O significado dos nossos chapéus

O significado dos nossos chapéus

No livro “A insustentável leveza do ser” há uma passagem em que o narrador nos presenteia com uma reflexão sobre um fragmento da vida de Sabina, uma das personagens do romance, que, devido à ausência de significado do chapéu de coco que vestia sua cabeça para o amante com quem ela se encontrara – chapéu que havia sido objeto erótico e sentimental de um relacionamento anterior -, identifica um abismo gigante entre eles.

O mesmo chapéu que, dentro de uma determinada história, fora motivo de excitação e, posteriormente, um gatilho de comoção, um hino à memória compartilhada, agora, ao ser vestido, nada significava para o presente telespectador, tratava-se de uma língua desconhecida que os distanciava.

É claro que, conforme o narrador ainda nos aponta através de uma bonita metáfora, as pessoas sempre podem compor em conjunto as partituras musicais de suas vidas, porém, na medida em que ficamos mais maduros, elas tendem a ficar mais acabadas e os objetos e palavras passam a ter um significado diferente na vida de cada um.

E eu penso que é justamente na existência de significações compartilhadas que reside a beleza de nossos relacionamentos. Muitos acabam, por diferentes motivos – e, dentre eles, o medo -, vestidos de uma superficialidade que sufoca a espontaneidade necessária à construção de um sentimento comum que ficará atrelado, sob a testemunha única de seus criadores, às palavras e objetos.

As pessoas especiais não são, necessariamente, aquelas com as quais compartilhamos uma quantia significativa de momentos; mas aquelas cuja verdade e intensidade transbordam e passam a morar, em forma de sentimento que um dia evocará saudade, em fonemas e contextos.

A graça gigantesca que eu e meu pai encontrávamos na careta que criamos e cultivamos por toda a minha infância não ficará estampada nos lábios de mais ninguém, ainda que eu venha a reproduzi-la fielmente. Não ríamos porque a careta era engraçada (ainda que fosse); ríamos pelo prazer do hábito compartilhado, ríamos pelo pacto silencioso que o trejeito inventado selava.

E, muitas vezes, o que chamamos de saudade se manifesta quando os representantes das significações compartilhadas surgem e o outro não está mais lá para dividi-las, para nos presentear com o afago da compreensão silenciosa e simultânea.

Ainda bem que, por mais rara que possa se tornar, jamais estaremos livres da sinfonia de novos motivos a serem compartilhados que surge quando conhecemos o outro e nos deixamos conhecer, afinal, poucas coisas nos fazem sentir tão vivos quanto caminhar ao lado de alguém que conhece o significado dos nossos chapéus.

15 filmes baseados em fatos reais

15 filmes baseados em fatos reais

Filmes baseados em fatos reais são bons por, pelo menos, dois motivos. Em primeiro lugar, fazem com que vejamos personagens famosos a partir de um ângulo diferente, conhecendo suas fraquezas, problemas e alegrias. Em segundo lugar, demonstram que não há nada impossível na vida. O importante é acreditar nos próprios sonhos e, dia após dia, correr atrás dos seus objetivos.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Saving Mr.Banks

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

É a história da complicada relação entre o lendário Walt Disney e Pamela Trevers, autora do icônico livro infantil Mary Poppins. Disney prometeu a suas filhas que rodaria um filme baseado em seu personagem literário favorito, mas não imaginava que a realização da ideia levaria quase 20 anos. O longa mostra os dois famosos a partir de ângulos inesperados, expondo seus segredos e mistérios do passado. Obviamente, a atuação espetacular da dupla Tom Hanks e Emma Thompson merece uma atenção especial.

A Duquesa

The Duchess

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

O filme trata do complicado destino da famosa duquesa de Devonshire, que muito jovem foi obrigada a casar por conveniência. O casamento lhe deu status social, riqueza e fama, mas não o mais importante: o amor. Porém, a corajosa garota desafiou a alta sociedade e começou um romance com o futuro primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Charles Grey.

Prenda-me se For Capaz

Catch me, if you can

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

Frank Abagnale Jr. é um dos golpistas mais lendários da história dos EUA. Quando tinha apenas 21 anos, já havia trabalhado como médico, advogado e piloto de uma companhia aérea comercial. Tudo sem diploma. Frank falsificava cheques de milhões de dólares com muita facilidade e sempre se safava, enganando agentes da CIA. Mas, cedo ou tarde, é preciso pagar…

Cinderella Man

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

O peso pesado James J. Braddock precisou deixar o boxe devido a uma série de derrotas e problemas de saúde. No entanto, a Grande Depressão de 1929 nos Estados Unidos e os anos de desemprego e de fome obrigam o atleta a voltar ao esporte para ganhar algum dinheiro para sua família. Ninguém acredita no ex-boxeador, mas para surpresa de todos, ele vence luta após luta.

Ray

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

É a história de vida do grande músico de jazz norte-americano Ray Charles, que viveu muitos altos e baixos: infância pobre, cegueira, racismo, luta contra o vício em drogas. Porém, Ray conseguiu superar tudo isso e deixar sua marca na história do jazz americano.

Escritores da Liberdade

Freedom Writers

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

História real de uma turma em uma escola situada num bairro afroamericano. Uma jovem professora tenta estimular nos alunos o amor pela literatura e pelo idioma, e enche os estudantes de esperança em uma vida de sucesso.

Amor e Inocência

Becoming Jane

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

A bela e triste história de amor entre a famosa escritora inglesa Jane Austen e Tom Lefroy. A jovem Jane deve se casar por conveniência, mas o coração busca sentimentos verdadeiros.

Johnny e June

Walk the Line

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

É um filme biográfico dedicado à complicada história de vida do lendário cantor country Johnny Cash e sua segunda mulher, June Carter. Apesar dos diversos problemas na carreira artística e do alcoolismo de Johnny, o casal conservou o amor e a fidelidade mútua até a velhice.

Tudo por um Sonho

Chasing Mavericks

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

Filme surpreendentemente belo sobre o sonho e a força do espírito humano. O jovem Jay decide desafiar as poderosas ondas Maverick, de 25 metros. E, para isso, pede ajuda ao lendário surfista Hesson, que havia prometido a sua mulher que deixaria o surf para sempre.

