A mãe de Osama Bin Laden afirma que ele era um ótimo garoto

Todo mundo tem mãe, certo? Bem... há controvérsias. Eu conheci certa vez um homem que se dizia pai solteiro de gêmeas.

Todo mundo tem mãe, certo? Bem… há controvérsias. Eu conheci certa vez um homem que se dizia pai solteiro de gêmeas.

A história é a seguinte: fui trabalhar por um período junto a uma comunidade carente na região da Grande São Paulo; apareceu um homem em busca de vagas na escola para suas duas filhas gêmeas; ele afirmava que era pai solteiro; contou que estava de folga num belo domingo quando ouviu um barulho no portão de sua casa; saiu de seu descanso dominical e foi olhar o que era; deu com uma caixa de papelão contendo duas bebês recém-nascidas, dois documentos de “nascidos vivos” de um hospital público no Tocantins e um bilhete que dizia “as meninas são suas, você vai ter que se virar pra criar”.

O homem me disse, com os olhos vermelhos por tentar segurar o choro, que nunca imaginara ser pai, mas que também, ao ver as meninas ali, sem ninguém a olhar por elas, sequer pensou em questionar sua mais nova missão, confirmada por meio de um teste de paternidade pago pelo patrão de alma boa.

Contou que não vinha sendo nada fácil criá-las sozinho, posto que “teve de aprender a ser pai no susto”. Mas revelou-se zeloso e amoroso, ao mostrar com orgulho a foto das meninas, segundo ele “bem alimentadas, sadias e muito educadinhas, viu dona?”.

Disse que a vida foi se ajeitando. Uma irmã ajudou um pouco, uma vizinha outro pouco, o patrão da oficina onde ele trabalha deu uma força, os amigos fizeram vaquinha no começo, pras fraldas e pro leite.

Perguntei se ele tinha certeza que as meninas eram dele, assim que as viu. Por pouco o homem não se esquece dos bons modos ao me responder “Claro que não!”. Seu rosto refletiu a ofensa que sentiu diante da minha pergunta. Foi então que eu de fato me dei conta da estreiteza do meu pensamento naquela hora. Que diferença fazia, afinal, se aquelas duas criaturinhas tinham ou não o mesmo DNA do moço? Porque ele podia não entender nada de biologia e genética, mas estava claro que sabia um bocado de moral e ética. E, então, mais falando pra si mesmo do que para mim, murmurou: “Como é que alguém é capaz de largar pra trás dois bebês? E se eu não tivesse de folga?”

Por fim, exibiu orgulhoso uma certidão de nascimento onde se lia o nome da mulher que as abandonara à própria sorte e que, segundo ele, tinha sido uma moça que ele saiu umas vezes, mas que sumiu sem deixar rastro.

E confessou que era essa sua única tristeza. Não queria que as meninas soubessem dessa história da rejeição, podiam ficar “traumadas”.

Contou o quanto tinha implorado para o moço do cartório colocar ao lado do nome da mulher “mãe falecida”.  Mas entendeu que sem um defunto de mãe para servir de testemunha no atestado de óbito, essa alteração documental ficava impossível.

O fato, é que tirando essa curiosa e inédita experiência, nunca conheci outro ser humano filho de pai solteiro. E mesmo estas meninas têm mãe; a referida moça apenas não as quis.

Até o Bin Laden teve mãe! E, pasmem, a suposta distinta senhora de 71 anos, décima esposa do pai do temido (e falecido) terrorista, veio a público esta semana e afirmou ao jornal “The Guardian” que seu filho era uma criança doce e amorosa.

Para ela, seu filho tornou-se outro homem por influência das más companhias. Jura que Bin Laden sofreu uma lavagem cerebral na Universidade e que foi vítima da manipulação dos jihadistas. Esta senhora não consegue associar a imagem de um monstro assassino às lembranças de um menino tímido e muito inteligente que a amava muito e a quem ela amava de volta.

O fato é que nossos olhos afetivos são dotados de muitos filtros de proteção. Não vemos o que nosso coração suplica para ignorar. Não ver, torna a dor mais suportável.

O que tem em comum o pai das gêmeas e a mãe de Osama Bin Laden? Nada. A não ser o fato de que amam “apesar de”. E amar de verdade talvez seja isso: aceitar e guardar dentro do peito esse outro ser, ainda que ninguém mais o queira, ou principalmente por isso.

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Imagem de capa- Ilustração do livro “Meu avó árabe”, de Maísa Zakzuk

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"