Médica que cuidou do pai com Covid-19 confessa: “Tomei a decisão mais difícil da vida”

"Foi difícil ver você piorando; foi difícil dizer que não podia voltar pra casa, pois não estava bom; foi difícil ver você com tanta falta de ar e tosse que te sufocava. Tive medo sozinha...", diz um trecho do emocionante relato da médica Claudia Moschen Antunes, que perdeu o pai, vítima da Covid-19.

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A médica Claudia Moschen Antunes, de Francisco Beltrão, no Paraná, viralizou nas redes sociais recentemente ao compartilhar na internet um texto emocionante, em que conta sobre o período em que teve que cuidar do seu pai na UTI depois que ele foi diagnosticado com Covid-19. Infelizmente, o pai de Claudia, que tinha 75 anos, não resistiu à doença e faleceu no dia 2 de janeiro, após 30 dias de internação.

Confira, na íntegra, o emocionante relato de Cláudia:

“Sim, esse é meu pai. Vítima da covid-19, com quadro grave, entubado na UTI. Foi difícil pegar o resultado do seu exame, foi difícil tratar você… Você dizia que estava ótimo. Foi no décimo dia que sua oxigenação caiu… internou imediatamente, recebeu todo suporte rápido e, mesmo assim, 56 horas depois, eu tomo a mais difícil decisão da vida: te entubar!

Pai de Claudia faleceu no dia 2 de janeiro (Foto: Reprodução/Facebook)

Quando você chegou ao hospital, eu brinquei: ‘Você quis vir conhecer nossa unidade de tratamento da covid por dentro (risos)’ Quem imaginaria… Foi difícil ver você piorando; foi difícil dizer que não podia voltar pra casa, pois não estava bom; foi difícil ver você com tanta falta de ar e tosse que te sufocava. Tive medo sozinha… No meio da madrugada éramos eu e você! Perguntei apenas uma vez: ‘Porque?’ Nunca saberei… mas sei que tudo tem um motivo e um sentido. Deus sabe o porque mesmo quando não estamos preparados para isso. Mas vocês me ensinaram a ter coragem…

Foi difícil juntar seus pertences do quarto e levar para minha casa. Pensei: ‘Como somos finitos’ Alguns minutos e seu celular, sua carteira, seu óculos, seus livros, tudo já não era mais seu! Todos os dias, quando chego na UTI, eu sorrio e digo: ‘Bom dia, pai. Força!’ Uma lágrima vai nascer, mas não posso chorar, pois molha a máscara e tenho outros pacientes pra ver. Então, respiro fundo e continuo, afinal, muitos dependem do meu cuidado. Sento para prescrever os pacientes com você ao meu lado, será que me ouve? Talvez… Cada alarme que toca vindo de você faz meu coração parar. Cada telefone do hospital agora pode ser pra mim: a filha do seu Vitor Soares Antunes.

A mortalidade de uma boa UTI é menor que 20%, então existe mais esperança do que sofrimento nesse ambiente. Lá dentro trabalham anjos anônimos que fazem o mundo valer a pena. Divido seus cuidados com uma equipe fantástica que cuida de cada paciente como se fosse seu. Médicos irmãos que me ajudam diariamente e me confortam! Cuidei por meses para não transmitir esse vírus à meus familiares; me isolei para proteger a todos enquanto cuidava daqueles que adoeciam, mas você foi contaminado por outras pessoas. Pessoas que acham um exagero o distanciamento social, que usam a máscara na boca ou que reclamam que estão cansados de ficarem em casa. Pessoas que não conhecem a compaixão e o respeito, que não sabem o que é viver em comunidade onde todos protegem a todos.

Você não se cuidou pai, e não foi cuidado. Hoje, você sofre cheio de drenos, cateteres e acessos… e todos ao seu redor também. Eu sigo aqui, como filha à noite, rezando para você melhorar e, como médica, durante o dia, fazendo você melhorar. Pai, tenho certeza que onde estiver diria para todo mundo: ‘Se cuidem, não façam como eu, não vivam como se fossemos imortais, pois a qualquer momento, alguém pode chegar pra levar seus pertences para casa!’ O mundo não vai acabar se você não viajar, mas poderá acabar se você não se cuidar. O vírus não tem preferência por idade… ele escolhe algum e escolheu você, pai!”

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Redação Conti Outra, com informações de Revista Crescer.
Foto destacada: Reprodução/Facebook

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