Sete Anos no Tibet

Seven Years in Tibet

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

O filme narra a história da incrível amizade entre um viajante e alpinista alemão e o Dalai Lama. Por ironia do destino, Heinrich Harrer, um oficial do Reich, vai parar no Tibet, na misteriosa cidade de Lhasa, onde irá passar sete longos anos que mudarão sua vida.

Orgulho e Esperança

Pride

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

A trama se desenvolve na Grã-Bretanha de 1984, durante a greve dos mineiros. Um grupo de ativistas homossexuais decide apoiar os mineiros e arrecadar dinheiro para eles. No entanto, os mineiros não recebem a notícia sobre as doações com muita animação, pois se sentem incomodados pela orientação sexual dos seus apoiadores. O filme tem elementos de drama e comédia, e o desenrolar da história é surpreendente.

McFarland dos EUA

McFarland, USA

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

Um ex-treinador de futebol americano despedido de seu trabalho anterior por maltratar os alunos se muda para uma pequena cidade na fronteira com o México. O protagonista decide treinar os garotos daquele povoado que não se destacavam nem nos estudos, nem nos esportes. Para surpresa de todos, a ideia funciona.

Miss Potter

Miss Potter

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

O filme fala sobre a vida da escritora britânica de literatura infantil Beatrix Potter, que teve a coragem de ir contra sua família e a sociedade. A garota mostrou valentia e determinação que não eram típicas das mulheres de seu tempo e, em vez de casar, decidiu ser escritora.

Apenas uma Chance

One Chance

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

É a comovente e incrível história de um rapaz britânico que, desde a infância, sonha em ser cantor de ópera. Porém, ele só consegue realizar seu sonho ao entrar no concurso de TV Britain´s Got Talent.

Um Sonho Possível

The Blind Side

contioutra.com - 15 filmes baseados em fatos reais

Uma família endinheirada e religiosa adota um adolescente afroamericano que não tem onde morar. Desta maneira, o ajudam a fazer novos amigos, entrar na universidade, ter sucesso nos esportes e chegar a ser um famoso jogador de futebol americano.

Carta de um ansioso ao seu amor

Carta de um ansioso ao seu amor

Amor, demorei algum tempo para escrever essa carta, pois estava tentando lutar contra minha ansiedade. Fingindo que ela não estava lá. Fingindo que tudo estava bem por fora quando por dentro meu mundo desmoronava como se devastado por um forte terremoto.

Muitas vezes você me viu sorrir enquanto eu chorava por dentro. Muitas vezes te dei meu silêncio quando minha alma gritava em alto e bom tom as coisas mais insanas. A ansiedade é assim, ela faz coisas pequenas parecerem muito maiores do que realmente são.

Então amor, quando eu vir te contar sobre um receio bobo, que para qualquer um pode parecer uma piada, me leve à sério. Pegue nas minhas mãos, se sente ao meu lado e procure me ouvir, pois certamente eu estou sofrendo muito, sofrendo a ponto de vir falar sobre esse sofrimento com você.

Quando eu te perguntar se há fundamento naquilo que não tem razão de ser, não ria ou se silencie achando que eu não preciso de uma resposta. Seja forte. Diga que os meus receios não têm fundamento, se não tiverem. Me abrace e me mostre que não faz sentido a gente se preocupar com coisas que podem nunca acontecer. Ajude a boa voz que há em mim vencer aquela outra que insiste em duvidar do melhor.

Me acolhe no seu peito e entende que não há graça em qualquer aflição, por mais boba que ela pareça. Me acolhe e me mostra o melhor. Desestrutura as aflições que nascem do inconsciente, por tanto tempo protelado. Eu sei que as respostas para meus medos, para meus temores, para minhas preocupações estão em mim, guardadas em alguma pequena gaveta.

Mas quantas gavetas há dentro da gente! Eu já comecei a abri-las, comecei a limpá-las, a analisar tudo que guardei e também aquilo que me foi dado, mas ainda não cheguei na gaveta que resguarda essa ansiedade inquietante e avassaladora.

Eu já entendi que nada é irrevogável, que estão nos meus bolsos as chaves para as portas as quais tranquei, que eu preciso seguir as pistas que me levam para dentro de mim, as pistas que explicam de onde vem aquilo que ainda não entendo bem. Mas às vezes, em um dia no qual estou mais frágil, pode acontecer da ansiedade chegar de mansinho e bagunçar minhas ideias jogando tudo para cima. Quebrando os vasos de flores que coloquei sobre as mesas.

A ansiedade atira ovos nas vidraças, quebra potes de açúcar e pisa sobre nossos sonhos. Ela degrada o bonito que construímos com esforço. Ela gosta de gritar que a gente não tem poder de vencer as dificuldades, que a gente não consegue.

E aí você pode chegar com um sorriso para o que seria um jantar romântico e encontrar, sem razões evidentes, a casa toda bagunçada. A ansiedade adora fazer a gente acreditar que as coisas são mais difíceis do que realmente são. Adora ver a gente achando pelo em ovo e sofrendo com um milhão de pensamentos que aparecem do nada e nos tomam de assalto, fazendo estardalhaço com a nossa calmaria.

Amor, quando ouvir palavras saltarem desenfreadas da minha boca, quando perceber que estou tremendo por dentro e por fora, me beija e cala suave a minha ansiedade com o silêncio do seu amor.

Sozinhos podemos muito, mas sozinhos não podemos tudo. Às vezes eu preciso colocar minha bússola ao lado da sua para saber se estou entendendo as coisas da forma como são. Às vezes eu preciso partilhar da sua segurança, preciso ver pelos seus olhos o sol depois da chuva a iluminar o melhor que posso ser.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

E só porque não me enquadro

E só porque não me enquadro

Por esses tempos anda tudo dividido entre o certo e o errado. Claro ou escuro, bonito ou feio, homem ou mulher… Tolerância é palavra gasta de fala e rasa de uso… Fico de cá pensando nas nuances de cinza, que existem infinitas entre o preto e o branco. Seja na fumaça que polui o céu, ou no charme dos cabelos… dos homens. É. Porque até isso, de certa forma, ou de todas, é negado às mulheres.

