Globalizado mundo das diásporas

Globalizado mundo das diásporas

Thoreau disse, no século dezenove: “Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos”. Passados quase duzentos anos, ainda continuamos sendo preconceituosos, de tal modo que esse tarde parece estar ficando longe demais. Nós, contemporâneos, achamo-nos muito evoluídos em relação aos nossos antepassados, como se esta época fosse melhor do que outras. Mas a verdade é que não. Não somos melhores e diria que, dadas certas circunstâncias, somos até piores.

Antes de continuar, é preciso esclarecer que não há saudosismo, cada período histórico tem suas vicissitudes. No entanto, nunca houve, na história, condições para uma sociedade mais justa e igualitária e é justamente quando existem essas ferramentas que vemos mais desigualdade e discriminação. Parece que estamos anestesiados, de modo que não percebemos o mal que fazemos a outros seres humanos iguais a nós.

Como pode um ser humano querer subjugar outro apenas pela sua cor de pele? Ah! Lembrei-me. O ser humano é capaz de destroçar outro tão somente para sentir-se melhor em sua vida miserável. A tolice de certos homens realmente é lastimável, pois a sua vida, na verdade, em nada melhora atingindo-se negativamente outro ser humano que também chora e tem emoções. Será que o caminho inverso, com carinho e um tratamento fraterno, não faria a vida de todos melhor? Ou será que existem homens acima do bem e do mal, os quais jamais podem sair da sua condição divina?

Lenio Streck diz, em sua Hermenêutica Jurídica em Crise, que – “[…] ex-escravos continuam pobres, pobres não tem direito e são demais”. Aqui se encontra outra raiz do ódio: o preconceito social. Na sociedade de consumo, aqueles que não podem consumir não existem. Ou seja, não possuem valor algum e, assim, devem ser tratados como tal, um lixo da sociedade. Desse modo, o negro que deixou de ser escravo, mas foi jogado na sarjeta, não pode hoje ser outra coisa que não uma peça fora da engrenagem. Todavia, numa engrenagem que funciona dessa forma, é melhor mesmo ser uma peça avulsa.

O grande problema é que, nem como peça avulsa, os preconceituosos são capazes de demonstrar respeito. Em suas conversinhas “sofisticadas”, sempre tratam de falar mal da classe “suja”. E não adianta gritar e pedir socorro à Carta Magna, pois os direitos existem, mas somente para quem tem meios (leia-se dinheiro) para buscá-los. Outra coisa, não pensem que ser “branco” é o suficiente para fazer parte do banquete real. Se se é pobre, automaticamente se torna negro e, portanto, incapaz de ser digno de respeito e amor. Pergunto-me o quão óbvio é chamar um homem branco de negro, afinal, somos brasileiros, frutos de miscigenações, além do que ser descendente de um negro, que foi escravo e honesto, é muito mais digno que ser descendente de um europeu preconceituoso, desonesto e desumano.

Por falar no velho mundo, como não se lembrar dos migrantes sírios? E do menino Alan?  E na tragédia parisiense? Tudo por política, religião, poder? Sim. Poderia jogar tudo isso num caldeirão e acrescentar doses de preconceito, fundamentalismo e etnocentrismo. Ninguém é melhor por acreditar nesta ou naquela religião, neste ou naquele deus ou, simplesmente, não acreditar. Tampouco, por ser deste ou daquele lugar do mundo, por ser do norte ou do sul. Entretanto, o ser humano parece continuar desprovido da capacidade de entender o que significa a palavra difusão cultural e olhar o outro não como melhor ou pior, mas apenas como diferente. Lembrando Saramago, parece que ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele chamada egoísmo.

Egoísmo é o que melhor define aqueles que querem impor suas cosmovisões para os outros. Ser gay ou não ser gay? Eis a questão? Não, esqueçam as interrogações. Cada uma faz da sua vida o que quer. Achar errado, tudo bem, há esse direito, desde que não seja desrespeitoso. Da mesma maneira, o indivíduo que é gay não precisa/deve se esconder por isso. Tenho a impressão de que certas pessoas acham que, se dois homens andarem de mãos dadas no shopping, automaticamente se desencadeará a terceira guerra mundial. Diria que lhes falta um pouco de leitura histórica. Mas, também, em que muda um homem ser evangélico, por exemplo, e ser convicto de que o homossexualismo é errado/pecado (pleonasmo?)? Nada. Se ambos os posicionamentos se respeitarem, ótimo, a humanidade inteira nunca pensará igual. O importante é que sejamos capazes de conviver de forma pacífica e permitamos o outro próximo de nós, ainda que tenhamos visões de mundo distintas.

As análises dos preconceitos supracitados, de forma totalmente superficial, não visam esclarecer tais pontos ou ir mais a fundo, mas apenas mostrar o quão distantes estamos do tarde de que Thoreau falara. Mais que isso, estamos distantes e com um discurso oposto, encharcado de globalização, de aproximação e de uma rede infinita de amigos. Todavia, somente um cego alienado não enxerga o quão falso é esse discurso. Mas, como sou apenas um e não estou entre os poderosos, o discurso dominante ainda falará de forma até lírica, diria, sobre a grandiosa e bela globalização que aproxima o mundo. E eu, respeitando a minha insignificância, continuarei vivendo, como diz Bauman, no globalizado mundo das diásporas.

Amar, Modo de Usar

Amar, Modo de Usar

Ame quem te engrandece nas pequenas rotinas, quem junta seus pedaços num abraço após um dia feio, quem te acha linda em cacos, linda de qualquer jeito. Ame quem te protege sem dizer uma palavra, quem divide contigo os medos, mas também as conquistas. Ame quem te sonha por inteiro.

Ame quem te encanta nas tarefas mais involuntárias, nas piadas mais antigas, nas horas mais vagas, nos silêncios ocasionais em que verdadeiramente se escuta o outro sendo ele. Ame quem te ama em pensamento, quem diz seu nome sorrindo, quem guarda teu tempo, quem respeita teu ritmo, quem adora te ver dormir, mas nunca vai confessar.

Ame quem te abre o peito como duas asas, quem te liberta com um afago, quem te impulsiona, segurando firme as suas mãos. Ame quem te admira, mas ainda é franco diante de suas falhas, ame quem também é verdadeiro sobre seus próprios defeitos. Ame quem também adora aprender contigo, lendo tuas linhas como um sábio se debruça sobre um antigo livro raro.

Ame quem é cúmplice dos seus olhos, testemunha dos seus sonhos, quem precisa de bem pouco pra te encantar. Ame quem te espera em ansiedade, quem elogia seu cheiro mais do que sua aparência. Ame quem tem a ciência de fazer seus dentes rirem por motivo torpe, por motivo bobo, por motivo nenhum. Ame quem é cúmplice de sua preguiça, companheiro de suas andanças, quem prefere estar contigo.

Ama, ame sem medo que o amor é a luz que revela a coragem nos dias mais turvos, a candura nos caminhos mais áridos, a confiança que estava escondida, a verdade que permaneceu oculta, a alegria que parecia bem pouca e agora inunda.

Ama e ama sem medo nenhum. O amor encarrega-se do resto, busca o sentido, entrega os motivos, guarda o consolo, assopra as feridas. Ama, que nós só somos memória quando contados e repetidos pelos lábios tranquilos de alguém que também nos amou.

Mentir é enganar a si próprio

Mentir é enganar a si próprio

Vivemos num mundo de aparências, no qual tentamos vender imagens, com o propósito de passarmos a impressão de que oferecemos tudo aquilo de que o outro necessita, seja no mercado de trabalho, na vida amorosa, nos encontros entre amigos, familiares, seja nas redes sociais. Vestimos roupas e máscaras, usamos este ou aquele linguajar, elogiamos ou denegrimos, somos favoráveis ou opositores, de acordo com a ocasião, de acordo com os interesses e intenções previamente planejados, para que mantenhamos nosso emprego, nosso casamento, nossas amizades, ou nosso twitter politicamente correto. Nesse compasso, muitas vezes vamos tentando agradar a todo mundo – vã utopia -, a despeito do que somos, desejamos, queremos ou pensamos. Torna-se cada vez mais difícil, aliás, sermos nós mesmos, uma vez que quase ninguém tem a capacidade de tolerar pensamentos diferentes. Somos agredidos e ridicularizados, caso contrariemos os pontos de vista alheios – pois é, o bullying permanece pela vida adulta.

Hoje, estamos cada vez mais expostos, por conta do mundo virtual, e aquele que ousa ser ele mesmo muitas vezes paga um preço muito alto, que lhe custa julgamentos avassaladores por parte da sociedade. Reerguer-se, nesses casos, é doloroso e impossível para alguns, o que desencoraja a maioria a lançar-se nessa batalha corajosa e vital de autoafirmação e de posicionamento transparente frente ao mundo. É impossível, entretanto, viver uma personagem por muito tempo, sem sucumbir ao peso de tudo o que foi reprimido nesse caminho. A verdade pulsa, clama por se revelar, pois dela depende nossa sobrevivência, nossa saúde, nossa qualidade de vida. Quanto mais sufocamos aqui dentro o que lateja e luta para sair, mais adoecemos, mais nos machucamos e menos nos entregamos aos encontros verdadeiros – aqueles que limpam nossa alma e clareiam nossa semeadura -, afastando-nos de quem nos aceita no que – e pelo que – somos.

Precisamos primeiramente ser sinceros conosco, construindo e elaborando nossas crenças e pontos de vista, de forma que nos fortaleçam e nos tornem mais gente, mais humanos, capazes de atingirmos positivamente a vida dos outros com nossas verdades. Porque, caso nos posicionemos de maneira arrogante, visando apenas a propósitos egoístas, estaremos centrados em afirmações unidirecionais, vazias de sentido. Atravessar nossa lida de forma solitária poderá até nos encher a conta bancária, mas não nos enriquecerá de sentidos, da materialidade sustentadora de nossa essência – e nos perderemos junto com ela. Temos que ser em conjunto, somando, dividindo e compartilhando, pois assim cresceremos, pois assim seremos a lembrança estampada nos sorrisos de quem amamos em vida, quando nos formos.

Imprescindível, para tanto, ouvir o que o outro tem a dizer, por mais que discordemos daquilo, pois mudar de opinião refletidamente também é sinal de inteligência, ou mesmo questão de sobrevivência. É preciso que saibamos nos libertar de convicções que machucam e ferem a dignidade alheia, para que o raio de nossas ações não se torne ensurdecedor, a ponto de ficarmos cegos frente aos sentimentos que não são nossos e perdidos, sozinhos, num caminhar que nos subtrai, nos endurece e nos distancia de tudo o que a vida tem a nos oferecer. Como se diz, afinal, ninguém é uma ilha.

