e me lembrei de você, vamos pra Roma fotografar as tatuagens dos atores de peças doidas, mas não nesse mês, não nessas férias, não nesse ano, porque vou ficar preso no futebol, amanhã tem casamento do Caio, minha enxaqueca piorou, minha vó ressuscitou, a minha banda morreu, vou dar um jantar pra minha mãe, meu twitter tá com vírus, tá frio, tá calor e eu não tava a fim de tomar banho hoje.

Fonte indicada: EOH

Quando aprendi a desistir

Quando aprendi a desistir

Aquele ano foi terrível para Araceli. Não éramos exatamente amigos. Eu a encontrava na casa de um casal de amigos e sempre a ouvia falar da vida. Aquela mulher merecia um prêmio. Sério. O marido era um sacana, sua loja de roupas de banho estava falindo, ela ganhava peso, apesar de tantas dietas malucas, semana após semana – Mas eu continuo forte. Eu sigo firme. Não vou desistir não! – dizia, mexendo seu famoso assado no tempero, com uma tristeza intacta por trás daquele sorriso incrivelmente insistente.

Um dia a encontrei no shopping. Onze milhões de habitantes nessa cidade e eu a encontrei olhando uma vitrine. Atravessamos a rua pra tomar um suco em um beco charmoso cheio desses food trucks. Ela tentou falar de outras coisas, mas claro, seu coração queria falar do marido, da loja que sua mãe deixou, dos quilos que a incomodavam – Tem sido difícil. Nem eu sei como aguento. Mas eu li um texto seu esses dias que falava sobre isso. Sobre não desistir – me contou em tom de elogio. Aquilo me incomodou profundamente.

Aquele texto não era pra ela – Araceli, eu sei que vai parecer estranho o que eu vou dizer, mas… desista. – ela estava em choque – Como assim, desistir? – com o copo gigante de suco congelado no ar – Não basta perseverar. Nós também precisamos entender, sentir se estamos insistindo na direção correta. Às vezes, enquanto todo mundo diz pra gente continuar, nós temos que saber se aquele caminho merece mesmo nosso esforço. Existem caminhos superdifíceis que simplesmente não levam a lugar nenhum. A vida tenta muito sabiamente nos mostrar isso, como uma mãe delicada. A gente é que não vê – disse, abaixando o copo dela com cuidado enquanto segurava as suas duas mãos.

Vez ou outra, a gente precisa parar de machucar os pés, dar murro em ponta de faca, ter a coragem de deixar pra lá. Um relacionamento infeliz que pede desistência pode dar espaço a uma história pela qual valha verdadeiramente a pena lutar. Um sonho que nem é nosso, um emprego que nos diminui, a carreira que escolhemos lá atrás, quando nem sabíamos quem éramos de verdade. Talvez você precise simplesmente desistir agora. É fácil reconhecer um caminho que é nosso. Mesmo na dificuldade, mesmo na dor, mesmo nas noites insones, ele se mostra nosso, flui, ainda que devagar.

Um ano depois reencontrei Araceli no mesmo lugar. Dessa vez, fui visitá-la na inauguração do seu próprio food truck. Foi lá que conheci seu namorado novo, aquele poço de carinho, correndo pra um lado e pro outro pra atender todo mundo, enquanto ela se matava de cozinhar com um sorriso insistente no rosto. Ela não emagreceu. Continua lutando. Embora Beto a agarre o tempo todo, a implorando para não mudar. Minha comida chegou com algo escrito no guardanapo. Um recado de Araceli dizia “Fui feliz bem mais quando aprendi a desistir do que não era pra mim”.

Desvie sempre das pessoas bélicas!

Desvie sempre das pessoas bélicas!

Sabe aquela pessoa que, ao invés de ser reconhecida por alguma virtude, é conhecida e temida por seu “pavio curto”?  De repente ela acha isso o máximo, se vangloria e se admira por estar sempre alerta e pronta para uma acalorada discussão. Pessoas como essa, já acordam caçando briga, não sossegam enquanto suas jugulares não saltam, nem tampouco enquanto seus hipotéticos inimigos não são vencidos. Se houver reconhecimento de razão então, é a glória!

