Era amor, pode acreditar

Era amor, pode acreditar

O fim de um relacionamento encontra duas pessoas absolutamente diferentes daquelas que outrora estiveram apaixonadas. Aqui, neste ponto, há memórias que fazem brotar sorrisos inevitáveis e francos; há lembranças que fazem arder os olhos como reflexo das dores sofridas; há feridas; cicatrizes; metamorfoses. O casal que deu o primeiro passo naquele momento em que não se sabe se o arrepio é da alma ou da pele; agora pensa que se pudesse “voltar a fita” teria feito outras escolhas; teria lutado por mais momentos de pele arrepiada e menos momentos de lábios crispados. Esse casal aqui está perdido e se pergunta “Era amor?”; “E se era, o que aconteceu com esse amor?”.

Somos tão ingenuamente afetados pelas definitivas verdades que ouvimos por aí, que insistimos em acreditar que tudo o que é maravilhoso tem de ser perfeito. Ora, se isso fosse verdade, pobres criaturas seríamos! Posto que a perfeição não existe, teríamos de negar a extraordinária beleza dos nossos primeiros passos; a arrebatadora excitação do primeiro beijo; a avassaladora libertação advinda das primeiras conquistas por conta própria. Maravilhas imperfeitas que fazem a nossa vida ganhar sentido; sabor; cor e luz.

Negar a beleza da imperfeição é como abrir mão das experiências em troca de uma vida pasteurizada e absolutamente insossa. A graça dessa aventura aqui está, justamente, na experimentação; nas tentativas desajeitadas; no jeito único que cada um de nós tem de interpretar e interagir com o mundo. O tempero da vida é a mistura de suor; riso e lágrimas que faz da nossa jornada algo que valha a pena.

A jornada será tão espetacular quanto verdadeira, a depender de quanto amor tenha sido injetado, desde que fomos concebidos até nosso último sopro de vida. É o amor a única doutrina capaz de agregar e acolher as mais diferentes crenças e, ainda, aqueles que não creem em nada. O amor, em sua forma legítima; aquele amor que entende o diferente, apesar de discordar dele; que fica feliz a partir da conquista do outro; que liberta, em vez de aprisionar; que faz crescer, em vez de sobrepujar. Esse amor é chama de vida e precisa estar presente, como essência e não como adorno, em qualquer relação à qual escolhamos nos entregar.

Assim, ainda que não dure para sempre; ou mesmo, que só dure alguns dias; ou até mesmo que seja um amor de almas, terá sido amor e será amor para sempre. Ainda que no fim da história, a dureza dos conflitos e da falta de atenção, tragam aos olhos e à boca expressões ásperas e hostis, ainda assim; essa mágoa, se for torcida em todos os choros necessários, há de mostrar no fundo dos olhos, vermelhos e tristes, algum traço de amor.

Então, antes que acabemos por acreditar que nossos sonhos foram tolos; que acreditar na felicidade é ilusão; que a solidão é a melhor companheira; que não levamos jeito para “esse tal de amor”, tenhamos a coragem de raspar a tinta velha da superfície, e guardar com delicado carinho a imagem crua e bela do início. Tomemos a audaciosa atitude de acreditar que mesmo tendo chegado ao fim, haveremos de ser gratos e justos, porque era amor. E, se não era, quem além de nós poderá assumir a responsabilidade por um dia ter teimado em insistir que fosse?

Era amor, pode acreditar! E é ainda. Só que com outras folhas, flores, frutos e cascas. É amor, mesmo depois de não mais sê-lo. Porque tendo sido amor um dia, fez germinar dentro de nós, os nossos melhores brotos; fez de nós seres menos empedernidos e ariscos; despertou em nós o desejo de experimentar o amor de novo, e de novo, e de novo. E, mesmo que a nossa incrédula alma sofrida tenha dificuldades em concordar… Era amor, e ainda é, pode acreditar!

Escolha alguém com mais dúvidas que certezas

Escolha alguém com mais dúvidas que certezas

De verdade, desconfio muito de gente que sempre tem certeza de tudo, que não hesita em momento algum e sempre quer fazer parecer estar um passo à frente. Nada contra, mas talvez tanta convicção deixe passar alguns lampejos de loucura essenciais pra vida da gente.

Aquele que não hesita frente ao momento decisivo de algum primeiro beijo (são muitos os primeiros beijos dessa estrada), não me representa. Menos ainda aquele que afirma com todas as letras que tem certeza daquilo que quer pra vida toda. Pessoas assim costumam se fechar a qualquer coisa que vá contra o seu plano, tornam-se duras feito pedras, esquecendo do ditado essencial que ensina que água mole em pedra dura… vocês sabem o resto.

Hoje, quero. Amanhã, também. Depois, quem sabe? Não se trata de ser volúvel, mas de assumir que somos inconstantes como as marés. O desejo é água de mar, umas vezes tranquila e convidativa, outras vezes forma vagas gigantescas e assustadoras que rebentam contra as pedras que mais cedo ou mais tarde vão ceder às incessantes investidas da natureza cega. Metamorfose ambulante, como diria Raul.

Prefiro a flexibilidade da dúvida à rigidez das certezas.

