O tipo sanguíneo costuma ser lembrado em situações bem práticas: uma cirurgia, uma doação de sangue, uma emergência médica. Mas, há alguns anos, ele também passou a aparecer em pesquisas sobre predisposição a doenças — inclusive alguns tipos de câncer.
A questão chama atenção justamente porque é simples de entender, mas fácil de interpretar errado: ter determinado grupo sanguíneo pode estar associado a risco maior ou menor em alguns estudos, mas isso não transforma o sangue em “escudo” nem em sentença.
Uma revisão sistemática publicada no Asian Pacific Journal of Cancer Prevention analisou estudos sobre o sistema ABO e apontou uma tendência: pessoas com sangue do tipo A apareceram com risco aumentado para alguns cânceres, enquanto o grupo O foi associado a risco menor no conjunto geral analisado.

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No levantamento, o tipo O foi ligado a uma redução de 16% no risco geral de câncer, além de menor risco para câncer gástrico e pancreático.
Esse dado ajuda a explicar por que o grupo sanguíneo O costuma ser citado quando o assunto é menor risco em determinadas pesquisas. Mas o detalhe importante está no “associado”. A ciência não está dizendo que quem tem sangue O está protegido contra câncer.
O que os estudos apontam é uma diferença estatística observada em grupos populacionais, algo que precisa ser lido junto com genética, idade, histórico familiar, tabagismo, alimentação, peso corporal, infecções, exposição ambiental e acompanhamento médico.
No caso do câncer de pâncreas, por exemplo, uma pesquisa publicada no Journal of the National Cancer Institute comparou pessoas com sangue O a pessoas dos grupos A, AB e B. O estudo encontrou risco maior entre os grupos não-O: 32% maior no tipo A, 51% maior no AB e 72% maior no B. A própria Dana-Farber Cancer Institute, ligada à Harvard Medical School, divulgou esses achados na época, destacando que o resultado ajudava a investigar possíveis mecanismos biológicos por trás da doença.

Outro ponto recorrente nas pesquisas envolve o câncer gástrico. Uma meta-análise publicada no International Journal of Molecular Sciences indicou que pessoas com sangue O tiveram risco menor de câncer de estômago quando comparadas aos grupos A, B e AB. Já o tipo A aparece com frequência em estudos como grupo associado a maior risco para esse tipo de tumor.
A explicação provável passa pelos antígenos do sistema ABO, estruturas presentes na superfície das células. Eles não atuam só nas transfusões; também podem participar de processos ligados à inflamação, resposta imunológica, adesão celular e interação com microrganismos.
Em alguns cânceres, essas diferenças podem influenciar o ambiente em que as células se desenvolvem. Ainda assim, esse é um campo com resultados que variam conforme população estudada, tipo de tumor e método usado.
Em outras palavras: o sangue O aparece em vários estudos como o grupo com menor risco para alguns cânceres, especialmente gástrico e pancreático.
O tipo A, por outro lado, é citado com mais frequência em associações de risco aumentado para câncer gástrico e, em alguns levantamentos, também para câncer pancreático. Já os grupos B e AB têm resultados mais mistos, com associações que mudam conforme o tipo de câncer analisado.
O alerta é simples e necessário: ninguém deve usar o tipo sanguíneo para relaxar nos exames preventivos. Uma pessoa com sangue O pode desenvolver câncer; uma pessoa com sangue A, B ou AB pode nunca ter a doença. O grupo sanguíneo é uma informação de risco possível, não um diagnóstico antecipado.

Para quem não sabe o próprio tipo sanguíneo, a descoberta pode ser feita de formas simples. A doação de sangue é uma das maneiras mais comuns, já que o hemocentro informa o grupo após a coleta.
Também é possível pedir um exame ao médico, consultar registros antigos de saúde ou verificar se a informação aparece em exames laboratoriais já realizados. Em alguns locais, farmácias e serviços de saúde também oferecem testes específicos.
Mais importante do que decorar o risco associado a cada grupo é manter o básico funcionando: não fumar, moderar álcool, manter alimentação equilibrada, praticar atividade física, cuidar do peso, tratar infecções quando necessário e fazer exames de rastreamento conforme idade, histórico familiar e orientação médica.

A descoberta sobre o sangue pode ser curiosa, mas o recado mais útil é outro: risco menor não significa risco zero. E risco maior não significa destino traçado.
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