Uma coisa é certa: a sinceridade absoluta não existe, pois ela acabaria nos sendo tão nociva quanto a falsidade. Devemos, portanto, ser verdadeiros em relação àquilo que nos impele a lutar pelo que queremos de forma ética, que nos sustenta durante os naufrágios emocionais, que nos torna capazes de recomeçar, de acreditar, de apoiar, que nos força a enfrentar corajosamente as injustiças ao nosso redor e os fantasmas dentro de nós. Somente a sinceridade nos deixa prontos para amar e ser amados, para compartilhamos nossas vidas e experenciarmos o prazer e a felicidade a que todos temos direito. Porque as mentiras são como os muros: elas poderão de início até nos proteger, mas inevitavelmente também nos isolarão, inclusive de nós mesmos, a ponto de não mais nos reconhecermos. Infelizmente, afastar-se de si mesmo implica afastar-se de todas as chances de ser e de fazer alguém feliz – e isso ninguém deveria merecer em vida.

Status de relacionamento: Em um tórrido caso de amor literário

Status de relacionamento: Em um tórrido caso de amor literário

Livros em estantes me lembram desejos. São como encantos que precisam ser dedilhados para que realizem suas primorosas magias.

Uma estante de um hotel resguardado por um bosque, uma prateleira na casa de um amigo, uma livraria ou sebo, uma biblioteca grande ou diminuta são espaços encantados, repletos de poções ao alcance de nossas mãos.

Quando livros se apinham em nossa frente é válido que apuremos nossa percepção, e assim notaremos, surpresos, seus melodiosos chamados.

Livros desejam. Querem ser possuídos, clamam por serem escolhidos, tomados, folheados. Querem que grifemos neles nossas passagens preferidas. Livros amam confluir conosco, como se fizessem amor com nossos pensamentos.

Que me perdoem os sex shops da vida, mas o desejo mora ao lado. O desejo se esconde primoroso nas páginas que dedilhamos. Que me perdoem os amantes das performances sexuais, mas não só elas garantem que o coração dispare. Um bom livro também.

O cheiro de um livro em uma longa tragada é entorpecedor. A textura de um livro já lido inúmeras vezes guarda não só enredos, mas histórias daqueles que em algum momento estiveram no mesmo ponto que nós. Livros guardam marcas de deleite. E ao encontrarmos ranhuras de outro em uma página, encontramos um indício de que ali deitou um caso de amor. Uma ranhura é como a grama amassada pelo deleite quase sexual do intelecto.

Quanta excitação mora em um reduto de leitura! Quando passamos por suas portas, nos gritam vozes por todos os lados. Quantas pessoas estão ali adormecidas por trás de numerosas páginas: personagens e escritores! Quais deles despertaremos com nossa leitura? Cabe a nós essa difícil decisão. Malfeitores ou benfeitores, vilões ou mocinhos, bem e mal-intencionados, existe de tudo dentro de uma livraria, existe de tudo em um sebo ou em uma prateleira amiga. Nos convém escolher cuidadosos qual companhia tomar.

Livros são autores e personagens, livros são escolhas, livros são pensamentos, amores e dores e livros são falantes. Eles adoram comentar nossas preferências para os outros. Livros gostam de falar e falam não só deles, mas também de nós. Livros falam de sonhos e de desejos enrustidos. Falam da vida e do que nos falta nela. Podem nos encorajar ou nos acovardar. São como espadas ou escudos, depende apenas de nós.

Livros são despudoradamente deliciosos e não se importam se fazemos com eles um ménage literário, desde que nos mantenhamos, é claro, fieis ao propósito de lê-los do começo ao fim.

Livros se trocam, se mesclam, se transmutam em novas estórias em nós. Livros adoram comentar e serem comentados. Adoram ver seus personagens voando soltos para fora deles.

Livros são pedaços de coisas encantadas, são pedaços de gente, são pedaços de sonhos, são pedaços de mundos. Livros são pedaços que buscam se juntar em nós. São como metades que vasculham a outra dentro da gente. Livros são companheiros para todas as horas, são amigos confiáveis, são amantes fervorosos, são confidentes compreensivos, livros podem ser tudo desde que encontrem no mundo o ingrediente maior de seus desejos: um humano interessado.

Sem nós no livro e sem o livro em nós a mágica não acontece. O livro sempre se dá por inteiro e felizes de nós quando nos jogamos de cabeça em suas páginas.

Leitura é entrega. Leitura é saga de dois que se buscam afoitos. E lá na última página, quando o fim nos entristece ditando o término de um encontro único, o livro nunca se esquece de se despedir carinhoso, como se nos dissesse ao pé do ouvido que nos verá no futuro ainda outra vez.

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(Imagem de capa meramente ilustrativa)

Os 4 pilares dos relacionamentos saudáveis

Os 4 pilares dos relacionamentos saudáveis

Como você definiria uma relação enriquecedora? Não é difícil. Uma relação saudável é aquela onde você encontra razões para rir e que ilumina os seus dias. Ela não é baseada em desconfiança, ciúme ou em ultimatos do tipo tudo ou nada . Um relacionamento enriquecedor é uma aliança entre duas pessoas em que ambas  ganham e ninguém perde.

Ao contrário do que muitos pensam, para manter um compromisso estável não são necessários sacrifícios ou grandes volumes de estudo da psicologia humana. Às vezes, o simples bom senso já nos serve muito bem, e acima de tudo, um desejo sincero de cuidar daqueles que amamos. Relações positivas são uma homenagem ao respeito a nós mesmos e ao outro.

Então vamos aos pilares:

1. Um apego saudável

A maioria das pessoas associa a palavra apego à relação que as crianças estabelecem com os seus pais. São os laços afetivos iniciais que permitem o desenvolvimento do amor e carinho essenciais para que a criança cresça com confiança . Quando falamos da relação de casal a dinâmica é semelhante, pois todos nós precisamos estabelecer uma ligação especial com a pessoa que amamos . Mas cuidado, nem todas as formas de apego são saudáveis ​​na construção de uma relação enriquecedora.