Quero poder hesitar entre pedir carne ou peixe, entre cinema francês e escandinavo, entre Cindy Lauper e Madonna, entre Count Basie e Jimmy Smith, entre bolacha e biscoito.Quero ter dúvidas sobre o que a mulher amada acha disso ou daquilo, pois quero dar a mim e a ela o direito de errar, de fazer escolhas duvidosas e voltar atrás.

Não é pelo direito de ficar em cima do muro, é pelo direito de explorar os terrenos pelos quais se interessar e poder ver com os próprios olhos a terra mais fértil, o caminho menos íngreme, mais arborizado. A certeza pode representar fraqueza quando acompanhada daquele orgulho que impede o capitão de abandonar o navio. Se a dúvida é um vício, deveria ser considerado os mais benéfico deles. A dúvida é bambu (sem piadinhas estilo Silvio Santos), forte e adaptável às intempéries do tempo, enquanto a certeza é rude carvalho a ser abatido pelas tempestades interiores.

Acho bonito tanto o sim quanto o não, mesmo que sejam para a mesma coisa em momentos diferentes. Me cativa o desafio que é dizer “não sei”. Só sei que nada sei, dito assim, de supetão. O fascínio de conversar com a parceira antes de fazer uma escolha qualquer, seja ela sobre casamento ou prato para o jantar.

Não estou dizendo que todos devemos ser interrogações ambulantes; apenas lembro que reticências são tão importantes quanto pontos finais.

Metáforas coloridas não amenizam a verdade

Metáforas coloridas não amenizam a verdade

Se for para ajudar a enfrentar, consolar um pouco, encorajar, dar uma força, tudo bem.

Cada um se segura e se pendura na desculpa que prefere, porque afinal de contas, há horas em que a coisa fica realmente complicada.

A verdade é áspera quando vem de encontro, e suave quando a perseguimos. Depende do lado do espelho, da face da moeda, de poder ou obedecer.

Mas inegável é que a verdade não negocia. É e pronto!

Aceitar uma verdade como legítima é libertar um monte de recursos fantasiosos, é entrar em contato com o inflexível, com o que não é possível manipular.

Mas, teimosos que somos, insistimos em tentar dissuadir a verdade. Colorimos, maquiamos, inventamos traços e estilos únicos para o cenário metafórico que preferimos para viver, pensando estar enganando a verdade.

Aceitar duras verdades nos liberta, muda o fuso da vida, nos tira um fardo pesado das costas. A dor é só da hora, do momento. Depois suaviza, acostuma, entra na rotina.

Fugir das verdades, contar uma vida que não existe, para si e a para o mundo, não ameniza as verdades que se carrega, nem tampouco as que foram deixadas ao longo do caminho. Elas voltam, elas nos encontram na curva do tempo, nos pegam desprevenidos, vulneráveis, distraídos.

Verdade é matemática, é incontrolável, indomável, espontânea. Boa ou ruim, favorável ou prejudicial, é a verdade. E verdade é o que sempre queremos do outro, das coisas, da vida. Mas oferecemos a mesma verdade em troca? Verdade é sinceridade. Mas mentimos mais do que podemos controlar. E mesmo assim não aceitamos menos do que a verdade.

Verdade ou não, a verdade é que cada um deseja sempre ter a sua própria verdade, mas, de verdade, não há verdade criada, inventada, manejada. A vida é verdade até prova em contrário.

Ela anda pela vida sem narrador

Ela anda pela vida sem narrador

Ela anda pela vida sem narrador, abrindo histórias com seus passos incertos, com olhares distraídos, com o corpo querendo decidir mais do que a cabeça.

Gosta de idealizar o futuro como tela em branco, a vida como uma paleta de cores e ela nunca sabe se vai preferir o amarelo ou o roxo, as luzes e sombras ou o delineado. As escolhas vêm de um respirar depois do primeiro café, e são tomadas de supetão como um movimento involuntário da alma.

Não que tudo seja aleatório, não que tudo seja o que ela quer, não que a vida seja massa submissa a essa mulher, mas é justamente por saber disso, das incertezas e da dança solta do tempo, que ela relaxa os ombros, sente o dia e vai brincando com o que vier e vai desenhando com o que tiver às voltas de sua possibilidade de viver e sentir.

Talvez tenha sido sem querer que ela tirou da vida a necessidade de se amparar num destino onisciente, por sentir que a história é escrita nos próprios passos, nos próprios pensamentos e todo flashforward é sonho e de todo modo a vida já é tão boa agora – cheia de tramas, mistérios, dramas, comédias, clímax, desfechos, nascimentos… – pra que se preocupar em criar um futuro sublime se todo ‘feliz para sempre’ significa morte? Para que querer idealizar uma ilha onde tudo será pleno, onde haverá calmaria, se plenitude na verdade é o próprio movimento harmônico entre dilúvios e céus abertos?

Ela anda flutuando sobre o determinismo, gostando de deixar o dia ser um mistério, um presente sempre novo a ser descoberto, carregando um saco de ‘não sei!’ para as perguntas sobre os seus próximos passos, levando também o resultado das páginas vividas no coração na forma de aprendizado e agindo de improviso toda vez que se depara com caminhos apaixonadamente desconhecidos.

