Os 30 anos de Sandy e Junior

Todo mundo lá em casa sabe cantar todas as músicas. Não porque eram fãs, mas porque a minha paixão cantou pela casa por toda a infância, adolescência e começo da vida adulta.

Ana Carolina Faria Bortolo

Sandy nasceu em 83. Junior, em 84. Eu sou de 85. Em 89 eu estava na casa da minha avó paterna quando vi aquelas duas criancinhas tão parecidas comigo cantando “Maria Chiquinha” na tv. O pai delas era o Xororó, que meu pai amava e ouvia quase que diariamente. Eu tinha 4 anos, e lembro como se fosse hoje. Virei fã no mesmo segundo.
Eles foram crescendo e eu fui crescendo junto. Pegava a escova de cabelo do meu pai, colocava “Splish Splash” pra tocar na vitrola da sala e os imitava a tarde inteira, dançando enquanto meu irmão dava risada da minha cara.

Os irmãos ficaram famosos e foram parar nas rádios. Eu comprava uma fita virgem e ficava mudando da Gazeta pra Band pra ver se tocava uma música deles. Quando começava, eu corria pra gravar. Vieram os CDs. Sandy&Junior vendiam a rodo. Toda música que lançavam virava hit de sucesso. Meu pai me deu o primeiro CD, “Sonho Azul”. “Ilusão” era para os dias tristes, “Pega na Mentira” era para os dias felizes e “Não abuse de mim” me lembra das férias de verão. Foram janeiros infinitos ouvindo faixa por faixa na sacada do meu apartamento no Guarujá. Aquelas músicas combinavam perfeitamente com aquela paisagem e com as dúvidas que surgiam com a minha adolescência. “Inesquecível” partiu meu coração junto com meu primeiro amor.

A Sandy gravou “Vivo por Ela” com o Andrea Bocelli e aquela canção, uma das mais lindas de todos os tempos, combinando perfeitamente nosso português com o romantismo italiano, era a trilha sonora oficial de todas as festas de 15 anos que eu era convidada. Quantas amigas de vestido de princesa eu vi descendo as escadas dos buffets enquanto a voz da Sandy inundava o salão…

Eu já escrevia bem, então me inscrevi num concurso da revista “Atrevida” e ganhei a minha primeira fita cassete deles, com o show “Era uma vez”. O pacotinho chegou pelo correio e nunca mais saiu do meu lado. Vi, revi, vivi e revivi aquele show até a fita estragar.

Quando estava perto dos meus 15 anos, eles lançaram “As quatro estações”. Todas as minhas amigas foram ao show. Eu pensei que nunca realizaria esse sonho, mas uma das minhas colegas de classe me convidou para ir, em um sábado, ao Olympia. Meu tio estava com câncer no pulmão e meus pais iam e vinham do hospital todos os dias, mas deixaram eu ir ao show como presente de aniversário. O show tinha aromas e sensações como as estações do ano, e eu estava tão emocionada de vê-los frente a frente que simplesmente bloqueei essa memória. Foi tão intensa que guardei no subconsciente. Me lembro, porém, que três dias depois do meu aniversário, meu tio, que tinha nascido no mesmo dia que eu, descansou e me deixou com aquelas muitas perguntas e sensações que nos confrontam quando vemos a morte pela primeira vez tão perto de nós.

Veio o cd ao vivo no Maracanã e meu primeiro DVD deles, que meu irmão esfregou na parede e criou uma briga tão grande que tivemos que dormir, pra sempre dali em diante, em quartos separados. “Não dá pra não pensar” embalou meu primeiro romance, que buscava sorvete pra mim enquanto eu estava com o pé engessado em casa pelo verão.
Os filmes? Tinha todos! As novelas? Não perdi um episódio. O seriado? Assisti e gravei em fitas cassete que tenho até hoje. Todo domingo era sagrado: não importa o quanto minha mãe gritasse, eu só ia almoçar depois que o episódio de Sandy&Junior terminasse.

Entre um “Turu Turu” e outro, vieram outros vários shows. Chorei em todos. Sai da Zona Leste e fui sozinha no Credicard Hall de busão, que ficava do outro lado do meu planeta São Paulo. Sai de madrugada. Não tinha mais metrô funcionando. Eu não tinha mais dinheiro. Tive que dormir na casa de uma amiga que morava por ali, e lembro que me deram um colchão com um lençol pra dormir no chão da cozinha, mas eu tava tão feliz que foi uma das noites mais bem dormidas da minha vida.

