Em 1985, uma aula de aeróbica podia funcionar como academia, ponto de encontro, desfile de moda esportiva e ambiente de paquera ao mesmo tempo. Foi justamente esse fenômeno cultural que o filme Perfeição (Perfect, no original) tentou levar para o cinema. Só que, décadas depois, boa parte do público se lembra menos da história sobre jornalismo e muito mais de Jamie Lee Curtis e John Travolta fazendo movimentos de quadril diante de um espelho.
A fama dessas cenas acabou ficando maior que o próprio filme. E há um detalhe curioso: Jamie Lee Curtis, apesar de ter se dedicado intensamente ao papel, não ficou satisfeita com a maneira como algumas dessas sequências foram mostradas.
Lançado em junho de 1985 e dirigido por James Bridges, Perfect acompanha Adam Lawrence, personagem de John Travolta, um repórter da revista Rolling Stone enviado para Los Angeles. Enquanto trabalha em uma reportagem sobre um empresário acusado de tráfico de drogas, ele também começa a investigar outro assunto: academias que estavam se transformando em pontos de encontro para solteiros.
É nesse ambiente que ele conhece Jessie Wilson, interpretada por Jamie Lee Curtis, uma instrutora de aeróbica que inicialmente não demonstra qualquer simpatia por jornalistas.
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As aulas de aeróbica tinham uma função bem específica no roteiro
Para entender as cenas que se tornaram tão famosas, é preciso lembrar o contexto daquela época. Durante o fim dos anos 1970 e principalmente nos anos 1980, academias sofisticadas ganharam enorme popularidade nos Estados Unidos.
O roteiro foi inspirado em artigos do jornalista Aaron Latham publicados na Rolling Stone sobre academias de Los Angeles e a maneira como esses lugares haviam se tornado ambientes de socialização e relacionamento.
A intenção de Perfect, portanto, era tratar o culto ao corpo e a vida social dentro das academias como parte de uma mudança de comportamento.
O problema é que uma parte específica do filme roubou completamente a atenção.
Em uma das sequências mais conhecidas, Jessie conduz uma aula enquanto Adam participa do exercício. Os movimentos dos dois se tornam cada vez mais sincronizados e sugestivos. A câmera acompanha quadris, pernas e expressões enquanto a coreografia praticamente transforma a aula em uma cena de sedução.
A crítica da época percebeu exatamente isso. O Washington Post, por exemplo, destacou os movimentos de quadril e o tom sexual das sequências realizadas dentro da academia.
Para Jamie Lee Curtis, aquelas cenas deveriam substituir cenas de sexo
Existe uma explicação para a coreografia parecer tão carregada de tensão sexual.
Segundo Jamie Lee Curtis contou na época, as sequências de exercícios haviam sido concebidas como uma espécie de substituição para cenas amorosas convencionais entre Jessie e Adam.
A atriz, porém, acreditava que o resultado havia passado do ponto.
Em uma entrevista de 1984 posteriormente recuperada em relatos sobre a produção, Curtis afirmou que aquelas sequências deveriam funcionar como “substitute love scenes”, isto é, cenas que representassem a intimidade entre os personagens sem mostrá-los propriamente fazendo sexo.
O problema, na avaliação dela, era a duração.
Curtis achava que a câmera permanecia tempo demais nos movimentos e que a insistência acabava tornando a sequência mais explícita do que seria necessário. Ela chegou a pedir que algumas partes fossem reduzidas.
Segundo seu relato, ouviu como resposta que as cenas já haviam sido cortadas.
É um detalhe que muda bastante a leitura daquela famosa aula. O caráter provocativo não surgiu por acidente. Era parte da construção da relação entre os personagens, embora a própria protagonista considerasse que a montagem havia exagerado na dose.
Jamie Lee Curtis treinou durante meses para interpretar Jessie
Mesmo com as críticas que faria posteriormente ao resultado, Curtis levou a preparação física bastante a sério.
Ela treinou por vários meses antes das filmagens e tinha alguma familiaridade com exercícios. A própria atriz dizia gostar de atividades físicas e contou que, quando frequentava aulas, às vezes pensava em como seria conduzir uma delas.
A produção também adotou uma estratégia incomum.
As cenas em que Jessie comandava as aulas foram gravadas primeiro. Só depois vieram boa parte das sequências dramáticas.
Quando a equipe voltou a filmar uma última rotina de exercícios para os créditos finais, Curtis estava fisicamente diferente. Segundo informações de bastidores, ela havia perdido cerca de 10 libras de massa muscular, algo próximo de 4,5 quilos, durante a produção.