Plano de trabalho para a vida toda, por Eduardo Zugaib

Plano de trabalho para a vida toda, por Eduardo Zugaib

Quer ser um pouquinho mais feliz, não é?

Então…

1. Faça o que é certo, não o que é fácil. O nome disso é Ética.
2. Para realizar coisas grandes, comece pequeno. O nome disso é Planejamento.
3. Aprenda a dizer ‘não’. O nome disso é Foco.
4. Parou de ventar? Comece a remar. O nome disso é Garra.
5. Não tenha medo de errar, nem de rir dos seus erros. O nome disso é Criatividade.
6. Sua melhor desculpa não pode ser mais forte que seu desejo. O nome disso é Vontade.
7. Não basta iniciativa. Também é preciso ter ‘acabativa’. O nome disso é Efetividade.
8. Se você acha que o tempo voa, trate de ser o piloto. O nome disso é Produtividade.
9. Desafie-se um pouco mais a cada dia. O nome disso é Superação.
10. Pra todo ‘game over’, existe um ‘play again’. O nome disso é Vida.


Por último, coloque em prática A Revolução do Pouquinho.
(Eduardo Zugaib)

Nota da página: a lista apresentada acima está sendo veiculada na internet sem autoria. Entretanto, registramos e reitemamos a autoria do profissional de comunicação, escritor e palestrante Eduardo Zugaib.

Talvez a morte nos torne gratos por nossa existência.

Talvez a morte nos torne gratos por nossa existência.

O Facebook calcula que em 2098 o número de usuários mortos será maior do que o de vivos.

Li esta manchete, mas confesso que não li a notícia toda e não sei como a administração da rede social chegou a esses números. Sempre me impressionei com os perfis das pessoas que morrem. Acho hilária a manifestação de tristeza e pesar pela partida de alguém através das mensagens deixadas nas redes sociais que não serão lidas por quem já partiu. Eu mesma já vi muitas vezes os perfis de pessoas cuja morte me foram noticiadas e sempre sinto um pesar que não deveria e culpa pela curiosidade mórbida que parece ser como pele em nós humanos.

A morte é mal aceita no mundo ocidental e as manifestações culturais pela partida de alguém são catastróficas. O povo latino, com seu bom e velho melodrama, faz da morte uma tragédia grega. Como se ela não fosse uma certeza…

No oriente, onde se vive mais intensamente a crença na vida após a passagem pela terra, o luto caminha mais brando, apesar de não menos dolorido. No oriente os povos passam de geração para geração um entendimento melhor sobre a fase final de nossa estadia por aqui, mesmo sofrendo pela separação.

A dor inevitável pela morte é a dor da separação.

Enfrentar a separação é para todos. Talvez os ateus engulam melhor a morte – confesso que chego a inveja-los por isso – mas eu que, quando criança – como toda menina católica – fui ensinada que um dia iria morrer e que iria viver eternamente no céu se eu fosse boazinha, sigo atormentada por esse tal de “eternamente”. Aos oito anos eu não entendia o que isso significava e nem tampouco o que significava o adjetivo infinito dado ao universo. Passei algumas noites acordadas pensando se eu encontraria alguém conhecido, se eu saberia me defender, se haveria alguém para me ajudar a chegar ao céu quando eu morresse – afinal, eu não sei o caminho! E quanto mais pensava, mais a angústia crescia.

 

Talvez ali eu tenha desenvolvido o medo da morte. Eu não era boazinha o tempo todo e isso me possibilitava ir para o inferno que a mim foi descrito inspirado em Dante Alighieri. A minha vida era bacana e eu não tinha a menor vontade de deixar este mundo nem para ir para o desconhecido céu, que dirá para um lugar horrível como o inferno. Cresci vendo e ouvindo que a morte existia para ser temida, que era dolorosa e que poderia nos pegar de surpresa. Aos quinze anos perdi um amigo com quem conversei quinze dias antes e cujo caixão foi lacrado porque ele estava muito machucado quando morreu decorrente de um acidente de trânsito e olhar para aquela caixa foi para mim uma tortura. Depois disso enfrentei muitos velórios e constatei que aquelas horas que precedem o enterro são as piores da nossa vida quando perdemos quem amamos. Eu confesso que se pudesse eu legalizaria o enterro imediato porque velório para mim é ficar dizendo a mim mesma por horas, que eu nunca mais verei, nem conversarei, nem ouvirei a voz daquela pessoa neste mundo.

O tempo para mim passou, mas a minha reflexão sobre a morte continua a mesma. Assim como a maioria dos ocidentais, descendentes de latinos e criados dentro do cristianismo, não é tranquilo e nem favorável para mim, pensar na morte mas quando eu percebi que ela está sempre ali ao nosso lado, cada dia vivo se tornou um milagre e isso motiva a viver.

Os vampiros são melancólicos exatamente por possuírem a vida eterna e há também muita tristeza nos personagens highlanders daquele filme bacana no qual eles não morriam a não ser quando degolados e que, por isso, passavam pela vida vendo a partida de entes queridos enquanto ficavam e iam sendo obrigados a estabelecer novos vínculos.