Pessoas bélicas, que vivem montadas em seus canhões, atirando para quem ousar contrariar. Pessoas que roubam a espontaneidade alheia, que promovem o desconforto e mal estar, que brigam por razões ridículas, roubam o direito de resposta dos outros, atacam, ofendem, agridem…

Se não vamos conseguir mudar uma pessoa dessas, já que ninguém muda ninguém, muito menos um bélico,  como fazer para minimamente conviver e escapar dos tiros e estilhaços? Como reagir diante de uma criatura que vocifera ao invés de argumentar, que lança xingamentos, que gesticula de forma intimidadora, que defende suas opiniões com tirania?

Correr para as montanhas não é uma opção, então, se a gente tantas vezes precisa conviver com essas soldados da ira, meu palpite é que evitemos ser alvo fácil, como os patinhos no parque de diversão. O melhor é se mexer, não se esconder, ao contrário, aparecer, mas sem motivação alguma para uma discussão. Se você não quer briga, não haverá briga. Nada te tira do sério quando você sabe que não vale a pena sair do sério. Deixe o briguento brigar, deixe gritar, deixe que ele ouça a sua própria voz, sozinha no ambiente; Não retribua com nada, nem mesmo um sorriso. A indiferença é um escudo inabalável para casos como esse. O ser bélico quer vitórias e honras. Mas se não há com quem lutar, ele vira um personagem, uma caricatura, um show man procurando o seu público.

A vida já é por demais cheia de batalhas e dificuldades para que tenhamos tempo e disposição para ser saco de pancadas alheio. Saiamos pois, da reta e do campo de visão dos franco atiradores. Há muito mais gente no mundo com vontade de trocar gentilezas, do que começar a terceira guerra mundial. Paz!

Você sabe a relação do intestino com o seu humor?

Você sabe a relação do intestino com o seu humor?

Recebi alguns pedidos para escrever sobre transtornos alimentares e decidi começar informando sobre esse importante órgão do nosso sistema digestivo – o intestino.

Responsável pelo nosso bem estar, a serotonina talvez seja o neurotransmissor mais famoso do nosso organismo. O que pouca gente sabe é que a maior parte dela é produzida pelo intestino, que é o nosso segundo cérebro. Nós temos dois cérebros, um na cabeça e outro escondido em nossas entranhas. Os neurocientistas descobriram que o intestino também é capaz de se lembrar, ficar nervoso e dominar o seu nobre colega – o cérebro.

As células nervosas existentes no intestino não controlam apenas a digestão dos alimentos, elas são responsáveis por sensações comuns e que são sentidas diretamente nesse nosso órgão. Vejam alguns exemplos: Ao recebermos uma boa notícia ou, ao nos depararmos com a pessoa amada, um formigamento agradável nos invade – o famoso frio na barriga.  Por outro lado, as situações de tensão, medo ou angústia nos corroem por dentro. A repulsa em direção a algo ou alguém pode produzir náuseas e até mesmo provocar o vômito. Estas sensações têm explicação na ciência. Nosso intestino possui altíssima concentração de células nervosas, quase exatamente como a estrutura do cérebro. Ambos produzem substâncias psicoativas que afetam o humor, como os neurotransmissores serotonina e dopamina e vários opióides que modulam a dor.

O nosso cérebro abdominal e têm dois objetivos principais:

– Supervisionar o processo de digestão, promovendo o peristaltismo e a secreção dos sucos digestivos para digerir os alimentos, absorção e transporte de nutrientes e eliminação de resíduos.
– Apoiar o sistema imunológico na defesa do organismo.

O intestino libera substâncias químicas como a serotonina, por exemplo, em resposta à nutrição e digestão saudável. Quando comemos bem, com variedade e com uma contribuição proporcional de todos os nutrientes e se temos um almoço saudável (sem pressa, mastigando bem e sem distração) nosso sistema digestivo nos responde e nos agradece com uma sensação de bem-estar, dando-nos um bom suprimento de energia, vitalidade e otimismo. Por outro lado, se por algum motivo a digestão e/ou trânsito intestinal é lento e incompleto estamos acumulando resíduos, o que pode causar uma sobrecarga tóxica ou autointoxicação. Percebam que muitas vezes o bem, ou mal estar emocional pode estar intimamente ligado à qualidade da nossa alimentação. Já existem estudos que mostram que, o jejum superior a seis horas pode desenvolver quadros depressivos causados exatamente pela interrupção do funcionamento adequado do nosso sistema gastrointestinal.