– Relações baseadas na confiança: aqui o casal constrói a confiança mútua. Pessoas maduras não têm que cultivar dúvidas constantes sobre o parceiro (a) porque o laço de afeto e confiança se sobrepõe ao medo de ser enganado, traído ou abandonado.
– Relações ansiosas. Em que são baseadas? Você já pode imaginar: na preocupação constante em ser ferido e no questionamento sobre o amor da outra pessoa. São aquelas relações onde provas de amor são exigidas o tempo todo. Há tentativa constante de controle sobre a outra pessoa.
– Relações distantes: Seria o pólo oposto da relação ansiosa. Nesse caso, a indiferença e o desprezo se destacam e há pouca necessidade de demonstrar afeto para a outra pessoa.

2. Satisfação das necessidades básicas

Há dimensões essenciais que definem relações enriquecedoras, como sermos respeitados e compreendidos pelos nossos parceiros. Receber apoio quando precisamos ou uma palavra de suporte quando estamos preocupados, por exemplo. Aqui falamos daquele abraço que cura tudo ou mesmo daquele olhar de cumplicidade que não requer explicação.

As pessoas têm necessidades e, pensando no relacionamento a dois, é essencial que várias delas sejam satisfeitas para que ele valha a pena. A construção de um casal deve ser definida por um projeto comum onde todos os esforços visem o bem estar de casa um e dos dois como um todo.

3. Capacidade para resolver problemas

A resolução dos problemas do casal sempre passará pelas seguintes etapas:

Compreensão.
Empatia.
Habilidades de comunicação adequadas.
Não se concentrar apenas nos aspectos positivos ou negativos.
Capacidade para propor ideias e aplicar soluções.
Senso de humor.

4. Capacidade de reconstrução

Sabemos que no decorrer da relação ambos os parceiros cometerão erros. Relações positivas são aquelas em que os parceiros são capazes de admitir esses erros e omissões. Entretanto, mais do que identificar o problema, é necessário vontade de adaptação.

Cometer um erro é uma grande oportunidade de aprendizado e conhecimento. Enquanto existir um casal  os conflitos serão necessários para o alinhamento uma vez que cada um deve ter suas próprias vontades e gostos.

Agora, se você realmente ama alguém, você certamente buscará meios para administrar essas diferenças. Após os problemas, a reconstrução da relação sempre deverá ser baseada no interesse dos dois, ora adaptando-se mais para um lado, ora mais para o outro, de maneira que haja progresso dos parceiros sem anulação de nenhum.

E você, como tem cuidado de seus pilares?

Do original:  Los 4 pilares de las relaciones positivas

Doidos, por Ariano Suassuna

Doidos, por Ariano Suassuna

Ariano Suassuna conquistava pessoas por onde passava com sua inteligência, simpatia e excelente humor.

Nesse pequeno vídeo, fala com seu delicioso sotaque paraibano sobre algumas histórias de “loucos”, à sua maneira: simples e despretensioso. Depois, segue discorrendo sobre a sabedoria que identifica nas diferentes percepções de realidade de quem sofre transtornos mentais e compara os “loucos” aos poetas. Termina, então, com excelência, citando o exemplo de um jantar pomposo a que foi convidado quando assumiu a cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Do jantar, nos fornece exemplos que provam que a verdadeira loucura não é do louco e sim daquele que vive uma vida de superficialidade sustentada em aparência, arrogância e ignorância.  Os loucos mesmo, esses sim são sábios!

Aproveitem!

Josie Conti

A arte de ser feliz, Cecília Meireles

A arte de ser feliz, Cecília Meireles

Imagem de Capa: Auriovane D’Ávila

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz. 

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

in “Escolha seu sonho”  de Cecília Meireles

O analfabetismo emocional

O analfabetismo emocional

Por Daniela Ávila Malagoli

Você já ouviu falar em Alexitimia? O termo provém do grego, e significa A = ausência; lei = palavra e thymos = emoção ou sentimento. Mesmo o conceito sendo recente, (Sifneos, 1973), na década de 1940 esse distúrbio já era estudado por neurocientistas e pesquisadores. Trata-se da dificuldade ou mesmo ausência de expressão de sentimentos e emoções; isto é, os alexitímicos não identificam suas emoções e acabam por reagir com sintomas físicos, como dores e taquicardia. A alexitimia constitui, dessa forma, grande dificuldade para usar uma linguagem apropriada para descrever os sentimentos e emoções, além de uma capacidade de imaginação e fantasia pobre.

A alexitimia é mais comum do que parece

Estimativas americanas recentes mostram que, a cada sete pessoas, ao menos uma, em geral, homem, possui sintomas desse transtorno. Reportagem de 2013 sobre o assunto publicada na Revista “Mente Cérebro” mostra que, geralmente, indivíduos com esse distúrbio são mais fechados, racionais, frios e indiferentes. O que acontece é que o indivíduo não sabe lidar com os sentimentos e emoções, assim ocorre um desvio para os sintomas físicos, que se manifestam por meio de dores no estômago, cabeça, dentre outros. Em geral, a pessoa entra em desespero, se perguntando “o que há de errado comigo?”.

