As 10 melhores citações de O Sol é Para Todos, de Harper Lee

As 10 melhores citações de O Sol é Para Todos, de Harper Lee

Por Luisa Bertrami D’Angelo e Luiz Antonio Ribeiro

Não que sejam livros “atemporais”, no sentido de ignorar a importância do contexto em que foram escritos; mas é que se tornam obras primas que, em qualquer época, encantam, surpreendem e marcam seus leitores. Creio que este seja o caso de “O Sol é Para Todos”, de Harper Lee. O livro, que também foi adaptado para o cinema nos anos 60, é um clássico americano que, ambientado no sul dos Estados Unidos na década de 30, tem como pano de fundo as terríveis tensões raciais, o preconceito e a segregação se contrapondo à inocência e à gentileza da infância.

Resolvemos, então, separar algumas das melhores citações da obra que todos deveriam conhecer.

1- “Só existe um tipo de gente: gente.”

2-“As pessoas sensatas não se orgulham de seus dotes naturais.”

3-“Quando crescer, todos os dias você verá brancos ludibriando negros, mas deixe-me dizer uma coisa, e nunca se esqueça disso: sempre que um branco trata um negro desta forma, não importa quem seja ele, o seu grau de riqueza ou a linhagem de sua família, esse homem branco é lixo.”

4- “Deus significa amar aos outros como a gente ama a gente.”

5- “Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.”

6- Não se sinta ofendida quando alguém lhe disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou…”

7- “Antes de poder viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo. A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria.”

8- “Existem pessoas que se preocupam tanto com o Outro Mundo que nunca aprendem a viver neste.”

9- Fiquei me perguntando por que as senhoras punham chapéu para ir do outro lado da rua. Grupos de senhoras sempre me causavam uma vaga apreensão e o firme desejo de estar em outro lugar, o que tia Alexandra chamava de ser “mimada”.

10- “Andar armado é um convite para alguém atirar na gente”.

Fonte indicada: Literatortura

18 características para identificar o autismo

18 características para identificar o autismo

Por Socorro Bernardes

Para que possamos entender o autismo diremos que  é um transtorno global do desenvolvimento que se caracteriza pelo desligamento da realidade exterior, alterações qualitativas na comunicação, na interação social e no uso da imaginação e por um repertório muito restrito de atividades e interesses.

Essa dificuldade está vinculada aos diversos fatores que incidem no desenvolvimento evolutivo do homem e que começam a se manifestar nos momentos iniciais da vida de cada ser humano.

Segundo estudos, aparece nos três primeiros anos de vida  e acomete cerca de 20 entre 10.000 nascidos e é quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas. As manifestações do transtorno variam bastante, dependendo do nível de desenvolvimento e da idade cronológica da pessoa.

Sintomas

Segundo a ASA (Autism Society of American), indivíduos com autismo usualmente exibem pelo menos metade das características listadas a seguir:

  1. Dificuldade de relacionamento com outras crianças

2. Riso inapropriado

3. Pouco ou nenhum contato visual

4. Aparente insensibilidade à dor

5. Preferência pela solidão; modos arredios

6. Rotação de objetos

7. Inapropriada fixação em objetos

8. Perceptível hiperatividade ou extrema inatividade

9. Ausência de resposta aos métodos normais de ensino

10. Insistência em repetição, resistência à mudança de rotina

11. Não tem real medo do perigo (consciência de situações que envolvam perigo)

12. Procedimento com poses bizarras (fixar objeto ficando de cócoras; colocar-se de pé numa perna só; impedir a passagem por uma porta, somente liberando-a após tocar de uma determina maneira os alisares)

13. Ecolalia (repete palavras ou frases em lugar da linguagem normal)

14. Recusa colo ou afagos

15. Age como se estivesse surdo

16. Dificuldade em expressar necessidades – usa gesticular e apontar no lugar de palavras

17. Acessos de raiva – demonstra extrema aflição sem razão aparente

18. Irregular habilidade motora – pode não querer chutar uma bola, mas pode arrumar blocos

Entretanto é relevante salientar que nem todas as crianças com autismo apresentam todos estes sintomas, porém a maioria dos sintomas está presente nos primeiros anos de vida da criança. Estes variam de leve a grave e em intensidade de sintoma para sintoma.

Tratamento

Ainda não há estudos científicos nem exames que comprovem as causas do autismo e os comportamentos para prevenir este transtorno. O que se destaca hoje é o diagnóstico precoce e a intervenção precoce, para que a criança consiga se desenvolver da melhor maneira possível e não tenha muito comprometimento de suas funções pessoais e sociais, uma vez que os sintomas tendem a mudar e até alguns, a desaparecer. Os tratamentos multidisciplinares a que a criança portadora do distúrbio deve se submeter envolve profissionais da área de saúde, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicopedagogos, dentre outros.

