A cada amanhecer

Faz um mês que me mudei para os Estados Unidos. Eu já tinha vindo aqui antes, então achava que sabia o que esperar. Aos olhos de turista, tudo aqui era lindo, novo e moderno. Tudo era melhor. O sonho americano, porém, não é bem assim.

Faz um ano que sai de casa e do meu país para ir trabalhar a bordo de um navio de cruzeiros. Joguei meus diplomas no lixo, desenterrei o inglês da gaveta e coloquei uma bandeja na mão. Meus pais não aprovaram e não acreditaram que eu ia, mesmo, deixar tudo para trás. Quando iam me visitar no porto, me olhavam como se eu não soubesse o que estava fazendo. Esperavam mais de mim.

Faz dois anos que eu fui embora da casa do meu ex marido. Não tínhamos um problema, só que também não tínhamos amor. Esse era, provavelmente, o maior problema de todos. Mas ninguém se separa porque não há mais amor. “Isso não é motivo”, diz a sociedade. Na verdade é, buscar a felicidade sempre é um motivo importante, mas nem todo mundo vê as coisas assim.

Faz quatro anos que meu cachorrinho, tão querido, tão companheiro, faleceu. Lembro até hoje dele no meu pé, deitado, me fazendo companhia quando eu estava imensamente feliz e quando eu estava infinitamente triste. Ele ficava ali, caladinho, esquentando meus pés e meu coração. Sua partida deixou um buraco e seu amor ficou em meu coração, me lembrando sempre que toda forma de amor é válida, mesmo que tenha um fim.

Faz cinco anos que eu fui demitida do meu trabalho. Descobri que minha chefe fazia caixa dois na empresa e, quando fui contar ao RH, descobri que a empresa inteira era um caixa dois. Aprendi naquele dia que a corda arrebenta do lado mais fraco, e que a justiça dos homens nem sempre é, realmente, justa. E que você deve cuidar apenas do seu jardim.

Tenho muitas lembranças, muitas marcas e cicatrizes das decisões que tomei e que tomaram por mim. A graça da vida é, justamente, aprender a viver o presente e lidar com o que vem a seguir. Você tem que dançar conforme a música, encontrar seu propósito e fazer o seu melhor todos os dias da hora em que acorda até a hora em que vai dormir. E agradecer por cada conquista e por cada obstáculo, pois eles constroem seu caráter e te evoluem. E lá na frente, lá no fim, quando você olhar para trás, vai ter muita história pra contar, boas e ruins, com começos, meios e fins. Nem todos os finais são felizes, mas todos são necessários para que o sol nasça novamente para nós a cada amanhecer.

Imagem de capa: tongcom photographer/shutterstock

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Ana Carolina Faria Bortolo
Turismóloga e Administradora de Novos Negócios por formação. Escritora, pintora e dançarina por vocação. Planejadora de eventos, bartender, agente de viagens e vendedora por profissão. Garçonete de navio por opção. Vi o mundo e voltei, e de todos os rótulos que carrego na bagagem, só um me define bem: sou uma ótima contadora de histórias.