Diversas pesquisas têm sido feitas para descobrir a causa da Alexitimia. As descobertas associam o distúrbio a traumas neurológicos, defeitos na formação neurológica, influências sócioculturais, traumas na formação infanto-juvenil, dentre outras causas. Além disso, existem vários métodos para identificar e medir esse distúrbio, dos quais o mais utilizado é a Escala de Alexitimia de Toronto, com 20 questões específicas.

Pesquisas buscam entender como o cérebro processa as emoções

Outros estudos têm se dedicado a descobrir de que maneira as emoções são processadas no cérebro. Em termos gerais, “para um sentimento ser percebido de forma consciente, primeiro é preciso que o córtex frontal (lobo frontal) analise as informações enviadas pelo sistema límbico” (Reportagem da Revista Mente Cérebro).

Estudos do Instituto Mutualiste Montsouris também demonstraram que os dois hemisférios cerebrais de pacientes com esse transtorno trabalham de maneira precária. Por meio de exames de ressonância magnética, realizados em 16 pacientes (oito pessoas de controle e 8 com sintomas do distúrbio), foi observado que a região do giro do cíngulo anterior (pertencente ao sistema límbico) trabalhava de maneira mais intensa do que a mesma região em pessoas sadias, quando submetidos a imagens positivas. Quanto àquelas negativas, não houve alterações na região cerebral dos alexitímicos.

Há hipóteses que sugerem que as sinapses neuronais são construídas e passam por diversas modificações: são moldadas, atenuadas, podadas, aguçadas, de acordo com as experiências cotidianas, de modo a construir os processos de identificação e reação ao mundo exterior. Assim, várias dessas conexões, segundo pesquisas, precisam ser aprendidas na infância, para que se desenvolva uma vida adulta normal, do ponto de vista emocional.

A alexitimia pode estar ligada a outras doenças

A alexitimia também pode estar ligada, conforme estudos, a outras doenças, como câncer, hipertensão e doenças psicossomáticas. Além disso, os alexitímicos também estão associados a pessoas com transtornos de personalidade e vícios como alcoolismo, uso abusivo de drogas e desordens alimentares.

Pesquisas à parte, fato é que a descoberta dos sentimentos e emoções faz parte de um processo de aprendizagem, por meio de aparatos cerebrais, desenvolvido pelo ser humano desde o momento do seu nascimento. O caminho para o controle e a possível cura da Alexitimia é a busca por um especialista, para que seja feita uma análise e um treinamento emocional do indivíduo.

Fonte indicada: Meu cérebro

Na cozinha com Marlena de Blasi

Na cozinha com Marlena de Blasi
Ontem levei Marlena comigo para a cozinha. Não que eu a tivesse convidado, mas ela veio livre e espontânea. Arregaçou as mangas e me perguntou sobre os temperos. Temperos? Oh Deus, tenho essa mistura pronta de salsinha, coentro, alho e pimenta.

Serve! Ela abriu a geladeira, retirou de um pote três fatias gordas de filé mignon e me pediu uma tábua e um martelo. Ela se pôs então a bater determinada os pedaços de carne que de gordos nacos se transformaram em delicadas fatias repletas de ondulações sedentas por tempero.

E o arroz, que tal colocarmos um pouco de cenoura ralada para dar mais cor e sabor? – perguntou. Seria ótimo, respondi sorrindo, já tomando de sua mão a cebola e o alho, picando-os com a faca que nem de longe era a mais apropriada para isso.

Deixe a cenoura comigo e não se incomode com a faca, faça com amor, do seu jeito, da forma que achar mais cômodo. No seu tempo.

Geralmente o tempo na cozinha para mim sempre parece deveras apressado. Mas ontem não era eu na cozinha, era Marlena. Existia uma calma imensurável em mim a qual não disponho comumente para cozinhar e eu me lembrei então que tenho tido como companhia o livro “Mil Dias Na Toscana” escrito por ela.

Marlena de Blasi é uma americana que aos cinquenta anos, ao passear por Veneza, tocou intimamente o coração de um homem. Ele se apaixonou por ela à primeira vista, mesmo sem saber quem essa mulher era e de onde vinha.

Divorciada, mãe de dois filhos adultos e uma amante da cozinha, Marlena sempre que podia viajava para Veneza para escrever sobre culinária para algumas revistas e foi em um desses retornos que o italiano a viu pela segunda vez em um restaurante.

Sem coragem de se apresentar e sem falar inglês, ele telefonou para o estabelecimento e pediu para falar com ela. Nenhum dos dois entendeu muito bem o que o outro dizia, mas…existe uma língua específica para as palavras do coração?

Resumidamente, eles se apaixonaram, ela se mudou para Veneza e passou a contar sobre o amor, a Itália e a comida em uma sequência de romances autobiográficos: Mil Dias em Veneza, Mil Dias na Toscana, Um Certo Verão na Sicília e A Doce Vida na Úmbria.

Cada livro é como um diário no qual uma suave voz feminina destrincha a vida e suas belezas cotidianas com a sutileza de uma fada. E para quem gosta de receitas, ela ensina alguns pratos entre uma confissão e outra.

E eu fui encantada por essa doce mulher, por suas pequenas descobertas e grandes lições de vida. Fui encantada a ponto de enxergar ela em mim. Acho que é isso que acontece quando lemos um bom livro. Enxergamos a vida como se aquele que escreve tivesse um farol nas mãos a nos apontar exatamente para onde olhar.

Se eu pudesse dizer uma boa palavra a um amigo, diria para escolher com carinho seus escritores. Diria para puxá-los pela mão como companheiros, pois eles inevitavelmente nos habitam quando passeamos por seus enredos.

