Numa sala simples em Chennai, no sul da Índia, um grupo de enfermeiras passa horas repetindo sons que não existem no português — e quase não existem no tâmil.
O alvo é claro: em seis meses, elas precisam dominar o alemão o suficiente para encarar plantões, prontuários e conversas difíceis com pacientes na Alemanha.
Entre elas está Ramalakshi. A família apertou as contas para bancar a faculdade de enfermagem, um investimento alto para a realidade local.
Formada, ela diz que sente a obrigação de “fazer valer” o esforço de casa: quer trabalhar fora, enviar dinheiro com regularidade e, com o tempo, tirar do papel o sonho de construir uma casa própria.
Esse movimento não acontece por acaso. Em Tamil Nadu, o governo estadual banca cursos de idioma para reduzir o desemprego e abrir portas para quem não tem rede de contatos nem grana sobrando.
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Depois, entram as agências privadas: são elas que fazem a ponte entre profissionais indianas e empregadores europeus, organizando entrevistas, documentação e contratos.
Do outro lado, a Alemanha vive um aperto que virou rotina. A geração mais velha está deixando o mercado de trabalho em bloco, e a taxa de natalidade baixa significa menos gente chegando para ocupar essas funções.
Resultado prático: hospitais com dificuldade para fechar escalas, escolas tentando preencher salas de aula com professores e empresas de tecnologia brigando por desenvolvedores.
Os números ajudam a entender o tamanho do buraco. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB), em Nuremberg, calculam que o país precisa atrair cerca de 300 mil trabalhadores qualificados por ano para manter o funcionamento atual.
Sem essa reposição constante, a conta chega em forma de mais horas trabalhadas, aposentadoria mais tardia e perda de renda.
A Alemanha já usou mão de obra estrangeira como resposta a uma crise de oferta de trabalhadores — e isso moldou o país moderno. No pós-guerra, com a economia crescendo rápido, a então Alemanha Ocidental firmou acordos de recrutamento com Itália, Grécia, Turquia e outros países.
Até 1973, milhões passaram por esse sistema; muitos eram chamados de gastarbeiter (“trabalhadores convidados”), porque o governo acreditava que ficariam pouco tempo. Só que uma parte considerável ficou, criou raízes e construiu vida por lá.
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Hoje, a necessidade voltou, mas o caminho legal costuma ser um labirinto. Zahra, iraniana que estudou na Alemanha, conta que levou quase um ano só para conseguir uma entrevista para trocar o visto de estudante por um de trabalho.
Mesmo falando alemão com fluência e atuando em pesquisa e ensino, ela diz que ainda enfrenta exigências constantes e insegurança burocrática, sem uma autorização permanente mesmo após anos no país.
Quem trabalha com imigração vê o padrão se repetir. Björn Maibaum, advogado em Colônia, relata que atende milhares de casos por ano envolvendo profissionais como médicos, enfermeiros, engenheiros e caminhoneiros.
Na visão dele, o gargalo mais comum é básico (e irônico): falta gente nos próprios escritórios de imigração, o que empurra processos por meses — às vezes por mais de um ano — justamente quando a Alemanha disputa talentos com outros destinos.
A situação fica mais sensível porque o país também precisa lidar com um volume grande de pedidos de asilo, incluindo refugiados de guerras recentes, como as da Síria e da Ucrânia.
Com pouca digitalização e regras que variam entre os 16 estados alemães, os procedimentos travam.
A demora, somada à integração lenta de parte dos recém-chegados ao mercado de trabalho, alimenta irritação política e dá munição para discursos anti-imigração.
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Na prática do hospital, o debate vira vida real. Kayalvly Rajavil, também de Tamil Nadu, começou a trabalhar numa clínica em Vallendar, na Renânia-Palatinado, especializada em reabilitação neurobiológica (pacientes pós-AVC e acidentes, por exemplo). Ela conta que o idioma pesou no começo, mas diz que recebeu apoio da chefia e dos colegas.
Só que a contratação custa caro e dá trabalho. A clínica, segundo a própria gestão, trouxe dezenas de enfermeiras da Índia e do Sri Lanka nos últimos anos via agências que cobram milhares de euros por profissional recrutado.
E há um fator que as equipes não conseguem controlar: o clima social. O chefe de enfermagem Jörg Biebrach afirma que casos de racismo e a tensão política fazem estrangeiros perguntarem, com frequência crescente, se estarão seguros e bem recebidos.
Para tentar segurar profissionais além do contrato padrão de dois anos, alguns empregadores já mudaram a estratégia: criaram programas de estágio voltados a jovens recém-saídos do ensino médio na Índia, o que encurta prazos e dribla parte do processo de reconhecimento de diplomas — um procedimento que se complica ainda mais porque cada estado alemão tem regras próprias.
Para Biebrach, a saída passa por menos demora nas repartições, critérios mais uniformes e um atendimento que não trate mão de obra estrangeira como favor, e sim como peça central para manter hospitais e serviços funcionando.
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