A síndrome de Calimero: autossabotagem e vitimismo

O exagero dessas reclamações podem ser os reflexos da irritação causada pelo desânimo ou pelo mecanismo inconsciente de autossabotagem, onde o sujeito expõe um enredo complicado de situações que viveu ou está vivendo, a fim de que o seu sofrimento seja ouvido e considerado.

Jackson César Buonocore

A palavra reclamar deriva do latim reclamare, que significa “gritar ou protestar contra”. Aliás, todos nós conhecemos alguém que reclama o tempo inteiro. O psicanalista italiano Saverio Tomasella analisa esse perfil em seu livro: “A síndrome de Calimero”, que se refere à pessoa que não para de reclamar das coisas ruins que ocorrem em sua vida.

Para Tomasella, há por trás disso uma dor intensa e cita como exemplo, a metáfora de uma animação italiana-japonesa da TV, com o nome de Calimero. Ela narra a história do principal personagem: um pintinho preto mal-humorado, oriundo de uma família de galináceos amarelos, que veste metade de sua casca de ovo na cabeça.

O pintinho era simpático, mas ingênuo. Passava a vida a lamentar-se, a sentir-se infeliz e injustiçado. Ficou conhecido, por dizer frases do tipo: “É uma injustiça, abusam de mim porque sou pequenino”. Assim, a síndrome de Calimero é um fenômeno contemporâneo, que culpa os outros pelas suas falhas, criando um clima de pessimismo no relacionamento amoroso, familiar, escolar, de amizade, de trabalho, etc.

O exagero dessas reclamações podem ser os reflexos da irritação causada pelo desânimo ou pelo mecanismo inconsciente de autossabotagem, onde o sujeito expõe um enredo complicado de situações que viveu ou está vivendo, a fim de que o seu sofrimento seja ouvido e considerado.

Porém, tem aquele Calimero que busca apenas dramatizar as suas emoções de modo vitimista, com o intuito de manter uma relação de dependência com as pessoas. Ele ainda gosta de apontar os erros de outrem, como uma forma de descrever a si mesmo, e por isso fica infeliz com a felicidade alheia.

Esse é um comportamento queixoso que tende a distanciar as pessoas, já que elas têm os próprios problemas. Segundo Tomasella, as queixas do Calimero escondem “feridas” que se originam de experiências traumáticas da infância, o que dispara o “gatilho” de tantas reclamações.

É por isso que durante a infância e adolescência a derrota pode servir de lição e a vitória deve ser valorizada pelos pais e pela escola, contribuindo para que o adulto se torne um ser resiliente, que é capaz de lidar e superar as adversidades, transformando as experiências negativas em aprendizado.

Na verdade, o Calimero está pedindo “socorro” e não quer prejudicar ninguém, entretanto, é necessário compreender os sentimentos e as emoções de maneira objetiva e racional do indivíduo que sofre dessa síndrome, uma vez que ele precisa de ajuda para retirar a “casca de ovo de sua cabeça,” que simboliza um trauma psicológico.

A psicoterapia também é indicada nesse caso, pois é um sofrimento resultante de um evento angustiante ou de uma grande quantidade de estresse que afeta a capacidade do sujeito de enfrentar as suas emoções, que necessitam ser elaboradas e resolvidas.

Portanto, às vezes gritar ou protestar contra algo que incomoda pode aliviar as tensões, contudo, lamentar-se, sentir-se infeliz e injustiçado a todo o momento transforma a pessoa em um Calimero, que o afastará de seus familiares, amigos e colegas de trabalho.

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Jackson César Buonocore é sociólogo e psicanalista

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Jackson César Buonocore Sociólogo e Psicanalista