Depois dos 25 você percebe que precisa de mais tempo para realizar tudo que sonhou

Depois dos 25 você percebe que precisa de mais tempo para realizar tudo que sonhou

Um belo dia você acorda e já não tem mais vinte e poucos anos, agora você já está quase na família dos trinta. Você imaginava que quando chegasse a esse ponto já estivesse no emprego dos sonhos, ganhando muito bem, junto do amor da sua vida, colhendo os frutos de uma vida de estudos e dedicação profissional. Contudo, as coisas não aconteceram bem assim.

Se você conseguiu ir morar sozinho, certamente não foi em um duplex. Agora você está alugando um pequeno imóvel e pagando os olhos da cara por isso. Sim, morar sozinho dá trabalho, você também já notou isso, mas nem de longe você pensa em voltar ao ninho familiar. A casa de seus pais era mais confortável, mas hoje você não abre mais mão da sua autonomia.

Agora você não precisa mais explicar que não foi abduzido por algum extraterrestre mal-intencionado quando resolve sair de casa sem avisar. A idade permite que você não precise dar satisfações. Você percebeu, com uma certa ansiedade, que a vida está se fazendo e que seja lá o que acontecer, os frutos serão colhidos lá na frente, não agora.

Você já entendeu que os amigos de verdade são aqueles que aceitam seus “nãos” tão bem quanto seus “sins”. Também já entendeu que aqueles que não aceitavam um “não” como resposta não eram tão amigos assim. Você não vai agradar todo mundo e tão pouco anseia por isso nessa altura. Você não entra mais em roubadas em nome das amizades, como fazia antes e isso é reconfortante. Agora você é mais seletivo e quer distância de amigos, amores, empregos e familiares tóxicos.

Você já percebeu que o amor da vida não tem data nem lugar pra chegar. Que as pessoas mais interessantes que conheceu estavam em lugares inesperados e não em grandes eventos nos quais você projetou imensas expectativas.

Cozinhar deixou de ser um passatempo e se tornou algo cotidiano. Sim, com certeza você gostaria de ter prestado mais atenção em como fazer aquele prato delicioso quando tinha mais tempo ou até mesmo gostaria de ter mais dotes culinários. Agora seu estômago depende da sua disposição.

Antes você ouvia que era jovem demais para realizar seus sonhos, agora os outros te dizem que é tarde demais para isso. E você entende que com o tempo e seus encargos fica um pouco mais difícil largar tudo e cair no mundo.

O seu lar é um cantinho especial, arquitetado por você. Com o melhor que conseguiu com móveis promocionais e objetos de liquidação, mas é onde você pode deixar as coisas do seu jeito e isso não tem preço. Você se sentiu como um cachorro em dia de mudança quando teve que fazer mercado pela primeira vez, comprar produtos de limpeza os quais nem sabia que existiam, quando teve que manejar alguns eletrodomésticos, quando entendeu que louças e roupas não se lavam sozinhas, contudo agora você já está expert em ordenar as coisas na sua casa.

Depois dos vinte e cinco a ideia de que somos imortais cai por terra. Possivelmente em algum ponto você teve que refletir acerca da morte ao presenciá-la rondando parentes, conhecidos ou amigos próximos.

Agora o tempo tem mais valor para você. Ele não deve mais ser desperdiçado levianamente e quando um filme não te agrada, por exemplo, você não perde mais tempo assistindo-o até o final.  Você passa a observar mais o que as pessoas fazem, e menos o que elas dizem e não tem mais paciência para enrolação.

Você vive plenamente a sua sexualidade. Você entende que um relacionamento tem que somar e não subtrair tudo aquilo que você, com sua independência, alcançou. Os manuais de conquista já não servem mais, se é que um dia serviram, e você compreende que a única forma de conquistar verdadeiramente alguém é sendo você mesmo.

Você não atende à todas as ligações telefônicas e passa a ser mais seletivo com tudo, inclusive com relacionamentos amorosos. Você entende que nunca as pessoas foram tão livres para começar e terminar relacionamentos, mas que o fim deles traz inevitavelmente dor. Dessa forma você aprendeu a ser mais responsável consigo e com os outros ao entrar em uma relação.

Emagrecer já não é tão fácil, mas você nunca esteve tão confortável com seu corpo. Você aprendeu a se cuidar sozinho.

Você descobriu que a sua própria companhia é maravilhosa. Que a alucinação da juventude ficou no passado, agora você age com mais segurança e ponderação. Sabe de cor e salteado que é caindo que se aprende a levantar. Você entende que ninguém é perfeito e que a vida não se faz sozinha. Que a vida acontece diferente para cada um, em um tempo particular que merece ser respeitado sem um pessimismo desconcertante ou uma animação alucinada.

Você descobriu que seus sonhos dependem de suas próprias iniciativas para se tornarem reais e que isso pode levar algum tempo, mas você não liga para isso, afinal você agora sabe que ainda está no começo da vida.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Breves notas sobre toxicodependência

Breves notas sobre toxicodependência

Em todos os programas de recuperação de toxicodependentes, independentemente do modelo especifico que possam seguir, considera-se invariavelmente que as drogas são agentes de prazer, sendo essa a variável fundamental no desenrolar da adição. Nesta ótica, se as drogas não provocassem prazer, não existiria adição.

Dito isto, não perderei muito tempo a falar sobre a perspetiva moralista que se encontra na base do posicionamento em questão. Todos sabemos o quanto a imensa fração moralista das nossas sociedades censura o prazer, inclinando-se apressadamente a punir, ou mesmo a excluir, os que considera desmesurados abusadores do mesmo (do prazer), como seria então o caso dos toxicodependentes.

Penso mesmo que esta dimensão punitiva é uma condição pré-determinante, no campo da exclusão social dos toxicodependentes. Curiosamente, os programas de recuperação e as técnicas de tratamento difundidas, não andam muito longe da inclinação a punir estes desmesurados abusadores do prazer, recompensado depois o melhor que podem, os que se tornam abstinentes.

Mas desiludam-se ambos, técnicos da cura dos viciados no prazer e fração moralista da nossa sociedade, pois a equação “droga = prazer” reflete contundentemente o equivoco cientifico-moral, no qual radicam as vossas convicções.