Não sou dada a ficar discutindo o sexo das cãs ou o perfil das anciãs. Sempre acho que se os disparates são absurdos, não se deve lhes dar a satisfação do olhar ou relevo da atenção. Mas tem coisa que é tão fortemente acintosa que traz o sangue pros olhos ou dá vontade de rir. Além do quê advogo em causa própria visto que, de vez em quando, me mandam pintar os fios brancos…

Homem pode ter ruga no rosto e prata nos cabelos. Tem direito a envelhecimento digno, atraente e reconhecido. A mulher não… (E digo isso com o olhar seco, em tom de constatação fria, sem partido, que obviamente, menina antiga e inconformada que sou, tomarei mais tarde.) E porquê?

Porque mulher tem que estar sempre a postos. Cheirosa. E preparada. E depilada. E tantas outras coisitas sedutoras más, que haja amor próprio pra dar conta. Não que isso tudo não seja bom e faça bem à imagem que aparecerá sorrindo do espelho. O que é de gosto é regalo de toda a vida que se move dentro do peito. Mas a partir do momento que se estabelece a obrigação de um padrão do qual não se pode fugir, aí a conversa tem que tomar outro rumo.

Juntando essas pontas, me vem um filme que fala do empoderamento feminino bem antes do termo ganhar entendimento, voz ou tomar posse dos direitos: A excêntrica família de Antônia. Ali o universo das mulheres é tratado não como bandeiras a serem agitadas ou camufladas, mas com uma identidade genuína, onde situações que são mais fruto das contingências do que das escolhas, ganham contorno pela postura que se toma diante delas. Retratos e histórias, que embora pareçam ter um colorido excessivo, fazem pensar … e muito. Quantas vezes o entorno dita a regra e aponta o dedo… acua quem não se molda. E por mais que a personalidade seja forte e o caráter seja liso, é preciso ser macio pra envergar e não quebrar. E ter resiliência, que é a capacidade de voltar a forma original, para o quando de levantar.

Mais do que tratar de crenças ou certezas, o que é mostrado de forma bem clara nesse filme é que a liberdade das escolhas está diretamente ligada aos gritos de independência proclamados durante a vida. E que as pequenas permissões que nos damos no dia a dia é que vão contar na construção de um ser liberto de fato e farto de afeto, com menos travas e dogmas e culpas. Eu quero… mas eu só posso na medida em que sou autor das minhas possibilidades e me entendo refém das consequências. Nem sempre dá pra saber o que espera depois da curva da esquina, mas com muito modo e pouco siso a gente pode se preparar pra qualquer aventura.

Já foi dito e redito que fazer coisas fora do horário, da agenda e do esperado podem trazer um bem ao ego, à saúde e ao coração. Se orgulhar da própria ousadia é sensação única! Claro que sem a conta dos parâmetros, pois o trivial de um é o transgressor do outro. Dentro das audácias e dos limites individuais há que se permitir. Sempre. Seja uma bola de sorvete de chocolate, uma tatuagem escondidinha na nuca ou assumida no tornozelo, um cinema ou um namoro no meio de uma tarde de terça-feira ou… um simples fio de cabelo branco. Às vezes não se enquadrar é bom… até na gente mesmo.

::: De 1995 e da diretora holandesa Marleen Gorris, A excêntrica família de Antonia, derrotou o nosso “O Quatrilho”, e levou o Oscar. Esse talvez seja o único ponto indigesto, para um brasileiro, de um belo filme que trata do feminino e das várias questões que o permeiam. A independência, a força de trabalho, o abuso sexual, a inserção em uma sociedade machista e patriarcal, o homossexualismo, o aborto ou o direito à decisão de ser mãe são alguns pontos bem abordados. Por esses caminhos passeia Antônia, mulher forte de lida e larga de atitude que vai agregando por bem querer e olhar doce, alguns desencaixados no mundo… um desfile de personagens caricatos na medida de refletir as desproporções da própria vida. Vale cada minuto. E até engolir o orgulho.:::

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione

“Se admitirmos que a vida humana pode ser regida pela razão, está destruída a possibilidade da vida”. (Into the Wild)

Vivemos através de uma bolha protetora, onde emocionar-se é o mesmo que ser vulnerável diante do outro.

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione. Algo que tire o seu chão e a previsibilidade treinada diariamente como forma de camuflagem diante do mundo. O mundo nos cobra certas atitudes, decoros e comportamentos didáticos e muitas vezes, insensíveis naquilo que diz respeito aos mais variados assuntos. Não por um tipo de senso operacional e robótico, mas simplesmente por compreender que para suavizar os golpes imprevisíveis da vida, necessitamos da proteção de um coração castrado, cicatrizado, e alarmantemente frio. Mas por quê?

Há tantas vivências, informações, cores e sabores para serem descobertos e, ainda assim, demonstrar emoções e as suas consequências, de braços abertos e olhos marejados, seriam o mesmo que atirar-se num abismo existencial. Quando foi que começamos a carecer de tato, sensibilidade, ternura?

Emocionar-se de fora para dentro é limitar o ser. Reprimir a admiração por um livro, a falta de palavras para descrever uma música, a euforia dramática de assistir um filme, quiçá os memoráveis momentos passados com entes queridos ou simplesmente a contemplação crua de uma bela paisagem.

Nascemos emocionados, mas conforme crescemos render-se aos “caprichos” do coração transformou-se em um sinal de fraqueza imperdoável. Talvez seja por isso que ainda não sejamos capazes de reconhecer relacionamentos, laços emocionais almejados, mas cada vez mais frágeis quando temos tudo e pouco no mesmo tempo e quantidade.

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione. E isto não é necessariamente despir-se de lágrimas, mas de algo além. Pode ser algo como encher-se de ternura, cordialidade, respeito, altruísmo, igualdade. Os exemplos são diversos e as emoções também, obviamente. Deve haver alguma coisa que ainda te emocione, impulsione, desconstrua e reconstrua o seu modo de pensar, agir, viver e sentir. Não é contraste. É brilho.

