Ela fez sucesso em ‘Matilda’, mas abandonou a atuação para trabalhar como babá – veja como ela está hoje

Durante alguns anos da década de 1990, Mara Wilson esteve em todos os lugares onde uma criança poderia estar sem sequer sair da sala de casa: fitas VHS, sessões da tarde, comerciais e pôsteres de filmes familiares. A fama chegou antes que ela soubesse direito o que significava ser famosa. O problema surgiu quando Hollywood decidiu que a menina havia crescido e, portanto, já não servia para os mesmos papéis.

Nascida em Burbank, na Califórnia, Mara começou a aparecer em comerciais ainda pequena. Aos cinco anos, conseguiu o papel de Natalie Hillard, a filha caçula de Robin Williams e Sally Field em Uma Babá Quase Perfeita, lançado em 1993.

O filme foi um enorme sucesso, e a espontaneidade da menina chamou a atenção da indústria. No ano seguinte, ela interpretou Susan Walker na nova versão de Milagre na Rua 34, personagem vivida por Natalie Wood no clássico de 1947.

Apesar da exposição, seus pais tentavam impedir que a fama se transformasse em arrogância. Mara contou que, quando dizia algo como “sou a melhor”, sua mãe logo a lembrava de que ela continuava sendo uma criança que por acaso trabalhava como atriz.

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O papel que marcou uma geração

Em 1996, Mara recebeu o papel pelo qual continua sendo reconhecida: Matilda Wormwood, a menina inteligente, leitora e capaz de mover objetos com a mente na adaptação do livro de Roald Dahl.

Dirigido por Danny DeVito, que também interpretou o pai de Matilda, o filme não foi um grande sucesso imediato de bilheteria, mas ganhou popularidade com os anos e se transformou em um dos títulos infantis mais lembrados daquele período. Em 2026, ao completar 30 anos, a produção ainda mantém uma base fiel de espectadores.

Nos bastidores, porém, Mara enfrentava uma situação muito mais difícil do que qualquer problema vivido por sua personagem.

Sua mãe, Suzie Wilson, havia sido diagnosticada com câncer de mama e morreu em abril de 1996, antes da estreia comercial do filme. Danny DeVito conseguiu mostrar a ela uma versão ainda inacabada de Matilda, e a produção foi posteriormente dedicada à sua memória.

Mara tinha oito anos quando perdeu a mãe. Anos depois, explicou que passou a dividir a própria vida entre quem era antes daquela morte e quem se tornou depois dela.

“Na maior parte do tempo, eu só queria ser uma criança normal, principalmente depois que minha mãe morreu”, afirmou.

A atriz também revelou que o período em que esteve mais famosa coincidiu com uma das fases em que se sentiu mais infeliz. Enquanto o público enxergava uma menina sorridente promovendo filmes, ela enfrentava o luto, o cansaço e uma agenda organizada por adultos.

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Quando Hollywood deixou de considerá-la “fofa”

Depois de Matilda, Mara protagonizou Um Passe de Mágica, em 1997, e apareceu em outras produções. Seu último grande trabalho infantil foi Thomas e a Ferrovia Mágica, lançado em 2000.

Ela já não demonstrava o mesmo entusiasmo. Aos 11 anos, leu o roteiro e considerou os personagens infantis demais para ela. A repetição de cenas, as longas horas de trabalho e a pouca liberdade criativa também tornavam a atuação diante das câmeras cada vez menos atraente.

Ao mesmo tempo, os convites começaram a diminuir.

Mara estava entrando na puberdade e deixou de corresponder à imagem de menina pequena e “adorável” que havia sustentado sua carreira. Em um relato publicado pelo The Guardian, ela descreveu como passou de estrela requisitada a uma adolescente que raramente recebia elogios sobre a própria aparência.

“Eu tinha essa ideia de Hollywood de que, se você não é mais fofa, se você não é bonita, então não vale nada”, escreveu.

A rejeição profissional afetou a forma como enxergava o próprio corpo. Ainda que já estivesse cansada da carreira, perceber que os estúdios também haviam perdido o interesse foi doloroso.

“Hollywood estava cansada de mim”, reconheceu. “Mesmo que eu também estivesse cansada daquilo, ser rejeitada continuava não sendo uma sensação boa.”

