5 motivos para mandar abaixo a ditadura do positivismo e ser uma pessoa negativa feliz.

Já te disseram essa semana que você precisa ser uma pessoa mais positiva? Já te disseram, em tom de censura, que as suas palavras tem poder, e por isso seria conveniente que você só abrisse a boca para dizer coisas boas? Tenho uma leve tendência a acreditar que sim, afinal, caro leitor, a sociedade atual vive refém de algo que eu chamo de “Ditadura do positivismo”.

Pode ficar à vontade com o seu otimismo. Só não me impeça de ser pessimista.

Não interessa a este texto estudar os princípios ou eventuais resultados impressionantes de uma postura positiva diante da vida. Aos interessados no assunto, basta se debruçar sobre centenas de livros de auto-ajuda que figuram entre os mais vendidos no mundo. A intenção deste texto é fazer algo muito menos nobre, legitimar o negativismo. Sim, é isso mesmo. Tudo bem ser uma pessoa negativa de vez em quando. Se você ainda não descobriu a importância de se reservar o direito de não ser sempre a pessoa mais otimista do seu grupo, se atente à lista que preparei para você, “os 5 motivos que justificam uma postura negativa.”

1- Reclamar é libertador!

Você já acordou se sentindo insatisfeito com a sua vida, mesmo sabendo que está tudo bem? Não se envergonhe, acontece com todas as pessoas, inclusive com aquela celebridade de corpo escultural e dentes perfeitamente brancos que posta fotos deslumbrantes das suas férias no Caribe ao lado da sua família igualmente perfeita. Às vezes, por motivos diversos, você, eu e a celebridade do instagram, acordamos insatisfeitos com os nossos empregos, com os nossos relacionamentos, com as nossas rotinas. Já cheguei a me irritar até com o som da minha própria voz. Essas insatisfações generalizadas e não fundamentadas, quando não são um problema mais grave, como uma depressão ou uma insatisfação crônica, costumam durar apenas um dia ou dois e são resultado de uma semana atribulada, de uma noite mal dormida, ou qualquer outro fator externo. E, nesses dias, tudo o que mais temos vontade de fazer é reclamar. Sim, reclamar desavergonhadamente, de boca cheia. Mas, geralmente, quando abrimos a boca para falar mal de alguma coisa, alguém rebate imediatamente, usando frases do tipo: “Você fala mal do seu emprego, mas pense pelo lado positivo, pelo menos você tem um emprego”, ou “Olha que dia bonito está fazendo lá fora! Vamos enxergar o que é belo na vida!”. Essas frases costumam, além de me entediar pela obviedade, me revoltar profundamente, afinal eu já estou terrivelmente insatisfeito e irritado, mesmo que por motivos fúteis, e ainda sou privado de fazer a única coisa que me faz bem naquele momento. Se você também se revolta com essa situação, caro leitor, me permita te dar um conselho, sem a menor pretensão de parecer sábio ou um Ser evoluído: quando alguém tentar te privar de reclamar, apenas diga: “Tire o seu positivismo do caminho que hoje eu acordei negativo!”.

“Tire o seu positivismo do caminho que hoje eu acordei negativo!”.

2- Pode ser que a sua vida esteja realmente ruim

Acredite, pode ser que o seu emprego, o seu relacionamento e o seu novo corte de cabelo estejam realmente ruins. Você não está ficando louco ou reclamando simplesmente por reclamar. Saber identificar quando algo não está funcionando como deveria é fundamental para que você dê um primeiro passo no sentido de fazer as coisas diferentes a partir dali. Você pode se movimentar e distribuir currículos, dispensar sua companheira ou companheiro e procurar alguém que te faça realmente feliz, ou simplesmente ser feliz sozinho; e pode voltar ao salão de cabeleireiro para fazer um corte de cabelo novo, ou até mesmo comprar um boné ou um chapéu. Mas se você ficar preso nessa premissa de que temos que sempre olhar o lado positivo das coisas, é bem possível que você fique estagnado nesse lugar de insatisfações.

Saber identificar quando algo não está funcionando como deveria é fundamental para que você dê um primeiro passo no sentido de fazer as coisas diferentes a partir dali.

3- É melhor ter razão ou ser feliz? Ter razão, claro!

Me perdoe a franqueza, mas sou do tipo de pessoa que não deixa passar as oportunidades. Se estou em casa discutindo com alguém e, em determinado momento, encerro a discussão e saio de casa, mas, no caminho para o trabalho, penso em todo um repertório de coisas que poderia ter dito, eu simplesmente volto para casa com a desculpa de que esqueci alguma coisa e retomo a discussão. Porque nada me corrói mais do que encerrar uma discussão sem ter dito tudo o que eu queria dizer. Se eu fosse uma pessoa positiva, esperaria os ânimos se acalmarem e tentaria uma conversa civilizada, expondo argumentos e ouvindo o outro como se deve. Mas que graça teria?!

4- Pessoas excessivamente otimistas podem ser irritantes e estão mais sujeitas a tomarem uma rasteira da vida.

Se você também carrega um guarda-chuva na mochila ou na bolsa, mesmo que a previsão do tempo indique um dia de sol sem possibilidades de chuva, sinta-se incluído. Eu, por hábito ou necessidade, penso em todos os cenários possíveis para uma mesma situação, inclusive, e às vezes principalmente, os piores. Porque já dizia minha avó, é melhor prevenir do que remediar. Se acaso tudo der certo, ótimo! Se tudo der errado, já tenho meu plano de ação. Mas pode ficar à vontade com o seu otimismo. Só não me impeça de ser pessimista.

Se tudo der errado, já tenho meu plano de ação.

5- Desejar o mal de alguém que te fez mal não faz mal. (Perdoe a retórica!)

Se todas as vezes que alguém desejasse o mal de outro alguém, esse mal se concretizasse, mais da metade das pessoas já teria sido banida da face da Terra. Desejar secretamente que o seu colega de trabalho maledicente morda a língua e morra engasgado no próprio veneno, ou que o seu chefe torça o pé e passe uns dias em casa não te faz uma pessoa horrível. Apenas te faz uma pessoa. Vale uma ressalva, fique apenas no campo das ideias, não caia na besteira de realizar seus desejos mais vis, caso contrário, não terei como te defender.

Esta foi uma defesa bem-humorada de comportamentos moralmente não aceitos em nossa sociedade, mas que são comuns a todos nós. Se não te servir como reflexão, que pelo menos te renda um sorriso. Porque rir de si mesmo pode ser uma terapia das mais positivas (rs).

Imagem de capa: Cara-Foto/shutterstock

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.

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