Alguém a quem confiar o meu calcanhar

Alguém a quem confiar o meu calcanhar

Sabe, eu não sou de aço, é que aprendi com o tempo a sentir dor sem chorar, aprendi a me dobrar com o vento e a navegar de acordo com o mar. Mas toda essa ginástica da alma às vezes cansa. Eu admito, meu sonho mora onde é possível a entrega sem medo do meu calcanhar.

Quando nasci o médico me suspendeu no ar pelos calcanhares e esperou que eu desse meu primeiro choro. E depois desse dia eu, cautelosa, toquei o meu calcanhar sabendo estar nele os meus mais profundos medos e segredos. Sabendo que ele resguarda poções que podem me desnortear.

O calcanhar é uma caixa de limitações, uma caixa de fragilidades e ansiedades, é um arsenal de coisas que precisam ser revistas, repensadas, admitidas e quem sabe, com afinco, superadas.

A quem entregamos o calcanhar, entregamos tudo de nós, entregamos a nossa parte mais frágil. O coração também é muito importante, mas ele é forte, se rasga e se remenda inúmeras e inúmeras vezes ao longo da vida. O calcanhar não. Ele é de vidro. Se eu tivesse que compará-lo diria que se parece com aquele bibelô de família que carregamos com cuidado. Se quebrar já era, se quebrar vai causar um estrago enorme.

E é no calcanhar que moram nossas mais profundas fraquezas. Nele colocamos nossos pontos fracos e sorrimos para a vida, mesmo quando choramos com o coração.

E o coração é estrondoso no seu pulsar. Já o calcanhar não, muitas vezes ele finge esquecer da importância que tem.

O calcanhar exige intimidade, exige que a gente se afine ao outro de tal forma que ele em sua imensa empatia, se importe conosco na delicadeza de um amor gentil e cuidadoso. O calcanhar exige que esse outro nos ame como somos, mas que tenha consigo a ideia de que amanhã podemos ser melhores.

Aquele que ama o nosso calcanhar pode aceitar nossos momentos de desânimo, mas nunca permitirá que nos entreguemos rendidos, tão pouco usará nossas limitações para direcionar nossos passos. Pelo contrário, ele nos ensina, paciente, a superarmos nossos obstáculos particulares.

O coração se contenta muitas vezes em ser platônico, o calcanhar não. Ele é temperamental, ou se declara ou se emudece de vez. E a gente é assim, prefere vê-lo emudecido, escondido por baixo de calças longas, atrás de piadinhas sem graça ou de convenções sociais.

Então eu finalmente decidi, cansei das calças, dissimulações e meias grossas. O que eu quero hoje é desnudar meu calcanhar. Quero comprar aqueles cremes de massagem para tocá-lo apropriadamente, buscando com isso algum prazer em revelar meus defeitos. Buscando com isso me reconhecer imperfeita como sou e me apoderar de minhas limitações.

Mas não quero só as minhas mãos nele, hoje eu quero mais, quero no meu calcanhar as mãos desejosas do amor, as mãos cuidadosas daquele que ao me ver desnuda, que ao me ver cheia de fragilidades, que ao me ver repleta de tudo que sou, seja capaz de, corajoso, enxergar e tocar não só o meu coração, mas sobretudo, e principalmente, o meu discreto e enigmático calcanhar.

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Passos firmes pelas voltas pelas voltas que o mundo dá!

Passos firmes pelas voltas pelas voltas que o mundo dá!

Um frase tão repetida quanto verdadeira: O mundo dá voltas. Sim, voltas doces, voltas enroladas em papel de presente, voltas confusas, voltas envoltas em dores e saudades, vais e voltas, uma trama contínua com irrestrita cumplicidade do tempo.

E lá vamos nós, nos equilibrando e trilhando os caminhos sugeridos pelas voltas que o mundo dá, por vezes desejando que fossem suaves como a rotação da terra, outras, emocionantes e desafiantes, de acordo com nossa necessidade momentânea de adrenalina.

A verdade é que não temos nenhum controle sobre essas voltas, e nos resta o desafio de minimizar os tombos inesperados, os solavancos causados por nossa falta de reflexo.

E falando em reflexo, assim é a vida, um reflexo desse emaranhado de curvas e ladeiras. Um caminho cujas surpresas vão brotando do inesperado, uma combinação esquisita de eventos conquistados, outros frustrados, e tantos inesperados. Um caminho nada reto transpassado por mil outros caminhos.

As voltas que o mundo dá por vezes nos deixam tontos e desorientados, mas o caminho exige movimento, nos ordena avanço e descobertas. Para seguir em frente, é preciso andar a passos firmes, passos que segurem os pés no chão e ao mesmo tempo impulsionem a ida adiante. Não precisam ser barulhentos nem rudes, mas firmes, muito firmes. Passos de quem sabe que precisa ir, mesmo sem certeza de onde irá chegar. Se forem vacilantes, todo o corpo estremecerá, o caminho mostrará seus perigos com lente de aumento, tanto que as belezas não serão apreciadas.  E sem equilíbrio, sem sustentação e coragem, ao primeiro estremecimento virão as quedas, rolagens ladeira abaixo, ferimentos e mágoas.

E se a roda da vida não para, se as voltas virão apesar de todo e qualquer protesto, que os passos firmes e decididos possam dar ritmo à caminhada, que bons e reais afetos  sejam escoras para as possíveis quedas, e que as voltas nos permitam, mesmo que de relance, ver mais profundamente o desenho do caminho que ainda há pela frente.

Feridas escondidas – O que um trauma pode causar em você?

Feridas escondidas – O que um trauma pode causar em você?

Por Gastão Ribeiro

“A conclusão é radical… todos em uma sociedade moderna virtualmente sofrem de traumas.”
Robert Scaer

Há alguns anos venho estudando de forma aprofundada o TEPT e seus mecanismos. Este sintoma abandonado por Freud, que no começo da psicanálise utilizava o método catártico de Breuer acreditando que usando a hipnose e acessando o trauma acabaria com os sintomas histéricos.

Com a descoberta da associação livre Freud largou a hipnose e a teoria do trauma. Assim como a hipnose o trauma caiu em esquecimento, escondido em uma falsa crença que a teoria do trauma era uma idéia ultrapassada.

Com o aumento das guerras, dos conflitos religiosos, terrorismo e violência urbana o TEPT voltou a aparecer, e com ele uma série de sintomas atuais, como ansiedade, pânico, TOC, dores, Fibromialgia, obesidade, etc.. Todos estes sintomas escondidos atrás da defesa primária do trauma, a Dissociação.

Não podemos mais fechar os olhos a esta nova forma de pensar a psicoterapia. O terapeuta, médico, clínico, profissionais de educação atuais não podem ficar alheios a estas informações e dos caminhos do trauma.

O que era um Trauma ou Transtorno de Estresse Pós-traumático

Para o DSM IV, a característica essencial do Transtorno de Estresse Pós-Traumático é o desenvolvimento de sintomas característicos após a exposição a um extremo estressor traumático, envolvendo a experiência pessoal direta de um evento real ou ameaçador que envolve morte, sério ferimento ou outra ameaça à própria integridade física; ter testemunhado um evento que envolve morte, ferimentos ou ameaça à integridade física de outra pessoa; ou o conhecimento sobre morte violenta ou inesperada, ferimento sério ou ameaça de morte ou ferimento experimentado por um membro da família ou outra pessoa em estreita associação com o indivíduo.

O que é um Trauma

Trauma em grego significa ferida. Robert Scaer em 2001 introduziu um novo conceito, o conceito de Barreiras. As pessoas a partir de suas experiências da vida passam a criar barreiras e limites de proteção e segurança. Um trauma é uma situação que rompe essas barreiras e limites que faz com que a pessoa paralise no tempo e no espaço. Excede todos os limites de segurança e suporte.