Efetivamente, o que os toxicodependentes procuram nas drogas não é o prazer, é uma cura para a dor. Portanto, não procuram nas drogas um prazer perigoso, mas desmesuradamente ambicionados, procuram sim um método radical para escapar ao desprazer, através da permanência o mais continuada possível, num sempre ansiado estado de ausência de tensões, nirvânico, que então permita escapar à angústia. Neste quadro, se os próprios toxicodependentes dizem que se drogam por prazer, devemos compreender que tal se deve a três fatores fundamentais:

Por um lado eles não podem evocar a dor a que procuram escapar, mas à qual não têm acesso, pois esta encontra-se, obviamente, sujeita à ação dos mais severos mecanismos defensivos, regra geral associados à recusa da realidade psíquica;

Por outro lado, perante a possibilidade do alivio da dor propiciado pelos químicos, óbvio será que eles deduzam do consumo um prazer inflacionado (e muito, veja-se neste sentido o mito do flash orgásmico);

Por outro lado ainda, dizendo que se drogam por prazer – no contrabalanço da falta de sentido que sempre os ameaça –, eles procuram compreensivelmente afirmar a sua legitima humanidade, já que o prazer é, afinal de contas, a determinação que melhor define a condição humana (e os moralistas receiam isto).

Mas, para reproduzir o discurso do paciente, não precisamos de psicólogos, pois não? Até porque, na verdade, quem conhecendo os efeitos das drogas, não necessita delas para escapar à angústia, sabe bem que eles são demasiado pálidos e desinteressantes, para justificar, em seu nome, o tão deteriorante percurso da carreira toxicómana.

Neste quadro, como nota colateral, convém sempre lembrar a brevidade da ressaca, a cujas manifestações físicas, como é óbvio, é impossível subtrair os efeitos somáticos da angústia inflacionada pelo medo da privação. Para além deste aspecto ser claramente negligenciado, a brevidade da ressaca, como dizia, com o culminar da qual a toxicodependência raramente termina, em muito enfraquece a teoria da infernal dependência física, fundamentada antes de mais numa suposta pré-condição genética (para a qual nunca existiram provas científicas efetivas). Mas poucos parecem querer pensar nisso. (…)

Em suma, a toxicodependência não é mais do que uma das possíveis estratégias para escapar à dor mental (ao sofrimento psíquico), sempre inscrita no âmbito de uma perturbação psicopatológica que a antecede, cuja natureza, como saberão, quase nunca escapa às características definitórias das estruturas estado-limite.

O toxicodependente é, portanto, no seio de um grupo de pacientes bastante difíceis, um paciente redobradamente difícil. E é tão difícil por quê? Porque não é fácil persuadir um paciente, com semelhante grau de intolerância à frustração, a abdicar da única cura para a dor que até à data conheceu (a droga), quando não lhe podemos oferecer a breve termo, algo de comparável eficácia no campo da redução das tensões penosas (pelo menos ele assim sente e resistentemente crê), ou seja, no campo da aspiração ao Nirvana, como lugar onde se escapa à angústia.

Mas este é, perversamente, o caminho indicado pela finalidade da pulsão de morte; vem dai a sua força. E chegados aqui já dissemos muito, mas muito mais falta dizer. (…)

Ser ansioso pode indicar que você é mais inteligente

Ser ansioso pode indicar que você é mais inteligente

Quando o assunto envolve algum tipo de pesquisa científica, certamente um dos campos mais complexos nesse quesito é aquele que avalia a inteligência humana, justamente pelo fato de que inteligência é um fator abstrato demais e, por isso, difícil de ser compreendido, medido e comparado.

Ainda assim, há métodos que nos permitem avaliar níveis de aprendizagem, como acontece nas escolas, por meio da realização de provas e trabalhos. Seguindo essa linha, muitos cientistas já realizaram pesquisas para comparar níveis de estresse e ansiedade com aprendizado. Não é de hoje que a relação entre uma coisa e outra é sugerida – ou você nunca ouviu, por acaso, que a ignorância é uma dádiva?

O raciocínio de que não saber alguma coisa é reconfortante permite deduzir que saber pode ser algo ameaçador. É o mesmo princípio de “os ignorantes são felizes”. Desconsiderando as interpretações mais filosóficas da afirmação e nos atendo apenas à ignorância como antônimo de inteligência, será, então, que os inteligentes são menos felizes ou, nesse caso, mais ansiosos?

Ao que tudo indica, sim

contioutra.com - Ser ansioso pode indicar que você é mais inteligente

Um estudo conduzido pelo psicólogo Alexander Penney, de Ontario, no Canadá, avaliou o aprendizado de mais de 100 acadêmicos universitários. Surpreendentemente, os estudantes que se consideram mais ansiosos e preocupados são aqueles que alcançaram as maiores pontuações em um teste de inteligência verbal.

Outro estudo, realizado em Israel em 2012, também relacionou inteligência com ansiedade. Na ocasião, 80 estudantes participaram de um experimento que avaliava como eles reagiam a uma situação com alto nível de nervosismo e ansiedade.

Sem saber que seriam “enganados”, eles foram avisados de que participariam de uma experiência com um software novo. Acontece que enquanto faziam os testes, seus computadores estavam programados para travar, como se estivessem com algum tipo de vírus. Em seguida, uma pessoa aparecia, alarmando a situação e aconselhando que os alunos chamassem uma equipe de assistência técnica urgentemente.

Enquanto corriam atrás de algum tipo de assistência, os estudantes desesperados nem faziam ideia, mas passariam por outros testes. No hall da universidade, alguém os abordaria pedindo para que participassem de uma pesquisa; na sequência, outro “estudante” derrubaria um calhamaço de papel em cima dos pés das pobres cobaias deste estudo maluco.

O resultado foi claro: aqueles alunos mais estressadinhos e ansiosos por causa dos imprevistos foram os que conseguiram resolver o problema do computador mais cedo. Além do mais, ficou claro que as pessoas mais ansiosas eram também as que se empenhavam mais para terminar seus trabalhos.

