Há atores que passam décadas tentando criar um gesto capaz de ser reconhecido em segundos. Elizabeth Montgomery conseguiu isso mexendo discretamente o nariz diante das câmeras. O curioso é que a atriz responsável por uma das imagens mais lembradas da televisão dos anos 1960 passou boa parte da carreira seguinte mostrando que tinha muito mais a oferecer do que Samantha Stephens, a simpática feiticeira de A Feiticeira.
Durante oito temporadas, Elizabeth entrou nas casas de milhões de espectadores e se tornou uma das figuras mais populares da TV americana. Depois, escolheu papéis bem diferentes, interpretou personagens dramáticas, mulheres envolvidas em crimes e histórias baseadas em acontecimentos reais. Quando ainda estava trabalhando e assumindo novos projetos, sua vida terminou de maneira inesperada.
Elizabeth Montgomery morreu em 18 de maio de 1995, aos 62 anos, vítima de câncer colorretal.
Uma atriz criada dentro do meio artístico
Elizabeth nasceu em 15 de abril de 1933, em Los Angeles, na Califórnia. A profissão que escolheria estava bastante próxima de sua rotina familiar: seu pai, Robert Montgomery, era um ator consagrado do cinema e da televisão, enquanto sua mãe, Elizabeth Allen, havia trabalhado nos palcos da Broadway.
Ainda jovem, ela chegou a admitir que o pai teve participação importante em suas primeiras oportunidades. Ao mesmo tempo, Robert também era um crítico rigoroso do trabalho da filha.
A estreia de Elizabeth na televisão aconteceu em 1951, em Robert Montgomery Presents, programa apresentado por seu pai. Ela faria outras participações na produção antes de começar a construir uma carreira independente.
Depois dos estudos na American Academy of Dramatic Arts, em Nova York, veio a Broadway. Em 1953, participou da peça Late Love, trabalho que ajudou a colocá-la entre as jovens atrizes promissoras daquele período.
O cinema apareceu pouco depois. Em 1955, Elizabeth participou de The Court-Martial of Billy Mitchell. Nas temporadas seguintes, porém, foi a televisão que lhe abriu mais espaço.
Antes de Samantha Stephens existir, ela já havia trabalhado em produções como The Untouchables, The Twilight Zone, Alfred Hitchcock Presents e diversas séries dramáticas exibidas na televisão americana.
Uma participação em The Untouchables, inclusive, rendeu a Elizabeth sua primeira indicação ao Emmy, em 1961.
O papel que transformou seu rosto em um símbolo da televisão
Em 1964, Elizabeth Montgomery estreou como Samantha Stephens em Bewitched, conhecida no Brasil como A Feiticeira.
A ideia era simples e bastante eficiente: Samantha era uma feiticeira casada com Darrin Stephens, um homem comum que preferia que a esposa evitasse usar magia. O esforço para levar uma vida doméstica convencional frequentemente fracassava diante dos poderes de Samantha e das interferências de sua família.
Elizabeth encontrou um equilíbrio que ajudou a série a funcionar. Samantha podia provocar situações absurdas sem perder a naturalidade. O famoso movimento do nariz, usado quando a personagem lançava seus feitiços, tornou-se rapidamente uma marca do programa.
Há até uma curiosidade por trás disso. Segundo o Los Angeles Times, Elizabeth tinha naturalmente um pequeno movimento no lábio superior que dava a impressão de que seu nariz também se mexia. Os produtores aproveitaram o gesto e o incorporaram à personagem.
O sucesso foi enorme.
A Feiticeira permaneceu no ar entre 1964 e 1972 e teve oito temporadas. A produção chegou a ser considerada uma das séries mais bem-sucedidas da ABC naquele período.
Elizabeth também recebeu cinco indicações consecutivas ao Emmy por sua interpretação de Samantha, entre 1966 e 1970.
Ela interpretava ainda Serena, a prima morena e muito mais irreverente de Samantha, demonstrando dentro da própria série uma facilidade para construir personagens com comportamentos bem diferentes.
Por trás das câmeras havia outra relação importante. Elizabeth era casada com William Asher, produtor e diretor de A Feiticeira. Os dois haviam se conhecido durante a produção do filme Johnny Cool, casaram-se em 1963 e tiveram três filhos.