Família

O tratamento envolve, consequentemente, a família, pois lidar com uma criança autista aflora diversos sentimentos nos familiares. Segundo estudiosos, as famílias da criança que tem autismo precisam tanto de tratamento quanto os as crianças, pois lidar no cotidiano com uma criança com estas características é extremamente desgastante e acaba acarretando um nível de estresse muito alto que pode também prejudicar a criança autista, até mesmo quanto ao seu nível de afetividade e desenvolvimento.

Fonte indicada: Ganhe sempre mais

Sentidos Inconscientes, por Umberco Eco

Sentidos Inconscientes, por Umberco Eco

Seus escritos continuarão despertando mentes e sentidos insconcientes.

Descanse em paz:

Humberto Eco
5 Jan 1932 // 19 Fev 2016

“Nada consola mais o autor de um romance do que descobrir as leituras nas quais não havia pensado e que lhe são sugeridas pelos leitores… Não digo que o autor não possa descobrir uma leitura que lhe pareça aberrante, mas em todos os casos deveria calar-se: que os outros a contestem, texto em punho. De resto, a grande maioria dos leitores faz-nos descobrir efeitos de sentidos nos quais não havíamos pensado. Mas o que significa o facto de não termos pensado naquilo?”

Umberto Eco, in ‘Apostilha ao «Nome da Rosa»’

Fonte indicada: Citador

Cortando o cordão umbilical: Os problemas de sua família não são seus

Cortando o cordão umbilical: Os problemas de sua família não são seus

Por Tais Trajano

A família é nosso primeiro meio social, é onde construímos e nutrimos nossas primeiras relações e também onde iniciamos nosso desenvolvimento do Eu. Os vínculos costumam se desenvolver de forma intensa, por vezes nos tornando cuidadores e defensores de nossa família.

Acontece que muitas vezes esses laços se constituem de forma a não estabelecer limites a essas relações, tornando-as disfuncionais.

Família disfuncional? O que é?    “Uma família disfuncional é aquela que responde as exigências internas e externas de mudança, padronizando seu funcionamento. Relaciona-se sempre da mesma maneira, de forma rígida não permitindo possibilidades de alternativa. Podemos dizer que ocorre um bloqueio no processo de comunicação familiar”. Fonte: Boa Saúde

Em muitos casos um familiar responsabiliza-se por resoluções de problemas e conflitos que não deveriam ser de sua preocupação. Veja alguns que estão recentes em minha mente.

  1. Filho que assumiu a posição de ‘chefe da casa’ após separação conturbada dos pais. Além de cuidar de si e de suas questões ‘adolescentes’, o filho sente-se na obrigação de cuidar da mãe e educar o irmão mais novo;
  2. Filho de pais que vivem em meio a separações e ameaças de divórcio. O filho vira mecanismo de reconciliação/separação do casal, sendo peça fundamental para que um ciclo briga-separa-volta se mantenha a todo vapor;
  3. Filha mais velha e adulta sente-se responsável por dar suporte a sua mãe (que criou a filha parte da infância sozinha), seja financeira ou emocionalmente. Tornando-se refém dos problemas da mãe, que são normalmente resolvidos pela filha ou não resolvidos para se manter esse tipo de relação;
  4. Irmã que sente-se responsável por cuidar dos irmãos e já na fase adulta continua a resolver os conflitos e arcar com despesas financeiras dos irmãos;
  5. Mãe que, apesar dos filhos já serem adultos e estarem casados, sente-se responsável por conduzir a vida dos filhos e assumir despesas e responsabilidades deles.

Ao expor os exemplos acima não me refiro a situações isoladas ou casos específicos. Me refiro a ciclos repetitivos que adoecem as relações e sobrepõem responsabilidades individuais, transferindo-as ao outro.

Em casos como os já citados todos têm prejuízos em suas vidas. Uma pessoa sobrecarrega-se, outra não amadurece, mantendo uma relação imatura, sem espaço para desenvolvimento com intuito de melhora.

Para alguns pode ser visto como prova de amor, mas não. Amor baseia-se em troca, respeito mútuo e limites. Estipular limites sim é uma prova de amor, amor ao outro e a si mesmo.

Normalmente quem se encontra neste tipo de situação enfrenta dificuldade em romper com o ciclo vicioso que retroalimenta, no entanto, é extremamente necessário que o indivíduo entenda o papel que vêm exercendo e o que o motiva a manter-se nessa posição (normalmente há algum ganho ou enrijecimento por um ganho do passado). A consciência do funcionamento familiar já é de grande valia já que muitas pessoas vivenciam essas situações sem nem ao menos perceber que algo está disfuncional, mesmo em casos em que haja sofrimento manifesto.

Em alguns casos uma conversa com alguém fora da família, como um amigo, poderá alertar e alterar o status da família. Outras vezes o processo terapêutico se faz necessário.

O processo terapêutico individual por si só já provocará desdobramentos no lidar deste individuo com seus familiares. Agora se o processo terapêutico for familiar, ou seja, todos os membros da família participarem, o processo poderá ser muito mais rápido, pois os conflitos referentes ao envolvimento e mecanismo familiar serão resolvidos por todos juntos, além de propiciar que todos entendam seu papel no funcionamento da família, possibilitando, assim, a escolha de permanecer retroalimentando os laços disfuncionais ou reescrevendo novas formas de organização e arranjo familiar.