Relatos da época também indicam que a atriz se exercitava constantemente durante as filmagens e mantinha uma alimentação extremamente restritiva, chegando a consumir apenas uma refeição por dia.
O grau de dedicação ajuda a explicar por que a performance ainda chama atenção tantos anos depois. Não havia truque de edição para transformar Curtis em uma instrutora convincente. Ela realmente precisou aprender e executar aquelas rotinas.
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O figurino também ajudou a transformar as cenas em símbolo dos anos 1980
Collants cavados, faixas na cabeça, polainas, cores vibrantes e corpos diante de enormes paredes de espelho formaram uma estética que ficou imediatamente associada à década.
No caso de Perfect, o figurino extremamente justo de Jamie Lee Curtis acabou ganhando quase tanta notoriedade quanto a coreografia.
A consequência foi curiosa. Um filme que pretendia discutir ética jornalística, exposição pública e relacionamentos passou a ser lembrado principalmente por seus minutos dentro da academia.
Até entrevistas concedidas por Curtis durante a divulgação mostravam certo desconforto com a transformação de sua imagem em símbolo sexual. Em conversa publicada pelo Washington Post em 1985, ela afirmou que não gostava das implicações do termo “sex symbol”, justamente porque sentia que ele reduzia a atenção sobre seu trabalho como atriz à aparência física.
John Travolta também estava em um momento delicado da carreira
A presença de John Travolta parecia, no papel, uma garantia de atenção.
Poucos anos antes, ele havia alcançado projeção mundial com Os Embalos de Sábado à Noite e Grease. Mas sua sequência de sucessos já começava a perder força quando Perfect chegou aos cinemas.
Ainda assim, Travolta afirmou posteriormente não se arrepender do filme. Entre os motivos estariam a experiência de voltar a trabalhar com o diretor James Bridges e as amizades feitas durante a produção.
Curiosamente, o trabalho também aproximou o ator do jornalismo de verdade.
Para preparar Adam Lawrence, Travolta chegou a escrever material relacionado ao filme, enquanto Jann Wenner, cofundador e então editor da Rolling Stone, apareceu na produção interpretando o editor do personagem.
O filme custou caro e não recuperou o investimento nos cinemas
Havia grandes expectativas em torno de Perfect.
A produção tinha orçamento estimado em aproximadamente US$ 20 milhões, valor considerável para 1985. No entanto, arrecadou cerca de US$ 12,9 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e Canadá, com aproximadamente US$ 4,2 milhões no primeiro fim de semana.
As críticas também foram duras.
A Variety publicou uma avaliação particularmente negativa, classificando o longa como constrangedor e questionando sua capacidade de agradar ao público. Perfect ainda recebeu três indicações ao Framboesa de Ouro: pior ator para John Travolta, pior atriz coadjuvante para Marilu Henner e pior roteiro.
O desempenho contribuiu para consolidar a percepção de que o projeto havia sido um fracasso caro.
Mesmo assim, as cenas de aeróbica sobreviveram ao filme
Há uma ironia bastante evidente na história de Perfect.
Aquilo que incomodava Jamie Lee Curtis acabou garantindo ao longa uma sobrevida cultural improvável. As sequências de academia continuaram circulando em programas de televisão, vídeos, retrospectivas sobre os anos 1980 e redes sociais.
Décadas depois, elas se tornaram tão reconhecíveis que a própria atriz passou a brincar com a situação.
Em 2015, Jamie Lee Curtis participou do The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e recriou a famosa aula de aeróbica em tom de paródia. Ela voltou a usar um collant inspirado no figurino original enquanto Fallon assumia o papel ocupado por Travolta na cena.
O exagero era justamente a piada. Aquilo que em 1985 pretendia comunicar atração sexual entre dois personagens já podia ser tratado como uma cápsula perfeitamente reconhecível da cultura daquela década.
E existe outra pequena reviravolta na reputação de Perfect: Quentin Tarantino está entre os defensores do filme. Em entrevista concedida à Rolling Stone em 1994, o diretor o classificou como bastante subestimado.
O longa continua longe de figurar entre os trabalhos mais celebrados de Jamie Lee Curtis ou John Travolta, mas aquelas aulas fizeram algo que muitos sucessos de bilheteria não conseguem fazer: atravessaram quatro décadas e continuaram imediatamente reconhecíveis.
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