Há certos nós em nós que só mesmo nós podemos desatar

A roda da vida nos ensina a seguir em frente. Em inúmeras circunstâncias dolorosas é muito comum que os outros – e muitas vezes os outros somos nós -, tenham apenas uma coisa a nos dizer: “Vai passar!”. E vai mesmo.

A roda da vida nos ensina a seguir em frente. Em inúmeras circunstâncias dolorosas é muito comum que os outros – e muitas vezes os outros somos nós -, tenham apenas uma coisa a nos dizer: “Vai passar!”. E vai mesmo.

É fato que há passagens que duram um tanto a mais para ir fazer parte de nosso acervo de memórias. Viram uma lembrança, uma imagem congelada no tempo. E às vezes, viram cicatrizes.

As lembranças são formadas pelos capítulos de nosso livro da vida, escritos por meio de palavras mistas. Mistas de prazer, orgulho, revolta, vergonha, alegria, dor, superação… e mais uma infinita cartela de aspectos diversos que carregam de cor as nossas vivências.

E as lembranças, de tão misturadas, viram borrões de tinta. Muitas vezes não nos é possível separar num mesmo momento vivido, aquilo que fez sorrir ou fez chorar; justamente porque é essa aglutinação de sentimentos que nos nutre da maneira mais completa. O mel da alegria, misturado ao sal da lágrima é o nosso “soro emocional”. Aquele néctar capaz de nos restaurar da dor insuportável e, ao mesmo tempo, a seiva que nos apazigua num estado recuperável de amor. Amor por si, pelo outro, pelo mundo inteiro.

As imagens congeladas em nosso repertório de experiências configuram um álbum de fotos queridas. Aquelas cenas, que de tão pungentes ou significativas, precisaram arranjar um jeito de garantir que não serão descartadas, ou esquecidas.

Basta fechar os olhos e conjurar em nossa mente aquele instante preciso de paz. O momento, por exemplo, em que nos sentimos seguros no colo de alguém, depois de ter superado um perigo, uma dor, um ferimento.

Basta desmanchar o véu do esquecimento, para trazer de volta à tela das memórias aquele minuto exato em que se venceu uma limitação, um vício ou uma teimosia insana. Fotos de restauração mental, física e espiritual… guardadas dentro de nós.

Já as nossas cicatrizes… ahhhhh… essas são pequenas obras de arte a serem amadas por nós, até o nosso último suspiro. Desenhos benditos. Ilustrações na pele ou na alma. Registro de nossas histórias benditas. Símbolos da nossa capacidade de sobreviver, transformar e renascer.

As cicatrizes, visíveis ou invisíveis, são os nós necessários para nos manter fiéis à nossa missão. Aquele amarradinho de ervas que dá sabor ao chá, ou ao alimento, sem se misturar a ele. Nós abençoados de nós mesmos. As cicatrizes são conquistas nossas, de mais ninguém. Cabe a nós honrá-las e respeitá-las. Porque essas marquinhas únicas, pessoais e intransferíveis são apenas um sinal de coisas que vivemos e pelas quais, em algum momento, acreditamos serem dignas do nosso esforço, empenho e dedicação.

É apenas e unicamente da nossa conta, mostrá-las ao mundo, a um grupo seleto de escolhidos ou a ninguém. Porque há certos nós de nós mesmos, que somente nós somos capazes de desatar.

Imagem de capa: cena do documentário “Precisamos falar do Assédio”

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"