Os anti (mas eternos) brasileiros

Por Ana Carolina Faria Bortolo

Há dois meses estou nos Estados Unidos. Não vou entrar no mérito de que aqui é um frio do caralho porque, afinal, “é primeiro mundo”. Estudo inglês e tenho acompanhado de perto a vida dos imigrantes de Boston e região. O estrangeiro vem pros EUA na esperança de que o sonho hollywoodiano se realize. Ele fecha os olhos e visualiza o seu futuro: estudar em Harvard, casar com uma americana, ter uma família feliz em uma cidade pequena, com dois filhos loiros e um labrador correndo no quintal. Ai ele chega aqui, sem falar inglês, e se fode lavando banheiro, subindo parede e raspando neve.

Ganha dinheiro? Ganha.

Tem direito à saúde pública, sendo estrangeiro? Não tem.

Tem direito à educação gratuita, não sendo cidadão? Não tem.

Sofre preconceito todos os dias por não ser daqui? Sofre.

É feito de trouxa por não entender a língua? É.

A questão é que a grama do vizinho é mais verde, sempre. Ele chega aqui, posta fotos nas cidades turísticas, tira onda com camiseta de marca que aqui não custa quase nada. Posta na rede social que aqui é top, que tá tudo top, que foi a melhor coisa que fez na vida. Ai você vê ele lá na escola de inglês, já estudando aqui há dois anos durante vinte horas por semana e ainda com dificuldade em conjugar presente, passado e futuro. Entre uma conversa informal e outra, você ouve “Eu sinto muita falta do meu país, mas aqui é mais seguro” ou “Se eu pudesse, voltaria agora”.

Há muitos motivos pelos quais alguém vai para outro país vivenciar outra cultura. Eu mesma posso enumerar os meus, embora eles não sejam importantes nesse momento. O que eu não entendo, mesmo, é o brasileiro que dá às costas pro seu país. Fala mal em alto e bom tom, vive aqui, mas não vota. Não participa politicamente. Fala bem da cultura asiática, elogia sua adoração por dinheiro, e critica a desorganização do Brasil. Todo país tem seus defeitos e qualidades. Todo país tem sua cultura, seu lado bom e seu lado que precisa muito melhorar. Quando você escolhe ir embora, você escolhe deixar pra lá. Deixar pra lá é diferente de criticar.

Não me sinto confortável quando falam mal do Brasil, muito menos quando a crítica vem de alguém que já não mora e não participa das decisões do país há tempos. O brasileiro é inteligentíssimo. É um povo sem limites, criativo, rápido, proativo. É um povo que não tem medo de vencer, mesmo que o medo bata na sua porta com uma bala perdida todos os dias. É um povo lutador e – que bom! – um povo de ótimo humor. Talvez por isso consigam vencer: carregam dentro de si a esperança de dias melhores, de reformas políticas, de igualdade social. Carregam dentro de si a coragem.

Alguns fazem o seu melhor e ajudam o país economicamente. Outros vão embora para ter subempregos em outros países e lutar contra o preconceito, o idioma e todas as dificuldades que um “não cidadão” tem. Não julgo. Mas o Brasil sempre estará lá, de portas abertas, com o brasão no seu passaporte te lembrando de que, se der tudo errado, é o verde e amarelo e problemático país sul americano que lhe dará as boas vindas de volta, porque essa é sua pátria mãe.

De todos os aprendizados que viver no exterior te traz, hoje aprendi mais um: na lista de assuntos polêmicos como “política, religião, aborto e pena de morte”, devemos incluir também a cultura. Cultura não se discute. Não se julga. Não se condena. Não se aponta o dedo na cara pra dizer “Hey, isso é errado”. Cultura se respeita. E o seu país natal, de origem, pode não ser mais a sua casa, mas ainda assim é merecedor do seu carinho e respeito.

Porque é por ter nascido nele que você fala português e consegue ler esse texto, que você é desenrolado, que você é obstinado e luta até conquistar seus objetivos. Nossa nação nunca sairá de nós e será sempre nosso lar de direito. Respeito é a chave de uma vida plena, bem vivida e bem relacionada. Não importa onde, não importa com quem.

IMagem de capa: Akhenaton Images/shutterstock

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Ana Carolina Faria Bortolo
Turismóloga e Administradora de Novos Negócios por formação. Escritora, pintora e dançarina por vocação. Planejadora de eventos, bartender, agente de viagens e vendedora por profissão. Garçonete de navio por opção. Vi o mundo e voltei, e de todos os rótulos que carrego na bagagem, só um me define bem: sou uma ótima contadora de histórias.