Algumas experiências passam. Outras parecem continuar acontecendo dentro de nós muito depois de terminarem.
Uma pessoa pode seguir trabalhando, construir uma família e desenvolver inúmeros projetos enquanto determinada memória continua despertando emoções intensas.
É nesse sentido que profissionais da psicologia falam sobre experiências traumáticas que ainda não foram suficientemente processadas.
O trauma nem sempre permanece como uma lembrança clara
Quando pensamos em trauma, é comum imaginar alguém lembrando constantemente de um acontecimento.
Nem sempre funciona dessa forma.
Às vezes, a experiência aparece indiretamente.
Pode surgir através de medo, comportamentos de evitação, dificuldades de confiança ou respostas emocionais intensas diante de situações aparentemente comuns.
Segundo a psicóloga Josie Conti, especialista em EMDR e terapia online, é importante observar não apenas aquilo de que a pessoa se lembra, mas também como determinadas experiências continuam repercutindo na vida atual.
Experiências antigas podem gerar crenças
Um acontecimento doloroso pode contribuir para conclusões negativas sobre si mesmo ou sobre outras pessoas.
Depois de uma rejeição marcante, alguém pode passar a acreditar que sempre será abandonado.
Depois de uma situação de violência, pode desenvolver a sensação de que nunca está completamente seguro.
Essas crenças podem continuar operando mesmo muitos anos depois.
Quando o passado encontra o presente
Determinado acontecimento atual pode funcionar como um gatilho para emoções ligadas ao passado.
Uma discussão, uma separação ou até uma mudança de cidade pode despertar sentimentos que pareciam esquecidos.
Isso não significa que a pessoa esteja deliberadamente presa ao passado.
O funcionamento emocional é muito menos organizado do que gostaríamos. O cérebro, com admirável falta de consideração pelo planejamento humano, não arquiva experiências difíceis simplesmente porque já se passaram vinte anos.
O que significa elaborar um trauma?
Elaborar não é aprovar, esquecer ou minimizar o que aconteceu.
É conseguir integrar aquela experiência à própria história sem continuar reagindo a ela com a mesma intensidade.
Na psicoterapia, esse processo pode ocorrer através de diferentes abordagens.
No caso do EMDR, o trabalho é direcionado ao processamento de memórias perturbadoras e das crenças, emoções e sensações associadas a elas.
Nunca é tarde para olhar para uma experiência antiga
Algumas pessoas só procuram ajuda décadas depois de determinado acontecimento.
Isso não torna o trabalho menos legítimo.
A história não pode ser modificada, mas a relação emocional com ela pode mudar.
E, muitas vezes, é essa transformação que permite que o passado finalmente ocupe o lugar que deveria ter: atrás de nós, e não comandando silenciosamente o presente.
35. Por que falar sobre um trauma nem sempre é suficiente para superá-lo
Falar sobre aquilo que aconteceu pode ser uma parte importante da psicoterapia.
Dar palavras a uma experiência dolorosa ajuda muitas pessoas a organizar pensamentos, compreender sentimentos e construir novos significados.
Mas existe uma ideia simplificada segundo a qual basta contar repetidamente uma experiência traumática para que ela deixe de provocar sofrimento.
Nem sempre é assim.
Compreender racionalmente não é igual a deixar de sentir
Uma pessoa pode saber perfeitamente que determinado acontecimento terminou.
Pode compreender que não teve culpa.
Pode saber que hoje está segura.
Mesmo assim, determinadas situações continuam provocando medo ou ansiedade.
Existe, portanto, uma diferença entre aquilo que entendemos racionalmente e a forma como determinada memória continua sendo experimentada emocionalmente.
É justamente por isso que algumas pessoas dizem:
“Eu sei que não deveria me sentir assim, mas continuo sentindo.”
O trauma envolve mais do que narrativa
Uma experiência traumática pode envolver pensamentos, emoções, imagens, sensações físicas e crenças.
Por isso, simplesmente construir uma explicação lógica para o que aconteceu pode não ser suficiente em determinadas situações.
Isso não significa que falar sobre a experiência seja inútil.
Significa apenas que diferentes aspectos daquela memória podem precisar ser trabalhados.
O papel do EMDR
Entre as abordagens utilizadas para trabalhar experiências traumáticas está o EMDR.
O método utiliza um protocolo estruturado que inclui estimulação bilateral enquanto determinados elementos da experiência são trabalhados.
A proposta é favorecer o reprocessamento da memória, diminuindo a perturbação emocional associada a ela.
A psicóloga Josie Conti, especialista na abordagem, utiliza EMDR em sua prática clínica com pessoas que desejam trabalhar experiências que continuam provocando sofrimento mesmo depois de terem sido compreendidas racionalmente.
Não se trata de apagar uma lembrança
Esse é um ponto fundamental.
O objetivo não é produzir esquecimento.
Uma lembrança pode continuar existindo sem provocar a mesma reação.
Imagine uma cicatriz física: você sabe exatamente como ela surgiu, mas ela já não representa uma ferida aberta.
A comparação não é perfeita, porém ajuda a compreender o objetivo do processamento terapêutico.
Cada pessoa precisa de um caminho diferente
Há pessoas que se beneficiam profundamente da construção narrativa.
Outras precisam trabalhar também emoções, sensações corporais e crenças associadas à experiência.
Por isso, a psicoterapia deve considerar cada história individualmente.
Superar um trauma não significa deixar de lembrar.
Significa poder lembrar sem continuar vivendo emocionalmente dentro daquela experiência.