Com 70 anos, seu Santos aprende a ler e compra seu primeiro livro na Feira.

O aposentado ainda selecionou um livro de contos do escritor brasileiro Machado de Assis e um de sonetos, do poeta português Luis de Camões. Justificou já ter ouvido muito os nomes de ambos, e escolheu os livros para saciar a própria curiosidade. "Vocês vão me matar do coração. Não sei se mereço tanto. Que presente!", repetia o aposentado às professoras do CIEE.

Ana Carolina Conti Cenciani

A emoção foi grande quando o aposentado João Carlos dos Santos leu a faixa “Bem-Vindos!” escrito na frente uma das entradas que dão acesso à 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega. Santos foi à convite do Programa de Alfabetização de Adultos do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), do qual faz parte há um ano.

Seu Santos não sabia ler até o ano passado (2018), afinal desistiu dos estudos no 1º ano do Ensino Fundamental para ajudar a mãe no sustento da família, ele não sabia ler o próprio nome.

“Sempre me incomodou o fato de eu não saber ler o nome da linha do ônibus que eu pegava para ir ao trabalho. Me sentia um cego”, revelou para a GauchaZH.

Porém, voltar a estudar se tornou algo possível quando comentou informalmente com um cliente do estacionamento do Mercado Público (local onde ele trabalha cuidando de carros) o desejo de aprender a ler. Ele foi incentivado a procurar as aulas gratuitas do CIEE. Ele ainda ganhou cadernos, caneta e lápis do cliente, que seu Santos infelizmente não sabe o nome.

Santos ainda mareja os olhos ao lembrar da primeira palavra que leu sozinho: MÃE. Inês, falecida há cinquenta anos, veio logo à mente. Entre as descobertas, aprendeu que y e w também fazem parte do alfabeto e agora lê orgulhoso “Leopoldina”, o nome da linha de ônibus do bairro onde mora.

“Sabe uma descarga de alta-tensão? Nunca tomei um choque, mas acho que foi isso que senti quando comecei a ler. Ainda fico deslumbrado com cada palavra”, contou.

Durante a Feira do Livro, os funcionários do CIEE doaram quase 400 obras, que puderam ser escolhidas pelos estudantes. Santos vasculhou cada uma das caixas e agarrou uma história em quadrinhos. “Este vai comigo! Adoro a Turma da Mônica”, garantiu.

O aposentado ainda selecionou um livro de contos do escritor brasileiro Machado de Assis e um de sonetos, do poeta português Luis de Camões. Justificou já ter ouvido muito os nomes de ambos, e escolheu os livros para saciar a própria curiosidade.

“Vocês vão me matar do coração. Não sei se mereço tanto. Que presente!”, repetia o aposentado às professoras do CIEE.

Encorajado a comprar o primeiro livro da vida, revirou algumas bancas com preços entre R$ 1 e R$ 10. Chegou a pegar uma obra que tratava sobre a Revolução Russa de 1917, mas achou que poderia ser um pouco difícil para quem está começando a conhecer o mundo da leitura. Três bancas à frente, porém, agarrou Janela da Poesia – Turminha do Peteleco, da escritora Ana Cecília Romeu, feita para ler, colorir, desenhar e ainda criar textos. Ele pensou em ler e brincar junto com os netos.

Empolgado, fez questão de falar em voz alta o primeiro parágrafo de cinco linhas: “Peteleco brinca com seus amigos todos os sábados no parque do bairro onde mora. Hoje está um dia ensolarado e quente. Duas amigas, a Carminda e a Bonequinha, chegam para se divertir junto com ele”. Santos assegurou que devoraria os livros recebidos na tarde desta terça e celebrou como se já fosse Natal. Para ele, era.

Serviço:
O Programa de Alfabetização de Adultos do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) tem, atualmente, 134 alunos.
Para se inscrever é preciso ter mais de 14 anos.
Mais de 70% dos estudantes são adultos e idosos e chegam ao CIEE sabendo apenas escrever o nome.
O programa respeita o tempo de cada um. Por isso, as turmas são cíclicas e multisseriadas.
As aulas ocorrem de segunda a quinta-feira, com duração diária de 2h30min. Há turmas nos períodos manhã e tarde.
As matrículas são aceitas ao longo do ano.
Informações direto no local (Avenida Borges de Medeiros, 328, 8º andar, Centro) ou pelo telefone 3284-7099.

 

Com informações de GaúchaZH

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