Ah, não morrer deve ser horrível…

Talvez ficar para sempre assistindo todos irem embora seja triste.

Talvez a nossa fé, crença, denominação religiosa, ajude a aceitar que a morte é o fim de um ciclo.

Talvez a morte não deva ser temida, e sim aceita como uma certeza de separação.

Talvez esta certeza derrube por terra a mágoa, o rancor, o orgulho.

Talvez essa realidade possa nos abrir os olhos para o bom da vida, talvez nos faça levantar da cama todos os dias comemorando estarmos aqui mais um dia.

Talvez a morte nos torne gratos por nossa existência.

Talvez todo o tempo gasto com medo da morte seja em vão.

Talvez a certeza da morte alimente os nossos sonhos.

Talvez o melhor seja deixar que ela venha quando quiser e que nos alcance só no final e que até lá tenhamos vivido intensamente esta aventura chamada vida.

Nobel da Medicina diz que memória perdida por Alzheimer pode ser recuperada

Nobel da Medicina diz que memória perdida por Alzheimer pode ser recuperada

Pessoas que sofrem da Doença de Alzheimer podem não ter “perdido” a memória e têm apenas dificuldades em recuperá-la, concluem investigadores conduzidos pelo Nobel da Medicina Susumu Tonegawa, que na quarta-feira revelaram a possibilidade de um tratamento curar os estragos provocados pela demência.

O prêmio Nobel da Medicina Susumu Tonegawa (1987) defende que o estímulo de áreas específicas do cérebro com luz azul permite a ratos de laboratório recuperarem experiências e memórias que pareciam esquecidas.

Os resultados fornecem algumas das primeiras evidências de que a doença de Alzheimer não destrói por completo as memórias específicas, torna-as “apenas inacessíveis”.

“Como seres humanos e ratos camundongos tendem a ter princípios comuns em termos de memória, os nossos resultados sugerem que os pacientes com a doença de Alzheimer, pelo menos nos estádios iniciais, podem preservar a memória. Ou seja há hipóteses de cura”, comentou Susumu Tonegawa à agência de notícias France Presse.

A equipe de Tonegawa usou este tipo de animais geneticamente modificados para mostrar sintomas semelhantes aos dos seres humanos que sofrem de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro que afeta milhões de adultos em todo o mundo. A Organização Mundial de Saúde estima que em 2050 a demência afete 131 milhões de pessoas.

Os animais foram colocados em caixas cuja superfície inferior estava eletrificada, causando uma descarga desagradável, mas não perigosa, sobre os seus membros sempre que os animais tocassem nessa estrutura.

Um rato que não tem Alzheimer desenvolve comportamentos medrosos, evitando a sensação desagradável.

Camundongos com Alzheimer não reagem da mesma forma, indicando que não guardam nenhuma memória da experiência dolorosa.

No entanto, quando os cientistas estimulam áreas específicas do cérebro dos animais – as chamadas “células de engramas” relacionadas com a memória – usando uma luz azul, os ratos acabam por se lembrar da sensação desagradável ou pelo menos desenvolvem comportamentos para evitar os choques elétricos.

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Imagem mostra uma célula de engrama, relacionada à memória, de modelo de camundongo para a doença de Alzheimer: uso de luz foi capaz de fazer animal recobrar memória (Foto: Riken/Divulgação)

O mesmo resultado foi observado também quando os animais eram colocados num recipiente diferente durante o estímulo, o que sugere que a memória se manteve.

Ao analisar a estrutura física do cérebro dos ratos, os investigadores mostraram que os animais afetados com a doença de Alzheimer tinham menos “espinhas dendríticas”, através das quais as conexões sinápticas são formadas.

Com a repetição dos estímulos lumínicos, os animais podem incrementar o número de espinhas dendríticas atingindo o níveis dos ratos saudáveis.

“A memória de ratos foi recuperada através de um sinal natural”, disse Tonegawa, referindo-se ao recipiente que causava o comportamento de medo.

“Isto significa que os sintomas da doença de Alzheimer em camundongos foram curados, pelo menos nos estádios iniciais”, disse.

A investigação, patrocinada pelo Centro RIKEN-MIT para Genética de Circuitos Neurais, é a primeira a mostrar que o problema não é a memória, mas as dificuldades na sua recuperação, explica o centro com sede no Japão.

“É uma boa notícia para os pacientes de Alzheimer”, acrescenta Tonegawa por telefone à AFP, a partir do escritório em Massachusetts. Tonegawa obteve em 1987 o prémio Nobel da Medicina.

Fontes indicadas:Nuno Noronha/Sapo/ Bem Estar

Nota da página: A pesquisa foi publicada na revista “Nature”.