Não existe isso de utopia quando se trata de legitimar o coração

Não existe isso de utopia quando se trata de legitimar o coração

Venha, o amor está mais à frente. Pode imaginar o quanto é querido? Esculpido de coisas simples e gestos serenos. Eu falo e você escuta. Você fala e eu escuto. É uma troca. E nessa união de sentimentos e presenças, o tempo é nosso aliado. Sem arrependimentos, sem meias palavras. O carinho que aconchega, preenche e reestrutura os corpos com poesia, riscando lábios, transferindo sorrisos.

O amanhã concebido e sentido por nós. Quantos passos são necessários para o descobrimento? Descaminhos criados para caber o tanto que se quer. Fazendo da tua vida o que teu coração te dá. Deixe o passado para depois, amor. Nada de engessar os sonhos e colocá-los numa prateleira inalcançável. Talvez possamos escolher novos olhares para as mesmas vistas. Não existe isso de utopia quando se trata de legitimar o coração. Cada segundo conta carinho, cada minuto conta admiração e cada hora conta respeito. Inteiros sequenciais para suprir os processos incompreensíveis do acaso. Vou vivendo querendo encontrar a outra metade. A meta que completa a sinceridade do amor. Grito e escrevo em urgência. Embaralho palavras na esperança de receber você, onde quer que esteja. Saiba que, de todas as formas possíveis para exemplificar o quanto é precioso o nosso entrelaçar de mãos, nenhuma delas pode mensurar pra onde devo ir quando não as tenho aqui comigo.

Venha, o amor está mais à frente. Pode enxergá-lo? Adiante do não querer lá está. Você silêncio e eu também. É sinestesia. E já não sendo necessárias palavras, meias ou inteiras, o tempo nós é que construímos. Sem arrogâncias. O carinho aquece, invade e finca os corpos com poesia, riscando sorrisos. Os lábios dançam.

Vire a página, há um novo capítulo esperando por você

Vire a página, há um novo capítulo esperando por você

A maioria de nós quer manter junto as coisas, as pessoas e as situações que já fazem parte de nossas vidas, porque isso transmite certa sensação de segurança. Porém, na ânsia de tentarmos controlar o mundo à nossa volta, acabamos muitas vezes nos esquecendo de refletir sobre a real necessidade de tudo aquilo que queremos próximo de nós.

Custa-nos enfrentar a quebra de paradigmas, o abalo de nossas certezas, o confronto com aquilo que vem de encontro às nossas verdades. Preferimos, na maior parte das vezes, confinar nossas vidas dentro dos limites de nossa zona de conforto, de onde parecemos ter o controle de tudo, onde temos a falsa sensação de serenidade, uma vez que a vida clama por mudanças e elas virão, queiramos ou não.

Instalados comodamente sobre nossas frágeis certezas absolutas, tornamo-nos insensíveis ao que mantemos junto sem razão alguma, ao que nos emperra o caminhar, ao que nos diminui e não soma nada, apenas subtrai. É mais fácil fechar os olhos aos incômodos que carregamos aos trancos e barrancos do que tomar a iniciativa de nos livrar do que parece seguro, mas na verdade é frágil, nocivo e vazio de significância.

E assim vamos engolindo a companhia vazia do parceiro que nem nos percebe mais como gente, vamos chorar escondido por toda a humilhação sofrida no emprego, vamos alimentando a falsa esperança de que aquele amigo ausente ainda vai sentir a nossa falta, vamos preenchendo nossas noites medíocres com guloseimas e enlatados televisivos. Vamos, enfim, sem ir pra lugar nenhum, sem viver o que e como merecemos.

Jamais deveremos nos acomodar ao que temos, passivamente, sem refletir continuamente sobre o verdadeiro valor das coisas e das pessoas que aparentemente já fazem parte de nosso viver. É preciso discernimento e coragem para que possamos tomar a iniciativa de romper com tudo o que não nos acrescenta, não nos enriquece, não nos faz bem, não nos ama de volta.

A cada novo dia, afinal, podemos nos reencontrar com a possibilidade de sermos felizes, dependendo tão somente de nós mesmos partir em busca de nossos sonhos, de preferência nos despedindo dos pesos inúteis que atrapalham os sorrisos que temos o direito de estampar em nossos rostos. Porque sorrir com verdade e com amor é e sempre será o nosso mais precioso combustível de vida.

Afastar-se das pessoas conflituosas melhora a saúde e a alma

Afastar-se das pessoas conflituosas melhora a saúde e a alma

Tomar distância dos conflitos melhora nossa saúde física e emocional. Há pessoas que nos esgotam, que nos consomem a energia e que aniquilam nossa capacidade de reação. São verdadeiros destruidores de nossa saúde e de nossa paz interior, adoecem nossa capacidade emocional e distorcem nossa sensibilidade.

A verdade é que, com o passar do tempo, acabamos nos enganando com muitas das pessoas que acreditávamos conhecer, e nos damos conta de que vivíamos submetidos às suas exigências, seus argumentos, seus comportamentos e, sobretudo, suas emoções tóxicas.

Estas pessoas não sabem respeitar nem considerar os outros, elas os utilizam como marionetes de seu mau caráter e como alvos de seus conflitos externos e internos. Elas não vivem nem deixam viver e, como consequência, freiam o desenvolvimento e crescimento pessoal dos que as rodeiam.

Pode ser que o façam de maneira consciente ou não, mas o fato é que nos esgotam e nos intoxicam fazendo com que nos sintamos vulneráveis, que nos zanguemos com facilidade ou que tenhamos vontade de ir embora e deixar tudo para trás.

contioutra.com - Afastar-se das pessoas conflituosas melhora a saúde e a alma

Entretanto, nem sempre é possível nos afastarmos fisicamente dessas pessoas, pois, por exemplo, podem ser familiares ou colegas de trabalho. Não obstante, se tivermos a possibilidade de impor uma distância física, isso seria o complemento mais apropriado para a nossa saúde.

Possamos ou não fazê-lo, o que é verdadeiramente importante é obter um distanciamento emocional. Ou seja, o melhor é conseguir ter força suficiente para nos mantermos fora de sua capacidade de ação, para que seus comportamentos não nos influenciem.

