Stephen Colbert se tornou um dos rostos mais conhecidos da televisão americana graças ao humor político, às entrevistas e à capacidade de transformar assuntos sérios em material para a comédia. Décadas antes de chegar aos programas que o tornariam famoso, porém, sua vida foi alterada por uma tragédia familiar ocorrida quando ele ainda era criança.
Colbert tinha 10 anos quando perdeu o pai e dois irmãos em um acidente aéreo na Carolina do Norte. A experiência afetou profundamente sua infância e sua relação com os estudos, além de deixar marcas que ele continuaria discutindo publicamente muitos anos depois.
Nascido em 1964, em Washington, D.C., e criado principalmente na Carolina do Sul, Colbert era o mais novo de 11 filhos. Cresceu em uma família católica e cercado por irmãos bem mais velhos. Seu pai, James William Colbert Jr., era médico e acadêmico.
Em 11 de setembro de 1974, James viajava com os filhos Peter e Paul, os irmãos mais próximos de Stephen em idade, a bordo do voo 212 da Eastern Air Lines. O avião seguia para Charlotte, na Carolina do Norte, quando caiu durante a aproximação para o aeroporto.
O DC-9 atingiu o solo cerca de 5 quilômetros antes da pista. Segundo a investigação do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos, o NTSB, a tripulação perdeu a consciência adequada da altitude em momentos críticos da aproximação e não seguiu corretamente os procedimentos previstos. Havia 82 pessoas a bordo. Onze sobreviveram inicialmente, mas uma morreu em decorrência dos ferimentos semanas depois.
Para Colbert, a perda criou uma divisão muito clara entre a infância que levava até então e a vida que passou a existir depois do acidente.
Anos mais tarde, em uma conversa com Anderson Cooper, ele explicou que suas memórias anteriores à morte do pai e dos irmãos pareciam separadas das lembranças posteriores. O próprio apresentador confirmou durante a entrevista que Colbert tinha 10 anos e que Peter e Paul eram os irmãos imediatamente mais velhos que ele.
Como boa parte dos irmãos já havia saído de casa, Stephen passou os anos seguintes principalmente ao lado da mãe, Lorna. O ambiente familiar ficou mais silencioso, enquanto questões comuns da infância perderam importância para ele.
A escola também deixou de despertar interesse. Colbert contou posteriormente que, depois das mortes, muitas coisas simplesmente deixaram de fazer sentido. Nesse período, aproximou-se cada vez mais da ficção científica, da fantasia e de obras como as de J.R.R. Tolkien.
Esse interesse permaneceu na vida adulta, mas outra atividade acabaria exercendo influência ainda maior em seu futuro profissional: o teatro.
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Do teatro dramático à improvisação
Colbert começou os estudos universitários no Hampden-Sydney College, na Virgínia, e depois se transferiu para a Northwestern University, em Illinois. Ele entrou na instituição interessado principalmente em atuação dramática e concluiu em apenas dois anos um programa de teatro normalmente estruturado para três.
Foi durante esse período que a improvisação começou a ocupar espaço maior em sua formação.
Depois da universidade, Colbert chegou a trabalhar na bilheteria do Second City, tradicional grupo de comédia de Chicago, antes de fazer aulas e entrar para a companhia itinerante em 1988. No ambiente da improvisação, conviveu com artistas que depois se tornariam parceiros ou nomes conhecidos do entretenimento, entre eles Steve Carell, Amy Sedaris e Paul Dinello.
A mudança não aconteceu imediatamente. Durante algum tempo, Colbert ainda tentou conciliar a comédia com a intenção de seguir carreira como ator dramático. Aos poucos, percebeu que se sentia mais à vontade no improviso e abandonou de vez o plano inicial.
Com Sedaris e Dinello, participou posteriormente de produções como Exit 57 e Strangers with Candy. Em 1997, entrou para o elenco de The Daily Show, onde desenvolveu uma versão caricata de um correspondente de televisão seguro de si e frequentemente mal informado.
O personagem ajudou a preparar o terreno para o passo seguinte.
Em 2005, estreou The Colbert Report, programa no qual interpretava uma versão satírica de comentaristas políticos e apresentadores de canais de notícias. A produção consolidou seu nome na televisão americana e permaneceu no ar por quase uma década.
A chegada ao lugar de David Letterman
Em 2015, Colbert assumiu um desafio diferente. Com a aposentadoria de David Letterman, foi escolhido pela CBS para comandar o Late Show.
A estreia de The Late Show with Stephen Colbert ocorreu em setembro daquele ano. Desta vez, ele deixou de lado o personagem que havia interpretado no Colbert Report e passou a apresentar o programa em seu próprio nome.
O formato manteve elementos tradicionais da televisão noturna americana, como entrevistas com artistas, apresentações musicais e convidados, ao mesmo tempo em que abriu bastante espaço para política e acontecimentos do noticiário.
Durante sua permanência na atração, o programa chegou ao primeiro lugar entre os programas noturnos das grandes redes americanas por nove temporadas consecutivas, segundo a própria CBS.
Em julho de 2025, a emissora anunciou que encerraria o programa e aposentaria toda a franquia Late Show. A CBS afirmou publicamente que a decisão era financeira e não estava relacionada ao desempenho ou ao conteúdo apresentado por Colbert.
A despedida aconteceu em 21 de maio de 2026, após aproximadamente 11 anos e mais de 1.800 episódios comandados por Colbert. O encerramento também colocou fim a uma franquia que permanecera no ar durante 33 anos, primeiro com David Letterman e depois com seu sucessor.
Décadas depois do acidente que marcou sua infância, Colbert continua falando sobre a perda sem tentar reduzi-la a uma explicação simples. Em entrevistas, costuma relacionar aquele período à forma como passou a compreender o sofrimento, a religião e a própria memória.
Ao conversar com Anderson Cooper sobre a morte do pai e dos irmãos, ele reconheceu que existe uma versão de si mesmo anterior ao acidente que lhe parece distante. A carreira que viria depois, construída primeiro no teatro e posteriormente na improvisação e na televisão, começou a tomar forma justamente nos anos em que ele tentava encontrar um caminho depois daquela ruptura.
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