A janta de ontem ficou deveras saborosa. Ela tinha muito de um ingrediente especial, ela tinha muito de uma mulher marcante, ela tinha muito de Marlena.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna

( Imagem de capa meramente ilustrativa)

 

Canto honesto para a alegria da gente.

Canto honesto para a alegria da gente.

Ah… gente amiga. E eu lá sei explicar? Não sei como acontece. Sei lá de onde vem, não desconfio como chega. É um mistério. Por que vem? Boa pergunta. Eu não sei. Só tenho a impressão de que chega na hora certa, chega para nos salvar.

É. Quando a linha do trem parece embaralhar com outras vias, o caminho se torna incerto e o desastre se faz inevitável, ele chega dizendo “alto lá!”. E quando o vazio se mostra insuportável e obtuso, lá vem ele a preencher todo espaço sem nada, sem mais. Ele vem que vem. Chega chegando.

Sorte nossa. Para fortuna dos nossos dias, quando duas pessoas desconhecidas, paradas no trânsito, trocam um inexplicável olhar de ternura por dois segundos para em seguida partirem acelerando rumo a destinos diferentes, com a certeza de nunca mais se encontrarem, ele está lá. Montado num instante de eternidade, sorrindo ensolarado.

Ele vem, acredite. Mas não espere, não. Deixe estar. Vá viver que na hora certa ele chega. Ele chega pra todo mundo. Até para aqueles que insistem no ofício maldito de entristecer os outros, investidores da estupidez, da grosseria e da maldade nas bolsas de desvalores. Chega derrubando velhos muros de pintura descascada, libertando toda gente dos pregões que nos colam à parede feito moscas cinzas de pesar.

Quando ele vier, não estranhe, gente amiga. Não estranhe se encontrar nas ruas uma multidão de pessoas sorrindo livres. Porque sorrir, ah… sorrir é um exercício de liberdade. Sorrir sem cordas nem freios nem farsas. Sorrir solto apenas, como aquela gente que ainda toma sorvete depois do almoço, voltando para o trabalho, sorrindo honestamente. Essa gente que economiza dinheiro e energia para as férias, que faz um filho pelo prazer imenso de criar pessoa nova para um mundo que precisa tanto ser melhor. Gente que não guarda só os dias santos, mas vive cada santo dia na maior fé de que pode fazer as coisas melhorarem. Gente que levanta da cama à noite para conferir se passou as chaves na porta. Gente. Gente.

Viu ali? Na festa do rabo agitado do cachorro? É ele. É ele que está chegando. Esse velho e imprevisível sentimento de alegria que nos arrebata, nos toma pela mão e nos leva para a vida. Não sei como acontece. Sei lá de onde vem. Mas ele veio de novo, veio numa esperança. Veio na brisa fresca do encantamento. Chegou para nos salvar. Vai, gente amiga. Aproveite, aproveite que a vida é a maior alegria da gente.

Para que servem as lágrimas

Para que servem as lágrimas

O choro é como a chuva: necessário, purificador, catártico. Chorar é manifestação legítima de sentimentos dolorosos ou não. Há quem chore de alegria, de raiva, de cansaço, de solidão, inclusive de tristeza. Talvez seja a nossa alma que, diante da inexistência de palavras para expressar o que sente, torna-se líquida. Escoa. Verte. Vaza pelos olhos o que a boca não foi capaz de traduzir.

Analisando o aspecto fisiológico, descobrimos que as lágrimas comovidas são praticamente as mesmas que derramamos quando estamos cortando uma cebola e ficamos com os olhos irritados. Elas não passam de gotinhas produzidas pela glândula lacrimal e formadas por três camadas: uma película de gordura, mais externa, envolvendo o recheio de água, que fica sobre um filete de muco. São assim também as lágrimas lubrificantes ou basais, que servem para umedecer, nutrir e limpar a córnea. Mas há alguma diferença entre as lágrimas com função lubrificante, as que surgem como reflexo a um cisco, e as lágrimas emocionais, como as derramadas por nós em situações de emoção extrema?

Sim! Estudiosos de Antropologia acreditam que os nossos ancestrais aprenderam a chorar como recurso de comunicação. A partir do esgotamento das diferentes expressões faciais, precisaram encontrar um meio de atingir os semelhantes com as suas mensagens, seus pedidos de socorro. Portanto, quando os olhares e as caretas falharam, foi preciso aprender a chorar. A diferença entre as lágrimas basais, as reflexas e as emocionais é que essas últimas não trazem nenhum benefício à córnea ou à superfície ocular. Chorar é apenas um recurso mímico para expressar o que sentimos, em especial, a nossa dor.

O choro como forma de pedir ajuda, pode ter surgido como complemento ao desenvolvimento da linguagem. No entanto, o choro de doação ou de ajuda, que requer estados psíquicos mais evoluídos e, sobretudo, empatia – a faculdade mental e emocional de se colocar no lugar do outro, surgiu milhares de anos depois. É impressionante como a nossa história evolutiva confirma a nossa pouca capacidade de olhar pra fora de nós. Todos os nossos movimentos de evolução ocorrem em função de necessidades individuais. Somos egoístas por natureza!