Fonte indicada: Lar – Livre à Reflexão

Carta de um idoso

Carta de um idoso

Oi, jovem. Como vai?

Espero que tenha garra suficiente para enfrentar os dissabores da vida.

Já fui jovem como você e por isso entendo muito bem dessas coisas que você

anda sentindo…

Já enfrentei muitas barras, já ralei muito, como você diz ,

mas… segui em frente.

Você ainda não é um velho como eu; então, fica um pouco difícil

você me compreender.

Hoje, sem o vigor da mocidade, caminho bem devagar

– e você tem pressa.

Já não ouço muito bem

– e você acha complicado conversar comigo.

Minha mente anda um pouco lenta

– e não consigo acompanhar a rapidez do seu raciocínio.

Já estou às voltas com algumas manias

– e às vezes você perde a paciência comigo.

Caso eu fique esclerosado ou demente,

trate-me com ternura,

porque talvez você precisará de igual ternura quando ficar velho.

Sei que pode parecer que já não sirvo mais para nada,

Mas, é engano. Sabia?

Tenho tantas coisas para contar…

O que aprendi da vida pode ser muito útil para você saber lidar com alguns problemas.

Minha história servirá para lhe mostrar como acertar mais e errar menos.

A vida me ensinou isso: como acertar mais e errar menos…

Mas, para que eu consiga passar minhas experiências para você,

preciso de pelo menos um pouquinho do seu precioso tempo.

Ah! E também de sua paciência  e atenção.

Se ficarmos amigos,

eu me sentirei um pouco mais jovem perto de você.

Em contrapartida, você com certeza se tornará mais sábio.

E tenha certeza:

Vou repetir:  Você acertará mais e errará menos…

Não vai ser legal?

Lu Prado

(ES)

A importância da curiosidade na prática clínica

A importância da curiosidade na prática clínica

Por Marcela Bianco

Parece natural que a curiosidade faça parte do cotidiano da prática clínica do psicólogo e pode parecer estranho precisarmos discorrer sobre isso através de um artigo. Mas, de certa maneira, todos nós sabemos o quanto nossa mente têm uma tendência redutivista no modo como enxergar o mundo à sua volta. Nós selecionamos, esquematizamos, interpretamos e ordenamos as informações que recebemos a partir de inúmeros fatores, como: experiência prévia, tipo psicológico predominante, qualidade e natureza do vínculo, aspectos transferencias e contratransferenciais, etc. Tudo isso inunda e permeia o setting terapêutico para além do nosso controle e faz parte da natureza de uma atuação onde o principal instrumento de trabalho é o próprio terapeuta, incluindo sua subjetividade.

Assim, falarmos da curiosidade na clínica psicológica é uma forma de compreendermos que este é um recurso que não devemos perder de vista quando estamos dedicados ao atendimento e cuidado de outras pessoas.

Sabemos que o ser humano é curioso por natureza, uma vez que, desde o nascimento precisa explorar o mundo à sua volta a fim de apreender o maior número de informações necessárias à sobrevivência. Porém, com o passar dos anos passamos a ficar presos aos condicionamentos e nosso olhar pode perder a destreza em ver as coisas como elas realmente possam ser.

Rubem Alves, em seu livro “A arte de ser feliz” fala um pouco sobre essa questão e compara os olhos das crianças como baldes vazios de saber e prontos para ver. Já os olhos dos adultos são vistos como baldes cheios e que muitas vezes olham sem nada ver, perdendo a riqueza dos significados que o mundo pode abarcar.

Portanto, o olhar do adulto tende a unilateralização. E, como aponta Carlos Byington,

“quando nossa Consciência opera unilateralmente, ela pode separar a energia da matéria, a psique da natureza, o consciente do inconsciente, o subjetivo do objetivo e a mente do corpo. Assim fazendo, ela funciona com maior facilidade, mas o preço é a alienação que limita a percepção de que ela sempre está ligada às polaridades dentro do Todo”.

Desta forma, perceber as polaridades de maneira integrada num todo de significado para a comprensão dos significados dos sintomas é tarefa sine qua nom para o bom psicólogo clínico e, neste aspecto, a prática da curiosidade é indispensável para que isso possa acontecer.

É a curiosidade que diminui as chances de que o terapeuta, ao se deparar com uma experiência trazida por um paciente, acredite que já conheça seu significado por meio do conhecimento de vivências semelhantes de outros pacientes, pessoas de seu convívio ou das suas próprias. Afinal, é ela que leva o terapeuta a querer conhecer a singularidade do significado daquele acontecimento, pensamento, ideia, sentimentos, etc. para aquele paciente em específico e naquele momento da sua existência.

Um olhar curioso também nos afina na compreensão dos símbolos que podem estar atrelados aos sintomas, queixas e relatos trazidos pelos pacientes. Ela nos instiga, como verdadeiros detetives a buscar relações, a perguntar, a não se conformar com uma explicação puramente lógica e concreta, a ir a fundo na história pessoal e coletiva… enfim, a tudo àquilo que é fundamental para que o processo psicoterápico se desenvolva farovalmente.