Como podemos nos distanciar emocionalmente de alguém que nos faz mal?

Se você tiver em sua vida alguém que lhe faz mal, pode agir com a vantagem da antecipação, pois sabe que suas reações ou suas intenções serão cada vez mais previsíveis.

Nesse sentido, cabe assinalar o que comentávamos anteriormente: talvez as pessoas que nos rodeiam não queiram criar um ambiente ruim, mas elas não sabem se relacionar com o entorno de outra maneira.

Ou seja, ao deixar de dar importância ao que essas pessoas fazem e parar de focar sua atenção nos problemas que estão criando, você disporá da sua vida para ter mais oportunidades de crescimento e deixará de minar suas forças e sua autoestima.

Por essas razões, temos que agir com as expectativas. Esperamos tanto dos outros que somos incapazes de aceitar a realidade tal e como ela é. Isso gera desilusões e submissões, alimentando uma atmosfera em que fica muito complicado respirar.

Manter a perspectiva nos ajudará a obter certa indiferença e nos fará descer dessa montanha-russa emocional, conseguindo separar nossas preocupações das dos demais e nos libertando de suas inseguranças e de suas reações desproporcionais.

A ideia é esclarecer nossa mente e poder expor nossos pensamentos e emoções sem medo das consequências quando chegar o momento. Isso terá um resultado tão rápido e direto quanto satisfatório: nossos problemas diminuirão e poderemos viver em paz.

Quando nos afastamos da dor, nos aproximamos da felicidade

Afaste-se do medo e aproxime-se da indiferença. Não insista tentando manter uma boa impressão para os outros ou pensando que eles sempre têm boas intenções.

Dizem que quando alguém tem a intenção de nos machucar, o melhor desprezo é não dar atenção a ele; quer dizer, não deixar que a pessoa diminua nossa autoestima e ignorar suas mensagens negativas.

Os ambientes tóxicos e conflitivos têm uma capacidade de contaminação devastadora para nossa saúde e quanto mais distância emocional mantivermos deles, melhor vamos nos sentir.

A vida é muito curta para viver angustiado. Por isso, ame as pessoas que a tratem bem e se distancie dos que não o fazem. Sem remorsos.

_____________

Imagem de capa: Nooshin Safakhoo, Butterfly elephant

Não me delete, por favor.

Não me delete, por favor.

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.”
Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angustia. Filosoficamente a angustia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

Sou uma pessoa tão boa, por que não me ama?

Sou uma pessoa tão boa, por que não me ama?

A resposta é simples: Amar não é um DEVER, é um DIREITO. Ser bonzinho com o intuito de criar uma conta e enviar a fatura mais tarde para que o outro tenha que pagar com amor, não é bondade, é MANIPULAÇÃO. Pessoas verdadeiramente boas, são primeiramente boas consigo mesmas e sabem que amor verdadeiro transita livre, não exige e não é exigido, apenas acontece com leveza.

Pessoas doadoras demais tratam seus parceiros como criancinhas incapazes, tomando para si suas responsabilidades, cuidando de tudo para que tenha uma vida perfeita e perdoando-lhe constantemente suas “travessuras”. Perdoam o imperdoável, toleram o intolerável e assim perdem por completo a dignidade.

Fazem isso para mostrar o quanto são boas e o outro, incapaz de reconhecer. Mas isso não se confunde com bondade e nem amor. Isso é mortal em qualquer relação, até quando você se relaciona com alguém normal. Proteção exagerada, doação exagerada, presença exagerada entedia e afasta o parceiro. Fazer-se desejar é saudável e estimulante para ambos. Disponibilidade demais tem para o parceiro o significado de pouco valor, de falta de outros interesses, de ausência de identidade, amor e vida própria.

Um parceiro normal se sentirá sufocado e se afastará. Alguém emocionalmente maduro e estável não vai topar passar muito tempo com alguém dependente porque não quer ser sufocado e nem quer usufruir do fato que tem diante de si um servo. Por ser normal, não vê atrativo em aproveitar-se do outro. Já um perverso se alimentará disso até não restar vida em você. Sim, porque perversos são “experts” em tirar a vida, a identidade, os interesses do outro e, depois de terem êxito nisso, dispensam como lixo descartável essa pseudo-pessoa que restou.

Depois de um tempo numa relação doente entre perverso e doador, o lado não perverso fica tão obcecado por agradar o outro que não se lembra mais de quem é. Vive em função do outro 24 horas por dia. Aos poucos abandona os interesses, os amigos, familiares, negligencia o trabalho e estudos, tornando-se um mártir de uma causa perdida na qual só ele acredita. Sacrifica-se por alguém que não quer, não pediu e não acha que precisa de ajuda. Doa-se tempo integral para alguém insaciável que carrega em si um buraco negro onde toda e qualquer doação se perde.

Por trás da pessoa mártir, excessivamente doadora, que carrega o mundo nas costas e pensa nos outros antes de pensar em si, tem uma pessoa sofrendo de dependência emocional, desejosa de aprovação, de carinho e amor que não sabe exatamente como dar a si mesma. Então espera dos outros. Faz o impossível pelos outros e espera ser reconhecido e retribuído com amor. Obviamente esse reconhecimento nunca chega, o que a lança no calabouço do sentimento de injustiça, ingratidão, abandono, rejeição e desamor, tornando-a uma pedinte de atenção e carinho de alguém incapaz de dar.

“Síndrome do Sofrimento Posterior”

“Síndrome do Sofrimento Posterior”

Por Ester Chaves

Sofro da “Síndrome do Sofrimento Posterior”. Lido bem com as situações de crise, desde que eu tenha liberdade suficiente para chorar depois. Na hora do acontecimento, mantenho a calma, raciocínio devagar, controlo a respiração, faço o que for preciso sem afobação.

Ajudo o doente, ligo para o hospital com a maior destreza do mundo. Aviso a família com a cautela que previne o susto. Passo o café. Escondo o tremor da voz. Atendo todas as ligações e conto a mesma história quinhentas e setenta e sete vezes com paciência de monge. Distribuo água, digo as palavras certas, acalmo os desesperados, consolo os tristes e fico atenta a cada movimento do doente até o socorro chegar. Cumpro todas as etapas com louvor. Os braços se multiplicam para alcançar os que choram ao meu lado. Dissolvo as lágrimas de tanto apertá-las contra as paredes da retina. Não posso me desmanchar antes de receber a notícia de que tudo não passou de um susto, e que agora já é possível desembrulhar os cobertores e dormir em paz.

