“Cada final de amor é uma pequena morte”

Fabíola Simões

Ontem, assistindo à série Grey’s Anatomy, me deparei com um episódio em que uma recém nascida tinha que ser operada de um tumor no coração. Após a retirada do tumor, seu coração começou a falhar, e enquanto os médicos assistentes se preparavam para a reanimação, a chefe da cardiologia disse: “Meu plano é dar um minuto a ela. Ela acabou de perder algo enorme que estava com ela desde o começo. O coração precisa aprender a bater sem a carga extra. Ela só precisa de um tempo para se adaptar.” 

Ok, a série é uma ficção muito bem escrita, mas o fato é que precisamos encarar o fim do amor como uma pequena morte, uma perda que deve ser sentida e vivida como um pequeno luto. Temos que viver nosso “um minuto” de tempo para nos adaptarmos a uma outra forma de vida, completamente nova. E se não encararmos a dor do fim do amor como uma despedida definitiva em vida, não seguimos em frente como deveríamos.

Há muitos anos, após um rompimento que me fez sofrer muito, recebi a visita de uma grande amiga e fomos ao cinema assistir ao drama “Lado a Lado”. Pra quem não sabe, o filme é triste e melancólico, e arranca lágrimas com facilidade. Pois bem. Eu estava sofrendo pelo fim do meu namoro, chorando escondida no chão frio do banheiro, mas não me permiti derramar uma lágrima sequer durante a exibição do filme para não “dar o braço a torcer” para minha amiga (e quem quer que fosse) que eu estava mal. Eu não queria demonstrar que também enfrentava um luto.

Existe uma censura muito grande que não nos permite demonstrar nosso sofrimento pela despedida do amor tal qual a despedida provocada pela morte. Porém, em ambos os casos, é preciso admitir que dói, que restou um vazio, que perdemos algo que amávamos. É claro que não precisamos anunciar nossa aflição por aí, mas talvez ajudasse sermos honestos com nossos sentimentos, reconhecendo que de vez em quando é preciso dar trégua ao discurso do pensamento positivo e simplesmente expressar nossa tristeza, nossa indignação, nosso abandono e abatimento.

A literatura está cheia de estatísticas a respeito do tempo de recuperação de um coração partido. Porém, tenho aprendido que para as dores do coração, cada um tem seu próprio tempo de recuperação. E ela depende de inúmeras variáveis, mesmo porque a dor da perda pode estar misturada à dor da rejeição, à raiva da traição, ao desmoronamento dos sonhos e planos. Seguir em frente depois da desistência do amor é entender que não se “cura” o fim de uma relação importante. O que acontece é que a gente aprende a conviver com as perdas, a não enrijecer com as tristezas, a ter fé de que pouco a pouco tudo se ajeita, dentro e fora de nós.

Dure o tempo que durar, entenda que vai passar. Só não tenha pressa. Não saia por aí reanimando um coração que ainda não está pronto para acelerar. Tenha paciência e espere seu tempo de recuperação. A vida não é uma corrida para ver quem supera mais rápido ou disfarça melhor.

Dizem que a dor do amor é semelhante ou ainda maior que uma dor física. Porém, ela vai permanecer o tempo que você permitir. E uma hora você terá que autorizar que ela vá embora. Terá que estar disposto a abrir mão daquilo que lhe integrava e não integra mais. Terá que aprender a desapegar, a se despedir, a transformar a dor da perda numa saudade bonita, que poderá lhe acompanhar indefinidamente, mas com certeza não lhe fará mais mal.

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Imagem de capa:  Axel Bueckert/ Shutterstock

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.