São muito comuns os casos de diarreia e constipação que estão ligados a fatores emocionais. A Síndrome do Intestino Irritável, por exemplo, é uma doença crônica que afeta o intestino grosso, cuja causa ainda é desconhecida e tem sido tratada com Terapia Cognitivo Comportamental associada ao tratamento médico. Os sintomas são cólicas, gases associados à diarreia ou constipação. O quadro está intimamente ligado ao estresse e/ou à ansiedade.

Ao digerir os alimentos e as emoções, nosso intestino e nosso cérebro estão exercendo funções correlacionadas. Ansiedade e diarreia podem estar intimamente ligadas. Quem nunca teve uma dor de barriga diante de um evento amedrontador? Contrário a isso, a constipação parece estar sempre ligada aos indivíduos depressivos, que travam o extravasamento das suas emoções. Ao cuidar bem desse órgão tão representativo em nosso corpo, estamos garantindo u fluxo necessário para o bem estar. Ao perceber alguns dos sintomas descritos, procure imediatamente um gastro.

Palhaços devolvem sorrisos a crianças refugiadas na Grécia

Palhaços devolvem sorrisos a crianças refugiadas na Grécia

Por Marcela Bianco e Josie Conti

É difícil dimensionar a profundidade das marcas que uma criança pode desenvolver depois de ter que sair fugida de seu país e atravessar um oceano enfrentando todos os tipos de dificuldades físicas e emocionais. O medo, a fome e o contato com a morte são apenas alguns exemplos do que os pequenos têm que lidar num momento em que deveriam estar protegidos, em que seus pequenos corpos ainda carregam os maiores sonhos.

Para aliviar essa tensão e devolver sorrisos a alguns desses rostinhos tão jovens, um grupo de palhaços vem desenvolvendo um trabalho de valor humanitário tão elevado quanto qualquer acolhimento e doação: eles devolvem sorrisos e brilho aos olhos de crianças que, há dias e até semanas, não se lembravam mais do que era a alegria.

Trapalhadas, nariz vermelho e cores e lá estão as crianças correndo em busca de encanto.

Em entrevista, uma das responsáveis pelo projeto que acontece na ilha grega de Lesbos fala com entusiasmo e emoção sobre o processo de retomada da infância que os pequenos encontram ao se deparar com as brincadeiras. Em alguns momentos, a passagem de um helicóptero os assusta, pois relembram dos perigos que ficaram para trás. Quando isso ocorre, ela diz aos pequenos que está tudo bem e que a brincadeira pode continuar. Uma mensagem de tranquilidade que traz para as crianças um novo padrão mental em que elas podem registrar uma informação diferente da mensagem traumática que carregam na memória.

Sabemos que muitos desafios ainda estão por vir, mas desejamos que essas vidas continuem sendo brincadas com pessoas que sabem que sorriso é alimento para sonhar e, enquanto houver sonho, vale a pena lutar pela vida.

Abaixo, o vídeo com a entrevista em inglês feita pela TV Aljazeera.

Universitário tem o muro pichado com xingamento, mas dá resposta vitoriosa

Universitário tem o muro pichado com xingamento, mas dá resposta vitoriosa

Ele é Ramon Habitsenther, 21 anos. Como tantos outros jovens LGBTs no país, convive com a violência homofóbica física e psicológica desde a infância. Mas, na última quarta-feira, uma pessoa ou um grupo de pessoas tentou expor ele e sua família à humilhação pública. O jovem morador de Volta Redonda, no Sul Fluminense, teve o muro da casa pichado com a palavra ‘Bichona’.

Contudo, o tiro, destes que agem sempre na escuridão, saiu pela culatra. Ramon publicou uma resposta vitoriosa no Facebook, que conquistou o apoio de mais de 4 mil e quinhentas pessoas na rede social até a madrugada desta segunda-feira. E para os homofóbicos, fica a dica: ele não tem vergonha de ser quem é: gay e afeminado. “Sou uma bichona de marca maior!”.