O paciente recebe alta, se liberta das gazes, das parafernálias que o prendem ao soro e eu sento e choro desesperadamente. Choro o susto atrasado, sofro com as lágrimas que amarrotaram as faces dos amigos, com os olhares apreensivos na sala de espera.
Sofro o déjà-vu da notícia, o flasback do sinistro, mesmo sem querer. Sem programar. Sem procurar por isso. A repetição é automática. Por mais que eu me previna tentando não ceder, dou de cara com a reconstituição da quase tragédia. O susto de antes vira o fantasma de agora, e não consigo dar corda na noite. Sonhar é impossível. Cochilo e lá vem o “making of” do filme ruim, a lágrima desce espessa e o soluço acompanha o cortejo do sofrimento posterior. Vejo todos os rostos envolvidos voltando para casa depois do dia difícil. As vozes se despedindo calmas, os abraços cercando os corpos e as carícias adornando os adeuses. O meu quarto vira ala de hospital; ouço o barulho das macas no corredor, as conversas das enfermeiras que cochicham sobre a medicação do paciente do quarto x…. tudo se agiganta dentro da minha mente insone.

Ouço todos os sons com uma nitidez absurda. A dor do paciente que precisa de remédio para adormecer afugenta meu sonho. Consigo ouvir o soro pingando. Sofro por ele, aquele senhor que ficou sozinho. Penso naquela moça que ia fazer o exame decisivo. Será que alguém da família apareceu para acompanhá-la? E se ela não tiver ninguém? Recupero todas as fisionomias, os prontuários de todos os pacientes.

Fico impaciente por só poder rebobinar os eventos e não ter acesso à edição. Quero eliminar as dores, botar uma alegria bonita no rosto daquela gente que só conheci de passagem, mas que deixou em mim dores de uma vida inteira.
Sei que o sofrimento transitório me faz pensar nos que o tem diariamente, como um membro do qual não podem se livrar. O dia amanhece lento, manchado com a agonia da noite anterior. Aos poucos, os uniformes brancos vão se dispersando no clarão que invade a janela, as lágrimas secam no varal do meu rosto cansado. Os dias sacodem as memórias hospitalares. Começo a “Campanha de Prevenção contra novos Sustos”, e tento, na medida do possível, aguardar com serenidade que nada mais aconteça.

SSP – “Síndrome do Sofrimento Posterior” – Ester Chaves

O estatuto estrutural e psicopatológico dos estados-limite (os borders)

O estatuto estrutural e psicopatológico dos estados-limite (os borders)

Por motivos que compreenderão, este texto poderá assumir particular importância para os psicólogos dinâmicos (ou psicanalíticos) mais jovens e menos experientes, não deixando de levantar pontos de reflexão que poderão também interessar aos mais experientes.

A argumentação apresentada fundamenta a posição pessoal do autor sobre esta matéria, sendo nessa medida que deve ser recebida. Contudo, tratando-se talvez do mais vasto e atual tema psicanalítico, será aqui apenas parcialmente abordado. Muito mais há para dizer sobre ele.

Os estados-limite (os border) são predominantemente definidos de uma forma simplista e algo enganosa, como sujeitos cujo funcionamento mental e relacional oscila entre a neurose e a psicose. É esta esta mal-interpretação, ou esta interpretação notoriamente insuficiente e naive, muitas vezes academicamente difundida, dos contributos dos autores consagrados que investigaram aprofundadamente estes casos — tais como, por exemplo, Otto Kernberg, Jean Bergeret ou André Green –, que faz com que muitos psicólogos fiquem à espera do dia em que lhes entre pela porta do consultório um aparatoso estado-limite (um borderline), apresentando um funcionamento em registo neurótico, pautado por insidiosos acessos delirantes, na forma de verdadeiras descompensações psicóticas. É claro que, regra geral, digamos assim, ainda hoje lá estão, à espera.

Entretanto, enquanto esperam, é provável que tenham um bom número de estados-limite sentados no sofá em frente a si, os quais são tomados por neuróticos, quer porque a sua história de vida se encontra destituída da exuberância patológica esperada (os episódios psicóticos), quer também porque frequentemente confundem os funcionamentos organizados através de mecanismos de defesa de natureza pré-edipiana, baseados no evitamento do conflito (estados-limite), com os funcionamentos organizados através de mecanismos de defesa verdadeiramente conflituais e, como tal, edipianos (neuróticos). Neste estado de coisas, a frequente ausência de deslize técnico, da neurose para o estado limite, faz com que ainda hoje a questão das “reações terapêuticas negativas”, que outrora tanto intrigaram Freud, represente um tema em aberto e atual.

Mas é, efetivamente, a procura de sintomas psicóticos no estado-limite, a principal fonte de confusão diagnóstica, entre estes e os neuróticos. Não apresentando sintomas psicóticos evidentes, os estados-limite são frequentemente tomados por neuróticos. Na verdade a questão da sintomatologia psicótica nos estados-limite é baseada em casos raros, cujo diagnóstico é sempre questionável. Não obstante a exceção possa fazer aqui a regra, contudo, confundir a exceção com a regra, que é o que acontece, é obviamente problemático.

André Green, por exemplo, no âmbito dos processos que designa a titulo do “trabalho do negativo”, considera que o recalcamento, que é a defesa prototípica do funcionamento mental dito normal-neurótico, pode sofrer variações distintas, sendo a sua ação substituída pela de outros mecanismos mais primitivos. Assim, nas neuroses o mecanismo de defesa central, ao qual os restantes se subjugam, é o recalcamento; nas psicoses é a exclusão que ocupa este lugar central; e nos estados-limite é a recusa (recusa da realidade psíquica, interna, sempre associada às defesas pela realidade externa e à clivagem entre o interno e o externo). O que este autor considera é então que existem três grandes estruturas de funcionamento mental: as neuroses, as psicoses e os estados-limite. Cada estrutura de funcionamento mental é uma organização estável e definitiva, estruturada através de mecanismos que lhe são próprios, claramente distintos dos mecanismos das outras estruturas.