Ela resumiu aquela contradição em outra frase direta: “Eu sempre achei que seria eu quem desistiria da atuação, e não o contrário”.

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Trabalhos comuns longe dos estúdios

Sem os papéis que marcaram sua infância, Mara passou a viver de maneira mais discreta. Alguns relatos sobre essa fase mencionam trabalhos comuns, inclusive como babá, enquanto ela estudava e tentava descobrir uma atividade que não dependesse de sua aparência ou da lembrança de Matilda.

A experiência representava uma mudança brusca. Poucos anos antes, ela dividia cenas com Robin Williams, Sally Field, Danny DeVito e Rhea Perlman. Depois, passou a experimentar uma rotina semelhante à de outros jovens de sua idade.

Mara estudou na Tisch School of the Arts, da Universidade de Nova York, onde se formou. Foi nesse período que percebeu que escrever lhe oferecia algo que raramente encontrara nos sets: controle sobre a própria história.

Mara Wilson encontrou seu espaço na escrita

Em vez de tentar recuperar a imagem da antiga estrela mirim, Mara começou a produzir textos, peças e apresentações de narrativa ao vivo.

Em 2016, publicou Where Am I Now? True Stories of Girlhood and Accidental Fame. O livro reúne episódios sobre fama precoce, luto, adolescência, saúde mental e as expectativas impostas a meninas que trabalham no cinema.

A obra também aborda o momento em que ela percebeu que já não era considerada “bonita o suficiente” para Hollywood e como essa avaliação, feita por produtores e agentes, interferiu em sua autoestima.

Anos depois, lançou Good Girls Don’t, trabalho autobiográfico em que examina a pressão para ser obediente, agradável e comportada, tanto durante a infância quanto na vida adulta. Atualmente, ela é apresentada profissionalmente como escritora, dramaturga, atriz e contadora de histórias.

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Ela realmente abandonou completamente a atução?

Mara deixou os grandes filmes, mas não rompeu totalmente com a profissão.

A partir de 2012, começou a aceitar participações menores e trabalhos de voz. Apareceu na série Broad City e emprestou sua voz a produções como BoJack Horseman, Big Hero 6: The Series, podcasts narrativos e dezenas de audiolivros.

Esse formato resolveu parte do conflito que ela mantinha com a indústria. Trabalhando apenas com a voz, Mara pode interpretar personagens muito diferentes sem precisar mudar o corpo ou se ajustar a um padrão visual decidido por executivos.

Em uma entrevista recente, ela explicou que já narrou cerca de 70 audiolivros e que prefere esse tipo de atuação por sua proximidade com o teatro e pela variedade de personagens. Também afirmou que não deseja voltar a disputar papéis tradicionais no cinema, principalmente porque os estúdios ainda oferecem oportunidades limitadas a mulheres que não se encaixam em determinados modelos físicos.

Em 2025, Mara recebeu, junto com outros narradores, um Audie Award pelo trabalho no audiolivro Bury Your Gays, de Chuck Tingle. Ela também tem participado de iniciativas ligadas à segurança de crianças no ambiente digital e à conscientização sobre endometriose.

Como Mara Wilson está hoje

Mara completou 39 anos em 24 de julho de 2026. Em vez de tentar se distanciar agressivamente de Matilda, como fez durante parte da juventude, ela passou a enxergar a personagem com mais carinho.

Em entrevista publicada na época dos 30 anos do filme, disse que demorou a aceitar o peso daquele papel. Quando era mais nova, sentia que as pessoas amavam Matilda, mas não necessariamente se interessavam por quem ela era fora das telas.

Hoje, compara a personagem a uma irmã mais velha que sempre estará ligada à sua identidade e considera uma honra ter participado de uma história que continua importante para tantas pessoas.

Mara segue trabalhando com escrita, narração de audiolivros, dublagem e apresentações. Ela ainda aparece em eventos e reencontros com antigos colegas, mas já não estrutura sua vida em torno da aprovação dos grandes estúdios.

A menina que Hollywood descartou quando deixou de corresponder ao padrão de “fofura” encontrou uma carreira na qual sua voz, literalmente, vale mais do que a aparência que tentaram exigir dela.

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Gabriel Pietro
Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.