Confinada com o inimigo: quando estar em casa é perigoso!

No Brasil, de acordo com dados da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, as denúncias de violência doméstica aumentaram 17% após o início das medidas de isolamento social em alguns estados.

Ana Macarini

Somos seres humanos – do ponto de vista estritamente biológico, TODOS NÓS somos seres humanos -, já pelo aspecto comportamental, infelizmente nem todos merecem ser classificados como humanos. É da nossa natureza a necessidade de interagir com outros de nós; sentimos falta do convívio, de ver outras pessoas, de conversar, de estar em ambientes sociais; e, uma boa parte de nós está sendo privada dessa convivência, dada a necessidade do distanciamento social para achatar a curva de transmissão do Coronavírus.

Posicionamentos políticos à parte, posto que há quem seja contra o distanciamento social, alegando que “temos o direito de ir e vir”; ou que “o país não pode parar”; ou “a economia é mais importante do que a vida” – fiquemos apenas com aquela parcela da população que está confinada com sua família, para podermos analisar essa questão da convivência, tendo como recorte de análise, unicamente essa fatia da população.

Há aqueles que, por gozarem de uma situação financeira mais estável, seja porque tinham uma reserva financeira, ou tenham a possibilidade de trabalhar em casa, ou tenham a sorte de ter vínculos empregatícios com uma empresa que optou por manter os funcionários empregados, ainda que tenha sido necessário negociar jornadas de trabalho, corte de benefícios e redução de salário. Estes, conseguem focar sua energia combativa apenas para o inimigo comum: o vírus. São os mais privilegiados, do ponto de vista dos recursos materiais: não estão passando necessidades, suas demandas básicas (casa, comida, remédio, plano de saúde, gás, luz, internet, alguma distração caseira), estão garantidas. É possível que tenham tido de renunciar a alguns confortos, como pedir comida fora, por exemplo; mas não estão expostos a privações severas.

No entanto, há famílias que já vinham lidando com a escassez de recursos mesmo antes da pandemia. Num país com 14 milhões de desempregados há muitas pessoas que se valem da economia informal para sobreviver: fazem bicos, trabalhos domésticos, têm pequenos comércios, ou mesmo produzem de forma caseira, alimentos, peças artesanais, roupas e as comercializam por meio das redes sociais. Estes, não têm apenas o vírus como inimigo iminente; estão sendo privados do básico. Há milhões de brasileiros que já passavam fome antes da pandemia e, agora tiveram sua já difícil sobrevivência ainda mais agravada, pela dramática situação financeira em que estão imersas.

Se, com todo um cenário favorável, as relações de convivência tornam-se um desafio quando nos vemos confinados. Imagine numa situação onde há o desespero da fome, da falta do remédio e, principalmente, da falta de perspectiva para o dia seguinte, a próxima semana, o outro mês.

No Brasil, de acordo com dados da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, as denúncias de violência doméstica aumentaram 17% após o início das medidas de isolamento social em alguns estados. Não que os casos de agressão a meninas e mulheres seja uma particularidade das classes mais vulneráveis ou tenha surgido com as medidas de isolamento, ; há muitos casos de violência e feminicídios dentro de famílias abastadas e mesmo entre aqueles com altos níveis de escolarização, que já vinham acontecendo há tempos. No entanto, junto com a miséria e com a convivência forçada, crescem os elementos que agravam relações já deformadas por comportamentos abusivos.

Outro aspecto importante, é entender que a violência doméstica não nasceu junto com a pandemia da COVID-19. Infelizmente, essa é uma situação bastante comum em nosso país desde o início da nossa História, por meio da qual é possível levantar inúmeros casos de estupro e agressão contra mulheres, inclusive dentro das tribos indígenas originais; hábito agravado com a chegada dos colonizadores. A cultura patriarcal, que durante muitos anos legitimou comportamentos machistas e sentimentos de posse em relação à figura feminina, ainda aparecem de forma frequente no comportamento de homens e mulheres. É uma luta que precisa ser abraçada todos os dias, por todos nós!

O alcoolismo, por exemplo, que pode estar presente tanto em lares ricos, quanto em pobres, é um poderoso estopim para as agressões. E, estando isoladas de outros familiares e de amigos, as meninas e mulheres tornam-se verdadeiras reféns dentro de suas próprias casas.

E o que nós temos com isso? Nós temos TUDO A VER COM ISSO. A mulher ou a menina agredida é uma de nós; elas estão expostas ao perigo, sem ter para onde fugir. Nestes casos, o único jeito de salvar essas mulheres e meninas é tirando o agressor de dentro dessa casa; ou tirando as agredidas e garantindo que sejam acolhidas em locais seguros, onde terão alimento, cuidados e proteção.

É preciso que haja uma rede de apoio para acolhê-las, posto que em muitos casos o agressor é, também, o provedor financeiro da família. Em algumas situações, quando o agressor é afastado – graças à Lei Maria da Penha (Lei 11.340), sancionada em 7 de agosto de 2006 e criada para combater a violência doméstica e familiar, garantindo punição com maior rigor dos agressores e criando mecanismos para prevenir a violência e proteger a mulher agredida -, essas mulheres recebem amparo de amigos ou familiares. Mas, há muitos casos em que não há esse apoio no círculo mais próximo, então é preciso recorrer a organizações externas para buscar socorro e abrigo.

PROJETO-JUSTICEIRAS FORÇA-TAREFA PRÓ MULHER


A promotora de Justiça de São Paulo Gabriela Manssur é uma das figuras que tem articulado novas redes de luta contra a violência de gênero. Ela está à frente do Projeto Justiceiras, uma iniciativa com voluntárias na área do Direito, Psicologia, Medicina e Assistência Social que visa acolher mulheres vítimas de violência doméstica na quarentena. De acordo com Manssur, a ideia do projeto é eliminar a dificuldade no deslocamento para buscar ajuda e contribuir com as informações necessárias para que a mulher possa denunciar o agressor. As denúncias podem ser feitas via Whatsapp, pelo número: (11) 99639-1212.

DISQUE 180


Outra maneira de socorrer uma vítima de violência é o DISQUE 180.

Como funciona? A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço ofertado pela SPM com o objetivo de receber denúncias ou relatos de violência, reclamações sobre os serviços da rede e de orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as para os serviços quando necessário. As denúncias são anônimas e você pode, no mínimo, estar salvando uma mulher ou menina de agressões, abusos e, até, da morte.

É absolutamente triste e impressionante, mas não é exagero, nem alarmismo! A violência doméstica existe, é um fato. No Brasil, uma mulher é assassinada a cada duas horas! E o assassino é, na maioria dos casos, o marido, namorado, companheiro, ex, tio, irmão e, até seu próprio pai. Os crimes, quase sempre acontecem dentro de casa.

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"