Deste modo, considerar que existe um funcionamento neurótico (organizado pelo recalcamento) e um funcionamento psicótico (organizado pela exclusão), a operar à vez, dentro de um funcionamento estado-limite (organizado pela recusa), é aparatosamente confuso, para não dizer totalmente disparatado e absolutamente incoerente, já que o recalcamento, a negação e a recusa não podem operar simultaneamente no mesmo sujeito, nem à vez. Para assistirmos à ação destes três mecanismos de defesa centrais, necessitamos, obviamente, de pelo menos três sujeitos, e não de um. Ou não?

Mesmo Otto Kernberg, que por ventura é, como saberão, um dos principais responsáveis pela disseminação do gênero de ideias em debate (a sintomatologia psicótica nos estados-limite), deve ser aqui adequadamente interpretado. Este autor refere pois que os estados-limite se caracterizam pelo recurso a mecanismos de defesa primitivos, mas não diz que estes mecanismos são exclusivamente psicóticos e exuberantes, considerado sim que geralmente eles operam subtilmente, a par da manutenção da prova da realidade, pois os estados-limite, contrariamente aos psicóticos, não perdem a realidade.

Mas é precisamente neste ponto, a manutenção da prova da realidade, que os estados-limite se assemelham aos neuróticos, com os quais são frequentemente confundidos, não só devido a esta semelhança, mas também porque os mecanismos de defesa primitivos a que recorrem, regra geral e a bem da verdade, não apresentam aquela esperada exuberância psicótica.

Jean Bergeret, para dar outro gênero de exemplo, considera que a instância do aparelho psíquico que domina no funcionamento mental dos estados-limite não é o super-ego, como no caso das neuroses — pois nos estados-limite, para além da declarada fragilidade do ego, o super-ego não chega a constituir-se –, mas sim o ideal de ego, que é um herdeiro direto do narcisismo, declarando-se então uma lógica em que o objeto é apreendido na esfera da relação dual (especular e dependente), devendo antes demais servir funções de salvaguarda do narcisismo do sujeito. Neste âmbito o objeto é então convocado para desempenhar as funções de ego e super-ego auxiliares. Esta relação dual (especular) situa-se naturalmente aquém da constelação triangular edipiana. Efetivamente, o funcionamento mental dos estados-limite, diferentemente do funcionamento mental dos neuróticos, não é organizado pela culpa-castração (agenciadas por um super-ego dominante), mas sim pela angústia de perda de objeto.

Regressando a André Green, a folie privée (loucura privada) do estado-limite, sendo algo que efetivamente traduz a proximidade de um núcleo psicótico, revela-se apenas na intimidade da relação transferencial, o que não significa que aí se exiba de modo exuberante e imediatamente identificável e muito menos delirante. Lá fora, contudo, maioritariamente estes sujeitos são, digamos assim, quase como os outros, capazes de assumir as suas funções e responsabilidades em sociedade, sem apresentarem qualquer tipo de exuberância patológica evidente.

Em todo o caso, a folie privée traduz-se numa encenação transferencial em que o que se revela é o desespero associado a uma trama sado-masoquista, que visa organizar a relação com um objeto de intensa dependência, para não o perder (angústia de perda de objeto). Nesta trama sado-masoquista o objeto é paradoxalmente apreendido, quer como ausência insuportável (dada a perda ser uma ferida sempre aberta), quer como introsividade intolerável (dada a intolerância aos interesses pulsionais divergentes, próprios do objeto). Eis então o dilema border, polarizado na relação de dependência com um objeto que é procurado como uma “segunda pele”, onde o sujeito possa organizar a sua experiência emocional, estando este intuito obviamente destinado ao fracasso.

Esta folie essentielle du moi (loucura essencial do eu), assume pois uma trama bem distinta da trama efetivamente psicótica, na qual o objeto não é procurado e nem sequer se encontra em causa, já que o psicótico, digamos assim, através do delírio e da alucinação, renasce de si mesmo e reconstitui-se radicalmente como um sistema fechado, declaradamente auto-suficiente, do ponto de vista do funcionamento mental.

Efetivamente, para além do que já foi dito, os estados-limite apresentam uma polissemia sintomática estonteante, que não versa propriamente sobre delírios e alucinações. Não os querendo excluir (os delírios e as alucinações), repito-me, eles configuram efetivamente casos raros, cujo diagnóstico é sempre questionável. Por outro lado, em caso efetivo, sendo sintomas raros, devemos ter em conta que se a exceção faz a regra, a primeira (a exceção) não pode nunca ser confundida com a segunda (a regra).

Por fim, a polissemia sintomática do estado-limite abarca efetivamente uma diversidade vasta e multifacetada, de natureza não psicótica, nem neurótica, mas sim dotada de características definitórias de um estatuto estrutural próprio: a instabilidade afetiva acentuada, as fobias (enquanto condições associadas ao desamparo-dependência), os ataques de pânico, a hipocondria, as adições, as condições psicossomáticas, as depressões, os agires (o acting-out, mormente sexual e/ou agressivo, auto ou hetero-dirigido), etc.

Sendo certo que os sujeitos sobre os quais nos debruçamos aqui, representam uma percentagem altamente significativa da população clínica (facto que aparenta passar frequentemente desapercebido); tendo em conta a argumentação apresentada e a sintomatologia finalmente descrita, resta agora olhar atentamente para aqueles que, dentro dos nossos consultórios, se sentam no sofá em frente a nós.

Dica de Livro: A Soma de Todos os Afetos

Dica de Livro: A Soma de Todos os Afetos

Por Josie Conti

“Há um texto atribuído à Malba Taham que apresenta a origem da palavra “sincera”:
“Os romanos fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes. Em alguns casos, chegava-se a se distinguir um objeto um colar, uma pulseira ou um dado, que estivesse colocado no interior do vaso. Para o vaso, assim fino e límpido, dizia o romano vaidoso:
– Como é lindo… Parece até que não tem cera!