O psiquiatra Jeremy Coplan, de Nova York, estudou os níveis de inteligência de pessoas que sofrem de transtorno de ansiedade generalizada: aqueles com níveis mais altos de ansiedade eram também os que tinham maiores índices de Q.I.

Acredita-se que essa relação entre ansiedade e inteligência tem a ver com o fato de que pessoas mais ansiosas e preocupadas conseguem pensar em formas diferentes de resolver problemas, pois são capazes de analisar todos os ângulos de um problema – logicamente, quem faz esse exercício chega aos melhores resultados.

Grandes pensadores, estudados em todo o mundo, sofriam de ansiedade – só para citar alguns exemplos: Nikola Tesla, Charles Darwin e Kurt Gödel. É lógico que, em alguns casos, a ansiedade não é uma coisa positiva e produtiva e, se chega a atrapalhar o trabalho ou os estudos de uma pessoa, é preciso procurar ajuda médica.

E aí, você acredita que pode ser uma pessoa ansiosa? Acha que isso tem relação com a forma como você resolve seus problemas? Conte para a gente nos comentários!

Fonte: Mega Curioso | Slate/David Wilson, via Bio Sem Limite

Carta aberta de um ex-ansioso

Carta aberta de um ex-ansioso

Deitado na cama, eu olho para o relógio, passaram-se apenas dez minutos desde a última vez que o olhei. Decido me levantar e ir à cozinha beber um copo d’água. O coração continua batendo em um ritmo frenético, segue em sintonia com a cabeça que dói de forma incontrolável. Não vou tomar outro analgésico; se os três que já tomei hoje não fizeram efeito, o quarto provavelmente não fará. Volto a deitar e tento me acalmar, quero apenas dormir e não sentir o meu peito sufocado por uma falta de ar perturbadora. Quero somente viver sem essa ansiedade que suga toda a minha energia e me impede de respirar.

Se alguém já passou por uma situação parecida com essa, deve saber que um dos maiores males que existe hoje se relaciona a doenças psicossomáticas e, no caso, a ansiedade. O sujeito ansioso faz de tudo para acalmar-se e ter o mínimo necessário para continuar vivendo. Toma chá calmante, faz Yoga, mata-se na academia e, quando o caso é extremo, muitas vezes recorre ao remédio.

No entanto, na maioria dos casos, nada disso funciona. E por quê? Porque o problema é interior e cabe ao próprio indivíduo solucionar. Obviamente, essa solução pode e até deve contar com a ajuda de outra pessoa, inclusive de um profissional. Mas a questão é mais profunda e apenas o ansioso, mesmo com ajuda, pode solucionar esse problema.

Durante muito tempo, fui ansioso – na verdade, muito ansioso -, de modo que a situação retratada no início do texto é extremamente pessoal. Vivemos em um mundo que cobra muito de nós, a mídia vende a imagem de sucesso e cria em nós a demanda do modelo que ela vende. Não se admitem a dor, o choro, a tristeza, o fracasso. Todos devem ser “vencedores”, ter “sucesso” e “sorrir” o tempo inteiro. Não há tempo a perder com “banalidades”, precisamos seguir a cartilha e sermos exemplos de sucesso.

E quanto aos nossos sonhos? Ao que queremos de fato fazer? Ao modo como queremos levar a nossa vida? Será que a obediência a esses ditames não é uma ditadura? Será que o desenvolvimento de uma série de problemas e doenças não é desencadeado pelo estilo de vida que cultuamos?

Pois bem, creio que sim e, durante muito tempo, por mais que não fosse um servo voluntário desse modelo de vida “feliz”, ficava angustiado com o fato de não conseguir responder satisfatoriamente a um mundo que eu nem acreditava como o correto. Paradoxal? Sim, mas, ainda que sejamos considerados inadequados, estamos imersos nesse mundo e, em vários momentos, vemo-nos pondo em prática as regras da cartilha da “felicidade”.

Não é possível ser saudável com tantas cobranças, com tanto peso nas costas. Cada indivíduo é formado por dores e feridas diferentes, assim como possui sonhos e desejos distintos dos demais. Viver aprisionado em um modelo que determina o que se deve fazer e o que é a felicidade, algo tão subjetivo, é realmente o passaporte para se ficar doente.

E, assim, surge a ansiedade. Apertando o peito, retirando o ar, retirando o sono, trazendo dores e até mesmo o ânimo da vida. Todavia, nós não somos máquinas para vivermos vidas robotizadas, com um sorriso no rosto o tempo inteiro. Não somos máquinas, a ponto de não chorarmos ou ficarmos tristes. E, o mais importante, não somos deuses, para sermos o gabarito do mundo, tendo a obrigação de acertar sempre e ser exemplos do que o status quo considera perfeição.

Sempre haverá questões que não saberemos responder. A vida é um mistério, é uma ponte que se atravessa sem saber o que há do outro lado. Entretanto, devemos atravessá-la, ao nosso modo, ao nosso tempo, chorando quando o peito for invadido com uma frente fria de dor e descansando sempre que precisarmos recuperar o fôlego. Não fomos fabricados em série, portanto, seguir modelos só faz mal, bem como, independentemente do que acredite, sempre haverá algo que não conseguirá compreender e é preciso que aprendamos a aceitar as nossas vicissitudes, a finitude da vida e as pedras que existem no caminho.

Não há resposta para tudo, nem eu, nem você, nem ninguém conseguirá encontrar a fórmula de ouro da vida. Sendo assim, não aceite regras que o converterão em uma máquina que deve ser infalível. Não coloque sobre si pesos desnecessários. Fazemos o possível, mas nem sempre esse possível traz o que queríamos.

Erros todos cometem, então, perdoe-se. Se a maior parte da vida é incontrolável, não se preocupe com esta, pois será apenas um ansioso, sobrecarregado de cobranças, esmagado por angústia, que não dorme, não respira e não vive.