Abaixo, na íntegra a resposta primorosa do estudante e, mais abaixo, a conversa do BLOG LGBT com ele:

“Nunca fui de me abalar com o comentário das pessoas em relação a minha orientação sexual, eu cresci ouvindo e vivendo coisas das piores espécies que qualquer ser humano pode ouvir por simplesmente ser quem eu era.

Minha memória mais antiga é de quando eu tinha por volta de 8 anos e queria jogar queimada com as garotas e não futebol com os meninos, só que nesse dia estava faltando um garoto para completar o time do futebol dos machos da escola. Eu nunca gostei de brincar de bola, carrinho ou soltar pipa. Inclusive quem levantava minhas pipas era minha amiguinha que morava na casa lado porque ela fazia isso muito melhor que eu. Mas voltando ao acontecido da escola, estava faltando um garoto para completar o time, eu continuei a jogar queimada e o time deles acabou ficando desfalcado e não conseguiram jogar a partida que queriam.

Segui meu dia normalmente como bom aluno que era, sem me importar muito com ameaças e piadinhas que ouvia a todo instante e de todos os lados.

O sinal para ir pra casa bate, como eu morava e moro na mesma rua da escola que estudava, caminhava sozinho até minha casa todos os dias. Mas nesse dia eu não fui sozinho, aquele grupo de garotos me acompanhou, chegando próximo a um terreno vazio que ficava logo depois da escola, fui empurrado para dentro dele e então, bom, eu apanhei nesse dia porque eu não quis participar do futebol, porque segundo eles eu era menininha, eu era “Ramona” e não merecia ir pra casa sem passar por aquilo.

Mas qual é? Eu só estava sendo eu mesmo, eu simplesmente não sabia ser de outro jeito, EU ESTAVA SENDO O QUE EU ERA. Minha mãe e meu pai sempre me criaram como um garoto, me davam bolas, carrinhos e skates, porém eu sempre me interessava mais pelas bonecas e sapatos da minha irmã, sempre foi natural isso pra mim. E por quê não seria? Por quê seria errado eu gostar daquilo que pra mim era muito mais legal? Bom, essas perguntas eu me fiz a vida inteira. Até não precisar mais fazê-las, até que eu me compreendi, me entendi, me aceitei, me amei e senti muito por aquelas pessoas sentirem tão pouco.

Eu nasci, cresci e vivo no mesmo bairro de sempre, dos insultos, das humilhações, da surra, das palavras ríspidas. Só que de tanto ouvi-las elas pararam de fazer sentido, não me afetam mais, não me magoam, simplesmente porque estou seguro de quem eu sou e do que eu acredito!
Quando a coisa é comigo, eu simplesmente ignoro e deixo pra lá, porém dessa vez foram além e expuseram toda minha família, família maravilhosa por sinal, que me respeita e me ama acima de qualquer coisa! Simplesmente sujaram, estragaram algo que meu pai trabalhou a vida inteira para conseguir. E pra que? Em nome de quem? Pra me ferir? Não conseguiram.

Sou uma bichona de marca maior e não me envergonho nem um pouco disso, nunca vou fingir ser algo que não sou para ser aceito e jamais vou parar de compartilhar e expor minhas idéias para que pessoas como essas pensem que “está tudo bem, só não pode ser gay perto de mim”. SIM, NÓS EXISTIMOS E PERSISTIMOS! Não vou me calar em relação a isso e a nada mais. E a essas pessoas eu dou todo amor que tem dentro de mim e que faltam nelas.

O AMOR É LIVRE!! “

A conversa com Ramon surpreende ao revelar um rapaz tranquilo, que não altera o tom de voz em nenhum momento, mesmo para falar das violências homofóbicas que vem sofrendo desde a infância. Seguro de si, inteligente e articulado, o estudante planeja um grande salto na vida: tornar-se drag queen. Com essa segurança demonstrada na entrevista, o BLOG LGBT aposta que ele vai arrasar!

