Efeito Espectador: por que muitas vezes não reagimos quando vemos alguém sofrer violência?

O objetivo do texto é comentar um pouco sobre o papel de quem presencia situações de violência e, mesmo assim, no momento, não reage.

Josie Conti

Hoje acordamos recebendo inúmeras postagens sobre um novo caso de agressão com morte que aconteceu ontem, 19 de novembro de 2020. No caso, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos que estava sendo retirado do supermercado Carrefour de Porto Alegre, foi brutalmente espancado até perder a vida. O caso tornou-se ainda mais emblemático por acontecer às vésperas do Dia da Consciência Negra, data que tem como um dos objetivos promover a reflexão sobre injustiças raciais.

Aqui ninguém questionará se a postura do homem dentro do mercado foi correta ou não (o G1 publicou que vítima teria ameaçado bater na funcionária, que chamou a segurança). A questão é: NADA justifica espancar uma pessoa até a morte. O papel da segurança é zelar pela paz do local e, se necessário, conter, mas nunca agredir repetidamente e com tamanha violência!

O objetivo do texto, entretato, é comentar um pouco sobre o papel de quem presencia situações assim e, no momento, não reage. No caso de ontem vimos uma pessoa rondando, outra filmando. E nos questionamos, por que não fizeram nada?

Eis que precisamos falar de um fenômeno muito comum e que pode acometer a todos nós, até mesmo a quem canta aos quatro cantos que reagiria: O EFEITO ESPECTADOR.

O que é o efeito espectador?

Segundo a Wikipedia o efeito, também conhecido também como Síndrome de Genovese é uma alusão ao caso de Catherine Susan Genovese, que em 13 de março de 1964, aos 28 anos, foi vitima de homicídio por um homem que a abordou nas proximidades de sua residência, no Queens, na cidade de Nova York, sem que ninguém a ajudasse apesar dos seus insistentes pedidos de ajuda e do grande número de testemunhas que confirmaram ter ouvido os gritos da vítima. A polícia só foi chamada meia hora depois. A morte trágica e a aparente falta de reação dos vizinhos repercutiram na mídia instigando o estudo deste fenômeno social.

Em psicologia social o fenômeno foi descrito pela primeira vez por John Darley e Bibb Latané em um estudo de 1968, que aponta para o fato de que a presença de outras pessoas (ou seja, expectadores) diminuem as chances de uma pessoa intervir em uma situação de emergência.

Recentemente eu passei por uma situação similar na cidade de Bauru quando, ao sair de do apartamento em que eu estava hospedada, presenciei um acidente de trânsito. No acidente, uma senhora deu ré enquanto saia de uma vaga e acabou colidindo com um carro irregulamente estacionado do outro lado da rua. Até então eu vi duas pessoas que erraram: de um lado a senhora que não estava atenta ao seu espelho retrovisor e, por isso, colidiu com o veículo e, do outro, um senhor que estava estacionado em local claramente irregular. O problema que me gerou o EFEITO ESPECTADOR, entretanto, aconteceu quando o homem saiu do carro berrando com a senhora de forma extremamente violenta enquanto a acusava de uma irregularidade. Lembro que, no dia, meu corpo implorava para que eu intervisse e a defendesse uma vez que ele estava sendo bruto e descaradamente injusto (ele também não tinha razão e, mais ainda, mesmo que tivesse a sua violência não seria justificada). Eu me lembro de pensar: Ninguém que está olhando vai lá? Mas eu mesma não fui capaz de ir, tendo ficado dias e dias com isso na cabeça, sentindo culpa e sensação de ter sido egoísta ao me preservar dos insultos do homem, mas também pouco solidária com uma mulher que poderia ter sido eu ou qualquer outra, na mesma situação.

O que eu quero dizer é, eu achei que não seria capaz de me omitir frente a uma injustiça assim, MAS EU O FIZ! E é por isso que conhecer falo hoje sobre efeito espectador para que, em um outro momento, eu e qualquer outra pessoa que tenha racionalizado essa situação,  consigamos ter lucidez frente acasos de injustiça que possamos presenciar no dia a dia.

Assim, apenas para deixar claro, o efeito especatador aconteceria quando nos encontramos perto de outras pessoas e esperamos que elas hajam no nosso lugar! É como se a omissão dos outros justificasse a nossa. Dizem também os especialistas que quanto maior o nosso conhecimento e sentimento de comprometimento com a vítima mais fácil é que reajamos. Então, penso que hoje, o trágico caso do Carrefour e o dia da Consciência Negra devem ser somados a tantos outros exemplos que devem servir como pilares para que aumentemos a nossa sensibilidade ao tema não só da boca pra fora, mas em forma de ações práticas.

Eu quero defender a próxima pessoa que sofrer uma injustiça na minha frente e nunca mais ter que sentir vergonha por uma omissão. E esse texto é para você que talvez também queira.

Reajamos a intolerância racial, ao machismo, a xenofobia e a tantas outras formas de violência que acontecem perto de nós diariamente. Não esperemos a pessoa do lado chamar a polícia ou intervir. Não somos apenas espectadores!

O policial e o segurança certamente terão que responder pelos seus atos na justiça, mas não nos esqueçamos de nossa responsabilidade social.

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Josie Conti
É idealizadora, administradora e responsável editorial do site CONTI outra e de suas redes sociais. Psicóloga com 19 anos de experiência, teve sua trajetória profissional passando por diversas áreas de atuação como educação, clínica (consultório, grupos pré-cirurgia bariátrica e de reeducação alimentar, acompanhamento de pacientes idosos e acamados em projeto da UNIMED), além de recursos humanos e saúde do trabalhador. Teve um programa diário, o CONTI oura, na rádio 94.7 FM de Socorro. Atualmente realiza vídeos, palestras, cursos, entrevistas, e escreve para diversos canais digitais. Sua empresa ainda faz a gestão de sites como A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil. Possui mais de 11 milhões de usuários fidelizados entre seguidores diretos e seguidores dos sites clientes. Também realiza atendimentos psicológicos online.