Preocupe-se com a parte que você controla e use sua energia naquilo que realmente você quer, naquilo que traz alegria ao seu coração. Aprenda a aceitar que, embora haja coisas que não queríamos que fizessem parte da vida, elas fazem, mas é o que você faz com aquilo que você controla que te define e, assim, não permita que o mercado, a sociedade e/ou você mesmo retirem o seu animus, a sua alma, dando-lhe pesos que o sufocam e o transformam num ansioso, pois a vida é muito curtam para que esteja tão sufocado a ponto de não senti-la.

Como não acredito em fórmulas prontas, essa carta não é uma verdade última, mas acredito que a beleza da vida reside nas singularidades que as pessoas possuem e, quando isso é suprimido por uma doença que, em geral, é causada por um modo de vida estressante, individualizante e opressor, só me resta deixar essas palavras, com a esperança de que cada um possa sentir o âmago da existência e ter o ânimo necessário para atravessar a ponte chamada vida, descobrindo as suas dores e finitudes, enxergando, também, todas as belezas que existem ao longo da caminhada.

A palavra mais doce

A palavra mais doce

Bom dia mãe!

Hoje senti saudades de você e quis passar o dia ao seu lado.

É bom ter você perto de mim.

Eu sei que às vezes, você se sente cansada, se olha no espelho

e vê como o tempo passa rápido e vai deixando as suas marcas.

Mas quero lhe dizer que não importa como você esteja, gosto de tudo em você.

Para mim, não faz nenhuma diferença se você já não tem mais a mesma pele, o mesmo cabelo ou o mesmo corpo de alguns anos atrás.

Se para você eu não envelheço, aos meus olhos você também é sempre a mesma.

Como eu gosto de conversar com você!

Me amarro nesse seu sorriso, no seu jeito de ser.

Entendo as suas razões de se preocupar tanto comigo.

Afinal, o mundo anda muito violento

E além disso, é difícil às vezes, enfrentar e superar as dificuldades do dia -a-dia.

Tem aquele cafezinho que só você sabe fazer? Aliás, há muita coisa que só você sabe fazer:

– amar da forma perfeita, por exemplo.

Quando cheguei aqui, disse que hoje senti saudades de você e quis passar o dia ao seu lado.

Nunca esquecerei de suas palavras:

-” filha, estou todos os dias à sua espera e sempre disponível para ficar ao seu lado.” (Minha mãe, era assim: a ternura em pessoa).

Quero que saiba que a palavra mais doce que para sempre pronunciarei será: MÃE !!

Se a esperança for embora, peça com amor que ela volta.

Se a esperança for embora, peça com amor que ela volta.

Não tem jeito. A vida vai ser sempre esse bate e assopra sem fim. Esse jogo marcado em que a gente apanha, cai, levanta e finge não saber que continua desabando. Finge não notar que está em queda livre e que, se não correr mais, não trabalhar mais, não levantar mais cedo, se não tentar mais forte mudar de ares, de rumo, de planos, de emprego, em breve vai se esborrachar lá embaixo.

Você sabe. Este mundo vai cada vez mais caro e a lógica é simples: se a gente não faz nada além do que se habituou a fazer, a gente ganha cada vez menos e vive cada vez pior. É triste, mas a vida se dividiu entre os que precisam trabalhar cada vez mais e os que se dispõem a pagar cada vez menos. Isso é coisa que a gente ignora, deixa pra lá, muda de assunto para não tornar o dia insuportável, mas é assim que é.

A gente segura a onda, faz o que pode, o que gosta, mantém a dignidade, empurra na subida um caminhão carregado de pedra, sabendo que se o soltar um segundo ele volta e nos atropela primeiro. Mas é duro. Tem dia em que a esperança fecha a loja e pendura na porta um aviso: “saí, não sei se volto”.

Só Deus sabe como é duro fazê-la voltar. Esperança quando vai embora é fogo. Só retorna com garantias. Faz exigências, requisita fiadores, reivindica proteções. Quem perde a esperança vive num mato sem cachorro, um chove-não-molha, uma indecisão brutal, uma fraqueza na alma, um sei-lá-o-quê dolorido que só.

Resgatar a esperança é um gesto de bravura extrema. Requer presença de espírito, força de vontade e uma vigorosa fé de que o amor, ele mesmo, ainda resta escondido em algum lugarzinho perdido dentro da gente. Se tiver amor, é metade do caminho andado. O amor é um cão farejador. Exímio especialista, bicho experimentado nas artes de resgatar a esperança perdida.

Para sentir esperança de novo é preciso sentir amor. Assim, sem mais, sentir amor. Sentir amor por alguém, por um ofício, uma causa, uma ideia, uma lembrança. Sentir amor por si mesmo. Sentir amor. A vida só persiste porque ainda há amor pulsando entre nós. Sentir amor nos fortalece, alimenta, liberta, nos revive e nos leva adiante tanto quanto o ódio nos consome, nos amarra e enfraquece. Sentir amor é o caminho para retomar a esperança nos braços.

Quando tem amor, você acorda num dia frio, em casa, percebe a sua gente ali, do seu lado, e se dá conta de que empurrar o caminhão ainda vale a pena, paga todo o esforço. E que sentir amor pelos seus é a mais alta e mais completa fortuna do ser humano.

Com amor a esperança volta. Ela volta assoviando uma canção tão linda, mas tão linda que deve ter sido feita pelo próprio São Francisco de Assis de manhã, rindo de olhar seus bichinhos correrem um atrás do outro no paraíso.

Ela volta, reabre a loja e anuncia numa faixa enorme, colorida e generosa: “voltei! Não vou embora mais não”.

Somar com o outro é muito mais do que atender meras vaidades

Somar com o outro é muito mais do que atender meras vaidades

“Meu amor não é impessoal, nem tampouco inteiramente subjetivo.” Sylvia Plath

Como ainda desconhecemos o real significado da cumplicidade? Quando perceberemos que, para garantirmos empatia, precisamos nos mover em direção ao querer comum? Somar com o outro é muito mais do que atender meras vaidades. Ainda que dispostos dos próprios anseios, o querer o bem implica compartilhar do afeto sem nada em troca, da consciência humana de simplicidade e perseverança sem pensar no adiante, mas no instante.