BLOG LGBT: Qual foi a sua primeira reação ao ver o muro da casa da sua família pichado com uma ofensa contra você

Ramon: Eu não acreditei. Fiquei muito chocado. Ainda tive que ouvir do meu pai que a culpa era minha por me expor tanto. Meu pai aceita bem minha sexualidade, mas ele é muito heteronormativo. Acha que para ser gay não pode ser afeminado. Minha mãe brigou com ele quando ele disse que a culpa era minha.

contioutra.com - Universitário tem o muro pichado com xingamento, mas dá resposta vitoriosa
“Ser uma bichona é sensacional”, lacra na afirmação o estudante universitário

BLOG LGBT: E o que te motivou a fazer a postagem no Facebook?

Ramon – A publicação foi um desabafo. Foram anos e anos de situações acumuladas. E a pichação foi a gota d’água para eu não ser mais tão passivo diante do que eu vinha passando. Eu queria que as pessoas do meu bairro, que sempre me provocaram, vissem que eu não estou nem aí. Não tem problema nenhum ser uma bichona, ser uma bichona é sensacional! As pessoas são diferentes e que bom que as pessoas são diferentes.

BLOG LGBT: Quando você ouviu de seu pai que “a culpa era sua”, deve ter doído, não?

Ramon: Minha relação com meu pai sempre foi delicada. Não por conta da minha orientação sexual, que ele aceita numa boa. Só que ele ainda é heteronormativo, no sentido de achar que um homem tem de ser um super-homem, não pode ser afeminado. Eu gosto de ser como eu sou. Tenho trejeitos e não me incomodo com isso. O que me chateou foi ele achar que eu preciso me esconder, foi achar que eu preciso ser uma pessoa que eu não sou para que as pessoas não sejam homofóbicas. Essa lógica é mesma que tenta justificar que a culpa de uma mulher ser estuprada é o fato de usar roupas curtas na rua. Isso me magoou.

BLOG LGBT: Passados alguns dias, que conclusão você tirou de tudo isso? Passar por esse episódio te deixou abalado ou, pelo contrário, mais forte?

Ramon: Eu não estou mais forte, nem abalado. Estou tranquilo como sempre estive. Foram anos e anos passando por provocações para eu me abalar com aquilo. As pessoas que fizeram a pichação são vazias ou até mesmo frustradas com elas mesmas e tentaram compensar essa frustração em uma pessoa que aparentemente para elas seria frágil. Porque para muitas pessoas uma pessoa afeminada é frágil. Eu posso ser frágil fisicamente. Se eu entrar numa luta corporal com alguém, eu vou perder com certeza. Mas mentalmente eu sou uma das pessoas mais fortes que eu mesmo conheço. Poucas coisas me tiram do sério. Para mim, foi apenas mais um dia. Está tudo sob controle.

BLOG LGBT: Na publicação no Facebook, você descreveu alguns dos casos de homofobia que vem enfrentando desde a infância. Mesmo assim, você parece ser uma pessoa bem tranquila. Por esta conversa, não parece se ruma pessoa amargurada, ou rancorosa, ou com raiva. De onde vem essa paz e segurança?

Ramon: Essa força que eu tenho, acho que vem muito por conta da minha mãe. Desde pequeno, quando alguém fazia algum comentário referente ao meu jeito, minha mãe sempre dizia: Ramon, não se importa com isso. Você é uma pessoa muito boa, uma pessoa iluminada. Sempre me mostrou que eu não estava errado em ser assim. Ela mesmo me ajudava a brincar com as bonecas da minha irmã. Ela sempre me mostrou que não errado. Tudo o que eu sofria na rua, em casa era amenizado. Acho que, por isso, o apoio da família seja tão importante para pessoas LGBTs. O que elas sofrem na rua pode ser amenizado dentro de casa. Eu tenho essa certeza que eu sou essa pessoa, segura, tranquila, por causa da minha mãe.

BLOG LGBT: E para a gente fechar. O que você quer para o seu futuro?

Ramon: Para o meu futuro eu quero dinheiro, eu quero homens.. brincadeira… eu quero ser uma drag queen bem legal. E que essas coisas que aconteceram comigo até hoje diminuam até o dia que não aconteça com mais ninguém.

Fonte indicada: O Dia

Matéria indicada pela página parceira Psique em Equilibrio

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