Os professores, as professoras e sua impossível tarefa de educar os pais e a escola

Este texto é um abraço para aqueles e aquelas, professores, professoras, educadoras e educadores que levam sua missão a sério, que honram a profissão que escolheram, que se matam de estudar para entender as peculiaridades de cada um de seus alunos!

Ana Macarini

Entendo que seja mais prudente começarmos nossa reflexão, a partir de situações que envolvem diretamente AS PROFESSORAS – as mulheres que se dedicam à dificílima e indispensável tarefa de ensinar. Explico: mães e pais – em número bem mais expressivo, as mães, justiça seja feita – costumam estabelecer relações mais próximas com a escola e, portanto, com aqueles que abraçam a tarefa de ensinar as crianças, nas séries iniciais. Ocorre que nesta fase da aprendizagem que engloba a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I, a presença da figura feminina à frente das salas de aula é predominante; salvo nas aulas mais específicas, como Educação Física, Música, Artes, Língua Estrangeira e Educação Digital. Sendo assim, as relações família/escola, em sua grande maioria são estabelecidas entre mulheres – repito, salvo raras exceções.

Acontece que, na esmagadora maioria das vezes, quando a família vai espontaneamente à escola para participar de uma reunião com a professora de seu filho, ou sua filha, este movimento tem a ver com alguma crítica ao trabalho desempenhado por ela.

Eu mesma, fui professora de crianças na faixa etária entre 4 e 10 anos, por um período de 33 anos (é, eu comecei bem cedo!), e, posso me lembrar de todas as vezes em que os pais se dignaram a reservar um horário em suas agendas para falar algo produtivo acerca do meu trabalho. E, olha que os 99% dos pais que conviveram comigo por meio da missão educativa apreciavam o meu trabalho. Como eu sabia disso? Porque eles não reclamavam! E, porque, ser professora era para mim uma espécie de missão sagrada; minha dedicação era quase messiânica e minha relação com as crianças era de respeito, afeto, liberdade, incentivo ao pensamento e autoridade amorosa. Meu trabalho sempre foi reconhecido por meus superiores e tenho a honra de dizer que tenho hoje amigos e amigas muito próximos que foram pais de alunos e alunas, assim como alunos e alunas – já adultos, todos eles.

O trabalho das professoras de Educação Infantil e Ensino Fundamental I não costuma ter em nossa sociedade o valor que merece ter

Tal fato já aparece explicitado na diferença salarial desses profissionais para profissionais na área de Educação que lecionam para turmas de Ensino Fundamental II e Ensino Médio. A diferença salarial é justificada com um argumento extremamente capenga e mentiroso de que os professores de Fundamental II e Ensino Médio são especialistas. Ocorre que, para ser professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, as educadoras não apenas são Pedagogas Especialistas, como precisam conhecer aspectos aprofundados do desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. Além disso, são essas profissionais as responsáveis pela base de formação acadêmica dos alunos em processo de formação, o que vale afirmar que este é o segmento dentro das escolas que mais investe em cursos de especialização e pós-graduação.

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – Carlos Drummond de Andrade.

A pedra, em questão, neste momento, atende pelo nome de PANDEMIA e tem como sobrenome COVID-19.

Famílias estão ficando enlouquecidas com seus rebentos dentro de casa, absolutamente perdidos em meio à rotina inesperada de aulas online, contatos virtuais diários com professoras e professoras, mais uma quantidade infinita de tarefas a serem realizadas dentro de casa, no meio de uma situação de isolamento social.

Ninguém estava preparado para isso. Nem as escolas e seus gestores; nem os professores e professoras; tampouco as famílias; muito menos os alunos. Estamos trocando o pneu da bicicleta com a dita cuja em movimento. Tombos são inevitáveis! O jeito, ora, ora… é deixar de lado e velha e cômoda mania de defender o seu lado da história, parar de só reclamar encolocar defeito, aprender a ouvir o que outro tem a dizer, reconhecer que estamos todos nos adaptando, entender que erros são inevitáveis e compreender de uma vez por todos que se não houver abertura de diálogo e lugar de fala para TODOS OS ENVOLVIDOS, acabaremos todos loucos antes que essa PANDEMIA nos dê uma trégua e nos permita – bem aos poucos, aprender uma nova rotina lá fora , certo? Sim!!! Porque a velha rotina, aquela de antes, não existe mais!

E, se sempre foi um desafio para professores e professoras, amealhar alianças com as famílias, quando davam conta de conviver com os meninos e meninas boas horas do dia, sem a presença familiar, imagine agora… De uma hora para outra, vejo mães e pais que NUNCA deram bola para as rotinas escolares, posto que estavam adaptados à terceirização dos filhos, virarem especialistas da Educação.

Há escolas que obrigaram seus professores a fornecer seu número de celular para pais e mães. Pode imaginar o nível de invasão de privacidade desses profissionais numa situação dessas? Os professores e professoras nunca trabalharam tanto! Estão exaustos, física, mental e psicologicamente. Não têm horário de trabalho! Não tem fim de semana! E, é bom que não se esqueça que a maioria deles também têm uma casa para limpar, roupa para lavar, comida para fazer e filhos para atender.

Ahhhh… mas então os pais e mães são os vilões dessa história??? Não!

Não foi isso que eu disse. Há famílias dando show de humanidade e solidariedade, tanto para com seus filhos e filhas, quanto para com os professores e professoras, e, também com os profissionais multidisciplinares – terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, psicopedagogos e outros – e eu me enquadro nessa categoria. São pessoas que aproveitaram a situação igualitária da pandemia para exercitar e deixar evoluir suas habilidades de interlocução e solidariedade. Aproveitaram para observar o nível de comprometimento das crianças, durante as aulas online e tarefas posteriores; percebem o quanto faz diferença e impacta de forma positiva os encontros terapêuticos e, sobretudo, interessaram-se em compreender melhor a forma com suas crianças e adolescentes se relacionam com o processo de ensino e aprendizagem.

Entretanto, sinto muitíssimo informar: por meio de uma amostragem estatística, apenas 20% das famílias têm demonstrado essa postura evoluída frente a necessidade da parceria com aqueles e aquelas que estão do lado de lá das telas e da vida. É triste, mas é verdade!

Ahhhh… mas você não vai falar dos maus profissionais? Não vai falar dos professores e professoras que estão tratando com pouco caso a situação de aflição de seus alunos? Não vai falar das aulas pasteurizadas e pouco interessantes? Não vais falar do uso abusivo dos Power Points? Não vai falar do exagero de atividades em papel? Não vai falar da incompetência de algumas escolas que foi escancarada agora? Vou! Mas, não neste texto!

Este texto é um abraço para aqueles e aquelas, professores, professoras, educadoras e educadores que levam sua missão a sério, que honram a profissão que escolheram, que se matam de estudar para entender as peculiaridades de cada um de seus alunos! Este texto é uma homenagem para TODXS AQUELXS QUE MERECEM SER CHAMADOS DE MESTRES – e, não, eu não estou falando de títulos acadêmicos. Os outros, os medíocres, os que nem sabem por que escolheram essa profissão, têm agora uma oportunidade única de mudar de ramo.

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Photo by Timothy Dykes on Unsplash

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"