Duas orações unidas por um parágrafo no centro do mundo

Duas orações unidas por um parágrafo no centro do mundo

“Ajuda-me que já não sei o que faço com o que te sinto”, dizes-me, a voz roçada pelas lágrimas. E eu sorrio, limpo-te as lágrimas. E amo-te.
É sempre com amor que se ajuda quem se ama.
“Queria viver sem precisar do teu abraço, sem depender dos teus lábios”, atiras, enquanto me abraças e me beijas. E a ironia deixa que eu fique em silêncio.
É sempre em silêncio que se ajuda quem se ama.
Preciso-te para depois do que se sente. Preciso-te para além do que é saudável. Mas quem disse que o amor é saudável?
É sempre com deficiências que se ama com perfeição.
“Abraça-me como se me fodesses” pedes-me. E todo o amor, numa simples frase, fica dito.
Amo-te cada abraço como se te fodesse. Como se por dentro dos braços estivesse todo o prazer do mundo, todo o encanto de existir. Como se não houvesse depois para um abraço que se vive agora.
É sempre em agora que está o tempo de quem se ama.
“Não quero que me ajudes se não te estiveres a ajudar”, explicas, a tua mão a ajudar-me o sexo a erguer-se. E depois chega o momento do corpo, o instante em que todos os suores servem para amar.
Se tiver de beber que seja de ti, se tiver de morrer que seja por ti. Se tiver de doer que seja a sério, sem remissões. Não admito dores pequenas para algo tão grande assim.
É sempre em tão grande assim quando se ama assim.
“Ouço Deus no teu orgasmo”, confessas, já ajoelhada diante do que gememos. E nem as paredes conseguem ouvir o que nos dizemos em gritos. E nem a gramática explica uma sintaxe assim: duas orações unidas por um parágrafo no centro do mundo.
Nem o ponto final nos consegue terminar. Nem a água escorre com tanta força, nem a pedra é tão forte como o que nos ensina. E nenhuma sala de aula tem o que nós temos: dois alunos unidos pela certeza de que só o que se desaprende é capaz de ensinar.
É sempre ignorância amar tanto assim.
 

Pedro Chagas Freitas 

 

A casa, fabulosa reflexão de Alice Munro

A casa, fabulosa reflexão de Alice Munro

Uma história não deve ser lida como uma estrada, um caminho a seguir é mais como uma casa. Você entra e fica lá por um tempo, andando para trás e para a frente, a decidir os cômodos que mais gosta e descobrindo como os quartos e o corredor se relacionam entre si ou como o mundo exterior fica alterado ao ser visualizado a partir de suas janelas. 

E você, o visitante, o leitor, vai também se alterando por permanecer neste espaço. Tudo vai depender se ele é amplo, iluminado, cheio de curvas tortuosas, pouco ouopulentamente mobiliado. Você pode retornar à casa quantas vezes quiser, e a casa, a história, sempre mostrará mais do que você viu pela última vez.  

A história, assim como as casas, são erguidas com regras particulares de construção, com um robusto senso de si mesmas. O encanto reside no que elas estabelecem em nós –desconforto, acolhimento ou sedução. “
Alice Munro

Texto encontrado em Ou isto ou aquilo

Homens na vitrine – A sociedade de consumo, por Bauman e Baudrillard

Homens na vitrine – A sociedade de consumo, por Bauman e Baudrillard

A sociedade contemporânea, a qual muitos definem como pós-moderna, é uma sociedade caracterizada por um discurso polissêmico, dito de outra forma, não há um sentido próprio ao ser, tampouco à vida. Desse modo, cabe ao indivíduo a busca por aquilo que lhe defina e, assim, sirva-lhe de norte, dada a sua extrema liberdade.

Apesar de toda essa liberdade, existe uma lei, a qual todos ainda devem seguir, a saber, a lei do mercado. O mercado se apresenta como uma forma de sentido à vida, moldando a “personalidade” dos indivíduos e construindo os seus valores. Entretanto, na sociedade de consumo, as mercadorias não possuem apenas o valor de uso e de troca (visão marxista), mas, sobretudo, o valor simbólico. Isto é, os objetos passam a determinar um referencial para as pessoas.

Essa ideia é proposta pelo francês Jean Baudrillard, o qual aduz que os objetos possuem signos, os quais são impostos pelo sistema hegemônico. Ou seja, a sociedade, por meio do sistema hegemônico, como a mídia, determina o valor que os produtos possuem, com slogans do tipo: “Se não é um Iphone, não é um Iphone”. Dessa forma, somos retribalizados segundo o que consumimos, já que não é a minha personalidade que me define, mas sim o que eu consumo.

É nesse ponto que o mercado age, associando o consumo de determinados produtos a vidas bem sucedidas e felizes, ao passo que aqueles que não consomem, ou consomem produtos “chinfrins”, são tristes, infelizes e perdidos na vida. O mercado utiliza-se, portanto, do consumismo, para definir aquilo que devemos ser (e ninguém projeta uma vida infeliz).

As mercadorias, nesse contexto, são analisadas pelo signo que comunicam – como uma vida bem sucedida –, deixando de considerar a sua utilidade. Sendo assim, pouco importa se preciso ou não de determinado produto, essa relação está obsoleta, devo considerar o seu valor sígnico, ou seja, qual a mensagem que possuo ao consumir tal produto.

