Depositar a própria felicidade em mãos alheias é como dirigir de olhos fechados

Ana Macarini

Talvez seja um dos maiores sonhos da humanidade essa tal história de “ser feliz”. Mas basta um único instante de reflexão para se chegar a uma singela – porém não simples -, conclusão: ser feliz é das coisas mais subjetivas dessa vida.

A gente fica marcando encontros fictícios com a felicidade. Quando eu tiver um trabalho dos sonhos, serei feliz. Quando encontrar o amor, serei feliz. Quando tiver mais tempo para fazer aquilo que gosto, serei feliz. Quando isso, quando aquilo…

E, sem perceber, vamos nos acostumando a projetar nossa alegria sobre alicerces imaginários e frágeis, dada a sua fugacidade.

O que é, afinal de contas o trabalho dos sonhos, por exemplo? É receber muito dinheiro e “ralar” menos? É ser dono do próprio negócio? É ter no ganha-pão a realização de um talento? É ter mais segurança?

E como é que a gente sabe que encontrou “o” amor? É quando a gente tiver a sorte de ter o melhor sexo e o melhor amigo ou amiga na mesma pessoa? É quando a gente perceber que perdeu o interesse de procurar? É quando a gente tiver a sensação de ter encontrado um lar?

E o que diabos é ter tempo? É acordar mais cedo? É ir dormir mais tarde? É parar de procrastinar? É parar de desperdiçar horas, dias, meses e anos com disputas inúteis?

Não é nada fácil descobrir fórmulas para equacionar questões tão simbólicas da nossa existência. E não é fácil, nada fácil, por uma simples razão: não há fórmulas.

A gente vai se descascando aos poucos. A cada vez que nos permitimos imergir em experiências de vida reais e significativas.

É naqueles dias em que, ao deitar a cabeça no travesseiro, sentimos uma coisa boa no peito – uma plenitude -, por ter reconhecido no suor do trabalho também a essência de uma missão, que temos o prazer de um encontro com a felicidade.

É naquelas experiências de contato físico, em que deixamos a alma exposta dançar ao redor, o corpo amolece tranquilo, porque a excitação, o prazer e a paz se misturaram em beijos, abraços e entregas, que trouxeram pra dentro de nós o sabor, a temperatura e a maciez da felicidade.

É quando, enfim, aprendemos a parar de brigar com o tempo, e compreendemos que é aquilo a que damos valor que vai durar mais e que há momentos inesquecíveis que não passam de um instante, que vislumbramos a face rosada e tranquila da felicidade.

E, por fim, é naquele segundinho de deslumbramento em que juntamos sonho, desejo, intenção e esforço na clareza do reconhecimento de que o nosso destino é metade incerteza e metade da nossa conta, que seremos capazes de acolher a chance de ser feliz, de estar inteiro para partilhar dessa embriagante descoberta com outro alguém. Felicidade é partilha, não é dependência. Porque depositar a própria felicidade em mãos alheias, é como dirigir de olhos fechados, mais dia, menos dia, vai acabar num inevitável desastre.

Imagem de capa: cena do filme “O segredo dos seus olhos”

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"