Algumas das músicas mais agressivas do rock nasceram de alguém que, durante boa parte da infância, tinha dificuldade até para dizer o que sentia. Antes das guitarras pesadas, dos estádios lotados e de uma das bandas mais influentes do metal, havia um garoto extremamente tímido tentando entender o abandono do pai, a morte da mãe e uma sensação persistente de que havia algo errado com ele.
Esse garoto era James Hetfield, futuro vocalista, guitarrista e um dos fundadores do Metallica. Décadas depois, ele reconheceria que a música acabou funcionando como a voz que não conseguia encontrar na vida cotidiana.
Nascido em 3 de agosto de 1963, na Califórnia, James cresceu em uma família profundamente ligada à Ciência Cristã, religião cujos ensinamentos tiveram uma influência decisiva em sua infância. Seus pais seguiam uma crença que encarava os tratamentos médicos tradicionais com forte resistência.
A situação deixava o menino desconfortável até mesmo dentro da escola. Hetfield contou anos depois que era retirado de determinadas aulas sobre saúde e corpo humano por causa das convicções religiosas da família.
A sensação de isolamento aumentaria quando ele tinha cerca de 13 anos.
Seu pai, Virgil Hetfield, deixou a família. Segundo James relatou posteriormente, a partida aconteceu de maneira abrupta, enquanto ele estava em um acampamento ligado à igreja. Durante algum tempo, sua mãe teria dito aos filhos que o pai estava viajando a trabalho.
Hetfield recordaria aquela fase de maneira bastante direta:
“Eu me sentia sozinho.”
Em entrevista ao The New Yorker, ele contou que não compreendia direito o que estava acontecendo e chegou a acreditar que havia alguma coisa errada consigo mesmo.
A perda que apareceria anos depois em suas músicas
O abandono do pai estava longe de ser o episódio mais doloroso daquela adolescência.
Sua mãe, Cynthia, desenvolveu câncer. Por causa de suas convicções religiosas, ela recusou tratamentos médicos convencionais. James acompanhou a deterioração da saúde dela sem ter como interferir na situação.
Ele tinha apenas 16 anos quando a mãe morreu.
A experiência continuaria presente em sua vida adulta e acabaria surgindo, direta ou indiretamente, nas letras que escreveria para o Metallica.
Depois da morte de Cynthia, James foi morar com o meio-irmão mais velho, David. Nesse período, a música deixou de ser simplesmente um interesse adolescente e passou a ocupar uma parcela cada vez maior de sua vida.
Antes do Metallica, Hetfield tocou em grupos como Obsession, Phantom Lord e Leather Charm. Ainda estava longe de ser o compositor que escreveria algumas das músicas mais conhecidas do heavy metal.
Na realidade, escrever letras era justamente uma de suas maiores dificuldades.
Hetfield contou posteriormente que, no começo, praticamente não sabia transformar pensamentos em palavras. A guitarra ofereceu uma saída mais simples. Os riffs conseguiam expressar raiva, medo e frustração de uma maneira que uma conversa comum não conseguia.
Para alguém que se descrevia como um garoto “muito, muito tímido”, aquilo fazia diferença.
A música, explicou posteriormente, era a voz que ele não tinha.
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Um anúncio de jornal mudou tudo
A virada aconteceu em 1981.
O baterista dinamarquês Lars Ulrich havia colocado um anúncio no jornal The Recycler, de Los Angeles, procurando músicos interessados em tocar heavy metal. O contato com Hetfield acabaria dando origem a uma parceria que atravessaria décadas.
A própria história oficial do Metallica registra 28 de outubro de 1981 como o momento em que Ulrich e Hetfield começaram a tocar juntos depois do anúncio. Pouco depois, Ron McGovney assumiu o baixo e Dave Mustaine entrou como guitarrista solo.
Nascia o Metallica.
A banda se tornou um dos principais nomes do thrash metal, misturando velocidade, guitarras pesadas e estruturas musicais mais complexas do que boa parte do rock que dominava as rádios naquele período.
Mas havia outra característica que ajudaria a distinguir o grupo: muitas letras de Hetfield carregavam conflitos pessoais que ele ainda tentava compreender.
Essa ligação ficaria particularmente evidente em “The God That Failed”, lançada no álbum Metallica, de 1991, popularmente conhecido como The Black Album.
A canção aborda a fé colocada à prova diante da doença e da morte. Hetfield relacionou sua composição às experiências que teve durante a doença de sua mãe e às crenças religiosas presentes dentro de casa.
Aquilo que o adolescente não conseguiu elaborar plenamente enquanto assistia à mãe morrer reapareceu, anos depois, transformado em música.
O garoto tímido se tornou a voz de uma das maiores bandas do planeta
O crescimento do Metallica foi rápido.
Depois de Kill ‘Em All, lançado em 1983, vieram discos que ajudaram a estabelecer o grupo como referência do metal: Ride the Lightning, em 1984; Master of Puppets, em 1986; e …And Justice for All, em 1988.
Em 1991, The Black Album ampliou radicalmente o público da banda.
Músicas como “Enter Sandman”, “Sad but True”, “The Unforgiven” e “Nothing Else Matters” passaram a tocar muito além do circuito tradicional do heavy metal. O Metallica saiu definitivamente dos clubes e arenas para se transformar em uma das maiores bandas de rock do mundo.
O sucesso, porém, não apagou os problemas que Hetfield carregava.
Anos de turnês, consumo excessivo de álcool, conflitos pessoais e dificuldades para lidar com a própria raiva começaram a cobrar um preço alto. Em 2001, durante um período particularmente turbulento para o Metallica, Hetfield entrou em reabilitação.
A crise acabou registrada no documentário Metallica: Some Kind of Monster, lançado em 2004. As câmeras acompanharam um grupo que, apesar do enorme sucesso comercial, estava perto de implodir.
Hetfield precisou rever sua relação com o álcool, com os integrantes da banda, com a família e com a própria identidade fora dos palcos.
Décadas antes, sua forma de lidar com sentimentos difíceis havia sido aumentar o volume da guitarra. Na vida adulta, isso já não era suficiente.
“Minha música e minhas letras sempre foram uma terapia”
A relação entre experiências pessoais e composição continuou acompanhando Hetfield durante a carreira.
Perda, abandono, medo, dependência, religião, culpa e dificuldade de confiar nos outros aparecem repetidamente no repertório do Metallica. Algumas dessas músicas alcançaram milhões de pessoas justamente porque tratavam de sentimentos desconfortáveis sem tentar deixá-los bonitos.
O próprio Hetfield descreveu suas músicas e letras como uma espécie de terapia.
Talvez por isso a história por trás de várias composições do Metallica contraste tanto com a imagem de força projetada pelos palcos.
Antes de comandar multidões, James Hetfield era um garoto que dizia ter medo do mundo e até de falar. Depois de perder o pai de sua rotina familiar e assistir à morte da mãe ainda adolescente, encontrou nas guitarras uma maneira de colocar para fora coisas que não conseguia explicar.
Mais de quatro décadas depois daquele anúncio de jornal que aproximou Hetfield de Lars Ulrich, o Metallica continua em atividade. A banda que os dois começaram em 1981 atravessou mudanças de integrantes, mortes, dependência química, conflitos públicos e transformações profundas na indústria musical e permaneceu como uma das principais referências do heavy metal.
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