Aliás, numa postura curiosa, a prática de perguntar ao invés de puramente interpretar e relacionar por conta própria passa a ser natural na atuação do psicólogo.

Assim, a curiosidade faz com que o terapeuta não fique conformado com visões parciais a respeito de algo, não se represando em uma teoria ou forma de pensamento, mas buscando novos paradigmas, e conhecimentos, alargando o aprendizado em relação ao mundo que o cerca. Um terapeuta curioso está sempre pronto para aprender e não se sentirá tão inseguro em errar e assumir lacunas em seu conhecimento.

Além disso, por saber que o fenômeno transferencial faz parte de qualquer relacionamento, o terapeuta curioso também irá ao encontro do seu autoconhecimento, buscando o que a relação com o paciente e sua história desperta em si mesmo. Estará focado não só ao conteúdo verbal do paciente, mas também em seus gestos e expressões. Atentará para as reações que o conteúdo trazido pelo paciente produzirão em seu corpo, em seu estado emocional e em sua psique. Buscará sua própria terapia pessoal e supervisão para enriquecer sua visão sobre o que se passa na relação terapêutica e, assim, percorrerá seu próprio caminho de autoconhecimento e ampliação da consciência.

O terapeuta curioso também desperta em seu paciente o desejo de se aprofundar em sua própria história e psiquismo, mostrando que essa exploração e uma visão menos redutivista e polarizada sobre sua vida pode levar a uma ampliação do seu mundo consciente, auxiliando em escolhas, decisões e na melhoria da qualidade de vida.

Portanto, façamos da curiosidade uma grande parceira na nossa prática clínica. Usada de maneira adequada ela nada terá a ver com uma postura mexiriqueira, mórbida ou invasiva mas, nos auxiliará a estar mais próximos da totalidade e de uma visão simbólica sobre o outro, sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Marcela Bianco-Psique em Equilíbrio

 

O erro não é de quem confia, e sim de quem mente

O erro não é de quem confia, e sim de quem mente

A confiança é como uma ponte de cristal frágil e transparente que eleva as nossas vidas. É provável que você tenha levado muito tempo e muito esforço para construí-la, e por isso é tão apreciada.

Contudo, apesar de merecer tanto trabalho e trazer tanta felicidade, costuma ser destruída em apenas poucos segundos pelo nosso descuido, nossos egoísmos e nossas atitudes interessadas.

Quando um sentimento tão importante como a confiança se quebra, algo em nosso interior desfalece. Isto ocorre porque a mentira coloca em dúvida mil verdades, fazendo com que nos questionemos inclusive sobre as experiências que achávamos totalmente sinceras.

A mentira tem pernas muito curtas e os braços muito compridos

Mesmo que a mentira possa alcançar limites inesperados, a verdade sempre acaba aparecendo. Como costumamos dizer, é mais rápido pegar um mentiroso que um coxo, pois as suas palavras e os seus atos não se sustentam.

De qualquer forma, o fato de que tudo caia pelo seu próprio peso não quer dizer que a pancada não vá ser impactante e dolorosa. De fato, o normal é que ocorra precisamente o contrário e que a mentira e a traição acabem sendo um antes e um depois nas nossas vidas.

“Um pássaro pousado em uma árvore nunca tem medo de que um galho se rompa, porque a sua confiança não está no galho… E sim nas suas próprias asas…”

A responsabilidade de quem mente

É comum ouvir isso de “se traírem você uma vez é culpa do outro, mas se traírem você duas vezes, é culpa sua”. O fato é que esta afirmação tem muito de verdade em si, mas também é preciso olhá-la com cautela.

Ou seja, a ideia é que aprendamos com os nossos erros e que não os repitamos, mas em última instância, nunca deveríamos nos sentir culpados por sermos enganados.Como você vai se responsabilizar pelo que os outros fizerem? Isso é uma loucura.

Não obstante, é provável que isto tenha atormentado você mais de uma vez, fazendo se sentir estúpido por ter caído nas redes de alguém que “já estava dando na cara”. Neste sentido, é muito fácil ligar os fatos quando a casa já caiu e está fragmentada.

Não somos nem adivinhos, nem infalíveis. Além disso, os outros também não são perfeitos e em alguns casos é preciso pensar que as pessoas boas também cometem erros, de modo que também é preciso estar aberto a perdoar.

“Depois de um tempo você aprenderá que o sol queima se você se expuser demais. Aceitará inclusive que as pessoas boas possam lhe ferir alguma vez e você precisará perdoá-las. Você aprenderá que falar pode aliviar as dores da alma… descobrirá que leva anos construir a confiança e apenas alguns segundos para destruí-la e que você também poderá fazer coisas das quais se arrependerá o resto da vida”.

