Comportamento agressivo e violência na TV

Onde mora a violência, o afeto não entra.

Viviane Battistella

De desenhos animados a jornalismo sangrento, estima-se que quase a metade do que se assiste nas salas de estar sejam cenas de violência. Até que ponto a violência exibida nas TVs de todo o país contribui para o aumento da violência urbana?

Essa questão é muito antiga, surgiu na década de quarenta e desde então muitos estudos têm sido feitos. Quase todos eles apresentam a existência de ligações claras entre a exposição de crianças á violência e desenvolvimento do comportamento agressivo. Há quase quinze anos um grande estudo também mostrou a ligação do comportamento agressivo às crianças expostas a videogames de conteúdo violento.

Diferente do impulso agressivo, o comportamento violento é aprendido. Eu pude ver com meus próprios olhos o meu filho reproduzir um ou dois comportamentos violentos por ter assistido três episódios do Chaves. Ele tem quatro anos e, ao ver algumas cenas nas quais o Sr. Madruga bate no Kiko, ele logo começou a “brincar de bater” na gente. Ele não assiste mais ao seriado, pelo menos até a segunda ordem minha e do pai dele.

A mídia se preocupa e se responsabiliza muito pouco pelo que exibe, dessa forma cabe aos pais um cuidado grande e constante com o controle do que seus filhos assistem, principalmente nos cinco primeiros anos de idade. Nessa fase a criança tem uma forte tendência a imitar – ela aprendeu a falar e a se comportar de forma geral imitando os adultos – ou seja – estar exposta ao comportamento violento vai, inevitavelmente fazer com que ela o reproduza.

Uma criança não deve assistir a programas de jornalismo sensacionalista e violento em hipótese alguma. O ideal é que ela não tenha liberdade total de mudar de canal. Até os cinco anos de idade o sugerido é que crianças assistam a um máximo de duas horas de TV por dia, mesmo que fracionadas, e que assista apenas à programação infantil adequada a sua idade. Casas com TV a cabo e/ou canais pagos em tablets também precisam de atenção. Ambos devem ser travados de modo à criança ter apenas acesso à programação adequada.

Aos que julgam que haja exagero na conduta acima, é importante lembrar que a violência na televisão tem grande poder de ser memorizada. Uma cena que dura apenas alguns segundos – transmitida numa pequena parte de um programa – pode ser recordada a longo prazo, mais do que qualquer outra cena da história em si. A violência possui uma mensagem muito contagiosa.  A reprodução de um comportamento violento visto na TV não é só agressão infantil física ou verbal, tal como bater em alguém. Ela representa formas diretas e sérias de agressão. Por exemplo: reproduzir cenas como disparar um revólver sobre alguém, atacar uma vítima com uma faca, atear fogo em algo, cortar alguém com uma garrafa partida. Crianças de até cinco anos estão na fase do pensamento mágico; assistir a cenas violentas alimenta negativamente a criação de histórias – tão comum nesse período.

Ao perceber que uma criança brinca reproduzindo comportamentos e/ou cenas violentas ou mesmo se, ao pedir que ela conte uma história, esta venha com cenas e conteúdo violento, fique atento. É inevitável que a uma certa altura da vida todos nós tenhamos que nos deparar com a triste realidade da violência social que infecta a nossa sociedade, porém ao descuidar do que as crianças assistem, estamos contribuindo para o aumento da violência. Muito cuidado com os deslizes em “achar bonita” e “engraçado” crianças violentas ou acreditar que elas assim possam se defender. Qualquer comportamento violento em crianças deve ser trabalhado para que seja extinto, mesmo que para isso seja preciso buscar orientação psicológica. Um aviso principalmente aos pais que praticam artes marciais ou qualquer tipo de luta: cuidado redobrado! As crianças não possuem ainda cognição para entender as particularidades do esporte, nem tampouco a restrição de quando e onde podem ser praticados.

Onde mora a violência, o afeto não entra.

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...