Nesse contexto de extrema liberdade, ser livre é poder consumir o que se deseja. Todavia, aceitando o “consumo, logo existo”, como brinde ganhamos a lei do mercado e nela você não é apenas consumidor, é também mercadoria. Sendo mercadorias, como qualquer outra, somos analisados pelos signos que possuímos perante a sociedade. Assim, à luz de Zygmunt Bauman, buscamos, pelo consumo, aumentar o nosso valor sígnico, pois:

“Na sociedade de consumidores, todos nós somos consumidores de mercadorias, e estas são destinadas ao consumo; uma vez que somos mercadorias, nos vemos obrigados a criar uma demanda de nós mesmos.”

Essa demanda de nós mesmos, como dito, é construída pelo que consumismos, posto que, em uma sociedade onde os valores são determinados por aquilo que se consome, faz-se necessário consumir para possuir valor, inclusive enquanto indivíduos socialmente e sexualmente atrativos para o mercado. E não se esqueça de que há sempre outras oportunidades no mercado acenando com valores maiores.

Desse modo, quando não consumimos, sobretudo os produtos com valores sígnicos relevantes, ficamos fora do mercado. Em outras palavras, não somos socialmente aceitos. No entanto, não vejo sentido em adequar-se ou em ser “socialmente aceito” por um sistema que cria escravos de si mesmo.

A tentativa de dar sentido à vida por meio do consumo parece-me uma tentativa frustrante, dado que não se conseguiu estabelecer um sentido à vida das pessoas. Pelo contrário, fortaleceu a lei do mercado e aumentou ainda mais o vazio deixado pela morte de Deus e/ou da razão, na medida em que a lei do mercado transforma cada vez mais as pessoas em mercadorias e, sem pessoa humana de verdade, é impossível estabelecer um sentido para a vida.

É claro que há de se considerar a possibilidade de que a vida não possua sentido. Mas esse não é o cerne da questão e sim a tentativa de dá-la por meio do consumo, uma vez que apenas somos retribalizados, excluídos e tratados sem grandes diferenças em relação a uma barrinha de cereal (ser fitness está na moda).

Por trás do culto da liberdade pregada pela modernidade líquida, existem inúmeras ditaduras como essa, a qual altera de forma substancial o pensar e o agir das pessoas, distorcendo a realidade e construindo uma hiper-realidade, caracterizada pela perda do referencial de identidade, atendendo a uma imposição econômico-cultural.

Sendo assim, vivemos, produzimos e consumimos artificialidade. Mas, se você é um consumista assumido (é difícil), não se preocupe, estamos em tempos líquidos, ninguém dá muita bola para nada. Apenas, cuidado, pois, como a lei que o rege é a lei do mercado, talvez possa amanhecer em uma vitrine, em dia de liquidação.

Você já parou para pensar em você hoje?

Você já parou para pensar em você hoje?

Você já parou para pensar em você hoje? Você sabe de cor quais são seus anseios, receios e sonhos?

Há alguns anos um amigo me perguntou se eu sabia quem eu realmente era. E eu fiquei exaltada na época com a indagação. Retruquei-a com outra e depois respondi pronunciando meu nome.

Então esse amigo me disse que eu não podia ser apenas um nome, já que um nome era a chave para um mundo, mas não o mundo em si.

Mas eu não tinha a resposta para a pergunta dele, contudo, algo se acendeu em mim depois daquela conversa. Então, de noite, ao chegar em casa, me sentei no chão de pernas cruzadas e me perguntei: Quem é você?

A resposta que tive foi um silêncio longo e perturbador e naquele momento tive a certeza de que era minha a missão de descobrir quem eu realmente era.

Tocar em nossa essência é algo no mínimo desafiador, não vou mentir. Nosso caminho de autodescoberta é cheio de becos sem saídas, de íngremes subidas e ladeiras assustadoras. Alguns tropeços acontecem nesse processo, mas sabermos ao certo quem somos é deveras importante para que possamos trilhar nossos próprios caminhos e não aqueles que nos são tão prontamente sugeridos.

Na vida seremos inevitavelmente lançados em um mar de experiências compartilhadas. Seremos testados inúmeras vezes e teremos nossos valores e amor próprio colocados em xeque. Se não soubermos quem realmente somos podemos nos perder irremediavelmente.

Há algum tempo assisti ao filme “3096 dias” baseado na história real de Natascha Kampusch, uma garota austríaca raptada e mantida em cativeiro por quase dez anos. Sua própria mãe desistiu de procurar por ela em um tempo curto após seu desaparecimento e seu algoz tentou fazê-la esquecer de quem era repetidas vezes, contudo Natascha aproveitou todas suas poucas oportunidades de quase fuga para eloquente dizer seu nome, de onde vinha, e em qual situação vivia.

Por outro lado, houve nos EUA um caso similar no qual uma jovem, Jaycee Dugard, foi raptada e permaneceu no cativeiro por dezoito anos. No início ela era trancafiada, mas nos últimos anos ela morava no quintal do sequestrador. Quando a polícia descobriu Jaycee, por acaso, e a levou para a delegacia, ela afirmou repetidas vezes ser outra pessoa e deu aos agentes o nome falso que lhe fora ditado pelo sequestrador.

Esses dois últimos exemplos são bastante emblemáticos e apesar de semelhantes, distintos. Ambos delineiam de forma precisa a importância de nos lembrarmos e de lutarmos por nós. De sabermos precisamente quem somos. Jaycee teve muita sorte, pois é provável que permanecesse no cárcere por toda a vida se não tivesse sido encontrada por acaso. Já Natascha lutou com todas as forças para escapar e isso lhe trouxe a liberdade.