Fala-se do amor e dos sentimentos com propriedade de quem conhece todos os pormenores, mas, abatido pela cegueira arrogante, trata com sons os sentires que não precisam ser explicados. É querer ouvir e não praticar. E nessa dança egoísta e conservadora, julga reconhecimento do próximo numa espécie de obrigação. A cumplicidade percorre outros descaminhos. Ela deixa de ser onírica quando encarada na ponta dos lábios e nas mãos do coração. Sem sofrer de desprazeres e sem sucumbir por feridas passadas. A cumplicidade abraça o perdão.

Não obstante, o cúmplice do amor é o próprio. A mesma metade vista no colo que repara, admira e impulsiona para novos voos. Aceitar menos implica a desistência da cumplicidade, resultando assim, no furtivo desaparecimento da poesia a dois. Desafinados não reconhecem o mais. Nem do amor e muito menos da vida.

Um bom encontro é de dois

Um bom encontro é de dois

“Fundamentalmente, um organismo vive em seu ambiente ao manter suas diferenças, e mais importante, ao assimilar o ambiente e suas diferenças; e é na fronteira que os perigos são rejeitados, os obstáculos são superados e as coisas assimiláveis são selecionadas e integradas. Agora, aquilo que é selecionado e assimilado é sempre novo; o organismo persiste ao assimilar o novo, ao mudar, crescer. O que é difuso, sempre igual, ou indiferente não é um objeto de contato.”

Fritz Perls

Dentre as necessidades primordiais do ser humano encontra-se a necessidade de pertencimento. Se fossemos seres solitários provavelmente não teríamos sobrevivido e evoluído enquanto espécie, nós nascemos programados para pertencer, o funcionamento de nosso organismo é feito para tanto. Nós desenvolvemos a comunicação oral, escrita e corporal, sentimos, pensamos, para pertencer. Sem a sensação de pertencimento estaríamos fadados a viver uma vida muito pobre em experiências e crescimento.

É essa sensação de “fazer parte” ocorre através do contato; o contato nos proporciona o entendimento do “eu” e do “não-eu”, o contato que é feito com nós mesmos e com o outro. Essa necessidade vital faz com que todas nossas atitudes, escolhas, crenças, palavras, relações, tenham como denominador comum o intuito de fazer contato, para poder fazer parte.

O contato é o sangue vital para o crescimento, o único meio de mudar a si mesmo e a experiência que se tem do mundo, o que resulta de um encontro saudável com o outro é amor, mudança, evolução, pertencimento. E o mais paradoxal do contato é o fato de que ele não acontece na mesmice, o que acontece na mesmice é confluência, fusão, contato mesmo só existe naquilo que nos é diferente, instigante, intrigante.

Mas, se buscamos sempre o contato, se todos as nossas atitudes existem com o objetivo de pertencer, por que muitas vezes falhamos? Por que vivenciamos tantos conflitos? Por que causamos desconexões?

Uma das razões pode estar na má qualidade de nossa comunicação. Em geral, nos comunicamos muito mal, com nós mesmos e com os outros. Raramente conseguimos comunicar com verdade o que sentimos e necessitamos, mais raramente ainda sabemos acessar nossas necessidades e supri-las de maneira autêntica e saudável.

Outra causa importante de desencontros pode estar no fato de que o contato só acontece na fronteira e essa fronteira, com exceção das fronteiras físicas, nunca é fixa. Ao contrário, ela é fluída, instável, maleável e muito complexa. Mas, se a fronteira não é tão fácil de ser percebida, o que podemos perceber de maneira mais clara é que não existe contato na invasão de sua fronteira. O contato só ocorre na fronteira.

Sendo assim, quando falamos algo que não nos foi perguntado, quando fazemos algo que não nos foi pedido, quando não enxergamos ou respeitamos os nossos limites e os limites do outro, invadimos a fronteira de contato, e essa invasão gera mais desconexão do que conexão.

E como já foi citado antes, o encontro com o outro, com o diferente, é o maior propulsor de nosso crescimento espiritual, das nossas experiências de vida mais essenciais e significativas. Somos seres únicos, irrepetíveis, diferentes e é isso que nos une. Portanto, se queremos fazer contato com o outro de maneira harmoniosa, é fundamental aprendermos a respeitar as fronteiras desse contato, e é muito importante fazer isso sem deixar de respeitar nossa própria essência. Não é saudável perder-se de si para poder pertencer, como já foi citado, tornar-se igual aos outros para poder pertencer não é fazer contato, pois na mesmice não há contato.

Portanto, nesse processo de encontro com outro, é fundamental entender que não fazer contato, ou seja, não pertencer, também faz parte do risco dessa busca por pertencimento e isso é saudável, desde que seja feito também com respeito ao outro, o que muita vezes não acontece. Se queremos evoluir é importante estarmos abertos para o que nos é diferente, mesmo quando não existe conexão. Fritz Perls, o pai da Gestalt-terapia, certa vez disse: “Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer”.

Sim, um bom encontro é sempre de dois; quando ele ocorre é lindo, quando não ocorre, não há nada a fazer.

Se pudesse, que conselhos você daria para si mesmo?

Se pudesse, que conselhos você daria para si mesmo?

Se pudesse, que conselhos você daria para si mesmo?

Sabe aquela situação difícil pela qual  você está passando? Aquela preocupação que não sai da sua cabeça? Aquele problema que parece sem saída? Aquele sofrimento que se apegou em você?

A vida pode ter variados significados e essa interpretação é algo muito pessoal. Entre tantos, um possível é que a vida consiste em uma série de acontecimentos que nos insere e nos tira da zona de conforto. Como ondas no mar, diante de um fundo de tranquilidade e paz, várias oscilações acontecem, fazendo-nos seguir novos rumos e passar por novas experiências.

Muitas vezes, estamos nessa movimentação de ondas gigantes e/ou intensas e não sabemos como superá-las. Parece que a forma como nadávamos antes não nos ajuda a passar por essas novas adversidades e tomamos - sem saber bem o motivo - aquele belo caixote.

A resposta para sair ou passar melhor por essas situações é entendermos que estamos, na verdade, mal posicionados. Estamos parados no local onde a onda está arrebentando e, por isso, levamos aquele caldo.

