Depressão Pós-Parto: Precisamos falar sobre isso.

Infelizmente pouco se fala sobre a depressão pós-parto ou DPP, como também é chamada. Antigamente os sintomas não eram reconhecidos e entendia-se como sendo um traço feminino. Atualmente temos muitas informações, mas estas ainda não garantem que as mulheres falem sobre esse assunto, é quase um tabu.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde a DPP acomete 19,8% das mulheres. Entretanto,  no Brasil o número de mães com depressão pós-parto é ainda mais alarmante: ultrapassa os 26%, segundo pesquisa publicada em abril de 2016 pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp), em parceria com Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. A pesquisa foi a primeira sobre o tema no país e entrevistou mais de 23 mil mães, no período de 6 a 18 meses após o parto.

Provavelmente o alto índice no Brasil esteja relacionado a baixa escolaridade, pois somos um país em desenvolvimento, entretanto a DPP pode acometer mulheres de todas as idades, escolaridades e classes sociais.

Apesar de estar presente em quase 26% das mulheres brasileiras, pouco se fala sobre a DPP. Existe uma cultura que romantiza o “tornar-se” mãe. A sociedade “impôs” que mães devem estar felizes e realizadas com a chegada de um bebê. Mães não podem adoecer e tampouco sentirem-se tristes, angustiadas ou confusas, pois isso isso seria uma heresia, um pecado.

Acontece que, por mais desejado e planejado que o filho seja, pode ser que a mãe adoeça.

E por que não podemos falar sobre isso?

Um dos principais motivos certamente é a ideia de que a bênção da maternidade deve se sobrepor a qualquer problema que possa existir. Isso faz com que qualquer pessoa que não se sinta tão feliz como imaginou que deveria se sentir, alimente em si uma grande culpa. Além da culpa, se a pessoa estiver entrando em um processo depressivo, a doença corre o risco de rapidamente se agravar pela ocultação ou minimização dos sintomas. Falar sobre os sentimentos da mãe é importante para que quadros de DPP possam ser rapidamente diagnosticados e melhor tratados. Também é importante lembrar que toda doença tratada no seu início possui um melhor prognóstico.

Agora vamos lá. É hora de entender melhor!

O que é Depressão Pós-Parto ou DPP?

Dentre os transtornos depressivos sofridos por mulheres está a depressão puerperal, geralmente a sintomatologia não difere dos episódios de alteração do humor que ocorrem fora do puerpério.

Os principais sintomas são:

1. Humor depressivo ou anedonia (diminuição ou perda do interesse nas atividades anteriormente agradáveis),
2. Mudança significativa de peso ou do apetite,
3. Insônia ou sono excessivo,
4. Fadiga, agitação ou retardo psicomotor,
5. Sentimentos de desvalia ou culpa,
6. Perda de concentração,
7. Ideias de morte ou suicídio.
Geralmente a DPP ocorre depois de algumas semanas do nascimento do bebê e perdura por semanas. Difere do Blue Puerperal que acontece já nos primeiros dias após o parto e é transitório.

Principais problemas relacionados a DPP:

1. A mãe tem perdas significativas relacionadas à saúde mental e física;
2. Sente-se culpada por apresentar humor depressivo;
3. Apresenta dificuldades em cuidar do bebê como amamentar e trocar as fraldas;
4. Pode esquecer do calendário das vacinas da criança;
5. Dificuldades em estabelecer vínculo com o bebê;
6. Não se sentir digna/capaz de cuidar de uma criança;
7. Impacto na relação do casal;
8. Vergonha por não se sentir feliz;
9. Medo exagerado que a criança adoeça;
10. Evitar contato com os outras pessoas;
11. Esconder seus sintomas por causa da culpa.

Como ajudar mulheres com DPP?

Muitas vezes, a mulher que passa por essa problemática tem dificuldades de procurar ajuda. Como já foi dito, infelizmente, esse assunto ainda é tabu na nossa sociedade, entretanto precisamos compartilhar essas informações, pois pode elas podem impactar para sempre na relação da mãe com seu filho, já que os primeiros meses do bebê são fundamentais para seu desenvolvimento psicológico. Se você conhece alguém com DPP talvez possa ajudar de alguma forma, tais como:

1. Não julgar . Estamos impregnadas de pré-conceitos de que a mãe precisa estar feliz e realizada com o nascimento do bebê, muitas vezes isso pode não acontecer nos primeiros meses após o parto;
2. Ajudar nas tarefas domésticas. Caso seja próxima de uma mulher que esteja com DPP, ofereça ajuda. Pode ser com a casa ou com o bebê. Assim, a mãe poderá descansar e cuidar um pouco de si mesma;
3. Acolha o sofrimento e desconforto que a mãe com DPP sente;
4. Oriente buscar ajuda de profissionais, como psiquiatra e psicólogo;
5. Caso a mãe/mulher esteja resistente em buscar tratamento, oriente seus familiares da importância de fazê-lo.

Algumas orientações para as mulheres acometidas pela DPP:

Caso sinta mudança no humor, sono, apetite ou quaisquer outros sintomas descritos acima, depois de algumas semanas do nascimento do bebê, é importante se atentar para esses sinais emocionais.

1. Informe-se sobre a DPP, seus sintomas e como outras mulheres passaram por essa situação e conseguiram resolver. Tenha certeza que há mulheres que poderão ajudá-la;

2. Procure uma amiga ou um familiar de confiança para poder conversar, pois certamente irá descobrir que não está sozinha;

3. Peça ajuda nos cuidados do bebê e da casa, assim haverá menos desgaste físico e emocional;

4. Busque ajuda de profissionais, como psiquiatra e psicólogo, a DPP é uma doença como outra qualquer e precisa ser tratada;

5. Seja acolhedora e pacienciosa com você mesma, pois assim como o seu corpo poderia ter sido acometido por uma doença física depois do parto, a DPP pode acontecer também;

6. A culpa não ajuda em nada, te deixa no mesmo lugar, tente se livrar dela, afinal a DPP não é uma escolha, ela acontece e não escolhe classe social, escolaridade, religião ou etnia;

7. Cuide do seu bebê, mas cuide-se também, afinal ele vai precisar de uma mãe inteira.

Sabemos que o início da maternidade pode ser conturbada, sair do programado, pode doer, trazer a angústia e o desespero antes de mostrar a sua face mais bonita. Isso me faz lembrar das instruções que ouvimos da aeromoça antes do avião decolar: “Em caso de despressurização as máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Caso esteja acompanhado de alguém que necessite de sua ajuda, coloque sua máscara primeiro, para em seguida ajudá-lo.” Portanto, diante da DPP coloque sua “máscara” primeiro, cuide-se! Os bebês, com o tempo, vão precisar de mães inteiras.

A “viagem” da maternidade pode ser turbulenta, difícil, e embora o caminho seja parecido, não é igual para todas as viajantes com o mesmo destino, mas é o mais belo passeio que alguém pode fazer na vida!

Fonte de informações: Portal Fio Cruz

Imagem de capa: SpeedKingz/shutterstock

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Elisangela Siqueira
Psicóloga com especialização em Psiquiatria e Psicologia da Infância e da Adolescência e em Psicoterapia Psicanalítica Breve. Mais de 10 anos de experiência. Atendimentos presenciais e online.

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