Jojo Rabbit e os horrores do preconceito por trás do riso

Ainda que já tenha sido repetidamente contada nos cinemas, Taika Waititi trouxe sensibilidade, ironia e originalidade aos horrores do regime nazista que jamais devem ser esquecidos pela humanidade, principalmente no cenário atual em que vivemos.

Guilherme Moreira Jr.

Ainda que já tenha sido repetidamente contada nos cinemas, Taika Waititi trouxe sensibilidade, ironia e originalidade aos horrores do regime nazista que jamais devem ser esquecidos pela humanidade, principalmente no cenário atual em que vivemos.

Jojo Rabbit tinha tudo para ser mais do mesmo, ou daquelas produções esquecíveis e exaustivas sobre como o nazismo foi ruim e etc. O mundo inteiro sabe a história, mas ao mesmo tempo a desconhece, tanto que os próprios alemães precisam vez ou outra mostrar para nós (o restante do mundo), o quanto somos estúpidos e levianos sobre o que realmente se passou naquela época. Infelizmente, hoje vivemos faíscas de governos autoritários, fascistas e preconceituosos, e trazer para os cinemas, mesmo batendo novamente na tecla da Segunda Guerra Mundial, entretanto com uma originalidade sensível e comovente, é o que faz da produção escrita, dirigida e também com o próprio Waititi de ator coadjuvante, uma das melhores coisas que o audiovisual produziu nos últimos anos.

O cineasta conseguiu mostrar, sob o olhar do jovem Roman Griffin Davis (Jojo Betzler) toda lavagem cerebral possibilitada pelas informações minunciosamente manipuladas e o quanto é importante, desde cedo, a repetição externa e extensa dessa educação ao terror na infância. O que isso quer dizer? Não são os livros que proporcionam uma má educação. Não são exclusivamente os pais que interferem na personalidade e na adoração e absorvição dos filhos por alguma ideia, conceito e cultura. Somos todos nós, os próprios adultos, com os bons e maus exemplos no cotidiano que acabamos por despertar e às vezes potencializar o olhar de uma criança para o preconceito, para a perda precoce da inocência que deveria ser vivenciada por eles, um passo de cada vez.

Daí entra a mãe de Jojo, vivida com maestria por Scarlett Johansson. Johansson merecidamente está indicada em ambas as categorias de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, no caso de Jojo Rabbit, pelo segundo. Johansson de novo mostra para quem quiser debater sobre cinema que ela é sim uma atriz marcante. A sua presença em cena não tem como passar despercebida e a sua interação com o filho, em cenas como por exemplo onde é tratada a ausência do pai na família, é um dos momentos mais emocionantes de todo o filme. Waititi de Hitler também está impagável. A acidez da sua atuação provocam risos, mas risos incômodos de tão disparate e inimaginável era a crueldade dessa histórica. De modo geral, todos os outros atores e atrizes acompanham a produção numa sintonia gostosa de se assistir.

Contudo, os destaques maiores são mesmo a direção, o roteiro e a montagem de Jojo Rabbit. Em tempos nos quais procuramos qualidade e relevância naquilo que consumimos, Jojo Rabbit é prato cheio para várias das áreas mencionadas. Waititi comprova numa tacada só ter vindo para ficar entre os mais promissores e vencedores cineastas da sua geração. A sua veia para escrita e direção merecem total atenção e não seria absolutamente nenhum demérito caso ele vencesse em roteiro original, melhor diretor e até mesmo, correndo por fora, como melhor filme.

Jojo Rabbit está longe de ser o típico filme satírico. Ele também está longe de ser puxado pra coluna do dramalhão para arrancar lágrimas. Assim como ele também está longe de entrar na galeria das grandes comédias. Jojo Rabbit é singular, sem gênero. Ele transcende o riso, as lágrimas e o verdadeiro motivo do cinema encantar e provocar intensas discussões e estudo.

Mas, o grande feito, a sua marca que ficará gravada pra sempre no imaginário de quem teve a sorte de assisti-lo, certamente é o seu significado honesto e honroso para falar do preconceito. De quão longe o ser humano pode ir por causa de uma ideia corrompida e às vezes imposta goela abaixo, quando todos nós poderíamos hoje, se quiséssemos, procurarmos nos desconstruir de todas essas mazelas. Naquela época existiam milhares de desculpas. De 1945 para 2020 são desculpas demais para continuarmos trilhando esse perigoso caminho de quem grita mais alto e melhor, no lugar de quem pode fazer o que pode com afeto e empatia pelo próximo.

É neste cenário habitável e no qual todos podemos conviver o lugar onde Jojo Rabbit encaixa. O riso e a ternura ainda são possíveis. A questão é: queremos?

Obs 1: Griffin Davis, de apenas 12 anos, merecia uma indicação como melhor ator. A naturalidade e foco desse garoto realmente impressionam.

Obs: 2: Thomasin McKenzie é um nome pra ficar de olho. Tirando a pequena participação dela em O Rei, da Netflix. A jovem carrega Leave no Trace (Sem Rastros), de 2018, nas costas. O filme inclusive é baseado em uma história real e segundo dizem, foi base de inspiração para o cult maravilhoso Capitão Fantástico, estrelado por Viggo Mortensen. Não foi dela especificamente na análise porque julguei que seria um baita spoiler do filme e a relação dela em Jojo Rabbit precisa ser vista como se fosse a primeira vez, como se você não tivesse lido sobre a personagem em nenhum outro texto.

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Imagens reprodução

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Guilherme Moreira Jr.
"Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro"