Me dá até um arrepio na nuca essa gente que fala manso demais, olha manso demais, parece mansa demais. Fico sempre com impressão que de uma hora para outra, a tal doçura em forma de gente vai começar a revirar os olhos e sofrer uma metamorfose bem ali na minha frente.

Esse tom de voz monocórdio é estratégia de marketing para pegar trouxa, isso sim! Eu, para ser bem honesta, reconheço a espécie só pelo faro. Deve ser por causa das incontáveis vezes em que tomei rasteira de “excelentes pessoas” e ouvi palavras destruidoras em voz de veludo.

E cá entre nós, há uma coisinha que eu mesma preciso confessar: sei lá por que cargas d’água, mas… quanto mais brava eu estiver, mais baixo eu falo. Pois é… esse fenômeno, em verdade, tem uma explicação bastante razoável: o timbre da minha voz é um pouco infantil; então, se eu aumentar o tom, fica parecendo criança fazendo birra, sabe como é? Melhor evitar.

Por outro lado, é bem verdade que eu devo ter entrado na fila da paciência umas vinte e cinco mil vezes. Sou dotada de uma paciência que beira o infinito. E isso vale tanto para experiências de vida, quanto para pessoas que cruzem o meu caminho.

Talvez tenha sido por isso a minha escolha profissional. Me encantam as pessoas com jeitos peculiares de ver e interpretar o mundo. Sobretudo, as crianças especiais me fascinam. E neste caso, no trato com os pequenos e também com os adolescentes, eu diria que não se trata de ter paciência, eu curto mesmo. Sou apaixonada pelo universo intrincado das mentes que subvertem a lógica, que não cabem nos espaços escolares, que extrapolam a capacidade de compreensão da educação formal.

No entanto, além da paixão pelo diferente, é preciso que eu reconheça que há habilidades correlatas à paciência que se fazem indispensáveis ao processo de aproximação desses indivíduos às esferas da aprendizagem. A tolerância é filha da paciência. A flexibilidade é filha da paciência. As mentes abertas são irmãs da paciência. O desejo de acolher e compreender a dor do outro é a alma gêmea da paciência.

E a doçura, quando genuína, é dessas coisas raras que só as pessoas raras são capazes de enxergar e oferecer. A doçura verdadeira é dessas coisas que a gente não aprende, nem ensina de propósito. Ela é da esfera das aprendizagens espontâneas, aquelas que moldam a gente de um jeito bonito; de um jeito que nos torna aptos para absorver o amor em sua essência pura.

A doçura do mel, no entanto, não vale a picada da abelha. E essa é uma reflexão extremamente poderosa e transformadora, porque nos convida a estar dos dois lados de um impasse simbólico tão antigo quanto a nossa existência nesse planeta. Tirar o mel, pode significar invadir o espaço alheio, naquilo que ele tem de mais íntimo e indevassável, subtrair do outro algo que foi construído à custa de muito esforço. E na face reversa, a picada da abelha nos remete à incapacidade de compartilhar afeto, a rejeição inesperada que ferroa o peito numa dor que nos pega de surpresa, e pode persistir para todo o sempre, caso a gente se apegue ao ferrão.

Então, que sejamos capazes de oferecer e receber doçura, apenas e unicamente quando ela vier daquele lugar lá dentro da gente, onde nascem os sentimentos puros e incorruptíveis. Caso contrário, o que sobrará do encontro com o falso doce será apenas a dor da picada, e nada mais.

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme “A vida secreta das abelhas

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"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"