Mas e se fôssemos um pouco mais a fundo, onde a onda se inicia, e ficássemos observando as suas oscilações, sem que isso nos alterasse tanto? Essa seria uma boa opção, não?

Mas como sair do lugar em que estamos hoje?

Muitas vezes, estamos tão condicionados com as nossas crenças de que a arrebentação é o nosso lugar, que não conseguimos enxergar que tudo não passa de mais uma onda que vem e vai. Temos, nesse caso, que ampliar o nosso olhar, observar o início de tudo e ver como isso se forma.

Uma das melhores formas que temos para isso é ouvirmos os conselhos: alguém que está vendo tudo da areia nos orienta sobre onde é o nosso lugar e como sair da situação.

E se, dessa vez, em vez de procurarmos um conselheiro externo, passássemos a procurar nosso próprio conselheiro? Aquela voz ou aquele pensamento que está dentro de nós, ansioso para ser ouvido; o nosso Guru interno?

Mas como encontrar o nosso guru interno?

No silêncio, na natureza, em um lugar que nos inspire, no estado meditativo, local religioso, naquela música que nos acalma, no sonho, correndo…

Pergunte-se: qual conselho eu me daria?

Relaxe e respire lentamente. Pense em 3 ou 5 conselhos e escreva-os em uma folha. Não julgue e nem critique, apenas escreva.

Guarde-os e, nos dias seguintes, leia-os e os mantenha com você. Siga o conselho do seu guru/mestre interior. Ele é o caminho que vai tirá-lo desta situação.

Om

Mães Possíveis

Mães Possíveis

Minha avó não foi uma mãe perfeita para minha mãe. Minha mãe não foi uma mãe perfeita para mim. Eu, certamente, não sou uma mãe perfeita para meus filhos.
E minha filha não será uma mãe perfeita para os filhos dela. E isso é maravilhoso, posto que a perfeição não existe. A gente vai sendo mãe um pouquinho a cada nova experiência, alegria ou desafio. A gente acerta às vezes. A gente erra às vezes.
Mas a coisa mais bonita desse amor intenso e imperfeito é que quanto mais o tempo passa, melhores coisas brotam de nós. Quando a gente acerta, o coração fica feliz.
Quando a gente erra, a gente pede perdão. E ensinar a perdoar é um inequívoco ato de amor.

E o mundo anda precisando mesmo é de amor! Daquele amor, sem risco calculado, e liberto de definições. Amor possível que dá a cada um de nós a oportunidade de exercer diferentes papéis. Amor que invade tudo com a simplicidade necessária para tirar de nossas costas o peso insuportável de uma ditadura afetiva qualquer. Para ser mãe, não é preciso amar incondicionalmente; mas é absolutamente necessário que se esteja disposto a descobrir formas inclusivas de amar. Ser mãe não é particularidade feminina. Aliás, a beleza reside nisso: é possível ser mãe, sendo mulher ou homem; porque a maternidade é da categoria das coisas que abrangem, não das que limitam.

ABRIR OS BRAÇOS E A MENTE PARA TODA FORMA DE AMAR

A vida não cansa de nos lançar perguntas novas para nos tirar da confortável poltrona dos saberes definitivos. Ainda bem! E, ainda que muitos insistam em fazer “ouvidos moucos”, teimem em fingir que a pergunta não é para ele… Ainda assim, a mais irredutível e inatingível das pessoas, uma hora tem que se confrontar com o fato inquestionável: não há verdade que dure mais de alguns dias (às vezes horas, ou até minutos), sem ser questionada. Para essas pessoas a vida reserva abordagens bem menos ignoráveis do que as mansas perguntas. Diante do pouco caso, a vida usa de verdadeiros Tsunamis para nos desorganizar. E, se não for por bem, será pela força que seremos arrancados de nossas torres de certeza. E aqueles que insistirem na ignorância hão de ficar tão sós com suas preciosas verdades que, um dia, acabarão por retroceder e lamentar não ter compreendido que o amor não suporta fórmulas prontas.

MÃES POSSÍVEIS

A maternidade é uma experiência intensa e desorganizadora. Diante da iminência de gerar um filho, dentro ou fora da própria barriga, a pessoa parece ter sido presenteada com um baú mágico cheio de lentes especiais; uma para cada dia da vida, até que a vida termine. Não ousemos imaginar que seremos contemplados com uma vida cor de rosa, cheia de bilhetinhos amorosos e experiências idílicas e perfeitas. Essa é uma escolha (sim, é uma escolha!), que ao ser feita, transformará nossa rotina de forma inquestionável. Assim que tomamos a decisão de ser mãe, abrimos mão de ver o mundo com os mesmos olhos todos os dias. Todos os dias descobrimos uma porção nossa desconhecida, capaz de feitos inimagináveis que vão desde curar dor de tombo com um sopro mágico, até curar dor de amor com uma xícara de chocolate quente. E junte-se a essa desafiadora tarefa, a vida profissional, afetiva, acadêmica e o que mais seja esperado na existência de um ser humano que continua a existir individualmente; apenas optou fazer caber nessa vida uma nova vida pela qual se responsabilize, material e emocionalmente.

UM GRANDE DESAFIO

É! Ninguém disse que seria fácil. Nada de manual de instrução, garantias ou previsões certeiras. No entanto, pouco importa se o filho nasceu do encontro de um óvulo com um espermatozoide dentro de nós, foi gerado a milhares de quilômetros ou só veio a nos conhecer como mãe, já com alguns anos contados. Dentro de cada um de nós, homens ou mulheres, mora uma mãe. Esse ser mitológico, com poderes terrenos e afetivos, que também falha, sente insegurança, medo e cansaço. Portanto, se você é uma dessas pessoas que se dispôs a tão desafiadora tarefa, não espere um carrossel no parque; mas espere uma vida de possibilidades e inúmeras experiências que o levarão às mais diferentes formas de amar.

