Uma lata de desodorante é um objeto tão comum dentro de casa que dificilmente desperta preocupação. Foi justamente um produto desse tipo, porém, que esteve no centro de uma tragédia que levou uma família australiana a descobrir da maneira mais dolorosa possível os riscos de uma prática conhecida como chroming.
Esra Haynes tinha 13 anos e morava no estado de Victoria, na Austrália. Em 31 de março de 2023, ela foi dormir na casa de uma amiga. Para seus pais, Andrea e Paul Haynes, seria uma noite comum entre adolescentes. Eles sabiam onde a filha estava e com quem ela passaria a noite.
Horas depois, receberam a ligação que mudaria definitivamente a rotina da família.
Durante o encontro, Esra inalou substâncias químicas de um desodorante em aerossol. A prática é conhecida na Austrália como chroming ou huffing e consiste na inalação deliberada de vapores de produtos químicos para provocar uma sensação rápida de euforia ou alteração da consciência.
Pouco depois da inalação, a adolescente sofreu uma parada cardíaca. Inicialmente, amigos chegaram a pensar que ela estivesse tendo uma crise de pânico, segundo relato posteriormente apresentado pelo programa australiano A Current Affair. Quando Andrea chegou ao local, encontrou equipes de emergência tentando reanimar a filha.
Oito dias ligados à esperança
Esra foi levada ao hospital e colocada em suporte vital. A família ainda tinha motivos para esperar por uma recuperação: ela era jovem, praticava esportes e tinha coração e pulmões considerados fortes.
Mas o problema mais grave estava no cérebro.
Após oito dias, os médicos informaram aos pais que os danos neurológicos eram irreversíveis. Paul e Andrea tiveram então de enfrentar uma decisão que nenhum pai ou mãe espera receber de uma equipe médica: autorizar a retirada do suporte que mantinha a filha viva.
Familiares e amigos foram chamados ao hospital para se despedir.
Em entrevista ao A Current Affair, os pais contaram que puderam permanecer junto de Esra em seus últimos momentos. A adolescente morreu pouco mais de uma semana depois do episódio ocorrido durante a festa do pijama.
Uma adolescente ligada ao esporte
A história chamou ainda mais atenção na comunidade local porque Esra levava uma vida bastante ativa.
Ela estudava na Lilydale High School e praticava futebol australiano pelo Montrose Football Netball Club. Pouco antes do episódio, havia sido escolhida como co-capitã da equipe feminina sub-14. Também praticava BMX e já havia participado de competições de aeróbica.
Sua morte afetou colegas, amigos, treinadores e principalmente os irmãos Imogen, Seth e Charlie.
Para Paul e Andrea, havia ainda outra questão difícil de assimilar: antes daquela noite, eles afirmaram que sequer conheciam o termo chroming.
O que é o “chroming”?
O nome pode sugerir algo específico, mas descreve uma forma de inalação de substâncias voláteis presentes em produtos acessíveis no cotidiano.
Entre eles podem estar aerossóis, solventes, tintas, combustíveis e outros produtos químicos. No caso de Esra, o produto inalado foi um desodorante em spray.
Essas substâncias podem provocar uma intoxicação rápida, mas também estão associadas a consequências graves, incluindo perda de consciência, convulsões, alterações cardíacas, asfixia, lesões cerebrais e morte.
O risco é especialmente traiçoeiro porque não depende necessariamente de um uso prolongado. Uma única exposição pode desencadear uma emergência médica.
Especialistas ouvidos pela imprensa australiana após a morte de Esra reforçaram que a inalação intencional de produtos domésticos pode provocar consequências imprevisíveis e potencialmente fatais.
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Os pais decidiram transformar a dor em alerta
Depois da morte da filha, Andrea e Paul passaram a falar publicamente sobre o caso.
Paul afirmou que gostaria de ter conhecido os riscos do chroming enquanto Esra ainda estava viva. Segundo ele, se a família tivesse recebido informações antes, o assunto provavelmente teria sido discutido em casa.
Essa passou a ser uma das principais mensagens dos pais: conversar com crianças e adolescentes antes que a informação chegue até eles por amigos ou publicações nas redes sociais.
“Se tivéssemos sido informados e essa informação estivesse circulando, teríamos tido a oportunidade de conversar sobre isso”, explicou Paul em uma das entrevistas concedidas após a morte da filha.
Para ele, pais e responsáveis precisam conhecer práticas desse tipo justamente porque muitos adolescentes podem ter contato com elas antes que os adultos sequer saibam que existem.
A família também defendeu maior conscientização nas escolas e entre responsáveis. A morte de Esra chegou a ser citada no Parlamento de Victoria durante discussões relacionadas ao comportamento de jovens e ao uso de substâncias.
O caso teve forte repercussão na Austrália. Meses depois, o A Current Affair informou que a reportagem sobre Esra havia se tornado o vídeo mais assistido do programa naquele ano.
A mensagem que seus pais passaram a repetir desde então é direta: produtos comuns dentro de casa também podem representar riscos quando utilizados de maneira diferente daquela para a qual foram fabricados, e conhecer previamente práticas como o chroming pode abrir espaço para uma conversa que, no caso deles, infelizmente aconteceu tarde demais.
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