A fobia de ver no outro o que rejeito em mim

Sobre as piadinhas com LGBT+s e a agressividade contra eles e elas

Foi com muita dor que li a notícia , há alguns dias, de que um jovem gay de 21 anos, Guilherme de Souza, foi morto apedrejado por adolescentes de 14 e 16 anos, no interior da Bahia, porque estes “não gostavam de homossexuais”.

Também outro dia li que a parceria de ação do dia dos pais que a Natura fez com Thammy Miranda, homem trans, gerou uma onda de ataques de ódio.

Há anos se leem e se veem notícias sobre agressões e mortes de pessoas LGBT+s, o que remonta desde o Brasil colônia, como João Silvério Trevisa nos relata.

Há tempos atendo pessoas ou ouço relatos de quem está em profundo sofrimento com sua sexualidade, por não ser aceito pelos pais ou pela sua religião, por medo de ser motivo de chacota no trabalho ou entre amigos.

Lembro-me do caso de um jovem, de vinte e poucos anos, que levou meses para me contar que era gay – na verdade para admitir para si mesmo que o era. Falou de muitas outras coisas antes, depois disse que era bissexual, até que, finalmente, com muita dor e medo, conseguiu nomear o seu desejo.

Mas também recebo pais sofrendo porque percebem “algo” nos filhos. Alguns dizem “ele precisa de uma figura masculina”, outros indagam “como fazer para reverter isso?”. Outros ainda: “minha filha está em pecado, como vou fazer?”.

Num país em que um presidente faz piada com o uso de máscara na pandemia – “é coisa de veado” – em que torcer para determinado time de futebol é razão para ser tachado de “bambi”, em que muitas religiões (não todas, claro) vociferam o estado “pecaminoso” da sexualidade que não seja a do “papai-mamãe” somente para procriação, não é à toa que as pessoas LGBT+ despertem tanto repúdio – no fundo, tanto fascínio.

Fascínio porque os/as LGBT+s escancaram que a sexualidade humana pode até servir para procriação, mas esta é mero efeito, quase casual. A nossa sexualidade e identidade de gênero são um caldeirão de fatores biológicos, psíquicos e sociais, tudo junto e misturado, que, muitas vezes, vão justamente na direção oposta às prescrições.

Lacan foi taxativo : é a falta que instaura o desejo; é o que se perdeu, o que não se pode ter (plenamente) que excita.

Na hora do sexo, provavelmente ninguém se excita realmente com alguém porque vai gerar um filho – excita-se por se sentir desejado(a) ou dominador(a); pela bunda grande ou pelo pé delicado; pela beleza ou pela esquisitice da outra pessoa (ou até de alguém que não está nem presente no ato!). Excita-se por seja lá que traço vir no outro, sem nem saber direito o quê e porquê. Quer dizer, as “escolhas” referentes a isso, que cada um vai fazendo ao longo de seu desenvolvimento, são inconscientes!

Nenhuma criança, nenhum(a) adolescente decidem, racionalmente, em determinado momento: “nossa, esse peito é gostoso!” ou “que vontade de me vestir de mulher/ de homem” ou ainda “quero tocar na genital da minha coleguinha/ do meu coleguinha”. Isso vem sem que se saiba direito de onde, por um jogo de fantasias inconscientes que vamos construindo na relação com o outro.

As receitas apregoadas por quem nada entende do assunto – “dá uma surra, que resolve!”, “isso é pecado”, “mamãe vai ficar muito triste” – só costumam provocar, não raras vezes, um evento traumático e, justamente ao contrário do que era buscado, uma fixação da criança/ do(a) adolescente naquilo que foi rejeitado.

Já as piadinhas sobre o assunto, que são ditas e repetidas nas mais diversas situações, podem até parecer ser um meio, aparentemente inocente, de extravasar. Mas Freud descobriu o quanto rimos daquilo que nos diz respeito no mais íntimo de nosso ser. Quanto mais recalcado estiver algum desejo nosso (quanto mais inconsciente e rejeitado for), mais engraçada a piada será.

Mas quem conta muita piada de determinado tema ou ri demasiado dele, muitas vezes não se dá conta da razão de tanto riso, não a admite, nem para si mesmo. Vai ter indícios disso em algum sonho erótico que tenha, na raiva ou na angústia que vai sentir ao ver dois homens/ duas mulheres se beijando, ao ver garotos como o Guilherme andando na rua ou paquerando, ao assistir ao Thammy cuidando feliz do filho.

Podem argumentar alguns que é melhor fazer piada do que agredir verbal ou fisicamente. A agressão é sinal de que a palavra já não foi capaz de segurar o que pulsa em nós (e rejeitamos), quando nos sentimos ameaçados intimamente. Sim, concordo, mas também é preciso levar em conta a agressividade (e certo sofrimento) subjacente em toda piada. É preciso notar que, de piada em piada, continuamos a criar um ambiente em que é preciso rechaçar o que temos de mais essencial – a nossa sexualidade – para tentar ser aceito pelo Outro (pela família, pelos colegas de escola, de trabalho, de religião, pela sociedade em geral, por Deus ou entidade superior em que acreditamos).

A risada (agressiva) do machão ou da mulher “toda poderosa”, a revolta dos extremistas religiosos, no fundo, são a expressão de sua fragilidade, da sua tentativa de aplacar e apagar o que rejeitam em si mesmos; de afastá-los(las) do desamparo de não serem amados, de não serem tão especiais, tão poderosos, de serem excluídos na relação com o Outro. O Guilherme, o Thammy e tantos outros e outras LGBT+s lidam com essa fragilidade também, de outro jeito, mas, algumas vezes, não têm a chance de continuar…

Que graça tem?

***

Imagem de capa: Pixabay (Julie Rose – LollipopPhotographyUK)

Referências:

TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 6ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). In: Obras Completas, volume 07. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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Antônio Carlos de Barros Jr
Psicanalista, doutor e mestre em Psicologia Social pela USP. Autor do livro "Quem vê perfil não vê coração: fragilidades narcísicas e a construção de imagens de si nas redes sociais", Editora Escuta, 2018. Foi membro da Associação Campinense de Psicanálise entre 2004 e 2010, onde fez sua formação psicanalítica, conduziu alguns seminários e iniciou sua prática clínica. Atuando também na área da Educação, desde 2007, já ministrou disciplinas de graduação e de pós-graduação, além de ter conduzido inúmeros cursos, workshops, palestras e webinars para empresas dos mais diversos segmentos do mercado. No início de sua carreira atuou também como gestor de pessoas. Vem estudando e pesquisando, no âmbito da Psicanálise e da Psicologia Social, as relações sociais em geral, as redes sociais virtuais e os sujeitos na pós-modernidade.