Reconhecer uma estrela décadas depois de seus papéis mais famosos pode ser difícil. O rosto muda, as aparições públicas diminuem e as novas gerações passam a conhecer primeiro os filmes, não necessariamente quem está diante das câmeras. Neste caso, porém, trata-se de uma atriz cuja carreira atravessou mais de 70 anos e reuniu comédia, drama, musicais e personagens marcantes.
A mulher retratada é Shirley MacLaine, um dos grandes nomes do cinema norte-americano. Nascida em 24 de abril de 1934, ela chegou aos 92 anos em 2026 mantendo uma ligação ativa com a profissão que começou ainda na juventude.
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Uma substituição na Broadway mudou sua vida
Antes de chegar a Hollywood, Shirley estudou balé e trabalhou como dançarina. Em 1954, atuava como substituta da protagonista do musical The Pajama Game, na Broadway, quando a atriz principal sofreu uma lesão.
Shirley assumiu o papel e acabou sendo vista pelo produtor Hal B. Wallis, que lhe ofereceu um contrato para trabalhar no cinema. A oportunidade levou à sua estreia nas telas em “Quem Matou Harry?”, comédia de humor sombrio dirigida por Alfred Hitchcock e lançada em 1955.
O desempenho chamou atenção imediatamente. Shirley recebeu o Globo de Ouro de revelação feminina e, em poucos anos, já dividia cenas com nomes como Frank Sinatra, Dean Martin, Jack Lemmon e Audrey Hepburn.
Os filmes que fizeram de Shirley MacLaine um ícone
Durante os anos 1960, Shirley passou a ocupar um espaço raro em Hollywood. Sua atuação transitava com facilidade entre o humor, a melancolia e personagens que contrariavam as expectativas impostas às mulheres da época.
Em “Se Meu Apartamento Falasse”, de 1960, interpretou Fran Kubelik, uma ascensorista envolvida em um relacionamento doloroso com um executivo casado. Dirigido por Billy Wilder e protagonizado também por Jack Lemmon, o filme venceu cinco estatuetas do Oscar, incluindo a de melhor produção.
Três anos depois, Shirley e Lemmon voltaram a trabalhar juntos em “Irma La Douce”, no qual ela viveu uma prostituta parisiense. Também se destacou em títulos como:
- Deus Sabe Quanto Amei, de 1958;
- Infâmia, de 1961;
- Minha Doce Gueixa, de 1962;
- Charity, Meu Amor, de 1969;
- Os Abutres Têm Fome, de 1970;
- Muito Além do Jardim, de 1979.
As interpretações renderam diversas indicações ao Oscar, mas a vitória demoraria algumas décadas.
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O Oscar por “Laços de Ternura”
A consagração veio em 1984, quando Shirley ganhou o Oscar de melhor atriz por “Laços de Ternura”. No filme, ela interpretou Aurora Greenway, uma mãe controladora e afetuosa que mantém uma relação intensa e conflituosa com a filha, vivida por Debra Winger.
A produção dirigida por James L. Brooks acompanha cerca de 30 anos da relação entre as duas personagens e mistura conflitos familiares, humor, romance e doença. O longa venceu cinco Oscars, incluindo melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante para Jack Nicholson.
Ao receber a estatueta, Shirley encerrou uma espera de 26 anos desde sua primeira indicação à premiação. A conquista consolidou uma trajetória que já era respeitada tanto pelo público quanto pela crítica.
Ela ainda teria atuações de destaque em “Flores de Aço”, “Lembranças de Hollywood”, “O Guarda-Costas e a Primeira-Dama”, “Em Seu Lugar”, “Bernie” e “A Vida Secreta de Walter Mitty”. Na televisão, participou de séries como Downton Abbey e Only Murders in the Building.
Um casamento aberto que durou quase 30 anos
A vida pessoal de Shirley também despertou curiosidade por fugir dos padrões mais comuns de sua época. Ela foi casada com o empresário e produtor Steve Parker entre 1954 e 1982.
A atriz contou posteriormente que os dois mantinham um casamento aberto e passavam longos períodos separados por causa de seus compromissos profissionais. Enquanto Shirley trabalhava nos Estados Unidos, Parker vivia durante boa parte do tempo no Japão.
O casal teve uma única filha, Sachi Parker, nascida em 1956. Ainda pequena, Sachi foi morar com o pai no Japão e visitava a mãe durante férias e feriados.
Anos depois, ela relatou sua experiência no livro autobiográfico Lucky Me: My Life With — and Without — My Mom, Shirley MacLaine. Na obra, descreveu uma infância marcada pela distância dos pais, por períodos em internatos e pelo desejo de ter uma rotina familiar mais próxima.
As declarações expuseram diferenças profundas entre mãe e filha. Shirley contestou partes do relato, embora tenha reconhecido que sua intensa dedicação ao trabalho afetou a convivência familiar.
Atriz, escritora e pesquisadora de temas espirituais
Fora do cinema, Shirley construiu uma carreira extensa como escritora. Seus livros abordam lembranças de Hollywood, relações pessoais, espiritualidade, meditação, reencarnação e experiências que ela considera inexplicáveis.
Esses assuntos se tornaram uma parte conhecida de sua imagem pública. Shirley nunca tentou esconder suas convicções, mesmo quando eram recebidas com ironia pela imprensa ou por colegas de profissão.
Em 2024, lançou “The Wall of Life”, livro no qual reuniu fotografias, objetos e histórias pessoais para relembrar momentos de sua vida. Naquele mesmo ano, ao completar 90 anos, afirmou que continuava interessada em trabalhar e atribuía parte de sua disposição ao treinamento como dançarina, iniciado quando ainda era criança.
Ao longo da carreira, Shirley MacLaine acumulou um Oscar, um Emmy, dois prêmios BAFTA e seis Globos de Ouro, além de homenagens concedidas pelo American Film Institute e pelo Kennedy Center. Seu catálogo, iniciado sob a direção de Hitchcock, permanece como registro de uma atriz que recusou ficar presa a um único tipo de personagem.
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