–William Shakespeare–

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A ferida emocional da traição

A ingratidão e a traição doem especialmente quando envolvem as pessoas que amamos e temos ao nosso redor, como os nossos cônjuges, nossos amigos ou as nossas famílias. Quando isto ocorre, começam a entrar em cena a raiva, a impotência e a ira, fazendo-nos sair dos nossos papéis.

Também é muito doloroso (e infelizmente muito comum) que alguém faça algo por nós esperando somente receber algo mais da nossa parte. Este tipo de traição quebra a nossa estrutura e afunda o nosso mundo emocional em um autêntico caos.
Contudo, mesmo que a traição doa profundamente no coração, não faz muito sentido mudar o seu jeito de ser por ter sido ferido, e passar a descontar em outras pessoas por vingança ou despeito.
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Por incrível que pareça, esta reação é bastante comum quando a “ferida emocional” está aberta e infeccionada. Do mesmo jeito, só porque alguém fez isso com você não faz sentido se vestir com uma armadura frente a todas as pessoas que o rodeiam. Basta proteger-se do traidor.

Como superar a mentira e a traição

A segurança, a franqueza, a sinceridade e a lealdade nas nossas relações são um pilar básico para manter o nosso crescimento. Contudo, as dúvidas, a desconfiança e a falsidade só nos prejudicam, nos queimam e nos envenenam.

Portanto, embora a desconfiança crave profundos espinhos em nosso interior, todos somos capazes de superá-la. É normal que frente a estas situações a dúvida cresça e, com ela, a desconfiança, mas isto não deve representar uma oportunidade para desconfiar dos outros.

Ou seja, dado que é provável que nos encontremos nesta situação tão indesejável mais de uma vez, é preciso entender que é uma oportunidade para crescer como pessoa e escolher melhor as pessoas que nos rodeiam.
Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

A nossa falsa verdade- Goethe

A nossa falsa verdade- Goethe

Uma vez que em boa verdade os homens apenas se interessam pela sua opinião própria, qualquer indivíduo que queira apresentar uma dada opinião trata de olhar para um lado e para o outro à procura de meios que lhe permitam dar força à posição, sua ou alheia, que defende.

As pessoas servem-se da verdade quando ela lhes é útil, mas recorrem com retórica paixão à falsidade logo que se lhes depara o momento em que a podem usar para produzir a ilusão de um meio-argumento e dar assim, com uma manobra de diversão, a aparência de unificar aquilo que se apresenta como fragmentário.

A princípio, quando me apercebia de tais situações, ficava incomodado, depois passei a ficar perturbado, mas tudo isso suscita-me hoje um prazer malicioso. E prometi a mim mesmo que nunca mais volto a pôr a descoberto esse tipo de procedimentos.

Johann Wolfgang von Goethe, in “Máximas e Reflexões”

Fonte indicada: Citador

O que eu desconheço, por Mario Sergio Cortella

O que eu desconheço, por Mario Sergio Cortella

Clarice Lispector, ucraniana que viveu no Brasil, foi uma das pessoas mais inteligentes na produção da literatura, da educação e da arte dentro da nossa história. Em um de seus textos, disse: “aquilo que eu ignoro é minha melhor parte”.

Aquilo que ainda não sei, aquilo que eu desconheço, é o melhor de mim. Não porque a ignorância precise ser elevada a um patamar superior, mas quando Clarice Lispector nos lembra isso, mostra que aquilo que eu ainda não sei é o meu território de renovação, de reinvenção, de crescimento, aquilo que me tira do “mesmo”, que me impede de ficar repetitivo.

O que eu ainda não sei revigora as possibilidades dos degraus futuros do conhecimento, à medida que alarga as minhas fronteiras de saber e indica um horizonte que pode ser vislumbrado e desejado.

Saber que não sabe muita coisa, saber que desconhece muita coisa ajuda a querer buscar esse conhecimento. E esse é um caminho que não termina, segue adiante na sua história, na sua formação, na sua educação permanente.

É necessário valorizar o que se desconhece, como lembrou Clarice Lispector.

Mario Sergio Cortella
(CORTELLA, Mario Sergio. O que eu desconheço. In: _____. Pensar bem nos faz bem!: 1.filosofia, religião, ciência e educação. São Paulo: Vozes/Ferraz & Cortella, 4. ed., 2014, p. 58.)

Asilo é coisa do passado: conheça a vila holandesa projetada para idosos com Alzheimer

Asilo é coisa do passado: conheça a vila holandesa projetada para idosos com Alzheimer

Weesp é um município dos Países Baixos e abriga um asilo bastante incomum. Na verdade, o nome asilo não cabe para o lugar que mais se parece com uma vila.

Hogeweyk é o nome da vila projetada especialmente para o cuidado de idosos com demência — especialmente demências degenerativas como o Alzheimer.

O lugar é realmente fantástico e já foi comparado com o filme O Show de Truman, porque por lá estão médicos, efermeiros e especialistas trabalhando para cuidar dos 152 residentes.

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Os residentes do Hogeweyk precisam de menos medicamentos

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Essa foi a primeira grande vantagem do lugar que me chamou atenção. Segundo o site Psychology Today, os residentes da vila são mais ativos que os residentes de asilos convencionais e também demandam menos remédios para controlar suas condições médicas.

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A vila foi criada com 23 casas especialmente projetadas para pessoas da terceira idade que sofrem de demência. O que também é bastante interessante é que os trabalhadores dão o máximo de privacidade e autonomia para os moradores.

Por lá tem supermercado, restaurante, bar e cinema.

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Ruas, praças, parques e jardins foram todos desenvolvidos para que os idosos pudessem transitar livremente sem grandes problemas. E é isso que eles fazem.

Os médicos e enfermeiros são instruídos para fazer da experiência dos idosos o mais próximo da realidade possível. Embora as condições de demência possam exigir grandes cuidados, são os próprios moradores que fazem as compras no supermercado e ajudam no preparo da comida em casa.

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Apenas os aspectos financeiros são deixados de lado por sua natureza mais complexa — não existe moeda no local e tudo está incluso no pacote que se paga para morar lá.

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Os cuidadores vestem roupas normais em vez de roupas clínicas e se encaixam perfeitamente nos papéis de vizinhos e empregados do lar. Eles também não corrigem quando os residentes decidem falar sobre suas memórias, seu passado e história. Todos os funcionários do lugar estão lá apenas para dar apoio a situação delicada dos idosos.

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Segundo The Atlantic:

“Os residentes são cuidados por 250 enfermeiros e especialistas em tempo integral e parcial, que vagueiam pela cidade e possuem uma infinidade de profissões na vila, como caixas de supermercado e atendentes.”

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Todas as imagens via  twistedsifter.com

Por Willian Binder, via Awebic

A Lenda da Matrioska – A boneca russa

A Lenda da Matrioska – A boneca russa

Era uma vez em virtuoso carpinteiro russo chamado Serguei, que ganhava a vida talhando belos objetos de madeira: instrumentos musicais, brinquedos… Todas as semanas, ele enfrentava o frio do bosque para buscar madeira e assim construir novos objetos. Uma certa manhã ao sair para recolher a madeira, ele encontrou o campo todo coberto de uma grossa capa de neve. A noite havia sido difícil. Ele rezou. Toda a madeira que ele encontrava no caminho estava úmida e só lhe servia para fazer fogo.

Abatido pelo cansaço, ele decidiu retornar à sua casa e tentar a sorte no dia seguinte. Quando ele estava dando meia volta, lhe chamou a atenção um tronco de madeira esplêndido, o mais belo que ele havia visto em sua vida. Rápido como um raio ele retornou ao seu estúdio, porém vários dias se passaram até ele decidir o que talhar. Finalmente, decidiu fazer uma preciosa boneca.

Era tão bonita, que decidiu não vendê-la para lhe fazer companhia. “Você se chamara Matrioska” disse ele à inerte figura. Cada manhã, ao levantar-se ele falava com sua companheira. “Bom dia, Matrioska” . Um dia, ela lhe respondeu: “Bom dia Serguei”. O carpinteiro se surpreendeu, porém ao invés de sentir medo ele se sentiu feliz por ter alguém com quem conversar.

Com o tempo, o carpinteiro percebeu que Matrioska estava triste e lhe perguntou o que estava acontecendo. Ela lhe respondeu que via que todo mundo tinha um filho ou filha e ela desejava ter um. “Terei que te abrir e isso será doloroso” – respondeu Serguei.  E ela disse: “Na vida, as coisas importantes requerem um pequeno sacrifício”. E sem pensar  duas vezes ele talhou uma réplica, menor e lhe chamou de Trioska. Ela já não se sentia mais sozinha.

O instinto maternal se apoderou também de Trioska e Serguei concordou que está também teria um filho, se chamaria Oska. Mas Oska também queria um decendente. O carpinteiro contou que dessa vez a madeira poderia originar uma boneca má. Oska não desistiu. Após pensar, ele talhou um boneco, bem pequeno e com bigode e lhe batizou de Ka. E o colocou em frente ao espelho e disse: “Você é um homem, não pode ter filhos!”

Então colocou Ka dentro de Oska. A Oska dentro da Trioska e a Trioska dentro da Matrioska. Um dia, misteriosamente, Matrioska desapareceu com toda sua família dentro. Serguei ficou desolado.

Fonte indicada: Isadoracln

Olhar o céu é a oração mais bonita que existe!

Olhar o céu é a oração mais bonita que existe!

De manhã, à tardinha, de noite, faça chuva, faça sol, olhar para o alto simplesmente, olhar assim, por nada, é um dos jeitos mais bonitos de rezar.

Não é preciso decorar palavra, não carece nenhum ritual, vestimenta adequada, instrumento solene. Basta respirar fundo e mirar o céu lá em cima.

Olhando para o alto, a gente fica pequenininho, humilde como deve ser. Quem avista o céu esquece o que deve esquecer e lembra o que é bom lembrar. De quando em vez, pôr os olhos no céu nos devolve os pés no chão.