Estudos realizados na Universidade de Alcalá, em Madri, voltados para a ocorrência do choro entre jovens universitários do Curso de Medicina, revelaram que garotas e garotos, entre 20 e 25 anos choram pelos mais variados motivos que vão desde uma briga com o parceiro, até a exaustão diante de uma rotina intensa de estudos. Os garotos confessaram fazê-lo quase sempre em particular, enquanto as garotas garantiram ser mais reconfortante chorar em companhia de alguém com quem se tenha proximidade afetiva. O mesmo estudo revelou que chora-se mais às sextas-feiras e aos sábados, porque são os dias em que as relações interpessoais se intensificam. Chorar também é mais comum à noite, quando as pessoas saem do trabalho, encontram a família, veem os parceiros e mergulham em sua vida pessoal.contioutra.com - Para que servem as lágrimas

As lágrimas são um poderoso instrumento de comunicação com os outros. Até mesmo aquele choro reservado para acontecer debaixo do chuveiro, quando na solidão damos vazão ao nosso sofrimento, serve para comunicar a si mesmo a existência de um limite. Até mesmo o choro silencioso, de lágrimas educadinhas que correm pela face sem que ninguém as perceba, é uma forma de traduzir em reação corporal uma situação que já não se pode conter. Até mesmo o choro engolido e adiado, é uma confirmação da nossa capacidade de contenção, enfrentamento e resiliência.

Choram os bebês para manifestar sua necessidade de alimento, água, higiene ou companhia. Choram os idosos, presos em suas camas, vítimas das limitações que a idade avançada pode trazer. Choram as crianças, porque levaram um tombo, porque brigaram com os colegas, porque não receberam atenção suficiente pelos adultos, ou simplesmente porque querem chamar a atenção. Choram os jovens, pela ansiedade de alcançar tudo em tempo recorde, com o mínimo esforço possível. Choram os casais recém-ligados diante do altar, choram os que se veem diante do amor desfeito. O choro é lícito, adequado e democrático; é necessário chorar quando não há mais nada a se fazer, a não ser deixar que as lágrimas ganhem a liberdade do peito e escorram por aí.

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O choro é, inclusive, terapêutico. Muitos distúrbios psicossomáticos e episódios de depressão originam-se de choros e emoções reprimidas. Expressar emoções não é apenas uma forma de demonstrar o que se necessita, mas também um jeito de preencher a necessidade de alívio. E libertar as lágrimas é uma manifestação orgânica; uma descarga emocional que ocorre não no ápice da emoção, mas como forma de restabelecer algum equilíbrio ao corpo e à mente.

E já que, curiosamente somos os únicos animais que choram emocionalmente, poderíamos experimentar olhar para o choro alheio com alguma compaixão. Poderíamos tentar sair do nosso canto, do nosso esconderijo afetivo e entender que não nos cabe julgar se o choro do outro é cabido ou descabido. Poderíamos avaliar menos e evoluir mais. Aproveitar para reconhecer no choro do nosso irmão uma dor que pode ser aliviada se for dividida. Aprender a chorar junto é tão importante quanto secar as lágrimas. Secar as lágrimas vem depois do choro, e junto com a inclusão do outro na nossa vida, fazendo da sua dificuldade uma questão de extrema importância para todos nós.

O amor e seus fragmentos…

O amor e seus fragmentos…

Por Aline Andrade

Vinícius de Moraes já dizia: “A vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros pela vida”. Sim! Acredito que ele tenha plena razão em suas palavras, pois nunca se sabe o que a vida nos reserva. Se em uma viagem, em uma caminhada pelas ruas, passeio no parque, ou naquela festa que você nem estava muito afim de ir, você se esbarra com a pessoa que pode ser a pessoa de sua vida (não que eu acredite em alma gêmea, mas a pessoa exata para um determinado momento da sua vida: Ah essa sim, ela existe!), aquela pessoa que lhe proporcionará um friozinho na barriga, a sensação de estar pisando em nuvens, de enxergar a vida mais colorida e diga-se de passagem “há coisa mais boa do que isso?”.

A vida tem dessas coisas, você encontra aquela pessoa que mexe com você, que deixa os seus dias mais alegres e lhe proporciona incríveis memórias, mas que nem sempre é possível manter a sintonia e seja lá por qual desavença do destino, vocês começam a se afastar. No meu caso, foram as malditas fronteiras artificiais, à distância e o descompasso de tentar algo que era um passo no escuro. O fato é: relacionamentos são assim, não é uma garantia de “felizes para sempre”, às vezes ou por força do destino ou por vontade própria aquela relação que era linda, acaba por se findar. Com o término além de fragmentos de memórias doloridos (porque dói, ah como dói o término de um relacionamento), ficam também as boas lembranças, os momentos felizes e lindos que vocês passaram juntos e todo o aprendizado; pois, relacionamentos não são para nos completar e sim, para somar, para acrescentar, uma troca mútua de carinho, afeto e experiências. Fragmentos esses que nunca serão apagados e fazem parte da nossa bagagem emocional.

Depois de um porre de livros ou de cachaça e com o passar do tempo, o que doía não irá doer mais, às vezes até as más lembranças são esquecidas, guarda-se o que foi bom, proveitoso… E como somos seres afetivos, que estamos sempre prontos para amar e prontos para outra, aí vamos nós pelos caminhos da vida esperando uma nova esbarrada, outra nova experiência que faça nossos corações baterem mais fortes.

Fragmentos de amor… Ah esses nunca passaram!

Sobre a autoria:

Aline Andrade, 23 anos, estudante de Direito e apaixonada pela vida.

Os psicopatas estão bem mais próximos do que você imagina

Os psicopatas estão bem mais próximos do que você imagina

A psiquiatra Kátia Mecler prepara a segunda edição do seu livro “Psicopatas do Cotidiano“, lançado em agosto deste ano. Eles não são os temíveis assassinos em série. São pessoas aparentemente normais que estão no trabalho, em casa ou na escola e têm em comum algum transtorno de personalidade

A própria definição de “psicopatas do cotidiano” não existe na Organização Mundial da Saúde (OMS). Como a senhora mesma disse em entrevistas anteriores, é um termo resgatado do psiquiatra alemão Kurt Schneider na década de 40. Por que escolheu esse tema? Algum caso específico a motivou?