“Sine-cera ” queria dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através de suas paredes. E da antiga cerâmica romana, o vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado.

Sincero, é aquele que é franco, leal, verdadeiro, que não oculta, que não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver através de suas palavras, os nobres sentimentos de seu coração.”

“Sine-cera”, então, tornou-se para mim a definição perfeita quando pensei em falar do livro “A Soma de Todos os Afetos”, da escritora Fabíola Simões, que, em mais de 100 crônicas, apresenta uma coletânea de sentimentos e percepções da vida tão delicadamente desenhados que poderia ser indicado não só para as pessoas que carregam interesse lá pelo mundo de dentro, mas também àqueles que precisam entender e conhecer particularidades do processo de crescimento e maturação emocional do ser humano.

Tradutora de emoções, a prosa poética apresentada pela autora é um espelho de prata para pessoas sensíveis. É um toque de vida aos que procuram explicações que deem sentidos aos sentir. É mãe que assopra a ferida do filho que caiu da bicicleta.

O reencontro consigo e o amor pelos seus é tão intenso nas palavras da autora que transforma letras em risos, frases em lágrimas, textos completos em suspiros. Seus parágrafos têm cor e cheiro. O livro todo é um grande e terno abraço de reconciliação com a maturidade que a vida proporciona.

Como não querer ler crônicas que têm como título “O tempo da delicadeza”,  “O que a memória ama fica eterno” ou “A gente tem que continuar”? Os textos apresentados trazem a poética do que é essencial, do cotidiano dos afetos e do que dá sentido a continuidade da jornada.

É muito gratificante poder dizer que Fabíola Simões é certamente uma das melhores cronistas dessa geração, pois tem a capacidade de conciliar conteúdo de extrema qualidade à beleza estética de sua escrita. Afinal, a perfeição não mora longe da simplicidade.
Definitivamente um livro para ler, reler e presentear a quem amamos.”

 

Para adquirir o livro “A Soma de Todos os Afetos”, de Fabíola Simões, clique aqui: “Livro A Soma de todos os Afetos”

Paciência com os apaixonados, eles não sabem o que fazem

Paciência com os apaixonados, eles não sabem o que fazem

Paixão deveria ser classificada como doença de tão forte que é. Doença com dois subtipos: correspondida e não correspondida. Causa: desconhecida. Pode acometer pessoas solteiras e comprometidas, não importa idade, sexo ou classe social. Vem sem avisar e nunca se sabe seu gatilho.

Os doentes de paixão, ou apaixonados, tem como primeiro sintoma a perda de si mesmos nos mais profundos devaneios. Esquecem-se da vida e não conseguem distinguir o real do irreal. Não controlam os próprios impulsos. Sofrem de insônia, alteração de apetite, taquicardia e tremedeira. Sentem borboletas no estômago, nó na garganta e, nos casos mais graves, até na cabeça. A ansiedade chega a assustar.

E não venha me dizer que isso é coisa de gente sentimental. Queria eu que fosse, mas essa doença atinge até os mais lógicos e esses, coitados, sofrem ainda mais ao perceberem que perderam o controle do próprio cérebro. Algo mais forte tomou as rédeas. Não importa o grau de maestria anterior que o sujeito tinha no equilíbrio emoção versus razão, apaixonados de verdade, todos perdem a noção.

E essa tal paixão tem sempre um alvo. Uma pessoa qualquer. Às vezes, uma pessoa tão qualquer que não entendemos o motivo de tanto deslumbre. E nem precisa ser aquela pessoa ideal. Não! Isso porque a paixão tem um sério sintoma: a negação. Negação dos defeitos do outro, negação da realidade, negação da situação. Você chega a negar que está apaixonado. E você se nega a assumir que só ouve a mesma música mil vezes para despertar na sua mente a lembrança do gatilho. E quando a música não faz mais efeito, é necessário achar outra. É necessário manter o outro na lembrança e reviver coisas que aconteceram (ou que você mesmo criou), só pra sentir todos os sintomas novamente.

Sim, a paixão talvez seja uma das poucas doenças que te viciam. Ao mesmo tempo em que você quer estar curado, você quer sentir tudo aquilo de novo. Afinal, mesmo sofrendo (no caso da não correspondida), a vida parece ter mais graça, mais cor, mais intensidade. Normalmente, a vida é tão parada. A paixão sacode tudo e ela te convence que é mais legal viver assim. O problema é que a paixão não tem sentido. Só pode ser algo químico. Uma química daquelas bem carnais.

Tenho a impressão de que os maiores artistas eram aqueles que mais se apaixonavam. A paixão desperta a criatividade, deixa tudo a flor da pele, pois existe certa urgência em espalhar amor e ardor por ai. Nesse sentido, a não correspondida chega até a ser útil: já que a atenção não pode ir para o bendito gatilho, que vá para o universo. Mas é preciso ir para algum lugar. Paixão não consegue ficar guardada, ela explode. Paixão precisa virar música, poesia, texto, pintura, suor, abraço, riso e choro (muito choro). Paixão transborda, faz passar vergonha, faz querer viver e morrer ao mesmo tempo. Viver de paixão e morrer apaixonado, dois extremos, uma montanha-russa de emoção.

Depois de tanta paixão, fica aquela pergunta: “Mas e a cura?”. Olha… Se eu soubesse! Infelizmente (ou não), não há. Há quem diga que uma boa dose de amor-próprio ajude a amenizar a tendência a atitudes vergonhosas. Que um bom par de ouvidos amigo alivie toda urgência em se expor (recomendam-se até mesmo vários deles, pois não há quem aguente tanto nonsense).

É preciso deixar fluir de alguma forma, de preferência com algo construtivo. É preciso aceitar a dor e reconhecer-se como alguém realmente em tratamento. Não há fuga. É dentro. É fundo. É preciso ser sincero consigo mesmo. É necessário ter compaixão própria, abraçar-se e dizer “Sei que você andou descontrolado, mas tudo bem! Quem nunca?”. No fim, só mesmo o tempo. O tempo tudo cura. Parece clichê, mas só um clichê para combater outro que existe desde que o mundo é mundo.

INDICADOS