O que eu aprendi longe de você

Quando você foi embora eu achei - achei mesmo! - que eu não ia conseguir sozinha.

Minha vida era tão conjugada a sua que, quando me despedi de ti no aeroporto e te perdi de vista ao entrar no portão de embarque, eu procurei uma cadeira e me senti paralisada. Precisei pensar para fazer o básico: chamar o Uber, comprar uma água, respirar. Respirar, nossa ação involuntária principal, ficou difícil de repente. Eu precisava me lembrar de puxar o ar pros pulmões e continuar vivendo, sem você.

No primeiro dia, cai na cama e só chorei. Não comi, não sai do quarto, não mexi no celular. As pessoas me perguntariam sobre você e eu não saberia como responder que você tinha ido embora e, mentindo, dizer que tudo ficaria bem.

Quando finalmente enfrentei os cômodos da minha própria casa, senti o vazio me preencher nos detalhes. Fiz os ovos da forma que você gostava, mas era eu quem ia comer; fui tomar banho e lavar o cabelo, mas aquele era o shampoo que você usava; me arrumei para ir ao mercado e passei perfume, o perfume que você dizia que amava quando eu usava. Eu piscava e sentia você dentro de mim, mas você já não estava ao meu lado.

Na primeira vez que realmente sai de casa com a intenção de me distrair, não me reconheci, não me encontrei em mim mesma. Fui à lugares que no passado eu chamava de lar, abracei amigos que até outro dia considerei irmãos, engoli comidas que sempre achei que seriam as minhas preferidas. Tudo e todos continuavam lá, do mesmo jeitinho que eu havia deixado, mas eu tinha mudado tanto que aquela vida já não me completava mais. Todo mundo viu no meu olhar que eu já não era mais a mesma e, com carinho, respeitaram meu luto e não perguntaram de você.

Aos poucos, fui retomando a vida. Reaprendi a fazer as escolhas sozinha, a andar do lado de fora da calçada, a sentar no banco do motorista no carro, a escolher a proteína durante as compras. Foi difícil e por muitos dias eu desisti no meio das tarefas, voltei pro meu quarto e chorei até secar meu sangue correndo nas veias. Entretanto, a cada novo amanhecer eu acordava disposta a tentar mais uma vez.

A minha primeira conquista como singular foi retornar às atividades físicas. Eu amava aquilo, e desde que conheci você tinha abandonado uma rotina que era uma das minhas maiores paixões. Não foi tão ruim voltar, na verdade eu me senti bem como não me sentia desde que havia deixado de lado o hobbie. O momento em que voltei pra academia foi a primeira vez que me senti dona da minha vida novamente depois que você partiu. Depois desse dia, vieram outros. Voltou o meu hábito diário da leitura, voltou a minha busca por conhecimento em medicinas alternativas e estilos de vida, voltou a minha autoconfiança profissional. Retomei as rédeas da minha vida e das minhas escolhas, não porque eu quis, mas porque seguir em frente era a única escolha possível.

Os conhecidos viram a mudança e ficaram felizes com a minha reação, mas nenhum teve a coragem de dizer “Que bom que você superou” porque todos viram meus olhos sem brilho piscando por ai.
Eu me sentia viva e produtiva de novo, mas os dias eram apenas 24 horas que eu precisava aprender a preencher novamente. Eu conseguia preencher o tempo, mas nada preenchia a falta que você fazia. Perder um amor é como tirar o coração do peito: você continua respirando, enxergando, conversando, mas já não sente mais aquela pulsação acelerada pela felicidade de ser parte importante na vida de alguém.

Não muito tempo depois das minhas engatinhadas solo, você voltou. Me disse que sentiu a mesma ausência, que o nosso amor era o único sentimento valioso que você conheceu na vida e pelo qual queria lutar. Te ouvi, suspirei profundamente, peguei em sua mão e caminhei de volta ao seu lado. Meu amor por você nunca mudou nem diminuiu, mesmo com a distância e com todas as noites procurando respostas que não encontrei. Porém, eu mudei com sua despedida e hoje, com você ao meu lado novamente, me sinto mais mulher ao seu lado.

Atualmente dependo menos do seu afeto e mais das minhas escolhas pessoais. Aprendi que o amor não faz ninguém feliz, o que nos traz a felicidade somos nós mesmos encontrando sentido pra nossa vida e pro nosso tempo. Nosso propósito na Terra é individual, e deve ser seguido. O amor é a graça de poder compartilhar essa caminhada com alguém.

Aprendi que ser plural significa cantar a mesma música, cada um com sua própria voz. Entendi a importância de tirar de ti a responsabilidade de me fazer feliz, afinal essa conquista é de cada um. Quando você percebeu se sentiu mais leve, me abraçou com força e, finalmente, me amou de volta.

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Ana Carolina Faria Bortolo
Turismóloga e Administradora de Novos Negócios por formação. Escritora, pintora e dançarina por vocação. Planejadora de eventos, bartender, agente de viagens e vendedora por profissão. Garçonete de navio por opção. Vi o mundo e voltei, e de todos os rótulos que carrego na bagagem, só um me define bem: sou uma ótima contadora de histórias.