Essas duas jovens passaram por situações limites, contudo relações de controle podem permear a vida de todos nós, em maior ou menor grau e, permitir que continuem, nos deixando levar por elas, tem a ver com o que sabemos sobre nós.

Inevitavelmente seremos transformados na vida pela interação. Compartilharemos experiências, ensinaremos e aprenderemos muito. Contudo não sairemos secos após um banho de mar. Nem mesmo devemos ansiar por isso. A questão não é não se deixar molhar, mas sim não se deixar arrastar pela correnteza.

Muitas vezes agimos de forma temerosa acerca de nossas vontades, contudo o autoconhecimento nos é essencial para determinarmos quais lutas devemos travar.
Em diversos momentos pode nos parecer mais fácil e menos doloroso seguir um fluxo, mas quando esse impulso surgir é sempre bom corrermos para o espelho e nos olharmos com sinceridade.

Saber quem realmente somos, o que nos apetece ou não e quais nossas preferências é muito importante para nos tornarmos donos dos nossos próprios passos.

Acompanhe esse e outros textos meus no Facebook através da minha comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Aposentadoria, o fim?

Aposentadoria, o fim?

Durante o decorrer de nossas vidas, geralmente a partir dos 18 anos, iniciamos uma
nova etapa: procurar um emprego!
E por que procuramos um emprego?
Porque sabemos que o trabalho nos trará uma identidade, nos trará a oportunidade de novas
amizades, nos distrairá – ninguém consegue “ver a banda passar” (salvo os impossibili-
tados por algum mal que os impeça de “seguir a banda”); e sobretudo, trabalhamos pa-
ra nos sustentar.
Bem, aí estudamos, procuramos em anúncios, fazemos concursos ou somos ajudados por um familiar, amigo, que nos proporciona um trabalho. E lá estamos: no nosso primeiro emprego!
Talvez, durante essa jornada, passemos por vários tipos de trabalho ou acabemos des –
cobrindo nossa real vocação. E partimos… em busca de nossa realização pessoal e pro –
fissional.
Mas, os anos passam – implacáveis!
E chega o momento da aposentadoria. Nova etapa, novo desafio!
Já estamos cansados, natural e humanamente, o cérebro e o corpo pedem pausa!
E agora?
Iremos atender ao apelo de nosso cérebro e corpo que clamam por sossego, descompro-
metimento com horários e regras, desejando curtir um bom tempo de vida que nos resta,
sem necessidade de “bater o ponto”, almoçar às pressas, acordar cedo (quando tudo que
queríamos era ficar mais 1 hora na cama)?
Conheço pessoas que dizem nunca se aposentar e conheço quem morreu meses depois de
deixar o emprego.
Eu sempre tive como lema que “nos empregamos para viver e não vivemos para ficarmos
eternamente empregados”.
Podemos administrar o tempo com sabedoria para que essa nova etapa, a da aposentadoria, nos traga mais benefícios e qualidade de vida, do que monotonia.
É chegado o momento de passear, viajar, criar círculos de amizades, conversar na praça,
aprender a tocar aquele instrumento que sempre sonhamos, mas não
tínhamos tempo, dançar, fazer academia – alongamento, natação…curtir mais a esposa, o marido, os filhos, os netos, e, se formos sozinhos, conhecer pessoas, cidades, abrir um leque de coisas por fazer…
A vida não acaba com a aposentadoria!
A aposentadoria chegou para nos mostrar que cumprimos uma etapa, teremos nosso neces-
sário salário garantido honradamente e que novas etapas surgirão – e com mais vantagem:
disponibilidade de tempo e com a possibilidade de novos caminhos que se abrirão, se não fi-
carmos apegados ao que já passou – como tudo na vida passa!
O que importa é sermos felizes, criativos e produtivos sempre!
Aposentadoria não é sinônimo de velhice.
Mas um dos sinônimos de velhice é: “caduquice”.
E “caducos” não estamos!
Portanto, “bola prá frente”!
Lu Prado

Não dê conselhos, apenas esteja lá- Cynthia de Almeida

Não dê conselhos, apenas esteja lá-  Cynthia de Almeida

Por Cynthia de Almeida

“A beleza da vida está igualmente em sua luz e sua escuridão.”
William Faulkner

Quando uma pessoa está devastada pela dor, a última coisa de que ela precisa são conselhos. O seu mundo foi destroçado e o ato de convidar alguém, quem quer que seja, para entrar nele é um grande risco. Tentar consertar, racionalizar ou eliminar a sua dor apenas aprofunda o terror. Em vez disso, a coisa mais poderosa que você pode fazer é reconhecer aquele sofrimento. Dizer, literalmente, as palavras: “Eu reconheço a sua dor. Eu estou aqui com você”.
(…) Note que eu disse com você, não por você. Por implica que você fará alguma coisa. E não é esperado que você faça nada a não ser ficar do lado de quem você ama, sofrer com ele, ouvi-lo.

