Há um detalhe importante escondido por trás do número de 87%: ele não veio de pessoas que comeram kimchi e depois tiveram quase todo o plástico eliminado do organismo. O dado surgiu em experimentos com uma bactéria isolada desse alimento fermentado, capaz de se ligar a partículas de plástico em laboratório. Ainda assim, os resultados chamaram a atenção porque, em testes posteriores com animais, essa mesma bactéria favoreceu a eliminação das partículas pelas fezes.
O alimento em questão é o kimchi, preparação tradicional coreana feita principalmente com vegetais fermentados, como acelga e rabanete, acompanhados de temperos.
Pesquisadores do World Institute of Kimchi, na Coreia do Sul, estudaram uma bactéria encontrada no alimento chamada Leuconostoc mesenteroides CBA3656. O trabalho foi publicado em 2026 na revista científica Bioresource Technology.
A bactéria do kimchi conseguiu capturar 87% dos nanoplásticos
Nos experimentos realizados em condições controladas, a cepa CBA3656 apresentou eficiência de adsorção de até 87% dos nanoplásticos de poliestireno aos quais foi exposta.
Na prática, as partículas aderiram à superfície da bactéria. Análises feitas pelos pesquisadores indicaram que grupos químicos presentes na parede e na membrana do microrganismo participam dessa ligação.
Aqui está a distinção que merece atenção: 87% representa a capacidade máxima de ligação observada em determinadas condições de laboratório. Não significa que comer kimchi elimine 87% dos microplásticos presentes no corpo de uma pessoa.
Quando os cientistas reproduziram condições semelhantes às do intestino humano, incluindo características químicas que tornam o ambiente mais difícil para as bactérias, a taxa de ligação da CBA3656 ficou em aproximadamente 57%.
Outra bactéria testada no mesmo experimento teve uma queda muito maior, passando de cerca de 85% em condições laboratoriais para somente 3% no ambiente intestinal simulado.
O teste com ratos trouxe um resultado ainda mais interessante
Os pesquisadores também fizeram experimentos com camundongos criados sem microbiota intestinal, uma condição utilizada para permitir maior controle sobre a presença das bactérias estudadas.
Os animais que receberam Leuconostoc mesenteroides CBA3656 apresentaram eliminação fecal de nanoplásticos superior à dos animais do grupo de controle. Segundo a divulgação dos resultados, foram encontradas mais de duas vezes mais partículas nas fezes dos animais tratados com a bactéria.
A hipótese é relativamente simples: a bactéria funciona como uma espécie de superfície de captura. Parte das partículas de plástico presentes no intestino se liga ao microrganismo e, em vez de permanecer disponível para interação com o trato intestinal, acaba sendo transportada junto com ele para as fezes.
É justamente esse mecanismo que os pesquisadores descrevem como biossorção.
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Microplásticos e nanoplásticos não são exatamente a mesma coisa
Embora os dois termos apareçam frequentemente misturados nas redes sociais, existe uma diferença relevante.
Os microplásticos são pequenas partículas derivadas da degradação de materiais plásticos ou produzidas originalmente em dimensões reduzidas. Os nanoplásticos são ainda menores, chegando à escala nanométrica.
O estudo coreano concentrou-se especificamente em nanopartículas de poliestireno, chamadas de PS-NPs. Portanto, também seria precipitado interpretar o resultado como demonstração de que a bactéria remove, com a mesma eficiência, todos os tipos e tamanhos de plástico aos quais seres humanos estão expostos.
Essa distinção importa porque partículas diferentes podem se comportar de maneiras diferentes no sistema digestivo.
Então basta comer kimchi todos os dias?
Ainda não é possível fazer essa recomendação com base nesse estudo.
Os pesquisadores trabalharam com uma cepa específica isolada do kimchi, a CBA3656. Isso não significa que qualquer pote de kimchi comprado no mercado tenha essa mesma bactéria em quantidade suficiente, nem que algumas colheradas forneçam a concentração utilizada nos experimentos.
Também não foram realizados, nesse trabalho, ensaios clínicos demonstrando que pessoas que consomem kimchi eliminam mais nanoplásticos do organismo.
O próprio World Institute of Kimchi descreve as estratégias biológicas para reduzir partículas plásticas no intestino como uma área que ainda está em estágio inicial de pesquisa.
Em outras palavras, o estudo oferece uma pista promissora para o desenvolvimento de probióticos ou outros métodos capazes de capturar nanoplásticos no trato gastrointestinal, mas ainda existe uma boa distância entre essa descoberta e uma orientação médica do tipo “coma kimchi para retirar plástico do corpo”.
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O que torna o resultado importante
A exposição humana a partículas plásticas tornou-se difícil de evitar completamente. Elas já foram identificadas em alimentos, água e outras fontes ambientais, enquanto pesquisadores ainda investigam quais consequências diferentes níveis de exposição podem produzir ao longo dos anos.
Nesse cenário, descobrir bactérias alimentares capazes de sequestrar partículas dentro do intestino e facilitar sua saída pelas fezes abre uma possibilidade que até poucos anos atrás recebia pouca atenção.
A CBA3656 também apresentou capacidade de ligação em diferentes concentrações de nanoplásticos, níveis de acidez e temperaturas, um dos motivos pelos quais os autores consideram a cepa uma candidata interessante para futuras aplicações.
Por enquanto, portanto, a descoberta científica é mais específica do que a manchete faz parecer: uma bactéria isolada do kimchi conseguiu adsorver até 87% dos nanoplásticos em condições laboratoriais, manteve cerca de 57% dessa capacidade em um ambiente intestinal simulado e aumentou a eliminação das partículas em camundongos. Saber se o mesmo efeito ocorre em seres humanos, em qual intensidade e qual quantidade da bactéria seria necessária são justamente as próximas perguntas que a ciência precisa responder.
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