Os sintomas do Transtorno de Estresse Pos-traumático, formam um processo em espiral que acionam os mecanismos biológicos mais primitivos que faz parte da nossa herança evolutiva. A reação do organismo para sobreviver a uma ameaça, é: FUGIR, LUTAR OU CONGELAR .

Quando as respostas de fuga ou luta são impedidas, a imagem do evento fica congelada, criando uma grande confusão nas pessoas, impedido-as de ter uma vida normal.

Os sintomas traumáticos não são causados pelo acontecimento desencadeador em si mesmo. Eles vêm do resíduo congelado de energia que não foi resolvido e descarregado; esse resíduo permanece preso no sistema nervoso onde pode causar danos corporais e emocionais.

Os sintomas em longo prazo são debilitantes e frequentemente bizarros e se desenvolvem quando não podemos completar o processo de entrar, atravessar e sair da “imobilidade” ou do estado de “congelamento”.

O trauma deixa Traços Mnemônicos que são como marcas, sempre que é revivido com intensidade provoca retraumatizações. O afeto fica preso dentro das marcas, quanto mais profunda marca mais o afeto fica aprisionado.

Trauma e Dissociação

Dissociação foi um termo criado por Janet no final do século XIX para descrever um estado mental onde ocorre um rompimento de consciência. Durante a Dissociação o individuo experimenta distorções de memória, afeto, percepção ou senso de identidade. É comum ocorrer durante a Dissociação alterações de percepções, como: sensações somáticas, tempo, períodos de amnésia, irrealidade e despersonalização. Em estados clínicos mais graves ocorrem sintomas de conversão, estado de fuga e desordem de personalidade múltipla (Desordem Dissociativa de Identidade).

A Dissociação ocorre quando a ansiedade se torna tão esmagadora que certos aspectos da personalidade se tornam dissociada ou se dividem um do outro. As manifestações de dissociação servem para proteger o individuo do conflito que produz a ansiedade. A Dissociação é um mecanismo de proteção psicológica ao medo e a ansiedade.

Traumas e Sintomas Psíquicos

Um Trauma pode estar na base de algumas patologias psíquicas, e é a Dissociação a causadora destes fenômenos e sintomas psíquicos e somáticos.

Trauma e Dor

A Dissociação também pode aparecer como sintomas somáticos e dor. A dor serve para abafar a ansiedade esmagadora do trauma. Ela esta geralmente associada à parte ou região machucada do corpo, especialmente a uma das extremidades ligadas ao evento traumático sendo que anormalidades também podem aparecer na postura.

Na dor crônica causada por traumas, vemos que a postura inconsciente do paciente não reflete tão somente a dor, mas também a experiência do evento traumático que produziu a dor. Muitos desses pacientes manifestam “achados fisiológicos” que os rotulam como pacientes de dor crônica, fibromialgia por seus médicos.

Traumas e TOC

A Dissociação também pode aparecer como rituais e comportamentos obsessivos, isto é, as pessoas começam a planejar rigidamente cada hora de seu dia e fazendo uma organização metódica em suas vidas, a fim de evitar a intrusão da ansiedade do TEPT.

Traumas e TDAH

A Dissociação pode provocar uma série de problemas nas funções de processamento cognitivo e mental. A Dissociação provoca uma disfunção na atenção concentrada, as pessoas perdem a habilidade em acessar novas informações, negligenciam e ignoram detalhes importantes das informações. Os sintomas parecem com o TDAH, pois afetam a memória de curto prazo e atenção. Adultos vítimas de trauma têm sido recentemente diagnosticados como tendo DDA adulto (Distúrbio de Déficit de Atenção), mas gerados por efeitos da Dissociação.

Traumas e Pânico

Os estudos atuais de Neurofisiologia mostram que a amígdala do hipocampo tem uma função “emocional”, agem independentemente do neocórtex. Ele pressupõe que algumas reações emocionais e memórias podem ser formadas sem a participação da consciência cognitiva do neocórtex. Quando as pessoas estão sobre forte estresse elas secretam hormônios endógenos de estresse que reforçam a consolidação da memória traumática. Ele pressupõe que a secreção massiva de neuro-hormônios, no momento do trauma, desempenha um papel na potenciação das memórias traumáticas que podem reaparecer ao longo da vida.

Traumas e Pânico

E este passado, carregado de forte teor emocional, tem uma influência nas memórias impressas para controlar nosso funcionamento presente e nossas relações atuais, tornando as pessoas mal adaptáveis. Os Sintomas de TEPT aparecem ao longo da vida sob a forma de Pânico, embora a pessoas não consiga fazer nenhuma relação com a cena traumática em função da dissociação.

Traumas e Histeria de Conversão

A histeria de conversão, ou “reação de conversão” foi descrita inicialmente em detalhes por Janet e Freud. A conversão é considerada uma proteção contra níveis intoleráveis de ansiedade ou medo. A ansiedade é “convertida” em sintomas nos órgãos ou outras partes do corpo e geralmente apresentam-se como sintomas neurológicos sensoriais ou motores.

Estes sintomas representam o conflito mental, gerando ansiedade. A conversão de uma ansiedade intolerável em um sintoma físico traz grande alivio emocional, por isto as pessoas demonstram não se importar com a condição física incapacitadora. A paralisia histérica aparece de forma sistemática em soldados traumatizados por “traumas de guerra” ou “fadiga de batalha”.

A paraplegia histérica é comumente achada em vitimas de abuso sexual na infância e é uma forma de proteção contra uma exposição maior à fonte do trauma.
A reação de conversão então é um exemplo de dissociação somática em resposta a uma reação ao trauma. O paciente com reação de conversão tem um trauma no passado, que associado com um novo trauma no presente precipita o sintoma de conversão. Frequentemente os clientes com conversão tem um histórico de abuso severo na infância.

Traumas e Doenças Físicas

Muitas das doenças de causas desconhecidas que estão ligadas diretamente ao estresse traumático. As síndromes de espasmos musculares suaves/ ou ulceração do sistema gastro-intestinal estão associadas com exposição ao estresse crônico na maioria dos casos.

Um trauma pode causar cardio-espasmo no esôfago, refluxo gastroesofagal, úlcera péptica, colite ulcerativa e síndrome do intestino irritável.

A cistite está associada com úlceras dolorosas na bexiga e sintomas de desernegia motora na bexiga, também de causa desconhecida. Enxaqueca clássica é claro, é um exemplo prototípico de manifestações vasculares de desregulação cíclica autônoma e tem sido ligada a trauma do passado.

Além disso, muitas doenças crônicas têm a sua origem em um trauma. O câncer e doenças do coração estão associados às estatísticas de TEPT. O trauma é acumulativo e pode contribuir para o desenvolvimento de doenças crônicas seletivas, como também, contribuir para o progresso dessas doenças.

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Fontes
Gastão Ribeiro Apostila de Psicoterapia do Trauma – Módulo 2 – TFT e EFT – 2006.
Uri Bergmann, L.C.S.W., B.C.D. – ESPECULAÇÕES SOBRE A NEUROBIOLOGIA DO EMDR – 2001.
Servan- Schreiber – Curar – Editora Sá – 2004.
Scaer, R. (2001). The Body Bears the Burden: Trauma, Dissociation and Disease, Binghampton: – The Haworth Press, 2001.

Para conhecer mais sobre o trabalho do autor visite seus textos no Portal CMC.

Parem de tentar entender as Mulheres

Parem de tentar entender as Mulheres

Loucas, destemperadas, instáveis, indecifráveis, as mulheres nunca estiveram tão doidas, meu deus. Querem. No segundo seguinte já não nos querem mais. Já não querem nem mesmo a si mesmas, uma orgia de quereres, de vontades que não se concluem, de medos que não se assentam.

As mulheres, minha gente, nunca na história deste país foram tão deliciosamente desmioladas. De tanto praticar, alcançaram a perícia esgrimista de coabitar em emoções. Já nem separam mais o instante de chorar do seguinte de rir. Choram e riem, ao mesmo tempo.