ADOTAR UMA CRIANÇA É CARREGAR UM CORAÇÃO FORA DO PEITO

A palavra adoção tem origem do latim “adoptio”, que em nossa língua significa “tomar alguém como filho”. Ação de adotar, tomar para si com cuidados. Sendo assim, todos os filhos são adotados. E, se não o forem, alguma coisa estará tremendamente equivocada. As experiências de relatos de adoção trazem em si uma revelação de iluminar a alma: a grande maioria dos pais que se dispuseram a adotar uma criança, nascida biologicamente de outro casal, contam que foram escolhidos pela, ou pelas crianças. A experiência é descrita como um encontro de almas, proporcionado pelo encontro de olhares. Os olhos, sempre os olhos! E não será assim também com os filhos nascidos do nosso próprio útero?! Tem que ser! Tomar alguém para si com cuidados é, sem dúvida, um compromisso racional e amoroso com forte poder de transformação pessoal. Então… Fica aqui um convite àqueles que possuem um coração capaz de amar incondicionalmente: Tratemos de adotar como filhos, aqueles que nasceram de nós, e aqueles que nunca tocaremos com nossas próprias mãos; mas, que somos capazes de tocar com cuidados assumidos, numa missão de sermos “mães do mundo”! E que tenhamos, então, de fato, UM FELIZ DIA DAS MÃES, em todos os dias de todos os anos!

MUDE UMA VIDA

Ao apadrinhar uma criança de uma das comunidades apoiadas pela ActionAid, você passa a apoiar projetos nas áreas de alimentação, saúde, educação, direito das mulheres e afrodescendentes e moradia, sempre em parceria com uma organização da própria comunidade. A criança e todos os que vivem naquela região são beneficiados, desenvolvendo meios e criando oportunidades para superar a pobreza. Com a ActionAid, você tem a certeza de gerar benefícios reais que vão mudar a vida de uma criança e de sua comunidade. Conheça algumas histórias de crianças que precisam de ajuda para mudar suas vidas.

Sejamos fora da caixinha

Sejamos fora da caixinha

Mesmo antes de nascermos começamos a receber rótulos. No começo, apenas os aceitamos e queremos honrá-los. Posteriormente, passamos a criá-los e defendê-los.

Sinto que gostamos de rótulos, pois eles nos fazem sentir únicos. É como se fosse essencial personalizar uma caixinha com etiquetas que nos definem e que fazem as pessoas se lembrarem de nós. Que fazem com que nós mesmos tenhamos como nos descrever. Nós simplesmente nos apegamos a essa caixinha. E alguns se apegam tanto, que nunca mais querem mudá-la.

Talvez esses sejam os ditos “personalidade forte”. Já outros, estão sempre buscando um conjunto de rótulos mais bonitos para colocar lá. E ai de quem ouse questionar minha preciosa caixinha, principalmente para sugerir que um rótulo feio deveria estar ali ou que um daqueles que mais aprecio não devem ficar.

O problema é que, se você se confunde com a sua caixinha, pode acabar entrando num vazio imenso sem entender o porquê, já que possui tantos rótulos bonitos para mostrar. Já que sua caixinha é colorida, tem glitter e toca música quando aberta. Já que tantos gostam dela.

contioutra.com - Sejamos fora da caixinha

Acontece que você não é sua caixinha e talvez tenha perdido tanto tempo com ela que se esqueceu de se encontrar. Talvez você não tenha percebido que mudou e que, há tempos, já é completamente diferente do que está lá. Talvez você tenha ignorado o que pensa e o que sente por julgar que não combinaria com a sua caixinha e por medo de como julgariam seu novo conteúdo. Por medo de afastar quem você ama.

E que graça tem todo essa trabalho de ornamentação para agradar os olhos alheios se ele não condiz com a realidade? Pior ainda, se nem ao menos soubermos quem somos?

Quem não consegue expressar o que é sente raiva, mesmo que inconscientemente, de quem tem coragem de colocar na caixinha só o que vem de dentro. Quem não consegue ou não quer se  expressar, julga com estranheza o que é original, tanta fabricar caixinhas socialmente aceitáveis, cria um dominó de julgamento e desrespeito pela caixinha dos outros.

Por outro lado, pessoas que têm rótulos condizentes com sua essência, não precisam esbravejar por ai “Ei, olhe meu rótulo, esse é real, eu sou mesmo assim!” Não. Normalmente, elas não se importam se os outros as aprovam ou não. Exigem apenas o respeito que todos merecem. Afinal, só estão sendo o que são. Nada podem fazer em relação a isso. Feio ou bonito, trata-se apenas da realidade. E elas se sentem livres pra mudar, pra melhorar, pois já não se importam com o desconforto que isso traz aos outros desde que estejam em paz consigo mesmas. Elas não se importam se não há palavras no nosso dicionário para descrever seu real estado de ser. Palavras são muito limitadas perto da realidade.

Estamos sempre buscando rotular uns aos outros e esquecemos que a vida é pura mudança. Damo-nos o direito de mudar somente um pouco por vez e em situações especiais. Por que nos limitamos? Por que temos medo de nos perder? De perder nossos rótulos, de esquecer o que existe dentro da caixinha? Por que não deixamos o outro mudar também? Por que me sinto ameaçado quando percebo que meu companheiro/amigo/parente está mudando? Somos livres, pois!

E, no fim, somente quando nos libertarmos dessa necessidade de entender e controlar caixinhas é que poderemos nos relacionar de forma genuína uns com os outros. Caixinhas com rótulos reais. Nunca perfeitos, mas que apenas são e deixam ser em paz.

Amores dizem adeus, algumas vezes

Amores dizem adeus, algumas vezes

“Não ser amado é apenas questão de pouca sorte, mas não ser capaz de amar é uma desgraça”. Albert Camus
O quanto somos capazes de amar? Será mesmo que existe uma forma de mensurar o amor ou ele simplesmente é delineado conforme os nossos anseios e quereres? Algumas pitadas de sorte se fazem necessárias? Indo mais afundo nessas questões, quem está descrevendo o calvário do coração no livro chamado destino?

Querendo congelar instantes, perpetua-se um viver agridoce, que nubla e finca pés e mãos num passado sem sentido. O passado está morto. É um sopro de outrora que não pode ser reconstruído de acordo com caprichos. Segundas chances não foram criadas para pavimentar o terreno gasto, ainda que seja confortável estar de pé sobre o conhecido.