A moça abre os braços, fixa um espaço entre as nuvens e o vento lhe invade as narinas, renova-lhe os pulmões, levanta sua saia, passa voando baixo por sua pele num carinho imenso e lhe traz de volta o perfume da pessoa amada que anda longe.

Namorando o azul da tardinha, o menino imaginoso faz perguntas, cria teses, visita mundos, sonha com o infinito pra lá do sol, inventa o tratado geográfico das nuvens. Aprende a ser feliz mesmo quando está sozinho, esperançoso de que o pai volte logo do trabalho enquanto vai gerando em si mesmo, cá de fora, o caçula que vai dentro da barriga da mãe. Seu irmãozinho que, para todos os efeitos, também virá do céu, no bico seguro de uma cegonha.

E os velhos? Ahh… os velhos quando olham para o céu se transformam em poesia. São poemas de pernas e braços, de tempo e vento e luz e saudade.

No jeito manso dos velhos, olhando para o céu eu também sinto saudade. Lembro de quando éramos só nós. Você e eu e os nossos, refugiados de todo absurdo do mundo, voltando para casa depois de uma viagem de carnaval. Nós e nosso banzo de casa, nossos sentimentos domésticos, nossa pia de boca aberta para a louça suja, nossa vida limpa, nossas lâmpadas elétricas fazendo a festa dos bichinhos de asas que voam em círculos como loucos funcionários públicos da noite, nossa poeira sobre os móveis, nosso tapete enrugado sob o sofá, nossos planos de ter uma planta, nossos sonhos de amor eterno, nosso dia depois do outro.

Assim, quietinhos aqui embaixo, espiando a beleza que vai lá em cima, dá na gente a impressão de que Deus nos cuida de lá. Ele há de nos notar divertido e emocionado, apreciando seus filhos que O procuram daqui em usufruto da vista, da vida e do chão que nos sustenta e nos permite, com a humildade que nos cabe, de vez em quando parar os pés e erguer as mãos para o alto em franca, simples e honesta gratidão.

Ave Maria! Olhar o céu, esse lugar imenso onde mora o Pai Nosso e todos os anjos e os santos, é a oração mais bonita que existe!

O “misterioso” caso de quem é deixado porque faz tudo pra agradar

O “misterioso” caso de quem é deixado porque faz tudo pra agradar

Estava tudo bem entre a gente. De repente você me deixou.

Eu não sei o que houve, apenas senti que você foi se afastando, foi ficando distante, diferente, ou melhor, indiferente. Eu fui me desesperando e o meu desespero acabou piorando as coisas. Queria te segurar e quanto mais eu lhe segurava mais você foi me escapando. Do dia para a noite me vi lutando contra uma correnteza que me levava; que te levava para longe de mim. E hoje eu me sinto vencida.

Naquele dia você não me atendeu, as suas respostas às mensagens que eu enviara foram  monossilábicas e demoravam cada vez mais a chegar. Cada tentativa de me aproximar, de fazer com que tudo voltasse a ser como era antes contribuíam para este tão conhecido final: deixaram-me de novo. Você me deixou. Você também me deixou.

No começo foi tudo tão bom, parecia que eu estava sonhando, era perfeito, eu finalmente havia encontrado a pessoa da minha vida. Eu busco incessantemente a pessoa da minha vida e a vida sempre me engana. A pessoa nunca chega, ou ela chega e vai embora. Eu te amava tanto, eu fazia tudo para agradar. Pensava em você o dia todo, tudo me lembrava de você, queira estar ao seu lado o tempo todo, queria lhe encher de mimos.

Sou perseguida desde criança por um medo de que as pessoas me deixem e, quando começo a sentir esta conhecida sensação, logo acontece. Já fui deixada muitas vezes, meus relacionamentos parecem ser amaldiçoados por uma profecia malévola. As pessoas me deixam, parecem se desencantar, parecem se cansar ou se atraem por algo que lhes desvia a atenção de mim e do nosso relacionamento. Eu me dedico tanto, faço tudo para agradar. O que há de errado nisso?

Olho para as pessoas e me pergunto como elas conseguem se relacionar. Como e porque conseguem conquistar manter relacionamentos duradouros enquanto eu, que os procuro incessantemente, todos os dias e que, quando encontro, me dedico inteiramente a eles acabo sempre me deparando com o abandono e a solidão.

 Inúmeras foram as vezes nas quais ouvi relatos como este e muitas foram também as vezes nas quais eu observei de perto histórias como esta acontecerem. Dentro e fora do consultório é bem comum ver a dor das pessoas quando são abandonadas por quem estava se relacionando afetivamente com elas. Embora o mundo hoje seja de relações líquidas como incessantemente disse Bauman em sua obra, ainda há bastante gente sofrendo quando se desencontra do outro. Ainda há muita gente se relacionando afetivamente trazendo consigo resquícios de desamparo e abandono adquiridos ainda em idade tenra.

