Diferentes

A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar. Jiddu Krishnamurti

Luciana Chardelli

Jacques Derrida em sua consideração do conceito de signo na obra de Saussure, é instigado a criar a grafia différance (com ‘a’ no lugar de ‘e’, em francês se escreve différence); o ‘a’, necessita, segundo Derrida, significar e pontuar mais do que o ‘e’, posto que deve somar, crescer, adicionar para além do estabelecido. A différance (com a) deve expressar uma diferença antecedente à toda diferença estipulada, preconcebida.

“O conceito de diferença, de Jacques Derrida, parte da análise semântica dos dois sentidos do infinito latino differre (diferir): o primeiro, remete para o futuro (tempo), o segundo para a distinção de algo criado pelo confronto”.

Sou ignorante completa de Heidegger à Derrida, o que não me impossibilita de “passear” pelo meu desconhecimento. Somos diferentes uns dos outros e, portanto, deveríamos somar. Há tempos andava pelo centro da cidade e a minha frente um jovem alto com no máximo uns vinte e poucos anos conversava com outro jovem extremamente baixo. O rapaz baixo sem dúvida suporta com coragem a cruel indústria da estética. Ao se despedirem, o jovem alto ajoelhou-se para se despedir do amigo que lhe disse algo muitíssimo divertido pela grandeza da gargalhada que veio à seguir. Pensei: DifférAnce! A soma foi computada. Há somas por todo o lado, somos múltiplos em credo, raça, gênero, desejos e medos, somos ambivalentes; qualquer diferença que nos incomode existe apenas de um ponto de vista que deve e merece ser momentâneo, tornando-se em seguida um acrescer. Crescemos com as diferenças. Cada um de nós tem um universo lindamente rico, repleto de diferenças e descobertas particulares. Nenhuma diferença tem a capacidade de alterar o universo do outro sem o seu consentimento; tem apenas a capacidade de enriquecer.

A diferença existe apenas na comparação. A comparação é ingrata e impermanente, porquanto habita no tempo, e o tempo nada é. O tempo é apenas nossa maneira de vivê-lo ou de imaginá-lo pelo tempo que nomeamos.

Desejo que o tempo de todos nós seja nomeado como o tempo da diferença; o tempo de somar.

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Photo by Markus Spiske on Unsplash

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Luciana Chardelli
Luciana Chardelli é carioca, jornalista, escritora e advogada pós graduação em Direito Penal e Processual Penal. É autora do livro "Penso, logo insisto. Um desencontro." Escreve também na Revista Obvious.