Se aproveitam da boa relação diplomática entre os polos de seus super cérebros e choram e riem e mudam de canal, num só movimento. Elas podem te adorar em pensamento e te mandar uma praga por entre os dentes, elas podem se sentir extremamente solitárias, carentes e hilárias, não de você, mas de queijo, de doce, de estrada. Vai entender.

Deram pra gritar nas calçadas, nos portões, deram pra exigir de volta seus chips, como quem pega de volta a dedicação, o tesão, os ouvidos e os beijos sem ar que nos deram. Acabou a farra da entrega. As mulheres de hoje não se dão, se emprestam e depois tomam-se de volta.

Não morrem mais de amor, não arranham as paredes. Fazer as unhas nunca custou tão caro. As mulheres que gritam enquanto caladas, que se doem enquanto gozam, que se culpam enquanto se orgulham, essas mulheres jamais pediram para serem compreendidas, essas doidas varridas, não estão tentando se simplificarem, estão se esforçando pra ficarem ainda mais, só um tantinho mais, doidas. Certas elas, quando resolvido todo mistério deixa de fazer sentido.

Parem de tentar entender as mulheres. Melhor que entender é compreendê-las entre seus braços. Pare de tentar resumi-las, pare de tentar encontra-las e vá com tudo se perder na loucura delas.

Diego Engenho Novo

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Não basta encontrar a pessoa certa, temos que fazer o amor dar certo.

Não basta encontrar a pessoa certa, temos que fazer o amor dar certo.

Alguém disse, certa vez, ser a posse o túmulo do desejo e, assim, acertou em cheio. A maioria de nós anseia avidamente por algo até que o consiga, quando então aquilo tudo como que parece perder a graça, tendo automaticamente diminuída sua importância para nós. Em seguida, logo voltamos nossos olhos a novos quereres, sempre tentando alcançar o que ainda não possuímos. Agimos assim com as coisas, agimos assim com as pessoas.

Esse comportamento é extremamente nocivo à nossa satisfação pessoal, pois tanto nos distancia do desfrutar prazeroso das conquistas obtidas e das pessoas que cativamos, quanto nos impede de darmos valor ao que somos, ao que temos e a todos que já caminham conosco. A ambição, quando bem direcionada, é necessária, uma vez que nos motiva a não estacionarmos a energia de nossos sonhos. Contudo, focarmos exclusivamente nossas vidas em conquistas futuras acaba por ceder o terreno que sustenta tudo o que já se encontra conosco e já faz parte de nossa lida.

O perigo consiste, sobretudo, em negligenciarmos as pessoas que nos amam verdadeiramente e chegaram aonde estamos de mãos dadas conosco, apoiando-nos com cumplicidade e comprometimento sincero, ajudando-nos a suportar o peso dos reveses enfrentados – e que não foram poucos. Não devemos somente dar o melhor de nós enquanto tentamos conquistar quem amamos, mas sim manter acesa a chama de sentimentos que nos uniu ao amor de nossas vidas desde o princípio.

Não é porque conquistamos alguém que podemos nos tranquilizar e ignorar as suas necessidades, na certeza de que aquilo durará para sempre por si só, haja o que houver, e fim de cuidados, fim da atenção, fim do cativar. Nossos queridos precisam ser continuamente certificados de que nos importam, de que lhes somos gratos, de que os amamos, e isso não se consegue transmitir através de silêncio, desinteresse, tampouco de corpo presente sem alma, sem calor.

A sedução e a conquista devem permear cada etapa de desenvolvimento dos relacionamentos, de modo a que o outro nunca tenha que conviver com olhares desencontrados, passos descompassados, sonhos compartilhados no vazio, vozes perdidas e sem retorno. Ninguém merece ser ignorado por quem lutou, por quem viveu de dentro, por quem amou verdadeiramente e de forma recíproca. Ninguém deveria frustrar-se frente ao que se dedicou com inteireza, honestidade e doação transparente.

Não podemos, portanto, nos acomodar e deixar de entrelaçar as mãos com quem sempre esteve ali torcendo por nós, acreditando em nossos sonhos, amparando os nossos passos, enxugando nossas lágrimas e comemorando nossas vitórias. Como tão bem nos ensinou o principezinho, seremos eternamente responsáveis por quem cativarmos, pois, tal como as plantas, o amor que não é cultivado e regado, com dedicação e verdade, descolore, arrefece e morre. Simples assim.

Será que eu tenho toc?

Será que eu tenho toc?

TOC é a sigla usada para o Transtorno Obsessivo Compulsivo. O TOC é um transtorno mental caracterizado pela presença de obsessões, compulsões ou ambas. As obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens indesejáveis e involuntários, que invadem a consciência causando ansiedade ou desconforto e obrigando o indivíduo a executar rituais ou compulsões que são comportamentos físicos ou mentais em resposta às obsessões, com a intenção de afastar ameaças, prevenir possíveis falhas ou simplesmente aliviar um sintoma físico. No TOC os indivíduos procuram ainda evitar contado com determinados lugares (hospitais, cemitérios), objetos que outras pessoas tocam (dinheiro, telefone público, maçanetas) ou até mesmo pessoas como forma de obter alívio dos seus medos e preocupações.

Para diagnosticar o TOC é preciso que os sintomas já existam há algum tempo e que comprometam o dia a dia do indivíduo, afetando a vida pessoal, profissional e social. A doença quase sempre apresenta pequenos sintomas na infância e se desenvolve na adolescência. O tratamento é longo e é feito através de medicação prescrita e acompanhada por psiquiatra, e também por psicoterapia. Existem muitas especulações a respeito do diagnóstico do TOC e por isso devemos entender que, nem todas as manias caracterizam um quadro do transtorno.

Muitos adultos se incomodam com quadros tortos na parede, já deve ter evitado pisar nas emendas entre pisos nas calçadas ou goste de arrumar as camisas seguindo as cores em degrade. Alguns arrumam os livros de forma ordenada, do maior para o menor e checa se fechou mesmo a porta ou a janela antes de dormir. Estes são exemplos de comportamentos de ordem e checagem que, apesar de característicos de quem tem TOC, isolados e sem comprometer a vida do indivíduo não sinalizam por si só o transtorno. Outro exemplo são os rituais de limpeza. Há quem precise tomar banho imediatamente após chegar do cemitério ou do hospital. Há quem passe pano com álcool em toda a compra do mercado e há quem não consegue dormir sem que a louça da pia esteja toda lavada. Um sintoma isolado como este não significa que você tem TOC, é preciso que se leve em conta questões culturais. Você pode estar apenas reproduzindo um comportamento aprendido ou pode estar escravo de um hábito, esquecendo-se de exercitar a liberdade, percebendo que podemos sim mudar as regras um dia ou outro.

Se você conta os carros enquanto viaja como passageiro, ou se soma os números das placas, seu cérebro pode até estar se comportando obsessivamente, porém, se isso não te aprisiona, ou seja, se você consegue parar, significa que não ultrapassou o limite do que chamam normalidade. Alguns indivíduos relatam criar rituais ou associação de eventos imaginando que se não os fizerem algo de ruim vá acontecer, ou então, fazem associações para que algo de bom aconteça. Um exemplo é: “se eu vir um carro X é sinal de que tal coisa vai acontecer”. Chamamos esses pensamentos de superstições e eles são bem característicos de quem tem TOC, porém bem comuns também em quem não o têm. As superstições são passadas de geração para geração sem que sejam questionadas e muitas vezes criadas por nós mesmos como forma de “pseudoproteção”.

O que quero deixar claro é que, um único sintoma não fecha um diagnóstico. Assim como alguns indivíduos têm padrões de comportamento mais depressivos ou mais ansiosos, outros têm obsessivos. São características que podem não estar atrapalhando nem prejudicando a vida e a rotina, das quais você pode se libertar com facilidade.

