Amizade de verdade é uma sorte

Separadas, mandavam áudios longos que pareciam verdadeiras palestras. Sabiam que a internet reduzia distâncias, que as chamadas de vídeo ajudavam com as saudades, mas conexão nenhuma substituia um abraço sincero e um olho no olho que falava por si só.

Ana Carolina Faria Bortolo

Eram amigas porque tinham que ser. Tinham se conhecido sem querer, enquanto trabalhavam num lugar de gente doida. Se gostaram de cara, talvez por empatia, talvez pela compatibilidade de signos: duas virginianas. Eram duas personalidades diferentes que foram se aconchegando uma na outra até descobrirem o óbvio: ter uma na vida de outra e poder compartilhar daquela amizade era uma grande sorte.

Eram conversas molhadas de café com tapioca e queijo coalho naquela cozinha simples que tinha só um fogão, uma geladeira, uma parede branca e muita história pra contar.

Eram vinhos que ninguém combinava de comprar, mas que quando chegavam em casa já tinham duas xícaras de plástico, uma garrafa de Naturelle na porta da geladeira e uns amendoins num pratinho de papel. Cenário montado e carinho desavisado falando aos ventos: “hey, venham aqui vocês duas, é hora de se entregarem às risadas uma da outra.

Eram dois sotaques, na verdade três. Um sotaque paulista de uma desgarrada da própria terra que às vezes deixava escapar um “mano, cê tá zoando né?!” e de uma pernambucana que soprava felicidade quando brincava “nunca ouvisse visse?!”. Nessa mistureba, as duas ainda tinham um terceiro elemento: moravam no Ceará e, sem nem perceberem, incorporavam o “massa”, o “vai dar certo” e o “arrudiou”.

Eram roupas de tamanhos diferentes que de repente serviam bem pra todo mundo. Eram shorts emprestados pra ir pra academia, quimonos combinados de última hora pra ver a amiga aumentar a auto-estima e ir feliz pro show com seu namorado.

Eram, também, dois namorados meio noivos meio casados, todo mundo ali, sob o mesmo teto. O namorado de uma tinha a personalidade da outra, e o namorado da outra era secão que nem a uma. Curioso pensar nessa brincadeira de perfis: elas, na verdade, no amor e na amizade, conviviam bem com seus opostos.

Elas eram felizes cada uma à sua maneira, mas se faziam felizes também. Enquanto uma fazia um brownie com pedacinhos de chocolate branco só pra agradar à amiga, a outra vinha com seu estojo de maquiagem imenso, seu abajur e seus pincéis e dizia “amiga, venha cá sentar que vou te deixar um escândalo de beleza hoje”.

Eram amigas, também e principalmente, no silêncio. Uma sabia quando a outra estava na escada, com a cabeça encostada no batente, perguntando pra lua cheia se aquele amor daria certo. Ela sempre chegava lá, “arrudiava”, sentava e, calada, dava o ombro pra amiga chorar de soluçar. Ela não falava nada, só ouvia como tinha que ouvir. Ela sabia que a amiga estava além do limite do esforço mental e a admirava por aguentar tantas coisas por aquele relacionamento. Ela mesma não conseguiria. Então, olhando pr’aquele mesmo céu, ela secava as lágrimas da amiga e aprendia a ter empatia pelos créditos e débitos de cada um.

Da mesma forma, a outra sabia quando a amiga chegava em casa feito um furacão e se trancava no quarto. Ela ia de mansinho, colocava o ouvido atrás da porta, percebia aquele silêncio ensurdecedor do outro lado e, com cautela e carinho, perguntava “tá tudo bem com você?” De repente a porta se abria e por ela saia uma menina linda, de touca no cabelo e unhas sendo feitas falando “Tá tudo ótimo”. As duas sabiam que não estava, e cada uma delas lidava de um jeito com as aflições íntimas. A empatia vinha quando a amiga falava “tá bom, se precisar conversar estou aqui” e saia, deixando as unhas serem pintadas e as cicatrizes pararem de arder.

Eram duas vidas que se cruzavam e se separavam a todo momento. A cada nova chegada, celebravam. A cada despedida, controlavam as lágrimas, se abraçavam e iam embora: uma sem olhar pra trás e de coração profundamente partido, e a outra fazendo stories dos últimos momentos e guardando tudo de bom que tinham vivido numa gavetinha dentro de si.

Elas nunca tinham ideia de quando se veriam de novo, onde seria e por quanto tempo. Nenhum desses detalhes realmente importava, porque elas sabiam que tinham tido a sorte de ter vidas cruzadas apesar de serem espíritos livres. Afinal, até mesmo os livres se reconhecem quando encontram um semelhante.

Inteligentes e criativas, tinham estudado assuntos completamente diferentes mas sonhavam com um casamento profissional que unisse suas qualidades. Afinal, além de se admirarem e se reconhecerem um pouco uma na outra, elas também queriam uma desculpa para precisarem se encontrar com mais frequência e não apenas quando o destino decidisse.

Separadas, mandavam áudios longos que pareciam verdadeiras palestras. Sabiam que a internet reduzia distâncias, que as chamadas de vídeo ajudavam com as saudades, mas conexão nenhuma substituia um abraço sincero e um olho no olho que falava por si só.

Os milhões de quilômetros que as deixavam longe uma da outra de tempos em tempos também ensinavam: percebiam as afinidades pelo tom de voz, pela choro engolido no final de determinado assunto, pelas palavras digitadas com uma raiva que saia da tela e dava um soco na cara da outra.

Mas uma coisa nunca mudava: quando se percebiam juntas, pessoal ou virtualmente, brilhavam mais. Se sentiam mais felizes, mais completas, mais motivadas a seguir seus sonhos sabendo que alguém em algum lugar do Globo estava torcendo pra caralho pra dar tudo certo, fazendo oração e pedindo diariamente pra que a vida fosse gentil com aquela alma amiga que seria sempre parte uma da outra. Porque amizade, amizade de verdade, é uma bênção – e uma sorte.

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Photo by bruce mars from Pexels

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Ana Carolina Faria Bortolo
Turismóloga e Administradora de Novos Negócios por formação. Escritora, pintora e dançarina por vocação. Planejadora de eventos, bartender, agente de viagens e vendedora por profissão. Garçonete de navio por opção. Vi o mundo e voltei, e de todos os rótulos que carrego na bagagem, só um me define bem: sou uma ótima contadora de histórias.