Amor mole em alma dura, tanto bate até que… fura

Baixei a guarda, desarmei o orgulho, passei óleo de peroba na cara e fui à luta: eu vou chover doçura nessa sua armadura de amargura.

Porque eu sei que o amor não é equação de dois iguais, e eu sei que a vida não é sempre uma loteria em que a gente conta com a sorte e com as coincidências. Em que dois seres se encontram, se apaixonam, se compreendem, se permitem viver algo num mesmo momento.

A gente se desiguala, a gente se desencontra, a gente se desconhece. Mas a gente pode escolher ter paciência ao invés de abandonar o barco com medo de perder tempo e energia. E a gente pode escolher fazer mudanças por uma delicadeza perseverante e não pela força dos argumentos.

Não te coloco no centro da minha vida, não quero mover oceanos, te convencer de nada, alterar o rumo das marés, te desestabilizar inteiro, gastar toda a minha força e vontade.

Vim aqui sem tecnologia, mecânica, engenharia. A minha arma é o amor.

E assim, sem grandes intenções, vou devagarzinho te jogando gotas de carinho a cada dia. Vou ser invisível como o vento, constante como a onda, sutil como o sol da manhã.

Devagar, eu sei, é assim, vou te tirando umas lasquinhas, um sorriso, um brilho no olhar. Vou amolecendo seu coração. Não para que a gente se funda, mas para que eu te abra para a vida.

A minha dança é gratuita, fico feliz de me expressar perto de você ou de quem seja. Sou força transformadora como a água, nasci para desestabilizar conceitos e amaciar pensamentos. Mas vou com jeito, porque sei que almas duras tendem a sair correndo com grandes impactos.

Um dia te sopro um segredo no ouvido, no outro te deixo de lado.

Não é com fúria, pressa e veemência que se abre uma ostra. É com tempo, carinho e cuidado.

Parece brincadeira, mas já vi por aí pedras de gelo virarem vapor d’água. E é por isso que eu acredito que amor mole em alma dura tanto bate até que fura.

Imagem de capa: FCSCAFEINE/shutterstock







Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.