Uma dica importante que faz parte do tratamento do TOC e que também pode ajudar muito quem tem apenas alguns dos comportamentos descritos acima é tentar quebrar o padrão. Faça exatamente o contrário do que de costume. Ao chegar em casa, guarde as compras sem o tal pano com álcool. Volte do hospital e tome banho horas depois. Desarrume livros e guarde as roupas aleatoriamente. “Esqueça” coisas fora do lugar e interrompa as contagens. Todas às vezes nas quais exercitamos ou forçamos o nosso cérebro a se comportar de forma diferente, exigimos dele mais do que de costume e treinamos novas habilidades. Procure quebrar todos os rituais que muitas vezes podem estar sendo feitos sem que se perceba.

Aos pais e educadores, muita atenção às crianças que se preocupam demais com simetria, sequência e limpeza. Como já alertei, o TOC se inicia na infância e tem seu auge sintomático na adolescência. A doença tem cura, eu mesma já presenciei muitos pacientes que se livraram dos rituais e se libertaram do sofrimento. O quanto mais cedo o quadro for diagnosticado e tratado, melhores serão os resultados.

 

Marido cria “método incrível” para ajudar esposa com depressão a se sentir melhor

Marido cria “método incrível” para ajudar esposa com depressão a se sentir melhor

Após acompanhar de perto o sofrimento de sua esposa, devido a depressão, Tim Murphy de Los Angeles, teve uma ideia que poderia ajuda-la. O método é muito simples, ele achou uma maneira de mostrar pra ela o quanto ela é amada e querida por todos, Molly, esposa de Tim, postou no facebook a ideia do marido, e está fazendo o maior sucesso.

Tim colocou seu plano em ação quando Molly resolveu fazer uma viagem a trabalho e passar um bom tempo fora, Ele escreveu no espelho do quarto uma lista com 15 motivos pelos quais ele amava sua mulher, a reação de Molly não poderia ser outra, ela ficou muito emocionada.

Mesmo sabendo que palavras não iam curar sua doença, após o feito do marido, ela começou a olhar a doença com outros olhos. A seguir veja a declaração de Molly: “Eu ainda estou lutando, mas eu estou feliz que eu tenho a minha outra metade para me ajudar a passar por isso. Pode ser apenas algumas palavras em meu espelho, mas eu vou olhar para eles quando eu acordar e saber que eu não estou sozinha. Eu sei que eu tenho o meu melhor amigo, meu co-piloto na vida para ajudar a guiar-me”.

contioutra.com - Marido cria "método incrível" para ajudar esposa com depressão a se sentir melhor

Segue abaixo a tradução dos 15 itens, confira:

1. Ela é a minha melhor amiga

2. Ela nunca desiste de mim ou dela

3. Ela me dá espaço para trabalhar nos meus projetos loucos

4. Ela me faz rir, todos os dias

5. Ela é maravilhosa

6. Ela aceita a pessoa louca que eu sou

7. Ela é a pessoa mais gentil que eu conheço

8. Ela canta muito bem

9. Ela já foi num clube de strip-tease comigo!

10. Ela já passou por tragédias horríveis e, ainda assim, é a pessoa mais otimista que eu conheço

11. Ela me apoiou em todas as minhas escolhas e me seguiu em cada uma delas

12. Eem nem perceber, ela me faz querer fazer mais por ela do que eu jamais fiz por alguém

13. Ela faz um trabalho incrível

14. Animais pequenos fazem ela chorar

15. Ela ronca quando dá risada

Ela comentou que seu marido não tinha ideia de que isso poderia fazer tanto sucesso na internet, e até a hora que conferimos o post ele já tinha mais de 905.000 visualizações.

[Ultra Curioso], Via Equilíbrio em Vida

Confira o curta-metragem sobre Carl Sagan!

Confira o curta-metragem sobre Carl Sagan!

Difícil falar sobre Carl Sagan sem emoção. Conhecido por suas frases inspiradoras sobre o espaço, autor de dezenas de livros sobre ciência e ficção científica e apresentador e escritor da série original Cosmos, Sagan soube expressar como ninguém o sentimento de estar diante da vastidão do Universo – e foi um grande divulgador científico por conta de sua facilidade de se expressar e comover. É nesse tom que alguns fãs do cientista fizeram um curta-metragem em homenagem à vida e obra do astrônomo, que mostra as origens da paixão de Sagan pelo espaço e seus mistérios. Confira!

Para colocar legendas em português, basta clicar em “CC”.

Via Universo Racionalista. Encontrado em Galileu

Truque dos 3 dedos promete reduzir ansiedade, enjoo e insônia

Truque dos 3 dedos promete reduzir ansiedade, enjoo e insônia

Recebeu a fatídica mensagem “precisamos conversar”? Lembrou que amanhã tem prova e esqueceu de estudar? Seu chefe descobriu sua conta no Twitter?

– Não se desespere.

Existe um procedimento ridiculamente simples que promete controlar níveis de ansiedade e enjoo. Vamos apelar para as tradicionais técnicas de acupuntura, que estão há milênios tratando vários males através de estimulo em regiões específicas no corpo.

Existe um ponto capaz de aliviar a ansiedade, relaxar o corpo, controlar náuseas, insônia, vômitos e até equilibrar a temperatura do organismo. Estamos falando do ponto PC-6 ou Nei Guan, como é chamado pelos acupunturistas.

Para localiza-lo, basta medir três dedos abaixo da dobra do pulso. O ponto fica no meio entre os dois tendões flexores.

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Segundo o Centro de Estudos de Terapias Naturais, para estimular a energia contida e usufruir dos benefícios do ponto PC-6, basta massagear o local suavemente e de forma circular, no sentido horário por 2-5 minutos, em ambos os braços. Relatos indicam que também funciona se apenas pressionar, por cerca de 1 minuto.
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Segundo estudos, estimular o ponto Nei Guan também é um tratamento eficaz para doenças cardiovasculares, principalmente para arritmia e problemas no fluxo sanguíneo. Nesse caso, o ideal é que escolha estimular o ponto na parte da manhã, potencializando os batimentos do coração, que descansou bastante durante a noite.

INDICAÇÕES DE USO

Para dor abdominal, dor no braço, asma, arritmia cardíaca, condições cardíacas, desconforto no peito, dor no peito, dor no cotovelo, febre, dor de cabeça, enxaqueca, soluço, dor na região do hipocôndrio, histeria, insônia, icterícia, malária, problemas de memória, menstruação irregular, problemas mentais, distúrbios do metabolismo, náusea, palpitações, prolapso retal, convulsões, dor de estômago, dor cirúrgica ou pós cirúrgica, vômito, choque de Vento.

Fontes: ucla unimedfesp | cetn | itmonline | almaacupuncture | flordeameixeira

Fonte indicada: SOS solteiros

Tenso! Psicopata conta detalhes sobre como engana as pessoas

Tenso! Psicopata conta detalhes sobre como engana as pessoas

Psicopatas são mentirosos compulsivos, não sentem empatia alguma, normalmente têm bom papo e conseguem manipular facilmente as pessoas, são extremamente vaidosos, impulsivos e não costumam se responsabilizar pelos seus atos.

Quase todo mundo sabe o que é um psicopata, mas é difícil imaginar como age uma pessoa tão fria. Jacob Wells, deu uma declaração a um tópico do Quora, contando em detalhes, como comporta-se em sociedade, sendo um psicopata.

“Eu geralmente me apresento como normal no começo”, diz ele. Em ambientes acadêmicos e quando conhece algum novo professor, geralmente ele segue um dos dois seguintes padrões: ou se passa por um bom estudante ou banca o aluno genial. Quando quer bancar o universitário perfeito, faz questão de dar a entender que não percebe o quão incrível ele é. Às vezes, em situações que sugiram competitividade, age de forma humilde, mas intimidadora. Nenhum desses perfis acadêmicos é o dele de verdade.