Comecei a trabalhar na abertura da base da GOL no aeroporto de Guarulhos. Estagiária. Acompanhava cadeirantes, crianças e idosos pra cima e pra baixo. Fui efetivada. Descobri que eles desembarcariam lá, se não me engano um voo vindo de Recife. Olhei no sistema e era verdade. Tremi. Desembarcariam de tarde, justo no meu turno, mas era minha folga. Falei que era fã e todo mundo riu, não me deixaram trocar a escala. Fui no dia com roupa normal, peguei um cartão de embarque falso com um amigo e fui buscar eles lá na porta do avião. Minha primeira e única foto com a dupla. Quase fui demitida e, se tivesse sido, teria sido a melhor justa causa da minha vida.

Chegou 2007 e eles avisaram da separação. Já tinha facebook, eu já estava terminando a faculdade, trabalhava em uma agência de intercâmbio e tinha começado a juntar dinheiro pra casar. A notícia veio no meio da semana, de tarde, e não fez sentido nenhum. Aqueles irmãos cuja música representava minha vida inteira iam parar de cantar?

Eles lançaram o último álbum, o “Acústico MTV”. Esses acústicos eram aquelas coletâneas que só os artistas foda tinham gravado, e que só tinha músicas incríveis e inesquecíveis. Exatamente o que a carreira deles era naquele momento. O cd do Acústico ficou no porta-luvas do meu primeiro carro, um Corsinha. Todo dia de manhã eu enchia o Corsa com meu irmão e mais duas caronas pra ir pra faculdade e, na votação de que música íamos ouvir enquanto o trânsito da Radial Leste nos guiava, “Com você” ganhava sempre.

O último show foi anunciado para 18 de dezembro, dia do aniversário do meu irmão, aliás. Não consegui comprar, mas eles abriram uma data extra dia 17 e eu fui montar barraca lá na frente do Via Funchal para comprar meu ingresso. Eu tinha que me despedir deles. Horas de fila depois e muitas novas “amigas” (que também tinham crescido com eles e queriam um último show), abracei meu ingresso recém-comprado.

Sentei no meio do Via Funchal, canto direito do palco. O celular já gravava vídeos, mas eu escolhi apenas assistir eles uma última vez. Cantei e gritei até perder a voz. No finalzinho do show, como de praxe, fui para a frente do palco com outros fãs e aproveitamos as últimas músicas. Quando vi seu último abraço, chorei de joelhos. O fim da história deles era o fim de uma parte importante da minha história também.

Todo mundo lá em casa sabe cantar todas as músicas. Não porque eram fãs, mas porque a minha paixão cantou pela casa por toda a infância, adolescência e começo da vida adulta. Ontem veio a notícia de que eles farão shows pra comemorar os 30 anos de carreira. Será uma turnê pontual. Vi a coletânea de imprensa 3 vezes, aliás dormi ouvindo a simpatia do Junior, agora mais falante que a irmã. A ficha ainda não caiu.

Liguei pro meu irmão, que agora mora a estados de distância de mim. “Hey, Paulinho, vai ter show de Sandy&Junior. Vamos?”, perguntei. Por Whatsapp, ele me respondeu em caixa alta: “J A M A I S”. A volta da dupla, mesmo que por 10 shows, me devolveu um pedaço imenso da minha vida que eu tinha deixado numa caixinha do passado.

O show comemorativo tem o nome de “Nossa História”, e esse tema abraça o Brasil e todos os trintões que, assim como eu, permitiram que as músicas da dupla representassem cada etapa da nossa vida. Eles disseram na coletiva que vão revisitar essa etapa da vida e que estão super felizes com essa nostalgia do passado.

Sandy, Júnior, vocês não fazem ideia da luz que reacendeu em nossos corações com essa notícia. Parece que o mundo parou, entramos num túnel do tempo e estamos todos lá, em frente a tv, esperando a chamada do Faustão dizendo “E agora, diretamente de Campinas, os filhos do Xororó e da Noely”. Vocês representam uma geração com músicas simples e que falam ao coração. E que, ao ouvir a playlist oficial do Spotify, me lembrou do mais incrível: em tempos de guerra, sua voz ainda nos inunda de paz.

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


COMPARTILHE

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Ana Carolina Faria Bortolo
Turismóloga e Administradora de Novos Negócios por formação. Escritora, pintora e dançarina por vocação. Planejadora de eventos, bartender, agente de viagens e vendedora por profissão. Garçonete de navio por opção. Vi o mundo e voltei, e de todos os rótulos que carrego na bagagem, só um me define bem: sou uma ótima contadora de histórias.