Olhos bonitos que não podem rir ou chorar não contam de você

Meus olhos estavam mudos. Eu não podia rir nem chorar com eles.

Vanelli Doratioto

Fui colocar cílios que ficariam intactos por até trinta dias se eu tivesse com eles algum cuidado. E nas instruções estavam escritas coisas como: não deixe o secador de cabelo chegar muito perto. Não esfregue os olhos com a toalha. Não lave o rosto com água muito quente.

Saí da clínica certa de que não faria nada que pudesse estragar os benditos cílios. Meus olhos estavam finalmente bonitos como os de uma Barbie. O azul parecia ressaltado pelos cílios longos e escuros.

Eu, feito brinquedo, teria a maquiagem intacta até mesmo no café da manhã, momento em que mais fatalmente esbarrava com as pessoas pela casa. Então, ao invés de olhar para meus pijamas manjados, olhariam agora para os meus olhos.

Tudo parecia sedutoramente perfeito. E as coisas caminharam relativamente bem até eu, em minha humanidade, sentir um desejo louco por rir ou chorar com os olhos. Desgraçadamente descobri depois de alguns dias, e com muita dor, que qualquer tantinho de lágrima, de alegria ou tristeza, fazia arder minhas vistas mais que brasa quente.

Eu tinha olhos bonitos, mas eles eram prisioneiros das circunstâncias. Meus olhos estavam mudos.

Liguei pra clínica. A profissional confirmou. Nada de lágrimas por semanas.

Na lista de conselhos para a manutenção dos cílios esqueceram de mencionar que bonecas não choram.

Acompanhe a autora Vanelli Doratioto em Alcova Moderna

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é especialista em Neurociências e Comportamento. Escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.