Uma vez que as pessoas acreditam que Wells é um cara de personalidade comum, ele começa a mostrar características reais a respeito do que é.  Dessa forma, vai ganhando a confiança das pessoas, sempre com muito cuidado, sempre calculando todos seus passos. “Se ainda não fiz isso, vou começar a mostrar alguma inteligência de forma sutil, vou me comportar com um pouco de anormalidade, até porque isso é mais confortável, e vou tentar me tornar a pessoa mais interessante que eles conheceram apenas contando uma história verdadeira sobre mim mesmo”.

Segundo Wells, as pessoas o enxergam, como alguém inteligente, excêntrico e relativamente normal. Ele revela, que sempre está buscando conquistar a confiança das pessoas, e que, para isso, sempre prontifica-se para fazer favores que as outas pessoas consideram difíceis. Extremamente manipulador, Wells faz isso, para que consiga ter uma noção, dos limites morais de cada indivíduo.

Como exemplo, Wells conta que, quando alguém cuja confiança ele está tentando conquistar não gosta de um professor, por exemplo, ele manipula a realidade de modo que consegue prejudicar o professor, armando situações criminosas que teriam consequências graves ou “apenas” denegrindo a reputação do professor e o assustando.

Sem se importar com as consequências, Wells age sempre com o único objetivo de conquistar a confiança de quem o rodeia, uma vez que a confiança é conquistada, essa pessoa está mais aberta de receber ideias dele, tornando-se muito mais “manipulável”.

Outra tática sobre a qual Wells falou abertamente foi a troca de segredos. Para fazer com que alguém conte a ele seus segredos, ele inventa histórias secretas sobre si mesmo, conta essas mentiras para a pessoa e, assim, conquista a confiança dela. Uma vez que a “presa” confie inteiramente em Wells, ele começa a pedir favores ou pelo menos sabe que pode vir a pedir esses favores quando precisar.

De acordo com a Dra. Xanthe Mallett, antropóloga forense e criminologista especializada em comportamento de criminosos, o comportamento de Wells parece realmente ser típico de um psicopata. Ela explica que psicopatas são capazes de criar laços fortes com as pessoas, ainda que não tenham qualquer envolvimento emocional. Tudo o que fazem é sempre pensando em alguma forma de conseguir benefícios para si.

Mallett explica também que, como não sentem empatia, eles são capazes de simular emoções com facilidade, mas isso não significa nem de longe que estejam envolvidos emocionalmente com alguém. Encantadores, charmosos e bons de conversa, conseguem enganar com facilidade, mas, na maioria das vezes, não se importam com ninguém. Wells, pelo jeito, é a prova concreta disso.

Fonte indicada: Mega Curioso

A história de Ling e Maurice

A história de Ling e Maurice

Ling e Maurice estavam em uma excursão conhecendo o Chichén Itzá, uma cidade arqueológica maia localizada no estado mexicano de Iucatã, quando se conheceram quase na virada deste milênio. Ling fala chinês, Maurice, francês e os dois só se comunicam até hoje “muito bem” em inglês, ainda que cada um com seu sotaque. Ling é escritora e amante da filosofia e das ditas ciências exatas. Maurice é um francês alucinado que curte Lacan e artes marciais. Enfim, enroscaram as línguas, lamberam-se intensamente, amaram-se e foram morar juntos em Nova Iorque, onde Maurice conseguiu um emprego.

Ainda que duas pessoas quaisquer nesse mundão de meu deus sejam dois universos, Ling e Maurice eram dois, digamos, sistemas que viviam coisas absurdamente diferentes até mesmo quando estavam juntos, como por exemplo, fazendo amor. Maurice, que conjugava no passado, no presente e no futuro, imaginava o tempo como uma reta horizontal começando na esquerda e terminando na direita assim como muitos de nós escrevemos. O relógio, de fato, marcava a passagem de algo para ele e, ao gozarem, o sexo para Maurice terminava em um instante definido. Ling com sua mente moldada pelo mandarim não pensava sobre o que está para trás ou por vir já que nesta língua não há o que chamamos de pretérito, de ontem e nem de amanhã. Enfim, as coisas para ela se, por exemplo, aconteciam no que chamamos de Domingo, começavam (se é que podemos dizer assim) desde  xīng qī sìxīng qī wǔxīng qī liùe continuavam na xīng qī xīng qī èrxīng qī sān que são os dias da semana que vêm antes e depois do que na língua inglesa chamam de dia de Sol. Expliquei-me mal porque o português me limita. O que quero dizer é que, para Ling, a dança entre eles persistia ainda que a música não fosse mais ouvida.

Escutar as histórias de Ling, mesmo que ela as conte em inglês, causa uma confusão dos diabos na cabeça de Maurice. Ling tem uma cronologia própria dos orientais que é um desafio para qualquer um que deseje se aventurar no campo da sinologia ou que queira simplesmente conversar com uma chinesa. Ling não consegue conjugar o verbo “to be” com a mesma naturalidade de Maurice que fala je suis isso, je suis aquilo. O mundo material para ela sempre foi entendido como um mundo que constantemente se transforma e qualquer manifestação da realidade para Ling é dada sempre em uma forma dinâmica. Assim, voltando para o entrelaçamento de pernas que acontece entre eles,  a essencialidade dessa troca de fluidos não se apresenta diretamente para ela, mas é apenas mediada pela forma com que emerge. Já para Maurice, o mundo é formado por várias coisas que são, em grande medida, objetos materiais. Oras, em chinês, “coisa” nem sequer tem tradução equivalente porque eles consideram tudo como “fenômenos”. Como conjugar o verbo “ser” dentro de uma realidade em completa mutação?, essa é uma pergunta que Ling se faz sempre que tem que dialogar com Maurice em inglês.

Amar, esse verbo intransitivo para Mário de Andrade e um intrometido para mim, era infinito para Maurice assim como o é para muitos de nós mortais e ocidentais. L’amour c’est éternel!, pensava ele em francês quando lembrava de Ling que, por sua vez, via tudo em processo de natural geração, maturação, decadência e extinção, sejam objetos, animais, planetas, estrelas, galáxias… ou o amor. Traduzindo o que cada um diz para o português quando se ouve deles um “I Love You” no acariciar de suas línguas, Ling profere: eu continuo em você e Maurice, eu me identifico com você… ou algo assim. Mencionei isso somente para conseguirmos vislumbrar o que vem a ser a comunicação entre Ling e Maurice e os demais seres humanos. Como nos entendemos – se de fato nos entendemos – é um milagre.

Maurice acredita que escolheu viver com Ling pois, para ele, há uma cadeia causal. Ling percebe que amar a companhia de Maurice é um processo que ocorre completamente independente de sua vontade. Se ela pudesse escolher, escolheria não amar para não sofrer.

Percebam como as realidades de ambos são ímpares. Os átomos do corpo de Maurice, para ele, pertencem a ele somente. A despeito da física moderna nos mostrar que quando duas partículas emaranhadas estão distantes umas das outras elas ainda se comportam como uma entidade única, levando ao que Einstein chamou de ‘ação fantasmagórica à distância’, a ciência é tida como um conjunto de “teorias” ou “hipóteses” para muitos. Portanto, essa informação não é suficiente para alterar a sensação da existência de seres únicos que era, por exemplo, ele -Maurice – e outro independente que ele chama carinhosamente de “minha Ling”.

Os átomos de Ling, vejam vocês, têm uma história completamente distinta. Originaram-se no interior de estrelas como subproduto de uma atividade que produz sua energia ao fusionar alguns elementos. Eles se espalharam pelo espaço quando esses astros explodiram no final da sua vida e concentraram-se ao redor do Sol quando ele se formou, passando a fazer parte do planeta Terra e, finalmente, chegaram a formar o corpo de Ling. Um dia, esses átomos voltarão a se espalhar pelo espaço, independentemente do fato de Ling ter sido cremada ou sepultada. Para Ling, então, há muita coisa acontecendo além do seu “eu”. Seus desejos aparecem sem que sejam convocados. Ling não sabe onde ela começa e muito menos onde termina, mas entende que seu ser agora engloba o de Maurice.

