Nem todos são sinceros quando dizem “Não foi minha intenção”.

Há muita verdade disfarçada de calor do momento. Há muito discurso de ódio disfarçado de opinião.

Hoje, muito se confunde sinceridade com deselegância, tanto nas redes sociais quanto nas conversas vida afora. A internet deu voz a todo mundo e, ali, muitos se sentem protegidos pela tela do computador, expressando pontos de vista antipáticos e agressivos. Isso acaba se estendendo ao dia-a-dia da gente, em que, não raro, assistimos a grosserias que poderiam muito bem ser evitadas.

Nesse contexto, as pessoas, muitas vezes, no calor do momento, dizem ou digitam o que não deviam, pois se expressam sem pensar direito, machucando o outro e, não raro, colocando-se em situações desagradáveis. Isso ainda é mais frequente entre figuras públicas, que, mesmo após apagarem seus posts, veem prints sendo espalhados e sua imagem denegrida. O que vai para a internet nunca mais some. O que entra no coração também deixa marcas. Ter essa consciência, portanto, é urgente nos dias de hoje.

Apesar disso, não podemos nos esquecer de que nada do que dizemos é totalmente desprovido de alguma intenção. Na verdade, guardamos muito dentro de nós, quando refletimos sobre o impacto de nossa opinião e quando conseguimos nos colocar no lugar do outro, entendendo que existem formas razoáveis de se colocar perante alguém sem que seja preciso humilhá-lo. Entretanto, quando a raiva toma conta da gente, a censura interna parece que some, a gente quer mais é expulsar aqui de dentro aquilo que tanto reprimimos.

Ainda assim, mesmo em momentos de discussões destemperadas, muitas pessoas dizem palavras ofensivas e expressam opiniões antipáticas querendo dizer exatamente o que, lá no fundo, pensam de verdade e ficou guardado, por qual razão tenha sido. Alguns só querem machucar, agindo como adolescentes rebeldes, mas muitos estão colocando para fora o que sempre esteve em seus corações. E a gente bem sabe quando o outro disse por dizer ou disse para valer. Há muita verdade disfarçada de calor do momento. Há muito discurso de ódio disfarçado de opinião.

Não poderemos guardar no coração tudo o que nos disserem e fizerem, ou acumularemos carga demais, o que de nada adiantará. Cabe-nos refletir sobre o que nos chega, digerindo o que nos serve de fato e deletando o que for infundado. Somente assim, teremos a capacidade de continuar dando as mãos a quem de fato merece e de nos afastar elegantemente de quem não merece um segundo de nosso dia.

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Marcel Camargo
"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.