Não existe uma ação maior do que o reconhecimento. E o reconhecimento não exige treino, nenhuma habilidade especial, nenhuma expertise. Somente a vontade de estar presente com uma alma ferida e permanecer presente pelo tempo que for necessário.

Esteja lá. Apenas esteja lá. Não vá embora quando se sentir desconfortável ou sentir que não está fazendo nada. Na verdade, é quando você se sente desconfortável e acha que não está fazendo nada que você deve ficar.

Porque é nesse lugares, nas sombras em que raramente nos permitimos entrar, que os princípios da cura são encontrados. A cura é fundada quando encontramos outros que desejam entrar naquele espaço conosco. Todas as pessoas enlutadas do mundo precisam de pessoas assim.

Estas palavras são poderosas porque miram diretamente as platitudes patéticas que nossa cultura construiu em torno das perdas: a perda de uma criança não pode ser resolvida, ser diagnosticado com uma doença debilitante não tem solução, encarar a traição de uma pessoa próxima não tem cura. Todas essas coisas podem apenas serem suportadas. E quem nos ajuda, os únicos que nos ajudam, são aqueles que ficam ao nosso lado. E não dizem nada. E nesse nada, fazem tudo.

Este texto foi extraído do blog de Tim Lawrence, músico erudito que sofre de paralisia cerebral, experimentou na pele muitas perdas e dificuldades e se dedica ao tema da adversidade e resiliência em seu blog The Adversity WithinLawrence usa sua experiência pessoal para ajudar as pessoas a sobreviverem ao luto e ao sofrimento. Ele acredita, como nós, que ninguém deveria enfrentar as adversidades sozinho.

Fonte indicada: Vamos falar sobre Luto

Aproxime-se com cuidado. Eu pego amor fácil.

Aproxime-se com cuidado. Eu pego amor fácil.

Sim, eu sou dessa gente que pega amor fácil. Pego mesmo. Aviso logo. Não é de propósito, não é por mal. Bobeou, estou gostando. Bem certo é que daqui a pouquinho eu posso gostar de você. Então, se tiver alguma ressalva, contraindicação, alergia e essas coisas, é melhor tomar distância.

Disfarce. Não olhe agora, mas tem um sentimento sapeca chegando ali. Vem cheio de coisas, carinhos, ternuras, cuidados. Pronto, eu peguei amor. Pego amor em gente, bicho, objeto, filme, série, lembrança, gesto. Qualquer coisa.

Agora mesmo, estou cheio de amores por um semáforo perto da minha casa que sempre acende o vermelho quando eu me aproximo. Sempre! Penso aqui comigo que ele tem um fraco por minha companhia. E eu aprendi a gostar dele. Se amanhã, quando eu passar, ele estiver verde, vou lhe dar um tchau e dizer: “até amanhã, meu amigo. Até amanhã…”.

Você pode achar que isso é carência, apego, essas coisas. Pode dizer! Eu não fico chateado, não. Vou até gostar da sua perspicácia, do seu empenho em entender e nomear o sentimento alheio. Mas eu prefiro achar que isso é só jeito de ser. E você sabe: jeito de ser, cada um tem o seu.

É que eu não vejo sentido em me aproximar de alguém por quem eu não posso sentir amor, sabe? Qual é a graça? Se entre nós não existe a possibilidade de haver apreço, eu deixo de lado e sigo em frente. Tudo bem, concordo que vez ou outra todo mundo é obrigado, por força das circunstâncias, a suportar quem não quer. Colegas de trabalho, cunhados, chefes, sogros. Tem sempre alguém que, apesar do seu esforço, não vai com a sua cara e você não pode simplesmente descartar. Sempre tem. Mas que seja a exceção. Onde couber amor, melhor! Porque com amor é mais gostoso.

Tantos gênios por aí tão cheios de teses! Já ouvi que quem pega amor fácil é gente grudenta, dependente. Para quem é afeito a confundir amor com grude e dependência, pode ser. Eu, não. Outra tese dá conta de que aqueles que se apegam com facilidade também desapegam sem mais. Pode ser. Mas e daí? Quem disse que o amor tem de durar para sempre? Qual é a duração ideal de uma relação amorosa? Ninguém sabe!

Além do mais, tem amor de todo jeito. Amor, amorzinho, amorzão. Amor de pai e mãe, amor de filho, amor de irmão, amor de amigo, amor de amante, amor de tudo quanto é jeito. Que história é essa de decretar que o amor só pode ser assim ou assado e se for diferente não é de verdade?

Pegar amor fácil não é coisa de gente volúvel e insegura, não. É coisa de gente. E gente precisa de amor. Eu preciso. Careço querer bem a mim mesmo, ao outro e ao que mais merecer um sentimento de apreço. Se não merece, eu não quero. Descarto. Afinal, pegar amor não é ter posse. Amar alguém não é trancafiá-lo para longe dos olhos alheios. É só um jeito de deixar a vida mais bonita.

Antes o mundo repleto de seres amorosos, ansiando por distribuir afeto a quem puder, do que entupido de almas aborrecidas, malquerendo e odiando quem passar perto. Se você discorda, respeito a sua opinião. Se concorda, vem já me dar um abraço. Mas cuidado: eu pego amor fácil.

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