Para boa parte do público, Julie Newmar ficou congelada em uma imagem dos anos 1960: roupa preta, orelhas pontudas, movimentos calculados e um sorriso capaz de confundir até o Batman. Fora dos estúdios, porém, sua vida tomaria um rumo bem distante das câmeras, marcado pela maternidade tardia, pela criação de um filho com deficiência e por uma forma de comunicação construída com gestos, cores e cuidados diários.
Antes de se tornar uma das intérpretes mais lembradas da Mulher-Gato, Julie já havia conquistado espaço no teatro, no cinema e na dança. Em 1959, recebeu o Tony de melhor atriz coadjuvante por sua atuação na peça The Marriage-Go-Round. Anos depois, entre 1966 e 1967, apareceu nas duas primeiras temporadas da série Batman, estrelada por Adam West, e transformou a vilã em uma figura divertida, provocadora e difícil de enquadrar.
A personagem lhe trouxe reconhecimento internacional, mas a atriz desejava uma experiência que sua carreira não poderia oferecer: ser mãe.
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Três perdas antes da chegada de John
Julie se casou em 1977 com o advogado J. Holt Smith. Ela tinha 44 anos e esperava formar uma família, mas enfrentou três perdas gestacionais antes de conseguir levar uma gravidez adiante. A própria atriz mencionou publicamente os três abortos espontâneos ao recordar aquele período de sua vida.
Em 1981, aos 48 anos, ela deu à luz John Jewl Smith, seu único filho. Julie costumava chamá-lo de seu “bebê de última hora”, uma referência bem-humorada ao fato de ter se tornado mãe perto dos 50.
John nasceu com síndrome de Down. Naquele período, o conhecimento público sobre a condição era bem menor, e muitas famílias ainda eram pressionadas a afastar crianças com deficiência do convívio doméstico.
Em entrevista concedida décadas depois, Julie contou que os médicos chegaram a apresentar a possibilidade de colocar o filho em uma instituição de cuidados. Ela recusou imediatamente. Criá-lo em casa, para ela, nunca esteve em discussão.
A decisão exigiria uma reorganização completa de sua vida.
Uma meningite mudou a maneira como mãe e filho se comunicavam
Quando John tinha três anos, contraiu meningite. Ele sobreviveu, mas perdeu a audição em consequência da infecção. Algumas reportagens também descrevem limitações severas em sua fala após a doença.
Julie, então, matriculou-se em aulas noturnas de língua de sinais. Seu objetivo era encontrar uma maneira de conversar com o filho e ajudá-lo a compreender o que acontecia ao redor.
“Inscrevi-me para aprender língua de sinais à noite, para poder falar com ele de uma forma que o ajudasse a entender a vida”, relatou a atriz.
A adaptação ocorreu enquanto seu casamento chegava ao fim. Julie e J. Holt Smith se divorciaram em 1984, e ela passou a criar John como mãe solo. Em uma época com pouca estrutura de inclusão e quase nenhuma discussão pública sobre acessibilidade, boa parte das decisões sobre educação, comunicação e rotina ficou sob sua responsabilidade.
Julie evitou transformar essa experiência em um relato de sacrifício permanente. Quando questionada sobre as dificuldades, preferiu dizer que os dois encontraram uma maneira de fazer as coisas funcionarem e que John teve uma vida bonita.
O filho que ampliou sua maneira de enxergar a vida
Ao falar sobre John, Julie frequentemente escolhe palavras como “presente”, “professor” e “amor incondicional”. Para ela, o filho não ficou associado ao que perdeu ou ao que deixou de fazer, mas ao modo como passou a compreender as relações humanas.
Em uma de suas declarações mais conhecidas, afirmou que John foi responsável por ampliar sua visão sobre a vida e ensiná-la a praticar o amor sem condições. “John é o que torna a minha vida grandiosa”, declarou.
Os dois também viajaram juntos. Bali e outras regiões do Sudeste Asiático estiveram entre os destinos visitados pela família. John passou a expressar sua criatividade por meio da pintura, usando imagens, formas e cores como recursos de comunicação.
Com o passar dos anos, porém, as limitações físicas tornaram os deslocamentos mais difíceis. Julie desenvolveu a doença de Charcot-Marie-Tooth, uma condição neurológica hereditária que compromete progressivamente os nervos periféricos, os músculos e a mobilidade. John também passou a enfrentar dificuldades para caminhar.
Foi dentro da propriedade da atriz, no bairro de Brentwood, em Los Angeles, que mãe e filho encontraram um espaço ajustado às necessidades dos dois.
Um jardim planejado para ser percorrido lado a lado
O terreno de aproximadamente 8.600 pés quadrados, pouco menos de 800 metros quadrados, foi transformado em uma sequência de pequenos jardins interligados por caminhos curvos e planos. O desenho permite que Julie e John circulem pelo espaço usando scooters elétricas.
Há fontes, samambaias, árvores frutíferas, orquídeas, bromélias, begônias e dezenas de tipos de flores. Julie cultivou cerca de 80 variedades de rosas; em entrevista mais recente, aos 92 anos, afirmou possuir aproximadamente 90. Algumas receberam nomes de mulheres conhecidas, como Marilyn Monroe, Betty White, Julia Child e Oprah Winfrey.
Uma área com aparência pré-histórica foi montada especialmente para John. Entre as plantas, foram colocadas cobras, lagartos e outros animais decorativos, criando estímulos visuais que ele pode observar durante os passeios.
Para um homem que não escuta e possui comunicação verbal limitada, o jardim oferece informações por outras vias: mudanças de luz, novas flores, movimento das folhas, formatos, texturas e combinações de cores.
Julie também encontra ali uma atividade compatível com sua mobilidade. Ela costuma percorrer os caminhos em sua scooter, aparando plantas, observando botões recém-abertos e registrando detalhes do cultivo.
“Todos os dias eu saio e vejo alguma coisa nova florescendo, e isso me deixa fascinada”, contou.
Atualmente, John participa de atividades durante o dia e recebe apoio de profissionais, enquanto Julie continua vivendo com ele na mesma casa. Em junho de 2026, aos 92 anos, a atriz explicou que os dois permanecem profundamente ligados e que já existem providências financeiras para garantir os cuidados futuros do filho.
No jardim, eles ainda passam longos períodos juntos. Às vezes, não há conversa, música ou qualquer frase pronunciada. Há somente os caminhos preparados para os dois, as flores que mudam a cada estação e uma convivência construída durante mais de quatro décadas.
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