A OMS realmente não considera a psicopatia como uma categoria médica. Schneider, no livro “As Personalidades Psicopáticas”, de 1923, tratou de pessoas cuja personalidade foge à média normal e que sofre ou causa sofrimento por causa de sua anormalidade. Essa definição é bastante próxima daquilo que tanto a OMS quanto a Associação Americana de Psiquiatria consideram hoje um transtorno de personalidade e comportamento. A principal motivação para escrever o livro foi perceber o sofrimento dos pacientes que lidam com indivíduos que têm transtornos de personalidade. Muitos chegam com a autoestima arrasada, num grau de estresse emocional inimaginável. Procuraram ajuda especializada por considerarem que têm algum problema, quando, na verdade, o problema está no outro.

A senhora pode citar alguns desses casos de muito sofrimento?

Os casos são muitos. Os psicopatas do cotidiano injetam sentimento de culpa, impotência e inadequação naqueles que estão no seu entorno. Pais que sufocam os filhos com uma vigilância sem limites, homens e mulheres envolvidos em relações amorosas excessivamente dependentes, pessoas que sofrem com parceiros manipuladores e transgressores, funcionários sufocados por chefes abusivos, enfim, um universo de situações que podem se repetir na sua casa, na sua escola, no seu trabalho.

Pela sua definição, os psicopatas do cotidiano são pessoas com transtorno de personalidade, que é um jeito de ser inflexível, rígido, que envolve sentimentos ou sensações, pensamentos ou comportamentos repetitivos que acarretam disfunção em alguma área da vida. A senhora pode traduzir essa definição?

Imagine que você tenha se casado com uma pessoa muito dependente, desse tipo que popularmente chamamos de “chiclete”. Ela está sempre exigindo a sua atenção, sofre por achar que não tem o cuidado que merece (mesmo que você nada faça além de tentar agradá-la) e acredita que é questão de tempo ser abandonada. Em algum tempo, você estará exausto emocionalmente. Outra situação comum: a mãe que faz cenas dramáticas cada vez que é contestada ou criticada pelos filhos, que chega a ter sintomas físicos de algum mal-estar para chamar a atenção. Pense ainda naquele vizinho que está sempre arrumando encrenca no prédio. Desconfia de tudo e de todos e não perde uma chance de comprar briga com quem quer que seja. São tipos com que todos nós convivemos, que exibem traços patológicos de transtorno de personalidade. Ou seja: sempre agem da mesma maneira, não admitem ser confrontados, não enxergam problemas em si.

Quando a senhora diz que o grupo B, daqueles com tendência à perversão, é o grupo da moda, o que significa? Pode explicar melhor isso?

Estamos vivendo uma época de superexposição da vida pessoal, da intimidade. De ter é melhor do que ser. As pessoas estão conectadas 24 horas por dia, exibindo seus corpos, seus bens materiais, seus relacionamentos. O conceito de privacidade mudou. Nesse contexto, pessoas com tendências ao egocentrismo, à vaidade excessiva, à manipulação, à mentira, à sedução sentem-se muito à vontade. São características que perpassam os quatro tipos do grupo B. Porém, cada um deles tem traços próprios.

Pode falar um pouco sobre esses quatro subitens (antissociais, borderlines, narcisistas e histriônicos)?

No caso dos antissociais, estamos falando de pessoas manipuladoras, transgressoras, que botam seus desejos e necessidades acima de qualquer coisa. Agem como parasitas sociais, sugando as energias emocionais do outro. E não têm constrangimento em usar e descartar quem quer que seja. Os borderlines são instáveis, passam do amor ao ódio em segundos. Podem assumir comportamentos de risco em relação a sexo e drogas, por exemplo, e tendem à automutilação e ao pensamento suicida. O narcisista, de maneira bem simples, é aquele cidadão que chega e pergunta: “Sabe com quem está falando?” É alguém que se considera acima do bem e do mal, tão especial que não precisa seguir regras. Já o indivíduo com transtorno de personalidade histriônico poderá ser reconhecido pela tendência à dramaticidade, à necessidade de estar sempre sob os holofotes.

Já vi estimativas de que 5% da população seria, de forma mais leve ou mais grave, psicopata. Existe alguma estimativa de quanto desse total seria de psicopatas do cotidiano?

Tanto a OMS quanto a Associação Americana de Psiquiatria estimam que cerca de 10% da população têm um ou mais traços patológicos de transtornos de personalidade. A mera presença de uma característica (típica de um problema psíquico), sem trazer tantos prejuízos, não é suficiente para definir a doença.

Se no trabalho você tem colegas ou um chefe psicopata do cotidiano, como se “defender” dele? Tem um jeito de agir com que você “neutraliza” a influência negativa na sua vida?

No trabalho, em família ou na sociedade, há alguns caminhos para conviver de maneira menos traumática com um psicopata do cotidiano. O primeiro passo é entender que você não é a única vítima. Pessoas com esses traços agem da mesma forma com todos. Saiba também que confrontá-lo não vai adiantar. Dificilmente uma pessoa com essas características compreende que tem um problema – ela acredita que o problema são os outros. Quando você compreende que seu chefe é daquele jeito e que não vai mudar, você aprende a se defender e a reagir melhor.

Fonte indicada: O tempo

Encontre o livro “Psicopatas do cotidinao” aqui.

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