A psicanálise mostra com clareza as ligações entre as vivências da primeira infância e adultos que protagonizam relatos como o que lhes trouxe. É preciso sim superar o modelo das nossas primeiras relações para que não sigamos repetindo os mesmos erros, os mesmos padrões. Não quero aqui restringir-me a uma única abordagem teórica. Eu poderia diagnosticar e sugerir terapêutica psicanalítica ou comportamental para a queixa acima. O mais importante é: torna-se preciso, ou melhor, imprescindível que nos conheçamos antes de desbravarmos o desconhecido de uma relação afetiva.

É preciso que sejamos sustentáculo de nós mesmos para podermos depois nos aproximarmos do outro para acrescentar, para trocar e não para exigir que o outro seja coadjuvante na nossa história e que siga o modelo de comportamento que nossa expectativa criou. Vejo muita gente buscar incessantemente ao outro e que, quando o encontra, passa a agir como se este outro fosse uma espécie de fantoche desprovido de vontades, de história, de direito ao tempo e ao espaço.

Imagina-se amando tanto que, de tanto amar, ao outro sufoca.

É preciso medir o quanto há nisso de amor e o quanto há nisso de desamparo e da busca pelo que irá tapar os buracos que ficaram abertos lá atrás. Só o autoconhecimento pode ajudar a aceitar e a superar os obstáculos emocionais que a vida impõe a todos nós. Só quem torna-se capaz de caminhar sozinho consegue conduzir a caminhada em parceria com leveza e sanidade. Só quem sustenta-se sozinho, em pé sobre o solo, sem ter que se escorar, que se apoiar no outro, consegue o equilíbrio necessário para estar ao lado de alguém sem tornar-se aversivo.

Muitas são as vezes nas quais observamos pessoas interessantes, inteligentes e de bom caráter presas neste círculo vicioso; colecionando abandonos e imaginando-se seres de pouca sorte ou vítimas do karma, da inveja e da vontade de deus. Pessoas que acreditam cegamente que a felicidade está no relacionamento afetivo e que se tornam desesperadas como os que estão prestes a se afogar, agarrando-se desesperadamente aos que aparecem para lhes salvar. O desespero pode acabar afundando ambos ou levar o outro a lhes abandonar ali, sob o risco de se afogar junto. Relacionamento afetivo não é salva-vidas de ninguém.

A calmaria é sempre propícia nos relacionamentos. O encanto, o respeito e principalmente o bom senso de não jogar no outro todas as nossas expectativas, carências, traumas e necessidades pode escrever uma linda história.

Imagem de capa: Zivica Kerkez/shutterstock

Nem os grandes amores resistem a uma pequena paciência.

Nem os grandes amores resistem a uma pequena paciência.

Encontrar o amor não é tão difícil, se comparado à árdua tarefa que consiste em mantermos acesa a chama afetiva que nos mantém juntos de quem amamos. Após o encontro amoroso, afinal, existe um longo caminho a ser percorrido, para que os sentimentos se fortaleçam e tornem a jornada conjunta repleta de cumplicidade e admiração mútua.

As pessoas vêm de universos diferentes, passaram por vivências próprias, sobreviveram a tempestades únicas e, de repente, precisam confrontar tudo o que são com alguém de fora, tentando harmonizar perspectivas na maioria das vezes dissonantes e distantes, em favor da necessidade de amarem e serem amadas. A paixão chega, arrebata e nos lança ao encontro de um mundo outro, no qual mergulharemos às cegas, a fim de saciarmos a fome de amor que é tão nossa.

A convivência diária não é fácil, uma vez que o tempo nos mostra e nos desnuda em tudo o que somos, da mesma forma nos trazendo as verdades de quem está ali ao nosso lado, mesmo aquelas que nos incomodam. Infelizmente, poucos estão dispostos a enxergar, fora de si e em si mesmo, o que lhes retira da zona de conforto, o que lhes obriga a refletir sobre o que têm feito da vida. E o companheiro sempre será o espelho que reflete o que estamos ofertando, o tipo de amor que construímos ou desconstruímos diariamente.

E, se não nos permitirmos a entrega na totalidade que o amor requer, acabaremos fatalmente nos furtando de dedicar o mínimo de nós mesmos ao outro, relegando-o ao vazio solitário de nossa presença incompleta. Não abriremos mão de nada, não ouviremos os sussurros sofridos ali ao lado, não olharemos fundo nos olhos que nos buscam em vão, não sentiremos as acelerações do coração que pulsa pertinho, não responderemos aos desejos, não tocaremos a pele, não daremos, enfim, importância a quem sempre esteve conosco.

E ninguém há de suportar o desprezo, a indiferença, a agressividade silenciosa e a companhia vazia de quem lhe prometera amar pelo resto da vida. O amor não aceita desaforo, não sobrevive de passado, tampouco se alimenta de esperanças unilaterais e de correspondência nula. Só amor, somente amar, apenas as lembranças do que já foi mas não é mais, nada disso será capaz de manter duas pessoas juntas. Porque o amor é, sim paciente, mas tem o limite exato da dignidade que nos sobra ao fim do dia. Nada mais do que isso.

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