“O Inferno Também é a Falta dos Outros”: Solidão em Tempos de Pandemia

"As dificuldades de enfrentar um isolamento social não estão ligadas apenas à vontade de sair com os amigos para se divertir. É muito mais complicado e doloroso que isso"

Jocê Rodrigues

“Totó, acho que não estamos mais no Kansas”. Essa singela frase marca o momento exato da transformação na vida de Dorothy Gale, personagem central do clássico filme O Mágico de Oz, de 1939.

A partir daquele momento, toda a sua vida sofreria reviravoltas inimagináveis, com riscos incalculáveis. Ela fora arrancada de sua vida cotidiana sem nenhum aviso prévio e atirada a um mundo de perigos e incertezas, sem garantia e sem perspectiva.

De certa forma, nós também não estamos mais no Kansas. Como fez o tornado com Dorothy e seu pequeno amigo canino, a atual pandemia nos tirou do conforto de nossa vida comum, de nossos costumes, e nos arremessou em uma terra de medo e instabilidade.

O mundo que costumávamos conhecer ficou para trás, junto com os planos e com boa parte de nossa confiança em um futuro.

Vivemos agora tempos interessantes. Tempos de provação como poucas vezes vimos anteriormente. Um período em que uma ameaça mortal e invisível incute temor e tremor ― pelo menos naqueles que não negam, cega e inconsequentemente, os perigos de uma doença que continua a destruir vidas e sonhos.

Já estava previsto que 2020 seria o ano do ápice dos casos de depressão pelo mundo. Mas ninguém esperava que uma pandemia viesse para acelerar o processo, utilizando-se de armas que ferem o ser humano (essencialmente um animal social, como fundamentou Aristóteles) onde mais dói: na interação com os outros da sua própria espécie.

Isolamento e Depressão

Recentemente, a Unisinos promoveu um congresso online com a presença de grandes nomes de diversas áreas. Entre eles Andrew Solomon, professor de psicologia e autor de livros como Longe da Árvore e O Demônio do Meio-Dia (considerado um dos cem livros mais importantes da última década, segundo o The New York Times).

Solomon falou ao público brasileiro da sua casa em Nova York, onde vive com o marido e o filho George. Com a mesma fluidez e lucidez que costuma aplicar em seus textos, disse identificar a crise atual não apenas como uma crise de saúde física, mas também como uma crise de saúde mental, de identidade e de coerência econômica.

Em determinado momento, ele falou sobre um relatório publicado recentemente pela Reuters, com base em pesquisa feita pela Universidade de Boston, que indicava que a taxa de depressão havia dobrado nos Estados Unidos durante a pandemia. Um dado alarmante, sem dúvida.

Pessoas que nunca tiveram quadros depressivos começaram a sofrer deste mal tão devastador. Isso significa que, mesmo quando superarmos a crise de saúde física, os efeitos da crise da saúde mental ainda podem perdurar por muito tempo.

“As pessoas que entraram em estado de depressão severa, ou que começaram a desenvolver hábitos de profunda ansiedade, terão muita dificuldade em evitar essas sensações e sair dessa situação”, disse Andrew. “Assim, não teremos uma crise que acabará quando a tão alardeada vacina, ou cura, ou tratamento vier”.

Diante desse cenário, a depressão clínica continua a ser uma preocupação urgente e real. Aliás, sempre foi. “A depressão resulta da interação de uma vulnerabilidade genética ou biológica e circunstâncias desencadeadoras externas. E essas circunstâncias estão agora em um nível mais alto do que antes”, explicou Andrew.

As dificuldades de enfrentar um isolamento social não estão ligadas apenas à vontade de sair com os amigos para se divertir. É muito mais complicado e doloroso que isso. A experiência do isolamento pode ser não só entediante, mas também perigosa. E suas consequências vão muito além do aspecto social.

Não é sobre contato (desses que podemos manter pelas redes sociais e aplicativos); é, antes de tudo, sobre toque. E não o toque no sentido erótico do termo. “A privação do toque exacerba a depressão; torna tudo pior. Isso enfraquece o sistema imunológico. O toque positivo estimula o nervo vago e reduz o cortisol (também conhecido como o hormônio do estresse)”, garantiu Solomon.

“Esta quarentena salvará vidas ― já salvou muitas vidas, ajuda a conter o vírus ― mas também custará vidas. Isso custará às pessoas sua coerência emocional”, declarou, antes de deixar claro que não é contra a medida de distanciamento adotada. Mas é preciso ser realista quanto às consequências psicológicas da mesma. “A ciência não é opcional”, fez questão de frisar mais adiante.

No fim das contas, estamos fazendo uso de uma faca de dois gumes, que precisa ser manuseada com muito cuidado. “O inferno, como disse Sartre, são os outros; mas o inferno também é a ausência dos outros”, ensinou.

Existe a possibilidade de que nunca retornemos para o mundo de antes. Aquele onde deixamos sonhos e planos quando da chegada do tornado que sequestrou nossas vontades e aspirações.

No entanto, este é também o momento de lembrar que sempre haverá a esperança de que um simples toque possa trazer de volta a boa e velha sensação de que não há lugar como nosso lar.

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


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Jocê Rodrigues
Editor, escritor e jornalista.