Amores dizem adeus, algumas vezes. E nem por isso devem ser considerados menos. Porque é mais toda vez que o peito inflama, o carinho desabrocha e a vontade de querer bem supera condições sociais de certo e errado. O torto no amar é não ser capaz de ser.

A graça e a amplitude deste sentimento tão essencial aos instantes é a possibilidade de caminhar em novas direções. Sem medidas e regras, permitindo a sua transição para novos mares. Para faróis tempestuosos ou tranquilos, mas que signifiquem o permitir estar e não o obrigado a estar.

Pouca sorte, desgraça e outros agouros prevalecem para os presentes no até logo. Erroneamente, entendem o adeus como partida, mas no fundo, ele é o início.
Adeus, amores passados. É tempo de sorrir para o presente em diante.

O que você precisa saber antes de morar em mim

O que você precisa saber antes de morar em mim

Por Fellipo Rocha

Se os meus olhos são as janelas da minha alma, minha boca é a porta e, o beijo […] – a chave.

Peço que repare na bagunça e pense, pense muito bem antes de entrar. A casa é pequena, mas comporta muitas coisas. Os cômodos do meu coração estão abarrotados de tentativas, repletos de receios, e guardam pilhas intermináveis das minhas mais vulneráveis expectativas.

Agora me responda: Tem certeza que quer entrar? Se a resposta for positiva, peço que entre com calma. Na sala do meu coração você encontrará centenas de filmes, que me fizeram rir e chorar – no abrigo de outros braços. Músicas que embalaram altos e baixos – com outros amores. Muitas fotos de viagens que fiz e coisas que quis, mas que hoje não passam de antigos e distantes rumores.

Na cozinha você sentirá o cheiro de muitos jantares. Temperos que eu costumava adorar e hoje já não posso suportar. Velas apagadas pela ação implacável do tempo. Talheres que alimentaram outras bocas e taças que embriagaram outros corpos.

Meu banheiro exala o cheiro de tantos perfumes, sabonetes e loções – quanto de decepções. Fios de cabelos distintos entopem o ralo do esgoto, enquanto escovas de dente diversas ocupam o chão. A água do meu chuveiro já lavou outros suores e o espelho sobre a pia já refletiu dias melhores.

O quarto do meu coração é o cômodo mais bagunçado, guarda tantas lembranças boas – quanto amores dilacerados. Nele você encontrará todo o prazer que dei e recebi. Todas as lágrimas que derramei e todas as alegrias que senti. Vários livros de cabeceira. Roupas por todos os lados. Noites em que fui feliz, e outras em que desejei dormir e nunca mais ter acordado.

Agora preciso que me diga: Tem certeza que quer continuar? Sim? Então caminhe até o quintal. Lá você verá quem fui e quem sou. Os espinhos que colhi, quando flores plantei e os fracassos que colhi – quando esperanças semeei. Mas verá também um pedaço de terra fértil, que resistiu bravamente e, anda precisando – urgentemente – de água, adubo, calor e amor.

Agora me responda com toda a sinceridade que reside em ti: Deseja assumir a responsabilidade de revitalizar a minha horta? Quer me ajudar a varrer o chão, lavar os pratos e pintar as paredes? Está disponível para me auxiliar na troca dos móveis e com a nova decoração? Carregará comigo todo o lixo para fora? Quer – do fundo do seu coração – habitar o meu?

Sim? Perfeito, cuide bem de tudo – a casa agora também é sua.

Mar amar

Mar amar

por Fernanda Pompeu
imagem Régine Ferrandis

Pezinhos na areia fofa e molhada de água salgada das pequenas ondas. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, anos 1960. Não tinha shopping, não tinha vitrine de big prédios residenciais. Havia dunas de areia, vento forte, minha avó Affonsina e o mar.

O mar que eu percebia pela primeira vez. Ele que me acompanharia por toda vida. Primeiros registros – como sacou o publicitário Washington Olivetto – são o primeiro sutiã, aquele que a gente nunca esquece. Portanto lembrei do mar da infância quando, aos 40 anos, visitei o Cabo de São Vicente, no Algarve português. Que tontura! Olhar o mar a partir do Cabo é se debruçar para o infinito de água e sal, para as lágrimas e os depois. Portugal cheira a sardinhas, a perceves, a conquistas.

Quer morrer no mar, mas o mar secou, o poeta Carlos Drummond diz ao José, sujeito que não sabe mais o que fazer, nem para onde ir. Mas, meu poeta querido, o mar nunca seca. Secam os rios, os chãos, as bocas. Até o amor seca. Já o mar é planeta molhado. Se um dia secar, acaba tudo. Acabam as formigas, os bois, as pérolas, bijuterias, guerras e poemas.

Sem o mar, Isidore Ducasse, aliás Conde de Lautréamont, jamais teria escrito Os Cantos de Maldoror, publicado em 1869. Nessa narrativa estranha e fantástica, há o mar coração, mar travessia. Mar hipocrisia, mar humano. Lembrei agora de uma pequena joia do Paulo Leminski: Aqui nesta pedra alguém sentou olhando o mar. O mar não parou pra ser olhado. Foi mar pra tudo quanto é lado.

Se não existisse mar, talvez nem houvesse literatura. Pois mesmo nas narrativas de sertões, interiores, grotões o mar está sempre presente. Seja em sonho, desejo, ou qualquer outro sentimento. Faz alguns anos, viajando pela Bolívia sem saída para o mar, me veio a certeza de que todo e qualquer país tem direito ao mar. É isto: o mar é direito inegociável. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, esqueceu de pôr este artigo: Todas as pessoas têm direito a ver o mar, sem necessidade de passaporte ou qualquer outra burocracia.

Até em países extremamente desiguais – como o Brasil – o mar leva a fama de ser de todos. O de Copacabana, o do Farol da Barra, do Gonzaga, da Iracema, Boa Viagem, Icaraí, Praia Grande. Até o do Desterro, da Boa Morte, do Coração Partido, da Enseada do Botafogo. Simples. O mar é de todo mundo, porque é de ninguém.

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