É mais corajoso aquele que abandona tudo e vai viver seu sonho? Ou corajoso é aquele que fica e enfrenta a realidade?

Há alguns anos, durante o divórcio de uma amiga, me deparei com uma situação confusa, que me levou a grandes reflexões na época. O marido dela, decidido a romper a relação, usou um poema de Martha Medeiros para justificar o momento que ele vivia. O poema em questão era aquele que diz: “Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos. Morre lentamente quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos…” 

Minha amiga estava fragilizada, magoada e inconformada. Ela considerava o marido um covarde. Ele se achava corajoso. Porém, qual dos dois estaria certo?

Tudo depende da perspectiva de cada um. Porém, um pouco mais amadurecida, me deparei com uma análise belíssima que uma prima querida fez do filme “Na Natureza Selvagem”. Ao contrário da maioria dos fãs do filme, ela não achou a jornada do “super andarilho” Chris corajosa. Numa das partes de sua análise, minha prima diz: “Tive muita pena do quanto ele era covarde e precisou inventar uma odisseia desse tamanho, tão monumental, para esconder, em proporção, o que ele não tinha: coragem!”  E ela continuava, dizendo que como o personagem do filme, que foge para o Alasca com a fantasia de que lá encontraria uma vida mais plena, cheia de coisas fantásticas, e de que lá seria uma pessoa melhor, mais corajosa e cheia de vida, muitos de nós imaginam que fugindo para seus “Alascas” poderão ter aquilo que nunca tiveram: paz de espírito, cura de suas dores, cura de seus vazios.

Após essa análise, voltei a questionar o episódio do divórcio de minha amiga. Será que o ex marido havia encontrado um estado permanente de brilho nos olhos e coração aos tropeços? Ou, passado o tempo da euforia, da troca do certo pelo incerto, ele havia se dado conta de que a coragem de virar a própria mesa, em alguns casos, pode ser pura ilusão?

Há uma reflexão do filósofo Luiz Felipe Pondé que diz o seguinte: “Você precisa de muito mais coragem para abrir mão de uma paixão romântica em nome de um relacionamento longo, do que optar pela paixão”. Isso quer dizer que, embora pareça mais corajoso chutar tudo para o alto e ir viver nossas paixões ou nossos “Alascas”, é mais corajoso resistir e encontrar alento na realidade.

É claro que existem casos e casos. Porém, há um consenso no que diz respeito à forma como interagimos com a vida. Podemos interagir nos protegendo ou nos arriscando. É unanime afirmar que é uma forma de covardia com nós mesmos não interagirmos de uma maneira mais intensa com a vida, deixando de explorar nosso potencial criativo, nossa inteligência, nossa sensibilidade, preferindo nos refugiar numa vida segura, protegida… e mediana.

Talvez o que Martha Medeiros quisesse dizer com seu texto é que devemos nos esforçar para não viver uma vida mediana. E tenho que concordar, pois é preciso coragem para deixar de lado o instinto de autoproteção e interagir de uma maneira mais intensa com a vida. Porém, o ex marido de minha amiga interpretou de acordo com seus interesses. Ele provavelmente achou que encarar a vida cotidiana, com suas obrigações e responsabilidades, é que seria uma vida mediana. Mas não precisa ser assim. Podemos acomodar os sonhos, o brilho no olhar e a ousadia lado a lado com as obrigações e responsabilidades. Conseguir conciliar duas ideias aparentemente contraditórias nos torna mais completos, maduros e realizados.

Não é preciso fugir para o Alasca, empreender uma jornada enorme para encontrar sentido. Os desejos se acomodam e convivem juntos. Posso ser dentista, mãe, esposa, escrever dois livros, ter um blog e um canal no Youtube — quem disse que não?

Viver com coragem é viver empenhado na busca por aquilo que faz nossos olhos brilharem. Mas para que essa jornada seja autêntica, é preciso distinguir “busca” de “fuga”. Pois há muita confusão por aí. Coragem é arcar com a aridez e o brilho da vida, entendendo que nem sempre será só ruim, nem sempre será só bom, mas não abandonar tudo só porque as coisas estão mais difíceis no momento.

Talvez o ex marido de minha amiga tenha sido corajoso. Talvez tenha sido covarde. Não cabe a mim julgar ou dar um veredicto. O que posso afirmar é que é necessário uma grande dose de coragem para mergulhar fundo em nós mesmos. E que nem sempre é necessário sair numa jornada monumental para avançarmos em nosso próprio território. Às vezes não precisamos mais que o silencio de nossos próprios quartos. Porém, a despeito desse autoconhecimento e descoberta da felicidade genuína, muitas pessoas viverão de buscas, de enganos e cabeçadas, inquietas e insatisfeitas, acreditando piamente que encontrarão um estado permanente de graça longe de si mesmas. Talvez um dia descubram que corajoso é aquele que se encara de frente, se enfrenta, se conhece e se aceita, e principalmente, que aprende a se amar.

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Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.