O casamento terminou em 1973, pouco depois do encerramento da série.
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Elizabeth tomou uma decisão arriscada depois de A Feiticeira
Quando uma atriz passa oito anos interpretando a mesma personagem em uma produção de enorme audiência, surge um problema bastante ingrato: o público pode começar a enxergar a pessoa e a personagem como se fossem a mesma coisa.
Elizabeth tentou romper essa associação deliberadamente.
Depois de A Feiticeira, ela praticamente deixou as sitcoms de lado e procurou trabalhos dramáticos. Era uma maneira direta de mostrar que Samantha Stephens representava uma parte de sua carreira, e não o limite dela.
Em 1974, protagonizou o telefilme A Case of Rape, no qual interpretou uma mulher que sofre violência sexual e enfrenta as consequências psicológicas e sociais do crime. O trabalho lhe rendeu outra indicação ao Emmy.
No ano seguinte, veio uma transformação ainda mais marcante.
Em The Legend of Lizzie Borden, Elizabeth interpretou Lizzie Borden, mulher acusada de assassinar o pai e a madrasta a golpes de machado no século XIX. A atuação voltou a colocá-la entre as indicadas ao Emmy.
Era difícil associar aquelas personagens à dona de casa feiticeira que movimentava o nariz para fazer objetos desaparecerem poucos anos antes.
E esse era justamente o ponto.
Elizabeth parecia interessada em evitar a repetição. Em uma entrevista de 1992, comentou que gostava do fato de receber cartas de espectadores dizendo que nunca sabiam qual seria seu próximo papel.
Sua estratégia deu resultado. Nas décadas de 1970, 1980 e início dos anos 1990, tornou-se presença frequente nos filmes produzidos para a televisão americana.
Ao longo da carreira, acumulou nove indicações ao Emmy, incluindo trabalhos realizados antes e depois de A Feiticeira.
Uma vida pessoal que também passou por mudanças
Elizabeth se casou quatro vezes.
Seu primeiro casamento, com Frederick Gallatin Cammann, começou em 1954 e durou cerca de um ano. Depois, ela se casou com o ator Gig Young, relação encerrada em 1963.
No mesmo ano, casou-se com William Asher, com quem teve os três filhos. Após a separação, Elizabeth iniciou um relacionamento com o ator Robert Foxworth.
Os dois permaneceram juntos durante muitos anos antes de oficializar a união em 1993.
Foxworth estaria ao lado dela durante os últimos dias de sua vida.
Ela continuava trabalhando quando sua saúde piorou
No início de 1995, Elizabeth ainda estava profissionalmente ativa.
Um de seus últimos trabalhos foi Deadline for Murder: From the Files of Edna Buchanan, no qual interpretou a jornalista policial Edna Buchanan. Durante aquele período, sua saúde começou a se deteriorar.
O câncer colorretal já estava em estágio avançado quando a gravidade da situação ficou clara.
O Los Angeles Times registrou que Elizabeth morreu em sua casa, em Beverly Hills, na manhã de 18 de maio de 1995, acompanhada pelo marido, Robert Foxworth, e pelos três filhos.
Ela tinha completado 62 anos pouco mais de um mês antes.
Na época houve certa confusão sobre sua idade. A própria família informou inicialmente que Elizabeth tinha 57 anos, mas registros que apontam seu nascimento em 15 de abril de 1933 confirmam que ela tinha 62.
Seu corpo foi cremado e, semanas depois, familiares e amigos participaram de uma cerimônia em sua homenagem em Beverly Hills.
A morte encerrou uma carreira que ainda estava em movimento. Seu último trabalho havia sido exibido naquele mesmo ano.
Para parte do público, Elizabeth Montgomery continuará sendo imediatamente reconhecida como Samantha Stephens. Isso faz sentido: poucos personagens televisivos conseguiram uma identificação tão rápida com uma atriz.
Mas sua trajetória depois de A Feiticeira revela outra Elizabeth. Uma profissional que poderia ter repetido por anos a fórmula que a tornou famosa e preferiu assumir personagens cada vez mais distantes dela.
Talvez seja justamente por isso que aquele pequeno movimento do nariz continue tão fácil de reconhecer mais de meio século depois.
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