Ao sofrimento: Obrigada por ter me feito mais forte

Não defendo a dor nem o sofrimento, mas acredito que, já que não podemos evita-los, devemos aprender com eles. E no fim agradecê-los por terem feito de nós pessoas mais fortes. Por permitirem que, de um jeito inesperado, nos tornássemos capazes de usar a sabedoria a nosso favor, tirando algum proveito da dor. Por nos mostrarem que, em algum lugar dentro de nós existe uma força que nos sustenta quando tudo o mais desmorona.

Assistindo a um vídeo do Dr Rubem Alves no YouTube, me deparei com sua explicação pessoal para a doce frase que intitula um de seus livros: “Ostra feliz não faz pérola”. Ele dizia que só a ostra que sofre é que faz pérola. Porque, para fazer a pérola, a ostra precisa ter alguma coisa que a irrite, um grãozinho de areia que a faça sofrer. Então, ao invés de eliminá-lo, ela envolve aquele ponto agudo cortante por uma substância lisa. E a ostra vai produzir a pérola para deixar de sofrer.

Não defendo a dor nem o sofrimento, mas acredito que, já que não podemos evita-los, devemos aprender com eles. E no fim agradecê-los por terem feito de nós pessoas mais fortes. Por permitirem que, de um jeito inesperado, nos tornássemos capazes de usar a sabedoria a nosso favor, tirando algum proveito da dor. Por nos mostrarem que, em algum lugar dentro de nós existe uma força que nos sustenta quando tudo o mais desmorona.

Uma das orações mais bonitas que existem é a Oração da Serenidade. Criada durante a Segunda Guerra Mundial, fala de aceitação, coragem e sabedoria. Não à toa é recitada em grupos de recuperação de vícios, pois sintetiza de forma muito bonita como podemos encontrar equilíbrio e harmonia naqueles momentos em que a vida nos tira o chão.

A parte mais conhecida da oração diz assim: “Concede-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma das outras”. Mas também gosto do trecho da oração completa que fala assim: “Aceitando esse mundo tal como ele é, e não como eu queria que fosse”.

O mundo tal como ele é nem sempre é como a gente desejaria, ou sonharia que fosse. Por isso, é preciso discernimento para entender onde nossa energia e boa intenção podem frutificar ou não. É preciso sabedoria para recuar, para aceitar o que não dá para mudar, para talvez, quem sabe, seguir por outro caminho. Porém, o que vejo por aí é muita gente dando murro em ponta de faca, se enfurecendo com a vida, com Deus, com as pessoas… quando deveria apenas confiar. Outras vezes, me deparo com o contrário: tanta coisa a ser feita, tantas mudanças positivas a nosso alcance, e falta ânimo e coragem para começar.

Aceitar é um gesto de humildade, de reconhecer nossa pequenez diante de Deus, e também um ato de fé, ao admitir que há um propósito maior para a dor, que eu não entendo nem consigo explicar, mas no qual acredito e confio.

Quando uma ostra produz uma pérola, ela entende – e aceita – que não há como expelir o grão de areia que tanto a machuca. Assim, busca dentro dela recursos para que possa vencer a dor dignamente. Buscando uma saída, produz uma pérola. Essa é uma belíssima analogia da sabedoria da natureza que poderia inspirar a sabedoria humana, tão rara nos dias atuais.

Não adianta vivermos ressentidos com o sofrimento que a vida nos impõe. Não somos vítimas de uma conspiração divina para nos punir. Certas coisas acontecem aleatoriamente, e se não aprendemos a entrar no ritmo da vida, sofremos mais. Temos que perdoar os infortúnios, e seguir sem nos sentirmos magoados com a existência.

É preciso aprender a ser forte sem perder a delicadeza. Aprender a tolerar as mudanças de planos, os desvios de rota e a quebra de contratos com paz no coração e absolvição das próprias culpas. É preciso acreditar que, ainda que a vida nos machuque repetidas vezes, temos a possibilidade de desgastar-nos ou afiarmo-nos, tudo depende do metal de que somos feitos…*

*Essa frase é referência á célebre frase de George Bernard Shaw: “A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.”

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Também é autora dos livros "A Soma de todos os Afetos" e "Felicidade Distraída".