Merlí, a retomada da liberdade e da ousadia no sistema educacional

É uma série catalã iniciada em 2016 com três temporadas. Merlí é professor de Filosofia de um turma do ensino médio no Instituo Angel em Barcelona. Ele é o herói sedutor, irreverente e completamente livre em suas ideias pouco ortodoxas que, gradativamente, se torna o tutor desta turma de adolescentes curiosos e desobedientes, amargos com pais tradicionais e infelizes com casas desgovernadas, com pai ausente e mãe problemática.

Neste cenário, Merlí se entrega com paixão ao ensino de Filosofia passando pelas problemáticas da própria classe. Ele faz os alunos sentirem a importância da filosofia e de sua presença no cotidiano. Começando pelo gregos, com Platão, os pré-socráticos, os peripatéticos, Aristóteles, Sócrates, os céticos, passando para a idade Média, o Iluminismo com Beócio e Descartes até alcançar o Modernismo através de Foucault, Freud, Nietzche, Engels e outros.

Merlí se torna o herói da turma, por seu humor, sua especial qualidade de cuidar, amar e acolher estes alunos cheios de conflitos, dores, desavenças e solidão. Há personagens bem marcantes, com uma personalidade forte, como Pol, Marc, Tania e Joan. Seu filho, Bruno também é seu aluno e através da relação com a turma sente-se mais livre quando finalmente declara ser gay e se integra ao grupo.

Toda a narrativa é marcada também com a convivência invejosa e competitiva dos professores adultos que se dividem entre os que admiram Merlí e aqueles que pretendem derrubá-lo. É fascinante sua habilidade de argumentar sem perder a calma, apenas com o uso da ironia e da empatia. Ele sabe que é um sujeito complicado, sem amigos, com uma mãe atriz, um filho gay e uma atração imensa pelas mulheres.

Merlí faz com que nos apaixonemos pela sua ideia de liberdade, de busca constante por uma transformação nos alunos e principalmente na capacidade que eles têm de pensar, conhecer-se e se tornarem independentes. Para isso, muitas vezes, entra em conflito com alguns pais e por outro lado não desiste do seu ideal de curar os solitários, através do confronto e da conversa como o caso do rapaz que sofre de agorafobia, tendo se tornado refém do medo e de suas manias. Ficamos maravilhados com a paciência e a compaixão de Merlí que consegue conjugar respeito com suavidade e humor.

Uma série catalã digna de ser vista com prazer numa torcida grande pelo herói que precisamos em nossas escolas, pela valorização do(a) professor(a) nos dias atuais quando a família está desestruturada e a juventude não vê sentido em seus futuros, alienando-se do presente e das razões porque sofrem. Passam a pensar. Parece fácil, mas muitos estudantes não sabem mais viver sem a cara num celular, trocando a conversa e a leitura por fofocas e prazeres fugazes. Que Merlí vença toda a hipocrisia existente em sistemas escolares medíocres e obtusos.

Imagem de capa: Reprodução

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Fernanda Villas Boas
Fernanda Luiza Kruse Villas Bôas nasceu em Recife, Pernambuco, no Brasil. Aos cinco anos veio morar no Rio de Janeiro com sua família, partindo para Washington D.C com a família por quatro anos durante sua adolescência. Lá terminou o ensino médio e cursou um ano na Georgetown University. Fernanda tem uma rica vida acadêmica. Professora de Inglês, Português e Literaturas, pela UFRJ, Mestre em Literatura King´s College, University of London. É Mestre em Comunicação pela UFRJ e Psicóloga pela Faculdade de Psicologia na Universidade Santa Úrsula, com especialidade. Em Carl Gustav Jung em 1998. É escritora e psicóloga junguiana e com esta escolha tornou-se uma amante profunda da arte literária e da alma, psique humana. Fernanda Villas Bôas tem vários livros publicados, tais como: No Limiar da Liberdade; Luz Própria; Análise Poética do Discurso de Orfeu; Agora eu era o Herói – Estudo dos Arquétipos junguianos no discurso simbólico de Chico Buarque e A Fração Inatingivel; é um fantasma de sua própria pessoa, buscando sempre suprir o desejo de ser presente diante do sofrimento humano e às almas que a procuram. A literatura e a psicologia analítica, caminham juntas. Preenchendo os espaços abertos da ficção, Fernanda faz o caminho da mente universal e daí reconstrói o caminho de volta, servindo e desenvolvendo à sociedade o reflexo de suas próprias projeções.