De qualquer forma, independente do filtro usado pelo olhar de Ling ou de Maurice e como eles interpretaram o que entre os dois aconteceu, o que eles viveram é algo que no português traduzimos como “felicidade”, aquilo que funciona como a borboleta: quando a perseguimos nos escapa, quando desistimos de persegui-la, pousa em nós. Nem ela nem ele foi para aquela excursão em Chichén Itzá buscando alguma coisa além de entretenimento e quando menos esperavam o inseto supracitado invadiu o estômago de ambos.

Quando Ling conheceu Maurice, estava como sempre interessada em viver o presente que em seu idioma pátrio engloba os outros tempos verbais  tanto o passado quanto o futuro. Nem sei se foi certo isso que disse, pois para muitos chineses não há antes, durante e depois. Enfim, seja o que for, Ling observou a beleza de Maurice assim como a inteligência do lindo rapaz não somente como uma oportunidade, aquilo que vem ao nosso encontro, mas também como um tipo de disponibilidade, a abertura que temos de ter para acolhê-lo.

Maurice, por ter se desenvolvido dentro de um outro mundo onde é imposto a separação e a oposição dos tempos verbais, tinha-lhe o presente inacessível, pois, este foi reduzido no plano físico a um ponto sem extensão, ou seja, a um instante. Portanto, Maurice estava condenado, no plano metafísico, a viver de lembranças e se projetando em um ilusório caminho que só existe em mentes que separam o subjetivo do objetivo como funcionam as dos ocidentais. Ora, e desde quando viver passou a ser da ordem da travessia entre dois extremos? O “viver em si” é pensável do exterior? Para Maurice, essas perguntas sequer eram inteligíveis. Mas ainda assim, ele queria viver com sua Ling o futuro, assim por ele entendido, que lhe restava.

E saibam que, até hoje, esse casal vive junto. Ling, sem acreditar em  livre-arbítrio. Maurice, constantemente querendo entender o que ele é afinal. Essa questão que tanto o movimenta, ele jamais conseguiu traduzir para sua Ling de uma forma que ela o compreendesse, pois,  pelo menos na escrita chinesa, não há equivalente para o verbo “être” ou “to be“. Se o que um fala o outro assimila como é pensado por quem discorreu não sabemos. Possivelmente, pelo pouco que consegui relatar aqui, não. Nem sequer um consegue se apoderar das muitas perguntas do outro…

Há quem acredite que o amor está na soma das compreensões. Clarice Lispector, na contramão, disse que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Eu creio, depois de ter conhecido Ling e Maurice, que o entendimento entre quaisquer dois seres nesse planeta só acontece com a partilha de sentimentos como sofrimentos e alegrias. Afinal, sentir é pensar sem ideias, e por isso comungar sentimentos é, de alguma forma, um entendimento – visto que o Universo não tem ideias.

Ling e Maurice nasceram, como nós, com vários defeitos, mas não o de querer entender uma pessoa só com a inteligência. Ambos sabem que o que se pensa não pode ser assimilado pelo outro, seja pelo obstáculo da língua seja porque simplesmente a comunicação é mesmo um tipo de ilusão. E eles não estão nem aí para isso, pois, perceberam que compreender o que outra pessoa pensa é concordar ou discordar dela. Mas compreender o que um ser sente… ah aí é fazer com que dois universos sejam amalgamados pela eternidade – seja lá o que isso for.

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Agradeço a Júlio Camacho por ter me inspirado essa história.

Você já ouviu falar da personalidade empata? Saiba mais sobre ela aqui

Você já ouviu falar da personalidade empata? Saiba mais sobre ela aqui

POR DAIANA GEREMIAS

Empatas são, basicamente, pessoas com uma sensibilidade extrema e que conseguem sentir as energias do ambiente e das pessoas que as cercam. Costumam ter grandes variações de humor, uma vez que a forma como se sentem é influenciada por sons, cheiros, lugares, animais e, inclusive, por aspectos climáticos. Por causa dessa hipersensibilidade, sentem-se sobrecarregadas frequentemente.

De maneira simples, a descrição acima define o que é ter uma personalidade empata. O termo, no entanto, tem formas diferentes de definição, já que é estudado por aspectos da psicologia, da neurociência e, inclusive, da ficção científica.

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Definições

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“Empatas são altamente sensitivos, são instrumentos afinados quando se trata de emoções. Eles sentem tudo, às vezes ao extremo, e são menos aptos a intelectualizar sentimentos. A intuição é o filtro pelo qual eles experimentam o mundo. Empatas são naturalmente doadores, espiritualmente sintonizados e bons ouvintes”, resumiu a psiquiatra Dra. Judith Orloff.

Para a ficção científica, empatas são pessoas com uma capacidade de ler as emoções dos outros “através de uma forma de percepção extrassensorial”. Não são telepatas, contudo, já que essa sensibilidade não significa que conseguem ler mentes – nesse sentido, podemos usar a conselheira Deanna Troi, de “Star Trek: A Nova Geração”, como exemplo de uma personagem empata.

“Ser um empata é muito mais do que ser altamente sensitivo, e não é algo limitado somente às emoções. Empatas conseguem perceber sensibilidades físicas e urgências espirituais, assim como apenas sabem quais são as motivações e as intenções das outras pessoas. Ou você é um empata ou não é”, escreveu Christel Broeuderlow no site The Mind Unleashed, que publica apenas conteúdos relacionados a novas descobertas e percepções sobre a mente e o comportamento humano.

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Como falamos muito em sensibilidade e energia ao definir empatas, é comum que pessoas mais céticas questionem essas definições, mas a verdade é que a Ciência também estuda esse tipo de temperamento. Nesta pesquisa, por exemplo, os cientistas mostraram que há relação entre crises de ansiedade e temperamento empata.

“Os resultados confirmam hipótese de que indivíduos com alta ansiedade social podem demonstrar um perfil social-cognitivo único com altas tendências cognitivas empáticas e alta precisão em atribuições de estados mentais e afetivos”, diz a conclusão do estudo.

Essa ligação entre uma personalidade empata e problemas de ansiedade e convívio social tem a ver com o fato de que, frequentemente, essas pessoas sentem uma verdadeira necessidade de ficarem sozinhas. Como são “esponjas emocionais”, ficam sobrecarregadas e absorvem os sentimentos de pessoas estranhas, inclusive.

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Essa questão de absorção emocional, quando estudada dentro da neurociência, avalia as diferenças das atividades cerebrais entre indivíduos empatas e não empatas. Em 2013 foi descoberto que a área cerebral ligada à empatia está localizada no giro supramarginal, que é parte do córtex cerebral e fica localizado perto dos lobos temporal e frontal.

Trata-se, basicamente, de uma região do cérebro cuja função é fazer a distinção entre nossas próprias emoções e as alheias. Quando precisamos tomar uma decisão muito rapidamente, por exemplo, essa região tem sua atividade reduzida.

Há muitos estudos que buscam compreender os mecanismos de empatia, inclusive quando se busca entender melhor a psicopatia – psicopatas não são capazes de sentir empatia. Ao que tudo indica, as atividades cerebrais dos psicopatas são opostas às dos empatas – enquanto os empatas sofrem com o sofrimento alheio, os psicopatas chegam a se divertir com ele.

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Quando o que está em questão é o cérebro dos empatas, podemos considerar também as atividades neuronais de espelho, que é o que explica como os empatas conseguem sentir tão rapidamente o que a outra pessoa está sentindo. Um experimento publicado na Scientific American comprovou que os empatas são realmente capazes de sentir o sentimento dos outros.

