Em 15 de maio de 1987, a passagem da princesa Diana pelo Festival de Cannes durou poucas horas, mas produziu algumas das imagens mais conhecidas de sua relação com a moda. Ao lado do então príncipe Charles, ela surgiu para os compromissos da noite usando um vestido azul-claro de chiffon de seda, sem alças, criado por Catherine Walker.
A escolha chamou atenção imediatamente. O tecido leve, acompanhado por uma longa estola do mesmo material, ganhava movimento com o vento da Riviera Francesa enquanto Diana era cercada por fotógrafos. Havia, porém, uma referência específica naquele modelo que passou quase despercebida para boa parte do público na época.
Segundo o próprio catálogo da Christie’s, onde a peça seria leiloada anos depois, o vestido havia sido inspirado na “simplicidade clássica” associada a Grace Kelly.
A ligação fazia sentido tanto pela estética quanto pela história das duas mulheres.
Uma referência a Grace Kelly
Antes de se tornar princesa de Mônaco, Grace Kelly foi uma das grandes estrelas de Hollywood dos anos 1950. Em Ladrão de Casaca (To Catch a Thief), filme de Alfred Hitchcock lançado em 1955 e rodado na Riviera Francesa, ela apareceu usando um vestido azul de chiffon criado pela figurinista Edith Head.
Décadas depois, Catherine Walker retomou elementos daquele visual ao trabalhar com Diana. O vestido usado em Cannes tinha tonalidade semelhante, silhueta fluida e uma estola de chiffon que remetia ao figurino de Grace no longa. Publicações especializadas em moda também registram que Diana e Walker partiram especificamente dessa referência cinematográfica.
Há ainda uma coincidência geográfica importante. Grace Kelly conheceu o príncipe Rainier III de Mônaco durante uma visita à região de Cannes em 1955. No ano seguinte, os dois se casaram, e a atriz deixou Hollywood para assumir suas funções na família principesca de Mônaco.
Assim, quando Diana apareceu em Cannes usando uma criação inspirada justamente em Grace, a escolha reunia referências ao cinema, à realeza e à própria Riviera Francesa.
Não há, porém, registro confiável de Diana ter declarado publicamente naquela ocasião que o vestido fosse uma “despedida” pessoal ou uma homenagem motivada diretamente pelo luto. O que está documentado é a inspiração em Grace Kelly. A interpretação emocional ganhou força posteriormente, sobretudo porque as duas haviam tido um encontro marcante poucos anos antes.
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O encontro entre Diana e Grace
Diana conheceu Grace Kelly em 1981, pouco depois de seu noivado com Charles. Naquele momento, Diana tinha 19 anos e ainda estava se adaptando à exposição que acompanhava sua entrada na família real britânica.
Relatos posteriores, inclusive baseados nas gravações usadas pelo biógrafo Andrew Morton, indicam que Grace foi especialmente acolhedora com a jovem Diana durante um evento em Londres. Diana posteriormente descreveu a princesa de Mônaco como alguém que sempre havia sido gentil com ela.
As duas tinham experiências diferentes, mas compartilhavam uma circunstância incomum: ambas haviam chegado à realeza vindas de fora daquele ambiente e passaram a enfrentar enorme atenção pública.
Grace já convivia havia décadas com esse tipo de exposição. Diana, ao contrário, estava começando a experimentar a dimensão do interesse da imprensa por sua vida.
A proximidade entre elas não teve tempo de se desenvolver por muitos anos. Grace morreu em setembro de 1982, aos 52 anos, após sofrer um acidente de carro em Mônaco. Diana chegou a viajar ao principado para o funeral.
Anos depois, ao recordar a decisão de comparecer à cerimônia, Diana explicou que considerava importante estar presente justamente porque Grace também havia entrado em uma grande família vindo de fora, situação com a qual ela própria se identificava.
Cinco anos após a morte de Grace, a referência reapareceria no vestido escolhido para Cannes.
Uma passagem curta que virou parte da história de sua moda
Diana e Charles estavam no 40º Festival de Cannes para apoiar a indústria cinematográfica britânica. A programação daquela sexta-feira incluía uma homenagem ao ator Alec Guinness e a exibição de The Whales of August, com Bette Davis, Lillian Gish e Vincent Price.
Uma reportagem publicada pela UPI no próprio dia 15 de maio de 1987 registrou a intensa movimentação provocada pela visita do casal, incluindo fortes medidas de segurança e áreas temporariamente fechadas no festival.
Foi nesse contexto que Diana apareceu com o vestido de Catherine Walker.
A peça era feita de chiffon de seda azul-claro, com drapeados no corpo e uma estola combinando. Registros fotográficos da noite mostram o acessório se movimentando com o vento enquanto Diana subia as escadas e circulava entre convidados e fotógrafos. A Getty Images confirma que o vestido foi usado na gala realizada em homenagem a Alec Guinness naquela noite.
O traje acabaria sobrevivendo ao evento que o tornou famoso.
Diana voltou a usá-lo em 1989, na abertura do musical Miss Saigon. Essa segunda utilização também consta no registro histórico da Christie’s.
Em 1997, poucos meses antes de sua morte, Diana decidiu vender dezenas de peças de seu guarda-roupa em um leilão beneficente realizado pela Christie’s em Nova York. Ao todo, foram oferecidos 79 vestidos, e a venda arrecadou mais de US$ 3 milhões para instituições beneficentes ligadas ao combate à AIDS e ao tratamento do câncer.
O vestido azul de Cannes estava entre eles.
Anos depois, a peça voltou ao mercado. Em 2013, foi vendida por £81 mil em um leilão organizado pela Julien’s Auctions, com a renda destinada a uma instituição de caridade voltada para crianças.
Muito do significado atribuído hoje ao vestido surgiu da combinação desses elementos: a confirmação de que Grace Kelly inspirou sua criação, o encontro anterior entre as duas princesas e o fato de Diana ter escolhido aquela referência justamente para uma aparição em Cannes.
A documentação disponível permite afirmar que a homenagem estética existiu. Já a ideia de uma despedida silenciosa pertence à interpretação construída em torno da peça ao longo dos anos. O vestido, de qualquer forma, preservou uma conexão concreta entre duas mulheres que chegaram à realeza por caminhos diferentes e que, por um breve período, tiveram suas trajetórias cruzadas.
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