Para conseguir ter certeza disso, um grupo de voluntários teve suas atividades cerebrais monitoradas por meio de ressonância magnética, de modo que os cientistas conseguiram reconhecer esse comportamento neuronal espelhado. Enquanto eram monitorados, os participantes assistiam a filmes curtinhos que mostravam pessoas sendo tocadas.

“Os escaneamentos cerebrais revelaram que o córtex somatossensorial, que é um complexo de regiões cerebrais que processam a informação do toque, estava altamente mais ativo durante a apresentação dos filmes – ainda que os participantes não estivessem sendo tocados em momento algum”, explicou Jakob Limanowski, doutorando da Berlin School of Mind and Brain.

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É importante frisar que essas comprovações científicas têm relação com a empatia, mas não com a definição do indivíduo como empata. Essa definição, embora exista e seja aplicada por quem estuda o assunto, tem como base os estudos envolvendo apenas a empatia em si.

A psiquiatra Orloff, que citamos no início do texto, fez uma relação de perguntas que você pode fazer a si mesmo caso acredite que possa ser uma pessoa empata e queira tirar a prova dos nove. Confira:

  •         Eu já fui rotulado como “emocional demais” ou extremamente sensitivo?
  •         Se um amigo está nervoso, fico nervoso também?
  •         É fácil que alguém magoe meus sentimentos?
  •         Fico emocionalmente drenado em meio a multidões e preciso de um tempo sozinho para recarregar as energias?
  •         Sou afetado por barulhos, cheiros e conversas em excesso?
  •         Eu prefiro ir de carro aos lugares, em vez de pegar carona, para que assim tenha a liberdade de ir embora quando quiser?
  •         Eu como em excesso para lidar com o meu estresse emocional?
  •         Tenho medo de ser tragado por relacionamentos íntimos?

Orloff explica que, se você respondeu “sim” a mais de três dessas perguntas, é bem possível que você tenha um temperamento empata ou que, no mínimo, apresente fortes traços desse temperamento. A especialista diz que se reconhecer como empata é o primeiro passo para quem busca lidar melhor com os problemas que isso pode trazer, especialmente no que diz respeito a relações interpessoais.

A sensação de falta de energia, a dificuldade de se envolver demais em situações sociais ou com muitas pessoas, a necessidade extrema de solidão e a dificuldade de ver filmes ou séries com temas violentos e/ou dramáticos são alguns fatores que comprometem a vida social, afetiva e profissional dos empatas.

Nesse sentido, é preciso aceitar que esse é o seu tipo de personalidade. Ainda que a maioria das pessoas sinta pavor de solidão, o empata não precisa se sentir mal por realmente gostar de ficar sozinho. Empatas são pessoas que precisam estar longe das outras de vez em quando, justamente porque absorvem demais a energia delas.

Esses indivíduos podem se beneficiar de um tempo passado em contato com a natureza, de exercícios de meditação e yoga e, inclusive, deve aprender a dizer “não”, pois é bastante comum que as pessoas recorram aos empatas quando precisam de ajuda ou quando necessitam desabafar a respeito de algum problema muito íntimo – como são bons ouvintes e conseguem se colocar no lugar dos outros com extrema facilidade, empatas costumam dar bons conselhos, e pessoas adoram quem dá atenção e bons conselhos.

Empatas precisam respeitar as próprias necessidades, ainda que constantemente sintam vontade de ajudar aos outros. Se vão a uma festa cheia de amigos que adoram e sentem a necessidade de ir embora duas horas depois, é isso o que devem fazer. Não significa que não gostam de seus amigos ou da festa, mas que têm uma forma diferente de conviver socialmente. Independente de qual seja o seu temperamento, respeitar suas próprias necessidades é fundamental.

FONTE(S)

Mother Nature Network/Starre Vartan
Dra. Judith Orloff
Scientific American/Jakub Limanowski
NCBI
Huffington Post/Judith Orloff MD
The Mind Unleashed
Psychology Today/Christopher Bergland

Do original indicado: Mega Curioso

A verdade sobre o Big Brother, por Orwell, Marx, Foucault e Bauman

A verdade sobre o Big Brother, por Orwell, Marx, Foucault e Bauman

Nas ruas, em casa, no trabalho, na escola, nos shoppings, em qualquer lugar a que vamos, somos vigiados. Nada escapa aos olhos, digo, às lentes atentas das câmeras. Somos monitorados, invadidos, fiscalizados, escaneados e mais um pouco. Nada de privacidade, tudo se convergiu em púbico ou potencialmente em público. E não ousem pensar em nada diferente, pois a vigilância, nos nossos tempos é, em grande parte, voluntária.

O controle feito pelo Partido, “personificado” pelo Big Brother, no mundo distópico de Orwell, dá-se pela vigilância constante, a qual controla tudo, inclusive, os pensamentos dos indivíduos. Desse modo, o indivíduo deve estar integralmente sob o controle do Big Brother, que tudo vê e ouve. Assim, qualquer desvio de conduta, ainda que seja em pensamento, é considerado crime, o qual se chama “crimideia”.

Não há, portanto, a possibilidade de o indivíduo pensar por si mesmo, tampouco questionar a realidade posta pelo Partido. Bem como todo meio que propicie o autoconhecimento, como fazer algo sozinho, é visto como uma conduta imprópria e perigosa, a qual se chama “proprivida”. Ou seja, os indivíduos são despersonalizados e convertidos em autômatos controlados pelo Big Brother.

O mundo, em 1984, não difere em nada do nosso. A vigilância que sofremos contemporaneamente é tão autoritária e controladora quanto a do livro. Assim como no livro, somos dominados pela ideologia dominante, o que significa dizer, em termos marxistas, que a dominação não acontece pela força, mas sim pelo convencimento. Isto é, a realidade é moldada segundo as vontades da classe dominante, que nos vende como verdades as suas mentiras arquitetadas.

Essa falsa consciência da realidade, que aceitamos, no entanto, não é construída e controlada apenas pelo Estado. É o que bem atenta Foucault, uma vez que os mecanismos de poder, na sociedade capitalista, subdividem-se em microrrelações, de modo que ultrapassam o Estado e atingem a vida cotidiana. Sendo assim, a vigilância acontece em todas as esferas do convívio social, produzindo e impondo normas de comportamento e adequação.

Seguindo o modelo do panóptico, há uma visibilidade total do indivíduo, fazendo com que a sua vida privada também se converta em pública, a fim de que seja controlada nos mínimos detalhes. Esse aspecto torna-se possível pelos aparelhos tecnológicos e pela internet. Estes são como a teletela de Orwell e exercem a mesma função do Big Brother, qual seja, vigiar a vida das pessoas, assim como punir os inadequados.

A vigilância total das sociedades atuais deveria causar desconforto e falta de liberdade. Entretanto, as pessoas parecem estar à vontade e totalmente dispostas a contribuir ao controle. Imersas no conteúdo midiático, seguem as ordens do Big Brother, que lhes indica o que deve ou não ser feito, o que, em uma sociedade consumista, pode ser resumido como o que deve ou não ser (existe essa possibilidade?) comprado. Após isso, correm para as redes sociais, para que possam postar suas selfies, demonstrando para o Big Brother que, como bons companheiros, seguiram à risca os seus comandos.

Essa vigilância voluntária é o que Bauman chama de “vigilância líquida”, já que consentimos em não somente fazer parte, como também contribuir para o controle, desconsiderando todos os perigos de uma vida totalmente vigiada e controlada. Dentro de um modelo panóptico, isto é, de visibilidade total, a vigilância tornou-se liquefaz e, assim, capaz de ocupar todos os espaços.

Com uma vida vigiada, nós nos tornamos autômatos, sem vida e subjetividade, como os sujeitos do mundo de Orwell. Embora nos achemos diferentes e autênticos, nós nos comportamos da mesma forma, como se tivéssemos saído das páginas de 1984, vestindo os macacões azuis dos membros do Partido. Somos meros reprodutores do discurso do Big Brother, sem poder crítico e com a gama de pensamento reduzida. Insistimos em manter as teletelas ligadas o tempo inteiro e não hesitamos em demonstrar a nossa obediência à sua magnificência.

Estamos sob o controle do Big Brother, para Orwell, da ideologia, para Marx, do panóptico, para Foucault, e da vigilância líquida, para Bauman. Cercados de grades que ajudamos a construir, mas que fazemos de tudo para não enxergar, somos controlados em cada suspiro do nosso pensamento. Para não sermos inadequados, abdicamos da intimidade para nos tornarmos massa singular de lentes aprisionadoras e de microfones que impossibilitam qualquer palavra autêntica, já que, quando passamos a postar fotos de comida no Instagram, fica difícil acreditar que os sonhos não estão sendo monitorados.

Notas sobre a mulher dos sonhos

Notas sobre a mulher dos sonhos

Quando ela chegar, com seu ar vintage, com seus óculos graciosos e seu cabelo lindamente curto, você ficará desnorteado.

Ela terá todo o encanto com o qual sempre sonhou e ao te abrir um sorriso você irá fitá-la deslumbrado.

Mesmo sem nunca terem se visto antes, você a desejou nas noites perdidas e solitárias de sua vida. Ela sempre esteve lá, sentada ao seu lado, alisando seus cabelos, acariciando o seu rosto, deitando sobre seu peito.

E você contou para ela todos os segredos do seu coração e desejou que ela pudesse ser de carne e osso e ao desejá-la tantas e tantas vezes a vida decidiu desnudá-la como uma surpresa boa.

Então no mercado você a vê linda e desajeitada, derrubando produtos pelo chão e se oferece encabulado para carregar as compras dela. E ela gentil, tanto quanto você, permite que a acompanhe até o carro. Ela é intuitiva e reconhece que a sua presença mexe com ela de uma forma inexplicavelmente boa, como se tivesse encontrado alguém com o qual a intimidade fosse fácil e declarada desde sempre.

Vocês se apresentam, mas isso pouco importa, pois você sabe que a amaria mesmo que ela não lhe desse palavra alguma, mesmo que ela te ignorasse no mercado, mesmo que ela dissesse que já tem outro a esperá-la em casa e recusasse a sua ajuda.

E nesse dia depois de você organizar as compras no porta-malas do carro dela, ela lhe diz do café da tarde que pretende fazer em seu pequeno apartamento e te pergunta se sua preferência é por chá ou café.

E estranhamente você já sabe que ela curte chá inglês e ela também entende de forma misteriosa que o seu gosto é para o café, assim como para os versos que você escreve para ela todos os dias.

Você é poeta. Ela é livre. Uma mulher que vive todas as suas possibilidades, que se joga no mundo em busca dos sonhos e viu em você um sonho que se desgarrou dela. Um sonho bom que por milagre tornou-se realidade.

No caminho vocês sorriem um para o outro e ela pergunta sobre a rádio e as músicas. Algo o leva a crer que ela gosta de Elvis Presley, e você até mesmo pensa em mencionar sua predileção por Luiza de Tom ou por Fascinação de Elis, mas no fim acaba preferindo o silêncio manso que se estende reconfortante entre vocês dois. Um silêncio de cumplicidade, de trocas de sorrisos e olhares.

Você se esquece do tempo ao lado dela, você se esquece que estacionou seu carro em uma vaga proibida e que provavelmente o guincho já deve tê-lo levado.

Ela diz que no prédio de três andares onde vive não tem elevador e você fica admirado ao ler na porta do apartamento dela o seu dia de aniversário seguido pelo mês de seu nascimento: Apto 16 – Bloco 2.

Ela joga a chave em cima do balcão da cozinha e pede que entre. E ao fazê-lo você aspira o ar da casa perfumada, cheio de uma essência que estranhamente lhe parece familiar. Ela aponta o banheiro, caso precise e pede que a ajude na cozinha. Fala que vão fazer um bolo de cenoura com cobertura de chocolate e então você se lembra que nunca fez um bolo antes.

Ela lhe sorri e diz que não tem problema, pois é uma boa professora. Que inclusive dá aulas de literatura em uma escola próxima. Você pensa em lhe falar dos poemas, mas resolve guardá-los no abismo de modéstia que abrange o seu eu.

Ela tira as fôrmas dos armários e das sacolas os ingredientes. Diz que vão fazer tudo, nada de massas prontas. Coloca nela um avental e busca um para você, envolvendo seu corpo com o dela para vesti-lo.

Você passa óleo em tudo e ajuda a bater a massa. Ela faz a calda e de vez em quando experimenta o chocolate lambendo os dedos de uma forma graciosa. Você finge esquecer que já fez amor com ela inúmeras vezes em pensamento e que a vontade de fazê-lo é mais forte agora do que nunca.

Assim quando colocam o bolo no forno e olham pelo vidro como duas crianças travessas, não é preciso muito para que seus olhos se toquem com cumplicidade.

Então vocês se levantam rápido, um pouco envergonhados, ligeiramente desconcertados pelos pensamentos sugestivos para os quarenta minutos nos quais o bolo ficará no forno.

Ela te pergunta se realmente é você. E você questiona de qual você ela se refere. Ela conta da mulher que o viu nas cartas e você lhe diz que também já sabia dela, mas não pelas cartas do tarot, mas pelo desejo de tê-la em carne e osso ao seu lado. Os mesmos olhos, o mesmo cabelo com uma mecha teimosa, os mesmos lábios desejosos que habitaram seu imaginário estão ali em sua frente.

Inusitadamente você sabe como tocá-la, você sabe como alcançar sua intimidade e trazer o melhor dela para o seu mundo. Então você se aproxima um pouco mais e desamarra o avental dela bem devagar e antes que ela lhe diga qualquer coisa, você tampa seus lábios com os dedos. Você nota naquele belo rosto feminino um traço de farinha e também percebe que a sua barba guarda resquícios da aventura a dois na cozinha, mas ambos se importam bem pouco com isso.

Você passa a mão pela cintura dela. Contorna a curva delicada daquele corpo de mulher que se moldou no seu tantas vezes na imaginação e delicado inclina a cabeça dela e a beija demorado, sentindo o gosto do chocolate com o qual ela se esbaldou durante a receita. Mas dentro do calor da boca dela o gosto parece repleto também de um delicioso toque de avelã. Sim, ela embriaga carinhosa todos os seus sentidos e o faz crer que tudo que viveu até ali valeu a pena. Ela o faz desdenhar a solidão que o acolheu tão bem até ali.

Você ouve o arfar profundo dela quando seus lábios se afastam e ao abrir os seus olhos encontra outros desejosos, moldados por um largo delineador escuro. Ela tem os cílios longos e carregados de um rímel preto e a cor de sua íris é a de um mar turquesa no qual você se afogaria sem clemência.

Ela te puxa pela mão e o leva até o quarto. Nele pequenas luzes de pisca pisca contornam a parede até a cama e na cabeceira a foto da cidade na qual você nasceu. Ela sorri, diz que sempre sonhou conhecer o lugar e você entende que algo maior tramou para que vocês dois finalmente se encontrassem.

Ela deixa que você tire a blusa dela, revelando os peitos macios emoldurados por um sutiã rendado e pede com os olhos que você faça amor com ela, mas ela não precisaria pedir por nada, pois você a deseja desde muito.

Assim, delicadamente intrínsecos, mergulhados de súbito na natureza um do outro, vocês se declaram mutuamente e a sua poesia transborda para os ouvidos dela em versos, palavras, gemidos e chamados.

E quanto o forno apita, indicando que podem resgatar de lá o bolo para o café, o apito se perde em meio às suplicas carinhosas de dois que se amaram antes mesmo de se conhecerem.

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